De Roma com alegria

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Cheguei há poucos dias de Roma e trago comigo boas notícias. De um feliz regresso a uma cidade que visitei pela primeira vez há cerca de vinte anos darei conta em próximos posts. Mas agora importa falar de um extra que levei na bagagem – a notícia recebida em véspera de partida de que o blogue está nomeado em três categorias num concurso lançado e organizado pela Momondo.

[Vista desde o cimo da Trinità dei Monti.]

A Momondo quer levar pessoas a viajar, a descobrir, a deixarem-se encantar pela diversidade do mundo, pelas pessoas que o habitam, pelos costumes e tradições dos lugares que fazem este planeta. Para isso, quer dar maior visibilidade e destaque a todos aqueles que escrevem, fotografam, pensam e sentem o mundo. A ideia é meritória de aplausos e os blogues a concurso merecem visitas demoradas. Há palavras e imagens que dão conta de formas muito pessoais e interessantes de olhar o mundo.

Foi por isso com muito entusiasmo e alegria que recebi a notícia de que fazia parte da lista. E em três categorias: Open World, Blog e Fotografia. Com esta alegria na minha bagagem emocional percorri as ruas de Roma, ainda com mais vontade de sobre elas escrever aqui. Cada disparo na máquina revestiu-se de maior motivação. Cada experiência foi marcada ainda com mais atenção aos detalhes e anotações rápidas no meu bloco de notas que sempre me acompanha. Com o tempo, vou dar conta dos meus dias romanos, esperando que da minha partilha resulte um desejo irreprimível de partir à descoberta da cidade.

[Fori Imperiali.]

O concurso está numa fase de seleção de finalistas e estes serão apurados de acordo com a  votação do público. A votação decorre até ao dia 30 de abril. Eu gostava muito de passar à fase seguinte. Por isso conto com o vosso voto, pode ser? É fácil e rápido, é só aceder aos links que aqui deixo e votar. Se acharem que sim, podem fazê-lo todos os dias nas 3 categorias. Cliquem aqui para votar:

Open world
Fotografia
Blog

[Vista que se tem da cidade desde a Passeggiata del Pincio.]

Agradeço já, muito muito. Um obrigada gigante.

E deixo aqui imagens de Roma. Com a sua luz e com as suas árvores. E eu, que gosto tanto de árvores, deliciei-me com os pinheiros, mais altos que as torres altas, com os ciprestes. Em próximos posts deixarei mais imagens. Das suas praças, ruas,mercados,  jardins, fontes, fachadas imponentes, gente, sabores e aromas…Sem esquecer os seus cenários de filme(s).

[Lungotevere.]

ASM

6 anos aqui

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Há seis anos que também estou aqui. Foi no terceiro dia do mês de abril de 2011 que decidi criar este espaço para partilha. E já lá vão mais de 100 posts, não sei quantas fotografias, outros tantos comentários… A somar a isto, cada vez mais leitores e seguidores, quer do blogue, quer da página de Facebook ou da minha conta no Instagram, entretanto criadas.

Muito obrigada! Por me lerem, por comentarem, por partilharem e por me fazerem acreditar que vale a pena continuar a ser aqui.

[Quase parece que estou presa em Veneza…Não, eu e ela estamos refletidas numa janela da ilha de San Giorgio Maggiore…]

Dizem as estatísticas do blogue que o texto mais lido e apreciado é este. Logo seguido de um outro, com muitos lugares dentro – Veneza, Constância, Trieste, Israel, Porto, Alentejo, Guimarães. E sons e aromas da Primavera.

[À saída de uma exposição na Biennale de Veneza, 2015. Gostei do tema da mostra – “We must risk delight”.]

Tenho vindo a assinalar o aniversário deste espaço e este ano não é exceção. Tudo o que nos faz feliz deve ser celebrado e este blogue é disso exemplo – sou feliz aqui.

[Uma rua na Zambujeira do Mar.]

