Duas cidades para um aniversário

Porto e Veneza, Portugal e Itália

Neste dia 6 de novembro, quero muito celebrar aqui no blogue uma das minhas autoras favoritas: trata-se de Sophia de Mello Breyner AndresenA propósito da data do aniversário do seu nascimento.

[Busto de Sophia no Jardim Botânico do Porto. No passado, o jardim da casa de família. Rua do Campo Alegre.]

Já transcrevi algumas das suas palavras noutros artigos, de tão inspiradas e inspiradoras que são. Desta vez o espaço vai todo para elas. Como forma de celebração da sua poesia, da sua prosa, do seu teatro, das suas traduções, enfim, de toda a sua obra. Mas também para assinalar o nascimento de uma mulher ímpar, que não esqueceu, também durante os seus atos quotidianos, a dimensão social da sua obra e da sua conduta enquanto cidadã de um país como Portugal.

[Lago no Jardim Botânico do Porto. Rua do Campo Alegre.]

Nasceu no Porto em 1919, aqui cresceu e também na praia e nas areias da Granja. Viveu em Lisboa, conheceu países como o Brasil, Grécia, Espanha e Itália. Amava o Algarve, especialmente Lagos, em cujo mar nadava. No mercado da cidade fazia as suas compras, do terraço da sua casa observava o céu, o mar e a areia.

Os lugares por onde passou serviram de mote a muitos textos seus. A escolha para aqui foi difícil…Todas as escolhas têm o seu quê de redutor perante algo que é sempre maior.Que esta breve seleção sirva de convite a que conheçam mais textos de Sophia ou que a eles regressem, com muitas saudades desde a última vez.

[Este ano, na Feira do Livro do Porto, foi batizada uma tília com o nome de Sophia.]

Para começar, um poema sobre o seu mês de nascimento.

Novembro

A respiração de Novembro verde e fria

Incha os cedros azuis e as trepadeiras

E o vento inquieta com longínquos desastres

A folhagem cerrada das roseiras

Retirado de Geografia. Sophia de Mello Breyner Andresen.

Agora palavras que nos levam ao Porto, como se fosse uma primeira vez, como aquela em que Hans, o adolescente dinamarquês protagonista do conto “Saga”, entra pela barra do rio a bordo do navio que escolheu para uma fuga às raízes que o agarravam a um futuro indesejado, quando os seus sonhos tinham como cenários mares, oceanos, terras meridionais sem fim.

«(…)Contornaram a terra, navegaram para o Sul e, ao cair de uma tarde, penetraram sob o arco das gaivotas, na barra estreita de um rio esverdeado e turvo, flutuante de margens entre as margens cavadas. À esquerda, subindo a vertente, erguia-se o casario branco, amarelo e vermelho, misturado com os escuros granitos.

Na luz vermelha do poente a cidade parecia carregada de memórias, insondavelmente antiga, feérica e magnetizada, com todos os vidros das suas janelas cintilando. Animava-a uma veemência indistinta que aqui e além aflorava em ecos, rumores, perpassar de vultos, gritos longínquos e perdidos, reflexo de luzes sobre o rio.

Hans amou desde o primeiro momento a respiração rouca da cidade, o colorido intenso e sombrio, o arvoredo murmurante e espesso, o verde espelhado do rio. Na estrada que corria junto às margens viam-se bois enfeitados e vermelhos, puxando carros de madeira que chiavam sob o peso de pipas, pedra e areias.(…)

Mas nessa madrugada, em segredo, Hans abandonou o navio. Caminhou ao acaso na cidade desconhecida, perdido no som das palavras estrangeiras, perdido na diferença dos sons, da luz, dos rostos e dos cheiros, carregando o seu pequeno saco, procurando nas ruas o lado da sombra. Através de grades de ferro pintadas de verde, espreitou o interior sussurrante de insondáveis jardins onde sob enormes arvoredos se abriam trémulos junquilhos. Parou em frente dos ourives para olhar as montras, à porta das adegas respirou a frescura sombria e o cheiro do vinho entornado. Caminhou ao longo do rio, na margem onde as mulheres, descalças, carregavam cestos de areia enquanto outras discutiam, aos magotes, cortando com grandes brados e largos gestos o ar liso da manhã. Penetrou nas igrejas de azulejo e talha que não eram claras e frias como as igrejas do seu país, mas doiradas e sombrias, numa penumbra trémula de velas onde negrumes e brilhos, animavam o rosto das imagens que num incerto sorriso pareciam reconhecê-lo. Dormiu nos degraus de uma escada, sob os arcos da praça, nos bancos do jardim público e as noites pareceram-lhe mornas e transparentes.

Assim, diz-se, terá vagueado quatro dias, tonto de descobrimento, de espanto e de solidão. Mas ao quinto dia o seu ânimo quebrou-se. A língua estrangeira fechava em sua roda um círculo. De repente, reconheceu o seu exílio, a sua fraqueza. Foi então que um inglês chamado Hoyle que morava para o lado do rio o encontrou, a chorar, encostado ao muro da sua quinta e lhe bateu com a mão no ombro e o levou consigo e o recolheu.(…)»

Excertos do belíssimo conto “Saga”, que faz parte da antologia Histórias da Terra e do Mar. Sophia de Mello Breyner Andresen.