Este é o post do primeiro aniversário. Os 5 anos foram assinalados assim. Sou feliz a viajar, a planear as viagens, a falar e a escrever sobre os sítios, as pessoas e as experiências que tenho tido a sorte de conhecer. Sou feliz também quando leio sobre outros lugares ou sobre aqueles por onde passsei, mas que não são os mesmos, porque vistos por outros olhos. Cada sítio é caleidoscópico, assume sempre outras formas. Ou porque são destinos repetidos (e como eu gosto de repetir…) e nunca a primeira vez é igual às outras ou porque outra pessoa vive esse mesmo lugar doutra maneira e escreve sobre essa sua experiência do seu “aqui”. Por isso este blogue tem tantas visitas a livros, autores, textos e frases. Daí que nos roteiros que aqui deixo tantas vezes se encontram livrarias, ruas com nomes de escritores, curiosidades de vidas escritas e inscritas nos lugares.

Para assinalar o sexto aniversário decidi escolher alguns momentos de leituras prévias ou posteriores às viagens. Leituras que funcionaram como lugares, já que gosto de voltar a elas várias vezes, como acontece com os regressos que faço aos sítios da minha preferência. Também as escolhi porque explicam muitas das viagens e leituras que faço. Palavras de escritores que alternam com fotografias do meu mapa.

Que cada passagem seja lida como uma forma de agradecimento por estarem desse lado, enquanto eu vou estando aqui.

[Foto tirado a bordo de um vaporetto em Veneza. No vidro, o reflexo do rosto de uma passageira. O  blogue pode ser como este vaporetto, em que se dá a coincidência do eu que escreve com todos quantos leem. ]

«A saudade de casa é uma sensação que muitos conhecem e de que muitos sofrem; eu, por outro lado, sinto uma dor menos conhecida, e o seu nome é “saudade de estar fora”. Quando a neve derrete, quando chegam as cegonhas e partem os primeiros vapores, sinto a dolorosa agitação de viajar.»

Hans Christian Andersen, carta de 1856, citada em Jens Andersen, Hans Christian Andersen

[Encontrei estas asas numa parede do mosteiro da congregação mequitarista em Veneza – na ilha de San Lazzaro degli Armeni. Trouxe-as comigo e andam sempre dentro da minha cabeça…Uns dias mais abertas, outros recolhidas…]

 

«A viagem é um estado de espírito. Não tem nada a ver com a existência nem com o exótico. É quase inteiramente uma experiência íntima.»

Paul Theroux, Fresh Air Friend

 

[Em Ortigia, Siracusa, Sicília. Apanhada a fotografar o mar.]

«Quando observamos um planisfério, a princípio temos alguma dificuldade em avaliar as distâncias. Só os acrobatas em aritmética ou os sobredotados em cálculo entendem clara e distintamente o significado de uma escala. (…) Como dizer o mundo através de um mapa que se limita a representá-lo reduzindo-o a meras convenções?

Ficamos imediatamente presos a este estranho paradoxo: o planisfério parece pequeno e o mundo vasto. Mas o inverso também é verdade: o planisfério é vasto e, contudo, o mundo pequeno porque, não obstante a sua natureza e a sua extensão, qualquer lugar está porém ao nosso alcance e, graças aos transportes modernos, cada vez mais rapidamente. (…) Todos os destinos se tornaram possíveis – é tudo uma questão de tempo. Neste campo dos possíveis, como eleger um local? Qual deles escolher? Ao qual renunciar? E por que motivos? Entre todas as combinações imagináveis, por qual nos devemos decidir, e porquê?(…)

Não escolhemos os lugares predilectos, somos solicitados por eles.(…) Cada corpo aspira  descobrir o elemento no qual se sente melhor e que outrora, nas horas placentárias ou primordiais, fecundou sensações e prazeres confusos, mas memoráveis. Há sempre uma geografia que corresponde a um temperamento. Resta encontrá-la.

Uma palavra, um nome, um lugar, um sítio legível no mapa chama então a nossa atenção. O nome de um país, de um curso de água, de uma montanha, de um vulcão, de um continente, de uma ilha ou de uma cidade. O indistinto, o visceral reencontram-se numa emoção desencadeada subitamente por um nome fixado na memória: ir ao Tibete, contemplar o rio Amour, subir ao monte Fuji, escalar o Etna, atravessar as montanhas Ngong, nadar no oceano Pacífico, atracar em Guernsey, visitar Adis Abeba, percorrer as ruas de Cirene, navegar na baía de Along – cada qual dispõe de uma mitologia antiga criada pelas leituras de infância, pelas recordações de família, pelos filmes, pelas fotografias, pelas imagens de um mapa-múndi de escola pendurado no fundo da sala de aula num dia melancólico. Depois, passamos à acção de forma a concretizar o nosso sonho antes de morrer(…)

[Escalei uma das crateras do Etna. No caminho para o topo, foi esta uma das imagens que retive.]