Para terminar, o início de uma história de amor ambientada em Veneza. Começa com poesia, para logo passar para um registo para teatro, onde a cidade lagunar vai ser o cenário perfeito para esta história.

 

«Veneziano:

Esta História aconteceu

Num país chamado Itália

Na cidade de Veneza

Que é sobre água construída

E noite e dia se mira

Sobre a água reflectida.

[Ilha e igreja de San Giorgio Maggiore desde o Palazzo Ducale.]

Suas ruas são canais

Onde sempre gondoleiros

Vão guiando suas barcas negras

Em Veneza tudo é belo

Tudo rebrilha e cintila

[Uma gôndola antiga no Museu Ca` d`Oro.]

Há quatro cavalos gregos

Sobre o frontão de S.Marcos

E a ponte da Giudeca

Desenha aéreo o seu arco

Em Veneza tudo existe

Pois é senhora do mar

 

Dos quatro cantos do mundo

Os navios carregados

Desembarcam no seu cais

Sedas tapetes brocados

Pérolas rubis corais

Colares anéis e pulseiras

Perfumes orientais

Cidade é de mercadores

E também de apaixonados

Sempre perdidos de amores

E cada dia ali chegam

Persas judeus e romanos

Franceses e florentinos

Artistas e bailarinos

E ladrões e cavaleiros

 

Aqui só há uma senhora

As prisões da Signoria

E os esbirros do doge

Que espiam a noite e o dia

De resto em Veneza há só

Dança canções e fantasia

[Piazza San Marco.]

Cada ano aqui se tecem

Histórias tão variadas

Que às vezes até parecem

Aventuras inventadas

 

Por isso aqui sempre digo

Que Veneza é como aquela

Cidade de Alexandria

Onde há sol à meia-noite

E há lua ao meio-dia.(…)»

 

Excerto do texto dramático O Colar. Sophia de Mello Breyner Andresen.

ASM

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Uma Veneza improvável

Giudecca, Veneza, Itália

Das últimas vezes que estive em Veneza, escolhi sempre a ilha da Giudecca para ficar. E cheguei sempre à cidade de comboio. Depois das portas da estação de Santa Lucia, apanhei o vaporetto rumo à ilha, percorrendo o Canal Grande, passando ao lado dos enormes barcos de cruzeiro que ficam à entrada da cidade, sobre as águas, que na presença deles se revolvem e agitam, embora à primeira vista não pareça. O vaporetto continua a sua marcha pelo canal da Giudecca e a primeira paragem é precisamente Sacca Fisola. Seguem-se Palanca, Redentore e a última tem também o nome de uma igreja – Zitelle.

Voltei à Giudecca no verão passado. Uma das vantagens de repetir lugares é poder descobrir, sem pressa, novos sítios, os mais escondidos dos roteiros comuns, os mais improváveis, aqueles que se adivinham ao longe, quando por eles passamos a caminho de algum ponto no mapa. Sacca Fisola não fica a caminho de nada. Ou se escolhe ir  “a” Sacca Fisola ou então não se passa “por”. Isto porque Sacca Fisola constitui um dos extremos da ilha da Giudecca, a mais extensa ilha de Veneza, que mais não é que a união, através de pontes, de pequenas ilhas sobre a laguna. Numa das suas pontas, um lugar exclusivíssimo, há um chão apenas pisado pelos hóspedes e funcionários do famoso Belmond Hotel Cipriani e pelos elementos da Guardia di Finanza (corpo policial e militar), pois no extremo da ilha encontram-se o jardim do hotel e as instalações destas forças de segurança. Do outro lado da água, a ilha de San Giorgio Maggiore.

[Veneza desenhada. Mapas, muitos, na livraria Acqua Alta. A Giudecca é esta ilha longa que se vê na parte inferior do mapa. Sacca Fisola é a parte mais a oeste.]

Mas voltemos à outra ponta, mais a oeste da Giudecca. Sacca Fisola é uma área residencial. Ligada a outras zonas por pontes e a Veneza pelo vaporetto, que atravessa o Canal da Giudecca ininterruptamente. A importância deste transporte lagunar é bem visível no nome que dá a uma rua. Acredito que os habitantes de Sacca Fisola saibam de cor os horários, os números, os nomes dos condutores e dos funcionários destes barcos. São eles que reduzem o isolamento das casas neste lado da ilha. As casas, de um dos lados, têm vista para o porto de Veneza, onde atracam embarcações bem maiores que os habituais vaporetti, e para algumas oficinas de reparação de barcos. As casas da outra margem da ilhota despertam todos os dias viradas para a laguna, onde o horizonte parece longe dos pináculos, das torres, dos campanários e das cúpulas venezianas.

[A rua com o nome de um barco.]

[A paragem do vaporetto. No horizonte, as torres e as cúpulas de Veneza.]

Desta vez, decidi dedicar toda uma manhã a Sacca Fisola. Os outros dois terços da ilha (se a dividir em três partes, sendo o Redentore a minha referência e o terço central…) já eu conhecia bem. Quem vem de este, em direção a Sacca Fisola, tem de passar primeiro por duas imponentes construções que marcam a história de Veneza – a sede da fábrica  Fortuny e o Molino Stucky, respetivamente uma ainda fábrica de tecidos(fundada em 1919)  e uma outrora fábrica de farinha (hoje o hotel Hilton Molino Stucky).