[Se fui ao Mont Saint-Michel foi porque entrei dentro do sonho do meu pai. Ele queria muito lá ir e sempre falou, a mim e aos meus irmãos, desde pequenos, deste sítio mágico.]

Sonhar com um destino é obedecer a um imperativo que, no nosso íntimo, fala uma língua estrangeira. (…)

A viagem começa numa biblioteca. Ou numa livraria. Misteriosamente, ali prossegue, na claridade de razões antes recalcadas no corpo. (…) A riqueza de uma viagem necessita, antes de mais, da densidade de uma preparação – da mesma forma que nos expomos a experiências espirituais convidando a alma à abertura, ao acolhimento de uma verdade submersa. A leitura age como rito iniciático, revela uma mística pagã. O aumento do desejo culmina num prazer requintado, elegante e singular.(…)

Daí os livros e, em primeiro lugar, o atlas(…). Com um mapa, iniciamos a nossa primeira viagem, seguramente a mais mágica, de certeza a mais misteriosa. Porque evoluímos numa poética de nomes, de traçados, de volumes desenhados, de cores.(…)

O atlas revela, sem dúvida, o essencial, mas não tudo. Falta à sua opção conceptual uma polpa adicionada pela literatura e pela poesia. Porque, mais do que ninguém, o poeta coloca o seu corpo subjectivo no centro do lugar assombrado pela sua consciência e sensibilidade. Todas as suas emoções, sensações, percepções, todas as suas histórias singulares amadurecem na sua alma fantasiosa e traduzem-se um dia num pequeno texto que oferece a quinta-essência de sinestesias fantasiosas: sentir cores, saborear perfumes, tocars sons, escutar temperaturas, vislumbrar ruídos. (…)»

Michel Onfray, Teoria da Viagem

«Um lugar nunca é apenas “aquele” lugar: aquele lugar somos um pouco também de nós. Seja como for, sem o sabermos, trazíamo-lo dentro de nós e um dia, por acaso, chegamos lá. Chegamos no dia certo ou no dia errado, conforme, mas isso não é reponsabilidade do lugar, depende de nós. Depende de como lemos esse lugar, da nossa disponibilidade para o acolhermos dentro dos nossos olhos e dentro da nossa alma, de estarmos alegres ou melancólicos, eufóricos ou disfóricos, de sermos jovens ou velhos, de nos sentirmos bem ou de nos doer a barriga. Depende de quem somos no momento em que chegamos a esse lugar. Estas coisas aprendem-se com o tempo e, sobretudo, viajando. (…)»

Antonio Tabucchi, Viagens e outras viagens

 

[Um lugar onde já estive várias vezes e onde quero sempre voltar, porque fui lá sempre em momentos certos – Veneza. Aqui estou dentro do Caffè Florian. Um café que existe desde 1720. Esta sala “vestiu-se” por dentro de roupagens mais modernas, pois tratava-se de uma instalação artística para a bienal de arte.]

Boas viagens e boas leituras!

 

ASM

Para celebrar este dia da Poesia: uma cidade, um poeta e um hotel.

Porto, Portugal

A cidade do outro lado do reflexo.

Comecei o ano de 2017 numa cidade que me é muito. Foi a primeira grande cidade que conheci, que muitas vezes visitava em criança com os meus pais e irmãos e onde vivi 5 dos mais importantes anos da minha vida. Muito do que sou e sei devo a esta cidade. Muito do que define as minhas ideossincrasias, muito do que amei e amo encontrei aqui: livros, filmes, jardins, os seus palácios, os seus museus, os cafés, as livrarias, as praças.

E, claro, o rio escuro atravessado por pontes altas de ferro e barcos que vinham do interior do país com os frutos da terra transformados no vinho que tem o nome da própria – Porto. Algumas das pessoas que fazem parte da minha biografia mais solar encontrei-as aqui.

O “Porto” no interior da Livraria Lello & Irmão.

É natural do Porto um dos meus poetas preferidos – Almeida Garrett. Nasceu em 1799 na cidade, numa casa que ainda está de pé.

Para o seu tempo, era um moderno: na visão do mundo, do seu país e do que queria para este. Um romântico que renovou a forma de dizer o amor e o turbilhão de emoções e contradições que este sentimento instala no ser humano. Comecei logo por gostar muito dos seus poemas reunidos em duas antologias – “Flores sem fruto” (1845) e “Folhas Caídas”(1853). Li depois o livro “Viagens na minha terra”(1846). Quando li esta obra pela primeira vez era demasiado jovem para a apreciar devidamente e para reconhecer nela a modernidade que encerra – nos temas, na linguagem, no discurso que deambula pelas paisagens, pelas ideias, pelas personagens e pelas reflexões de uma profundidade poética e à qual o leitor adere naturalmente. Começa assim:

«Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes, de Inverno, em Turim, que é quase tão frio como Sampetersburgo — entende-se. Mas com este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse, ao menos ia até o quintal.

Eu muitas vezes, nestas sufocadas noites de Estio, viajo até à minha janela para ver uma nesguita de Tejo que está no fim da rua, e me enganar com uns verdes de árvores que ali vegetam sua laboriosa infância nos entulhos do Cais do Sodré. E nunca escrevi estas minhas viagens nem as suas impressões: pois tinham muito que ver! Foi sempre ambiciosa a minha pena: pobre e soberba, quer assunto mais largo. Pois hei-de dar-lho. Vou nada menos que a Santarém; e protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se há-de fazer crónica.

Era uma ideia vaga, mais desejo que tenção, que eu tinha há muito de ir conhecer as ricas várzeas desse Ribatejo, e saudar em seu alto cume a mais histórica e monumental das nossas vilas. Abalam-me as instâncias de um amigo, decidem-me as tonterias de um jornal, que por mexeriquice quis encabeçar em desígnio político determinado a minha visita .

Pois por isso mesmo, vou: — pronunciei-me.

São 17 deste mês de Julho, ano de graça de 1843, uma segunda- feira, dia sem nota e de boa estreia. Seis horas da manhã a dar em S. Paulo, e eu a caminhar para o Terreiro do Paço. Chego muito a horas, envergonhei os mais madrugadores dos meus companheiros de viagem, que todos se prezam de mais matutinos homens que eu. Já vou quase no fim da praça, quando oiço o rodar grave mas pressuroso de uma carroça d’ancien régime: é o nosso chefe e comandante, o capitão da empresa, o Sr. C. da T. que chega em estado.

Também são chegados os outros companheiros. O sino dá o último rebate. Partimos.(…)»

Almeida Garrett, Viagens na minha terra, Editora Livraria Sá da Costa, Lisboa.

Já a reli várias vezes e de cada vez que o faço fico a gostar ainda mais deste discurso que é colado a uma viagem e cujo narrador parece que está sentado ao nosso lado, a apreciar e a focar ao mesmo tempo a paisagem física do Vale de Santarém, mas também a difícil e complexa paisagem política, económica e moral que caracterizava o Portugal da época. E que tão bem soube Garrett retratar.

Mas Garrett inovou também no teatro, protagonizando uma renovação nesta arte cuja herança se nota ainda hoje: fundou o Conservatório Nacional, a ideia da criação de um teatro nacional foi sua e surgiu o Teatro Nacional D.Maria II e escreveu ele também um novo reportório para os palcos portugueses. Muito a pensar no público que queria que enchesse as salas, que admirasse o trabalho dos atores, que se reconciliasse com esta arte. Tudo isto em novos moldes, que ele bebera nos países do norte da Europa, quando se viu obrigado a abandonar o seu país, pois o Garrett liberal era mal visto pelos não liberais.

A sua obra teatral serviu de inspiração ao arquiteto que redesenhou um espaço no Porto – o Hotel Teatro. Foi aqui que fiquei alojada nos primeiros dias do ano. O hotel foi reconstruído precisamente no espaço de um antigo teatro – o Teatro Baquet. Numa rua centralíssima, a dois passos da estação de São Bento e perto de muitos locais de visita obrigatória para quem visita o Porto pela primeira vez. Não era o meu caso, mas soube-me bem revisitar áreas emblemáticas como a Ribeira, a renovada Rua das Flores, o café Majestic, os Clérigos, a Avenida dos Aliados, a Praça dos Leões, o Jardim da Cordoaria. Atravessar a ponte de ferro e apreciar a cidade do outro lado do rio. Ainda ter tempo para observar, sob os primeiros raios de sol do ano, as esplanadas e as gaivotas na zona ribeirinha.