[Vista da ponte dei Lavranieri, entrada em Sacca Fisola. À direita, em tijolo, o edifício do Molino Stucky, cuja fachada dá para o canal da Giudecca.]

[O que se vê do outro lado da ponte: as casas de Sacca Fisola.]

Foi uma manhã diferente de todas as outras que passei em Veneza. Não encontrei fachadas de perder o fôlego de tão belas que são, não vi torres com sinos pesados que desequilibram a estrutura assente em estacas, não encontrei mares de gente a olhar através de lentes de máquinas fotográficas,de telemóveis, de câmaras de vídeo. As pessoas com as quais me cruzei eram venezianos que ali vivem todo o ano, que ali trabalham. À hora do almoço vi trabalhadores a regressarem a suas casas para uma refeição rápida antes do turno da tarde.

Circulei pelas ruas e pelas praças de Sacca Fisola e estive atenta ao que dizem as paredes: as palavras indicam o essencial às gentes do lugar – onde ficam a farmácia e a polícia, por exemplo, o caminho para a escola das crianças pequenas, o vaporetto, esse imprescindível aliado dos venezianos.

No outro centro, o da Veneza dos postais, os caminhos lembram recorrentemente quem passa (porque se está sempre em trânsito para alguma igreja, palácio, museu, restaurante recomendadíssimo…) onde ficam : a ponte de Rialto, a Ferrovia, San Marco. Os três eixos fundamentais de orientação. Todos os raciocínios, todas as construções e mapas mentais se fazem  a partir deles.

Nas casas habitam várias famílias, em andares distintos em prédios com entradas ladeadas de árvores, com jardinzinhos à volta nos andares térreos. Nas praças passeiam os cães pelas mãos dos donos, passam mulheres com as compras do dia e que se transportam sobre rodas, quem sabe se vindas do outro lado das águas do canal. Os carrinhos das compras são os únicos transportes sobre rodas que se veem por quase toda a cidade, a somar aos da recolha do lixo. E o caminho para casa, depois das compras, é sempre longo e pesado. O vaporetto dá uma ajuda preciosa, na verdade. Mas nada de ruídos nem de velocidades de automóveis, motas, autocarros. São os sons da água que são interiorizados, porque correspondem à chegada ou partida dos barcos. E isso é importante saber. Nos intervalos, o silêncio e o rumor do vento nas árvores frondosas. Passei por um campo de futebol para equipas juvenis e por um recreio de uma escola para crianças. Vazios ambos, pois o período era de férias e a manhã ainda estava no seu início…

[O campo de futebol.]

Para lá de Sacca Fisola, a Giudecca ainda tem uma ilhota, San Biagio,  à qual se liga por uma ponte . Pareceu-me que aqui ninguém mora, mas nas suas margens vivem os barcos daqueles que deles precisam para circular ou trabalhar.

[Barcos atracados em San Biagio.]

[Os barcos dos moradores daquelas casas, estacionados à porta.]

[Casas habitadas, varandas que revelam as rotinas quotidianas.]

[Personagens de um jardim particular.]

[A caminho do vaporetto.]

[Enquanto o barco não chega, há tempo para ler as manchetes dos jornais do dia…]

[Nas praças verdes e silenciosas.]

[De regresso a casa.]

[A bandeira da República da Sereníssima com o seu leão alado numa varanda. Muitas vezes é sinónimo de um desejo antigo de mais autonomia para o território, um sinal de inconformismo e de anseio por mais liberdade. ]

As fotos que aqui deixo são o resultado dessa manhã. Sejam bem-vindos a Sacca Fisola!

ASM

 

 

 

Leitura a dois tempos

Por outras palavras

Portugal, Itália

Muitas razões me levam a querer deixar aqui algumas passagens de um dos livros que li durante este verão. A primeira tem a ver com o facto de os textos do autor há muito me inspirarem e me levarem a querer ir aos sítios que tão bem descreve. Prova disso também foi a ideia de criar este blogue, cujo texto de apresentação evoca estas palavras deste livro.

Há depois a razão mais imediata – a capa, cujas coordenadas imediatamente reconheci: as torres de San Gimignano, na Toscana, que conheci em 2012, durante uma estadia em Florença. Mais entusiasmada fiquei quando percebi, folheando o livro na livraria, que muitas das fotografias que aparecem no interior são do próprio autor. Olhar que se mostra duplamente, portanto: através das palavras e dos fragmentos da realidade que se fixam na lente. E eu também gosto muito desta sua forma de olhar os sítios.

Um outro motivo: o que o índice deixa adivinhar – um roteiro que começa pelas cidades do Adriático , Trieste e Veneza; continua pela Emília Romagna, com passagem por Bolonha, Ferrara e Ravenna; segue para a Toscana, levando o leitor para San Gimignano, Siena e Florença, para acabar em Roma e em Pompeia. A sequência apresentada é todo um mapa muito pessoal que se vai construindo e completando depois com a leitura. Mas naquele primeiro contacto, foi para mim um convite irresistível a um regresso a lugares familiares e que tão caros me são. Falar ou escrever sobre eles aqui no blogue é desfiar anos e experiências sempre muito felizes de viagens a esse país imenso que é Itália. O índice prometia esse regresso e as páginas seguintes em nenhum momento desiludiram.