A cidade lá fora oferece inúmeros pontos de interesse, contudo o espaço do próprio hotel é muito apetecível. Para além da porta da entrada, sugestivamente transformada em poema, as únicas de que me lembro são as dos quartos. Cortinas, a lembrar muito as do teatro, separam outras divisões e espaços. O restaurante tem o nome “Palco” e o bar chama-se “Plateia”.

Toda a decoração do Hotel nos transporta para a arte do palco, com recriação dos camarins; há roupa espalhada pelos corredores de acesso aos vários espaços; no bar olha-se para cima e parece que estamos a ver a teia por cima de nós; a iluminação é escassa e há projetores a irradiar a luz focada. Os corredores de acesso aos quartos sugerem os bastidores do palco. Há fotografias num tamanho que preenche as paredes.

No bar do hotel, onde se podia ouvir naqueles dias excelente música brasileira (aqui na foto vê-se Caetano Veloso), fixei duas imagens.

Esta já não sei o que retrata. Foi uma foto aleatória, com uma imagem de luzes que me agrada, por isso aqui a deixo.

Esta sim, sei bem o que fixa: uma foto com uma citação, numa revista que era um catálogo dos hotéis que se destacam pelo design. O hotel portuense constava dessa lista. Merecidamente, quanto a mim, que percebo pouco da matéria. Gostei também de rever o Canal Grande de Veneza – esta cidade alberga vários hotéis que constam do catálogo.

A porta do hotel é esta e é um poema – “Seus olhos”.

Abre-se a porta e o espetáculo da cidade está ao nosso alcance.

O café Majestic.

Bem junto à Torre dos Clérigos.

A livraria Lello a homenagear um poeta.

Antes de terminar este post, deixo um outro poema de Almeida Garrett.

Os cinco sentidos

São belas – bem o sei, essas estrelas,
Mil cores – divinais têm essas flores;
Mas eu não tenho, amor, olhos para elas:
Em toda a natureza
Não vejo outra beleza
Senão a ti – a ti!

Divina – ai! sim, será a voz que afina
Saudosa – na ramagem densa, umbrosa.
Será; mas eu do rouxinol que trina
Não oiço a melodia,
Nem sinto outra harmonia
Senão a ti – a ti!

Respira – n’aura que entre as flores gira,
Celeste – incenso de perfume agreste,
Sei… não sinto: minha alma não aspira,
Não percebe, não toma
Senão o doce aroma
Que vem de ti – de ti!

Formosos – são os pomos saborosos,
É um mimo – de néctar o racimo:
E eu tenho fome e sede… sequiosos,
Famintos meus desejos
Estão… mas é de beijos,
É só de ti – de ti!

Macia – deve a relva luzidia
Do leito – ser por certo em que me deito.
Mas quem, ao pé de ti, quem poderia
Sentir outras carícias,
Tocar noutras delícias
Senão em ti! – em ti!

A ti! ai, a ti só os meus sentidos
Todos num confundidos,
Sentem, ouvem, respiram;
Em ti, por ti deliram.
Em ti a minha sorte,
A minha vida em ti;
E quando venha a morte,
Será morrer por ti.

 

Dia Mundial da Poesia, 2017

ASM

 

 

O lugar das mesas

Milão, Itália

O lugar desta mesa é muitas vezes a minha porta de entrada em Itália. Aterro aqui e sigo para qualquer outro ponto da península. Sempre que acontece estar só de passagem, procuro guardar uns dias para desfrutar da cidade frenética que é Milão. E tantas vezes isso já aconteceu que me lembrei que já era hora de escrever sobre esta cidade. Escrever o tempo de uma breve passagem, em pleno inverno, quando os dias milaneses se mostraram cinzentos, muito frios. Com uma luz que eu nunca tinha visto, porque antes desta vez, só conhecia a cidade vestida de verão.