O leitor pode encontrar nelas o que de mais fascinante tem Itália e que fez de António Mega Ferreira um apaixonado por este país. O autor revela ser um profundo conhecedor da história, da arte, da literatura, do cinema, da música, da sociedade italianas. A Itália prometeu regressar todos os anos, pelo menos uma vez (aqui nesta entrevista). Promessa feita a si mesmo em determinada altura da sua vida de viajante. Também eu a fiz a mim própria, quando celebrei o meu 40.º aniversário, precisamente com um regresso a Florença. Tenho cumprido a promessa desde aí.

Levei o livro comigo para ler durante as férias: no avião, na praia, no comboio (entre Milão e Turim, entre Turim e Veneza), nas pausas que aconteceream sob o sol da Ligúria. O início da leitura tinha começado antes da partida, mas o seu termo coincidiu com o fim da viagem. No tempo que aquela durou, aconteceu-me uma viagem dupla – a que fazia de carro e comboio pelas regiões do Veneto, Piemonte e Ligúria e a outra,  a partir do livro, que foi seguindo não propriamente a sequência dos capítulos, antes do meu desejo de “reler” outros lugares de Itália.

[Praia de Finale Ligure, Riviera Lígure. Agosto 2017.]

Nessa leitura estive acompanhada de pintores, escritores, músicos, arquitetos, reis, imperadores, fidalgos, viajantes, entre outras personalidades naturais daquele território ou que por ele passaram. Todos são convocados para este retrato tão pessoal do país.

É assim que o autor o apresenta:

«O livro que o leitor tem em mãos é de natureza e génese diferente. Representa a súmula de muitas viagens a Itália, ao longo de quatro décadas de apaixonada convivência com os lugares e as gentes, mas, sobretudo, com a cultura italiana, à qual não se pode deixar de reconhecer um papel determinante na construção de uma identidade europeia, essencialmente centrada na luminosidade expansiva e sensual do sul, em alternativa à sombria meditação de indução luterana do norte da Europa. É viagem intelectual e afetiva, acima de tudo, embora não dispense a observação presencial de lugares e hábitos, que fazem parte da nossa experiência de um país tanto como os testemunhos visíveis da inscrição na História. E, neste último caso, cobre um arco temporal de quase quarenta anos, durante o qual as condições de viagem e visita aos lugares se alterou dramaticamente, com a generalização do turismo low-cost e a “tematização” de alguns lugares históricos ao gosto do turista ávido de imagens rápidas e fugidias: a Itália transformou-se num gigantesco parque temático cultural, a cuja lógica apenas escapam alguns lugares mais ou menos secretos, muitos deles defendidos apenas pela localização remota ou à margem dos itinerários propostos pelos operadores turísticos.(…)

O livro, esse, segue, no método , e talvez porque o método é resultante de uma sensibilidade, o meu livro Roma, Exercícios de reconhecimento, publicado pela primeira vez há quase duas décadas e sucessivamente atualizado e reimprimido. Tal como esse, também este não é um guia nem um roteiro turístico-cultural: limita-se a abordar temas da paisagem histórica, artística e humana da Itália, ao sabor das minhas inclinações e gostos, tal como resultaram das minhas práticas de viagem.(…) E preferi não me aventurar muito para sul da capital, sobretudo porque não tenho com Nápoles relação frequente (mas visitei por diversas vezes a costa amalfitana) e apenas em uma ocasião estive na Sicília. Ressalvo, isso sim, Pompeia, assombração e (por isso) mito cultural da nossa civilização, visitada por duas vezes em períodos muito diferentes. (…)» (p.11-13)

Este é o texto que abre este livro singular, um não guia de viagem, antes uma forma  de viajar por uma geografia saborosamente repetida, aprofundada, desvendada ao sabor de uma sensibilidade muito particular, de amizades e de acasos e que se traduz em palavras e imagens. Geografia essa aqui organizada em quatro grandes partes, dedicadas a diferentes regiões: “Nas margens do Adriático” , “Triângulo Emiliano”, “Flores da Toscana” e “Roma Eterna”.

Assim começa o elogio de Itália – em Friuli-Venezia-Giulia, na cidade de Trieste:

[Trieste, agosto de 2014.]

« Por um momento, na fria limpidez da tarde, o panorama assemelha-se a um cenário de teatro. Visto da praça, o mar parece suspenso acima do nosso olhar. É de um verde-esmeralda, batido pelo vento do Adriático, e agita-se em movimentos regulares, quase mecânicos, pontilhado de cristas brancas de espuma. Mais longe, o azul afunda-se em profundezas de cobalto. É uma massa compacta, de fotográfica nitidez. Lembra um daqueles cenários do final do século XIX, movido por engenhosas máquinas de cena. Aqui, é o mar a fingir que é mar. Por cima de nós, a tonalidade uniforme do céu recobre a cena de uma cúpula de azzurro, a recordar-nos que estamos nos confins do Mediterrâneo.

[Trieste, agosto 2014.]

Brevemente, Trieste aparece-nos no esplendor da sua aura mítica, capital de dois mundos, porta austro-húngara para o ar que conduz a todos os mares, lugar de encontro, recontros e tédios criativos. Deve ter sido este azul que Rilke amou, entre os ciprestes que envolvem o castelo de Duíno, debruçado sobre o deslumbrante golfo de Trieste; o mesmo que inspirou a Maximiliano de Áustria o delírio que deu a fatídica aventura mexicana o mesmo ainda que reteve Joyce nestas paragens durante muitos anos, no auge do prestígio novecentista da cidade. (…)» p.17-18

[Trieste, agosto 2014. O golfo e o Mole Audace.]

O leitor segue depois para Veneza, na companhia de Carpaccio, Tintoretto, Casanova, ao som da música de Vivaldi, Monteverdi, Albinoni, Gabrielli, Galuppi…

Num capítulo a que deu o nome de “Bizâncio em Itália” vi-me outra vez em Ravenna, uma cidade nas costas do Adriático, que me encantou quando visitei o país pela primeira vez. O título não podia ser mais sugestivo, já que em Ravenna o esplendor e a luz dos mosaicos constituem um tesouro bem guardado nas igrejas, batistérios e mausoléus (o de Galla Placidia é belíssimo…).

Entre as grandes partes que constituem o livro, dedicadas a diferentes regiões italianas, lembrou-se o autor de fazer breves pausas, com aquilo a que chamou intermezzo e então o leitor conhece a história por trás de um nome ligado à música, à literatura, à pintura e ao cinema italianos…Destaco um deles: é sobre um músico, uma voz, um repertório.

A minha vontade é transcrever todo o intermezzo dedicado a Paolo Conte, um músico italiano natural de Asti, na região do Piemonte, cuja voz me encanta desde há muito…E António Mega Ferreira escolhe as palavras certas para descrever a música deste artista tão eclético. Por isso, leiam-se as palavras ao som de um dos seus temas ( a escolha foi difícil e ingrata, tantos os temas que podiam constar aqui…).

[Gosto muito deste tema e deste vídeo. Refletem bem o gosto do músico por cinema e pelos primeiros anos do século XX, que tanto o inspiram. Acho também que ilustram as palavras de António Mega Ferreira.]

Segundo António Mega Ferreira, as suas músicas «São micro-narrativas feitas de rumores e enigmas, de sonhos e quimeras, de amores desfeitos e de jardins suspensos que não voltaremos a ver, de tudo o que nunca chegámos a ver. Este canzionere absolutamente singular alimenta-se de coisas soltas, pequenas ideias musicais e grandes ideias poéticas, para se construir, dispersamente, vagamente, num lugar único, inominável, ao qual apenas chegamos através da voz do seu autor. Palavras, sussurros, interjeições, silêncios. Jazz? Blues? Samba? Tango? Farrapos disso, e de boleros, mambos, chansons – mas outra coisa ainda.(…)»

Sobre a voz – «Porque elas, as canções, são indissociáveis da sua voz, rouca, usada, quebrada, uma voz distante mas íntima, porque ressoa dentro de nós com a força de uma evocação que nos remete para qualquer coisa de perdido, qualquer coisa de alheio, que, por um momento (o momento da canção) , temos a ilusão de podermos voltar a fazer nosso.(…)» p. 225-226

O livro termina com uma incursão pela capital do país – “Roma eterna”. Com um regresso a Pompeia e um desvendar de recantos insuspeitados de Roma, alguns deles na companhia de um português, cuja estadia naquela cidade está envolta em muitos intervalos de não conhecimento – ficamos a conhecer o que se sabe de um fidalgo de Chaves. O esplendor de Roma deve muito a um nome, Gian Lorenzo Bernini (1598-1680), que merece todo um capítulo e a transcrição de palavras de um outro autor, de tanta luz que dão para a compreensão de toda a beleza criada pelas mãos de Bernini: «Trata-se de pintar com a escultura, de arquitetar a pintura, de pintar e modelar os elementos arquitetónicos.», Franco Borsi p.262

Este post acaba com duas fotos com a luz de Bernini, captadas na minha última vez em Roma. Estava nos meus planos ir à Villa Borghese, onde estão muitas das obras deste artista. Guardei um dia para essa visita.

[Gian Lorenzo Bernini, Rapto de Prosérpina, 1621-22.]

ASM

História da capa (3)

Itália

De regresso a casa e também aqui depois de mais uma viagem. E comigo trouxe memórias de experiências novas em sítios de sempre: Turim e Veneza. Como absoluta novidade, lugares intermédios na cronologia da viagem, que no mapa coincidem com o Piemonte e a Ligúria: Rivoli, Giaveno, Avigliana e Finale Ligure, Finalborgo, Noli. E há também a viagem de carro desde Turim até Finale Ligure,na direção norte-sul, interior-litoral, passando pela planície padana e pelos Alpes Marítimos.