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Os ingredientes deste prato apontam para uma ilha, a Sicília, bem a sul desta mesa. Este  prato em cerâmica siciliana que eu vi transformada em muitas outras coisas em Caltagirone–jarras, canecas, travessas, azulejos que adornam cúpulas de igrejas, muros da pequena cidade, canteiros de jardins, degraus de escadas que não acabam, fachadas de casas… – devolveu-me o aroma do pistácio de Bronte, famoso pelo seu sabor e textura. E eu, que não aprecio este fruto seco, aqui como na Sicília reconciliei-me com o seu sabor forte nas massas, gelados, biscoitos, saladas.

Pedi este prato de massa com molho de pistácio num restaurante de cozinha siciliana. Tipicamente siciliano na decoração e na ementa. Nas paredes fotos dos mares da Sicília, dos peixes e dos pescadores daquela ilha. Também palavras em dialeto. Alguns empregados alternavam o italiano com expressões dialetais dando uma melodia meridional àquela sala.

Este restaurante fica numa zona algo distante do centro que é o cartão postal de Milão: com a sua icónica catedral, praça e galeria. Longe das salas de acesso exclusivo para os seguidores de tendências na moda. Deixei estes pontos para o fim.

Procurei nestes dias o que há muito queria conhecer. Para além da zona residencial de Brera, a  Pinacoteca com o mesmo nome.

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O pátio da entrada da Pinacoteca. Numa manhã gelada e chuvosa.

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Uma manhã inteira entre as suas portas. Fora, a chuva e o frio. Dentro, a beleza espalhada por várias salas.  Raffaello, Mantegna, Carpaccio, os “vedutistas” venezianos Francesco Guardi e Canaletto e os mais contemporâneos Giorgio Morandi e Giorgio De Chirico têm aqui lugares de destaque.

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Giorgio Morandi, «Natura Morta», 1918.

Tinha em mente procurar algumas obras de nomes que muito admiro e deixar-me ficar a admirá-las. Como estas…

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Francesco Bissolo, «Santo Stefano tra i Santi Agostino e Nicola da Tolentino», 1510.

Tenho particular predileção por este tom de verde…

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Andrea Mantegna, «Madonna con il Bambino e un coro di cherubini (Madonna dei Cherubini)», 1485-1490.

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Giuseppe Pellizza da Volpedo, «Fiumana», 1895-1896.

Este quadro antecede um outro, «O quarto estado», fazendo parte de uma série de três. Queria muito ver este, depois de ter visto e escrito sobre o último da série.

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Raffaello Sanzio, «Sposalizio della Vergine», 1504.

Rafael. Este quadro que é toda uma síntese do equilíbrio das proporções, que joga com a perspetiva. Há muito que queria ver com os meus olhos esta obra, sem filtros. Ele ali estava.

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Gentile Bellini e Giovanni Bellini, «Predica di San Marco in una piazza di Alessandria d`Egitto», 1504-1507.

Deste nada sabia e foi uma grande, enorme surpresa. Veio da Escola de San Marco, em Veneza. Notam-se bem as linhas arquitetónicas da cidade que se misturam com outras, oriundas de cidades mais a oriente. Uma obra que exige tempo e a calma do olhar, para não se perder nenhum pormenor. Teria estado mais tempo a observá-lo, não fosse estar com o meu tempo limitado a uma manhã…

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Uma aproximação ao mesmo quadro. O canto inferior esquerdo da praça que é uma súmula do encontro entre ocidente e oriente.

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Carlo Crivelli, «Madonna della candeletta», 1488-1490.

Outro quadro que mereceu o meu registo. Neste tríptico, fixei-me na parte inferior do retrato da Madonna, devido ao realismo e às cores luminosas da pedra, dos tecidos, das flores…

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Já quase no fim da visita, deparei-me com uma vendedora de fruta. E dela registei este detalhe. Muito por causa dos traços pormenorizados dos diferentes frutos, das suas cores e de serem tão apetecíveis ao olhar.

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Vincenzo Campi, «Fruttivendola», 1578-1581.

Milão rima ainda com moda, design, tendências, estilo e avenidas repletas de gente a entrar e a sair de lojas cujas montras se antecipam a todas em todos os lugares, porque nesta cidade muita coisa é pensada, criada e dada a conhecer ao mundo antes da hora. É a cidade do minuto zero para muitas criações.

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Via della Spiga.