A precedente imagem da capa retratava um verão nas montanhas, ao contrário das ondas. Não foi o caso deste ano. Procurei-as e encontrei tudo o que elas trazem consigo: sol, banhos em águas quentes, refeições leves, fins de tarde em frente ao mar, horas perdidas nas páginas de livros e um tempo muito distante do relógio tirânico. A acrescentar a isto, o prazer e a felicidade única da descoberta: de lugares novos, de sabores diferentes, de pessoas que fazem da geografia humana um lugar que vale muito a pena, apesar de às vezes pensarmos que não.

Tratarei de dar conta dessas memórias nos próximos posts. E ainda de outras mais antigas, já que o regresso a lugares como Turim e Veneza me lembraram que ainda não escrevi tudo o que quero sobre o que já vivi em ambas as cidades.

Se Turim abriu e fechou  roteiro deste verão, Veneza antecedeu a praia. E sobre a escolha da ilha da Giudecca como o meu lugar ali já escrevi aqui. É nesta ilha que caminho na foto da capa, no segundo dia de estadia. No primeiro, o final de tarde trouxe consigo vento, chuva, raios e trovões, que provocaram na laguna uma agitação que eu reconheci de outros momentos já lá vividos. Mais fotos da Giudecca vão surgir ao longo deste post.

[As nuvens a anunciarem o mau tempo da noite.]

No entanto, os dias a seguir foram de um calor inusitado. Nunca eu tinha estado na cidade com tanta sede. Nem com tanta gente a circular pelos pontos mais procurados. Não é o caso da Giudecca e, por isso, ao fim do dia tinha a certeza de que iria regressar ao sossego e ao silêncio que esta ilha reserva só para si. Mas tem outros fatores de interesse que eu aproveitei para conhecer. Dediquei uma manhã a explorar a zona residencial de Sacca Fisola, numa das pontas da ilha.

Este ano a Giudecca albergou a representação portuguesa na Biennale de Arte, com as esculturas de José Pedro Croft, na belíssima Villa Hériot e eu guardei as últimas horas em Veneza para a visitar. A exposição internacional de arte (este ano com o nome “Viva Arte Viva”) foi um dos motivos para querer voltar ao palco dos artistas que é a cidade. Para além dos dois espaços que concentram o maior número de artistas e/ou países representados, o Arsenale e os Giardini, há uma série de  “eventi collaterali”, ou seja, exposições espalhadas por vários pontos de Veneza e das suas inúmeras ilhas. Nas minhas deambulações por calli, fondamente e pontes, aconteceu entrar em alguns desses espaços e ser surpreendida. Por exemplo, na igreja de San Giorgio Maggiore que acolheu, mais uma vez, um artista. Desta vez italiano – Michelangelo Pistoletto, com a exposição “One and one makes three”.

Já tinha visto parte da sua obra em Rivoli (fica a cerca de 15km de Turim), no Museu de Arte Contemporânea (um castelo transformado em museu). Foi mais uma razão para querer muito ir à igreja de San Giorgio Maggiore, povoada pela sensibilidade deste artista.

O caminho a seguir a Veneza levou-me até à praia. Que fica depois de uma cadeia de montanhas – os Alpes Marítimos. Lindos de atravessar de carro. Por curvas e contracurvas no meio de uma floresta densa de um verde húmido. E que são o sonho de quem gosta muito de conduzir ou de pedalar. Há roteiros específicos para os amantes da bicicleta e há muitos por esta zona. Cruzei-me com eles e admirei a sua persistência, força e equilíbrio.

[A vegetação naquelas terras altas. Colle del Melogno: 1.028 m de altitude.]

[A seguir a esta espécie de fortaleza, o caminho começa a descer. Colle del Melogno.]

A seguir às montanhas, este mar. De um azul translúcido. De um quente apetecível a todas as horas. Cenário para dias distendidos, lentos.

Com sabores de verão.

A fechar, o regresso a Turim. Uma cidade de permanente descoberta, tão densa que é de história, onde o antigo se funde e se renova com o novo. É, a muitos títulos, uma cidade que se destaca pela sua modernidade ao longo dos tempos – a RAI nasceu aqui, os primeiros estúdios de cinema em italiano foi aqui que surgiram, a FIAT tem a sua sede primeira nesta cidade. E a lista podia continuar. Foi a primeira capital do reino de Itália. À sua volta, na maravilhosa planície entre os Alpes, espalham-se palácios e castelos mandados construir pelos Saboia. A história desta família reinante confunde-se com a  história da cidade.

[Esta foi a última foto que tirei em Turim. Antes de iniciar a viagem de regresso.]

[Reggia di Venaria: uma das magníficas residências dos Saboia. É agora um museu que conta a história desta família e a da cidade de Turim.]

Repeti lugares (cafés, livrarias, praças, parques), segui o exemplo de muitos turinenses e peguei na bicicleta. Com ela olhei a cidade de outra forma e regressei a uma sensação infantil de largar os pedais nas descidas, de sentir nas mãos a velocidade em crescendo. Turim é bastante plana e de fácil circulação em bicicleta, sobretudo numa das margens do rio Pó. E naqueles últimos dias de agosto a cidade estava muito despida de habitantes, que se encontravam nas praias, nos lagos ou noutros locais em férias. Circulavam pelas ruas aqueles que se encontravam a trabalhar e os turistas. E mesmo estes, em muito menor número do que aqueles que na mesma altura estariam noutras cidades italianas mais a sul.

Turim – uma cidade que merece, sem dúvida, palavras mais demoradas.

[A ciclovia que segue o rio Pó. Parque Valentino.]

ASM

 

 

7 partes de mim

+ do que 1

 No passado mês fui surpreendida com uma mensagem da Catarina Leonardo (autora do blogue Viajar pela História). Essa mensagem tinha lá dentro uma distinção que muito me honrou – trata-se de um reconhecimento, o “Versatile blogger award”, que visa destacar um blogue particularmente inspirador  através das suas palavras e/ou fotografias. Não podia ter ficado mais contente. Sigo o trabalho da Catarina (que muito admiro ou não fosse eu uma amante da História) e sem dúvida que também contribui para que o meu quotidiano de todos os dias seja mais rico e interessante.

Muito obrigada, Catarina, por este prémio! Uma motivação extra para continuar a viajar e a achar que vale a pena continuar aqui!

[Painel de azulejos nos jardins do Palácio Marquês de Fronteira.Lisboa.]

É suposto um vencedor do “Versatile blogger award” dar-se a conhecer em 7 factos, em 7 pinceladas, para dar uma ideia aos leitores de quem está por trás do blogue. É o que vou tentar fazer a seguir…

1. Adoro poesia

É raro o dia em que não leia poesia: um poema, um verso ou então algo relacionado com um poeta – podem ser notas biográficas, notícias sobre novos livros ou edições, recensões, outros textos que não poemas escritos pelos poetas.

[Livraria Sovilla, Cortina d`Ampezzo, agosto 2016.]

O  poema mais antigo na minha memória é da autoria de José Gomes Ferreira. Era ainda criança e peguei num livro de poemas – Poeta Militante. Os meus pais tinham vários títulos  obra toda do autor, que engloba crónicas, contos, diário e esse romance extraordinário que é Aventuras de João sem medo, que eu li muito mais tarde.

O poema é este e recordo-me ainda hoje do impacto que teve em mim e como o escrevi em inúmeros cadernos que mais tarde tive. Era sempre este o texto que eu queria para a primeira página.

 

Comício

 

Vivam, apenas.

 

Sejam bons como o sol.

Livres como o vento.

Naturais como as fontes.

 

Imitem as árvores dos caminhos

que dão flores e frutos

sem complicações.

 

Mas não queiram convencer os cardos

a transformar os espinhos

em rosas e canções.

 

E principalmente não pensem na Morte.

Não sofram por causa dos cadáveres

que só são belos

quando se desenham na terra em flores.

 

Vivam, apenas.

A Morte é para os mortos!

 

José Gomes Ferreira

2. Cinema

[Palavras de Manoel de Oliveira. Cinemateca, Lisboa.]

Sou apaixonada pela sétima arte. Gosto de ir ao cinema, de ler e de escrever sobre cinema.E não é de agora…

Em arrumações recentes, reencontrei-me com os diários da minha adolescência onde a partir de certa altura comecei a registar as minhas idas ao cinema, num tempo em que só se viam filmes no CINEMA. Em mais lugar nenhum. E ir era um acontecimento, um motivo de alegrias. Nesses diários, guardava os bilhetes e no verso de cada um deles registava o nome do filme e do realizador. Alguns mereciam uma “crítica” e a atribuição de estrelas de acordo coma minha apreciação. Tinha eu 15 anos  e ainda me faltavam muitos filmes.

Lembro-me bem do primeiro filme visto numa sala de  cinema: foi “Mary Poppins”, com Julie Andrews, eu ainda nem sabia ler. Mais tarde aprendi o nome dos atores, revi o filme e quis ver mais.

Em abril, em Roma, tive pena de não ter tido oportunidade de visitar a Cinecittà. Está nos meus planos. Em 2014 pude assistir a uma sessão no festival de Cinema de Veneza e foi com grande emoção que visitei o Museu do Cinema em Turim (agosto de 2015).

[Sala Darsena. O filme era “Senza nessuna pietà”. Estreia com a presença dos atores  Pierfrancesco Favino e Adriano Giannini . Lido, Veneza.]

[A caminho do Museu do Cinema. Turim.]

[Museu do Cinema. Turim. Aprender: como surgiu o cinema, como se faz cinema, quem contribui para a obra final que é um filme. Pistas para lermos uma obra cinematográfica – tudo ali.]

[Museu do Cinema. Turim.]

Da adolescente que fui, guardo o hábito de guardar os bilhetes de cinema, de teatro, das entradas em museus, dos comboios, dos aviões e não só…

3. Café e livros

O café é uma das minhas bebidas favoritas. Também gosto na sua versão gelada, granita, caramelos, cappuccino, ou mesmo bola de gelado. Gosto muito de livros. E quando se misturam estes dois prazeres no mesmo espaço, então esse lugar é onde eu quero ir.

[Livraria Acqua Alta, em Veneza. Talvez a mais extraordinária de todas as livrarias onde já estive até agora. Há prateleiras, mas sobretudo barcas e uma gôndola. Espalhados e empilhados, os livros.]