A via della Spiga é um dos palcos dessas antestreias exclusivas. Abrem-se as cortinas, isto é,  atravessam-se as portas (por si só merecedoras de um olhar atento) e imerge-se num universo criado por um nome que tem ecos de fazedor de mundos de maravilhas. Foi naqueles dias de frio invernoso que me cruzei com as criações para o verão quente que estava para vir.

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Uma loja de roupa para crianças. E na porta, uma história para crianças. Para ler antes de entrar.

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Criações de uma dupla (D&G) que nesta coleção recria a identidade de um país.

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Estas montras não deixavam ninguém indiferente…

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Esta porta dava para um prédio residencial, um pequeno refúgio de silêncio no meio da agitação das ruas e praças ali próximas.

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Nesta estadia em Milão houve ainda tempo não para um gelado, como acontece sempre que chego aqui no verão, mas para um cappuccino bem quente, num dos pontos nevrálgicos da cidade – a galeria Vittorio Emanuele II.

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Galeria Vittorio Emanuele II.

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Sentada a esta mesa, a observar o lá fora. Em movimento constante, porque naquele palco das galerias as vidas passam, em trânsito, sob as  belíssimas cúpulas. Corpos de passagem, refletidos nos vidros que são como espelhos de uma cidade que se mostra elegante e cosmopolita, sedenta de futuro e novidade.

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Para os italianos, os gelados não obedecem a calendários. Estão sempre presentes…

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O interior da catedral de Milão.

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ASM

O primeiro. O dobro. A metade.

Eslovénia

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F1- Ilha e lago de Bled.

Há poucos dias estive a rever os meus arquivos fotográficos e a atualizar a página do blogue com o índice dos destinos. Assaltou-me uma nostalgia imensa e dei-me conta de que podia estar parada, quieta, sossegada, sem sair para lado nenhum durante bastante tempo e teria ainda muitos lugares para escrever sobre.

Não consigo estar parada. Não o desejo também. E prometi a mim mesma que recuperaria desse arquivo algumas imagens.  Lembrei-me depois daquela frase que diz que “Uma imagem vale mais que mil palavras”. Muitas vezes não acontece. Ou são precisas mais imagens ou então mais palavras. O melhor é não medir com régua e esquadro nem apurar números tão definitivos. Por isso, resolvi definir outras medidas para dizer estes lugares perdidos nos álbuns fotográficos: duas imagens e o limite máximo de metade do valor indicado na frase tão citada. Sei que ainda assim são redutores, mas serão para mim como que um desafio de síntese.

Este é o primeiro texto neste novo espaço aqui no blogue – 2 fotos para 500 palavras (no máximo).

A primeira escolha recai sobre um lago, que tem no meio uma ilha, num país encaixado entre a Itália, Áustria, Hungria e Croácia. Uma nação recente com este nome e estas fronteiras: a Eslovénia. Visitei-a em 2010 e, juntamente com a Croácia e depois de um saltinho dado ao Montenegro, fiquei com uma pequena noção do que teria sido o país que na minha infância se chamava Jugoslávia.

Gostei muito da capital deste pequeno e sereno país, sobre a qual já escrevi (o segundo texto do blogue). Este recanto do território pareceu a meus olhos um quadro pintado a aguarelas fortes, onde tudo parecia estar no lugar certo: as águas verdes, a vegetação densa em torno do lago e a ilha de Bled com o campanário da igreja ( lugar de peregrinação, esta igreja – a da Assunção de Maria).

Chega-se até à ilha e sobe-se a escadaria que dá acesso à igreja ( e que bem merece uma visita demorada) depois de uma curta viagem em barcos de madeira movidos a remos por remadores que os conduzem de pé, num exercício admirável de equilibrío entre força e habilidade. Os barcos são encantadores e parecem saídos de um dos nossos melhores desenhos.

Nas margens do lago descobrem-se, no meio da vegetação, casas que mais parecem pequenos palácios e no topo de uma das montanhas vislumbra-se o castelo de Bled. Subi até ao topo do castelo e foi de lá que registei esta imagem, a segunda do texto.

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F2 – Ilha e lago de Bled desde o castelo.

Foi durante esta viagem que comecei a desenvolver em mim o meu gosto pela fotografia. No ano anterior tinha ido à Noruega, que me fez recordar o quanto gosto de fotografar. Comprei logo a seguir a máquina fotográfica que ainda hoje tenho. Estreei-a na Croácia e na Eslovénia.

 

ASM