[Café San Marco, em Trieste. É também uma livraria e uma galeria. Existe desde 1914. Belíssimo!]

Se pudesse, diria a Jorge Carrión que escreveu o livro que eu sempre quis ler – Livrarias, uma espécie de guia de uma viagem pelas livrarias do mundo, pelas biografias dos seus livreiros, pelas histórias vividas ali, naqueles espaços.  Um livro sobre o amor aos livros. Na capa da edição portuguesa, uma foto da Shakespeare & Company. No interior, imagens e palavras sobre tantas outras. Numas já entrei, outras estão nos meus roteiros de sonho.

4. Itália

[Pavilhão de Itália na Bienal de Veneza. Agosto 2015.]

É este o país, a seguir a Portugal, onde sou mais feliz. É este o país que conheço melhor depois do meu. É a Itália que quero sempre regressar.

[Pavilhão de Itália na Bienal de Veneza. Agosto 2015.]

5. Asas

[Detalhe de asas. Igreja de Santa Maria del Popolo. Roma. Abril 2017.]

Coleciono asas. Tenho várias no meu arquivo fotográfico e sem pensar muito no porquê  fui registando. Sempre gostei da palavra “alado”, que me faz lembrar Pégaso e Mercúrio (este último também o deus protetor dos viajantes). Há as dos anjos e as dos pássaros. As dos aviões. As dos leões e dos cavalos alados…

Deixo aqui algumas asas da minha coleção.

[O leão alado, símbolo de Veneza. Agosto 2015.]

[Basílica do Sacré Coeur. Paris. Abril 2016.]

[Faro della Vittoria. Trieste, agosto 2014.]

[Esculturas na Piazza Statuto, Turim. Agosto 2016.]

[Asas no Palazzo Grimani. Veneza. Agosto 2015.]

[Um restaurante que é um museu, uma oficina, uma galeria. Aqui neste espaço fabricam-se asas…Fica em Roma, na via del Babuino – Museo Atelier Canova Tadolini. Abril 2017.]

6. Alfabetos e caligrafias

 Gosto muito da parte física das línguas, daquilo que nelas é mais imediato para os sentidos. Falo dos alfabetos, pelos quais tenho a maior das curiosidades. Admiro as diferentes caligrafias quando a língua passa a ser escrita e cada falante a toma para si nas mãos, que a desenham…

[Aeroporto de Telavive. Agosto 2015.]

Gosto muito de aprender línguas, de as ouvir nas ruas, nos mercados, nos cafés. Ou então, num registo musical.

Há línguas particularmente doces de ouvir e de pronunciar – nenhuma, a meu ver, bate o Francês. A mais violenta das afirmações pronunciada neste idioma é suavizada pela doçura fonética das suas consoantes, vogais, acentos e combinações… Aos meus ouvidos, não existe a rudeza no Francês. A mais musical, das que eu conheço, é a língua italiana.

[Numa Pizzaria em Pisa, 2016.]

Quando estive em Israel, agradou-me a novidade melódica do Hebraico e deliciei-me com o alfabeto. A este, veio juntar-se o Árabe escrito. A estas duas juntava-se o Inglês e assim tinha sempre 3 línguas para ver/ler em silêncio dentro de mim.

[Jerusalém. Agosto 2015.]

Em Marrocos, um berbere teve a paciência de me ensinar algumas palavras em Árabe e em Berbere.

O Japonês, que não conheço, é lindo de ver escrito na sua sintaxe vertical. Aprender Mandarim, com os seus tons variáveis que condicionam a semântica de um mesmo vocábulo, parece-me um desafio fascinante. O Grego soa-me muitas vezes a uma língua familiar, ou não tivesse a minha língua mãe um léxico tão recheado de vocábulos oriundos da  Grécia.

Aos alfabetos e à  caligrafia posso juntar o meu interesse pela etimologia: as origens e a memória inscritas nas palavras.

[Efeito de sombra e de luz solar numa fachada de um edifício próximo do B&B onde fiquei em Turim. Agosto 2015.]

[Inscrições em Latim na Ponte Romana de Trajano. Chaves.]

Sobre esta minha “parte” já escrevi aqui

8. Ler a História

Interessa-me muito o passado. Ajuda muito a compreender o presente. É fundamental para pensar um futuro melhor. Seja em termos individuais, seja em termos coletivos.

Gosto de ler livros de História e tenho um fascínio muito particular pela Idade Média.

No entanto, se pudesse concretizar um sonho que tenho desde sempre – viajar no tempo – gostava de ir até à época do Renascimento e vivê-la  exatamente no lugar onde surgiram os primeiros sinais desta verdadeira revolução cultural : Florença.

[Florença vista desde os jardins do Palazzo Pitti. Julho 2012.]

 

[Casa museu de Dante. Florença, 2012.]

Com o prémio “Versatile blogger award”, quero distinguir um outro blogue que sigo – Documentar o Mundo, da Eva Marcela.  Através das suas histórias, sabores e viagens, a Eva leva o leitor por esse mundo fora e dá-nos a conhecer pessoas, tradições, histórias de vida que se cruzam com a História. Visitem-no e viajem com ela!

Parabéns, Eva! Votos de boas viagens, porque delas resultam textos muito inspiradores!

 

ASM