Para celebrar este dia da Poesia: uma cidade, um poeta e um hotel.

Porto, Portugal

A cidade do outro lado do reflexo.

Comecei o ano de 2017 numa cidade que me é muito. Foi a primeira grande cidade que conheci, que muitas vezes visitava em criança com os meus pais e irmãos e onde vivi 5 dos mais importantes anos da minha vida. Muito do que sou e sei devo a esta cidade. Muito do que define as minhas ideossincrasias, muito do que amei e amo encontrei aqui: livros, filmes, jardins, os seus palácios, os seus museus, os cafés, as livrarias, as praças.

E, claro, o rio escuro atravessado por pontes altas de ferro e barcos que vinham do interior do país com os frutos da terra transformados no vinho que tem o nome da própria – Porto. Algumas das pessoas que fazem parte da minha biografia mais solar encontrei-as aqui.

O “Porto” no interior da Livraria Lello & Irmão.

É natural do Porto um dos meus poetas preferidos – Almeida Garrett. Nasceu em 1799 na cidade, numa casa que ainda está de pé.

Para o seu tempo, era um moderno: na visão do mundo, do seu país e do que queria para este. Um romântico que renovou a forma de dizer o amor e o turbilhão de emoções e contradições que este sentimento instala no ser humano. Comecei logo por gostar muito dos seus poemas reunidos em duas antologias – “Flores sem fruto” (1845) e “Folhas Caídas”(1853). Li depois o livro “Viagens na minha terra”(1846). Quando li esta obra pela primeira vez era demasiado jovem para a apreciar devidamente e para reconhecer nela a modernidade que encerra – nos temas, na linguagem, no discurso que deambula pelas paisagens, pelas ideias, pelas personagens e pelas reflexões de uma profundidade poética e à qual o leitor adere naturalmente. Começa assim:

«Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes, de Inverno, em Turim, que é quase tão frio como Sampetersburgo — entende-se. Mas com este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse, ao menos ia até o quintal.

Eu muitas vezes, nestas sufocadas noites de Estio, viajo até à minha janela para ver uma nesguita de Tejo que está no fim da rua, e me enganar com uns verdes de árvores que ali vegetam sua laboriosa infância nos entulhos do Cais do Sodré. E nunca escrevi estas minhas viagens nem as suas impressões: pois tinham muito que ver! Foi sempre ambiciosa a minha pena: pobre e soberba, quer assunto mais largo. Pois hei-de dar-lho. Vou nada menos que a Santarém; e protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se há-de fazer crónica.

Era uma ideia vaga, mais desejo que tenção, que eu tinha há muito de ir conhecer as ricas várzeas desse Ribatejo, e saudar em seu alto cume a mais histórica e monumental das nossas vilas. Abalam-me as instâncias de um amigo, decidem-me as tonterias de um jornal, que por mexeriquice quis encabeçar em desígnio político determinado a minha visita .

Pois por isso mesmo, vou: — pronunciei-me.

São 17 deste mês de Julho, ano de graça de 1843, uma segunda- feira, dia sem nota e de boa estreia. Seis horas da manhã a dar em S. Paulo, e eu a caminhar para o Terreiro do Paço. Chego muito a horas, envergonhei os mais madrugadores dos meus companheiros de viagem, que todos se prezam de mais matutinos homens que eu. Já vou quase no fim da praça, quando oiço o rodar grave mas pressuroso de uma carroça d’ancien régime: é o nosso chefe e comandante, o capitão da empresa, o Sr. C. da T. que chega em estado.

Também são chegados os outros companheiros. O sino dá o último rebate. Partimos.(…)»

Almeida Garrett, Viagens na minha terra, Editora Livraria Sá da Costa, Lisboa.

Já a reli várias vezes e de cada vez que o faço fico a gostar ainda mais deste discurso que é colado a uma viagem e cujo narrador parece que está sentado ao nosso lado, a apreciar e a focar ao mesmo tempo a paisagem física do Vale de Santarém, mas também a difícil e complexa paisagem política, económica e moral que caracterizava o Portugal da época. E que tão bem soube Garrett retratar.

Mas Garrett inovou também no teatro, protagonizando uma renovação nesta arte cuja herança se nota ainda hoje: fundou o Conservatório Nacional, a ideia da criação de um teatro nacional foi sua e surgiu o Teatro Nacional D.Maria II e escreveu ele também um novo reportório para os palcos portugueses. Muito a pensar no público que queria que enchesse as salas, que admirasse o trabalho dos atores, que se reconciliasse com esta arte. Tudo isto em novos moldes, que ele bebera nos países do norte da Europa, quando se viu obrigado a abandonar o seu país, pois o Garrett liberal era mal visto pelos não liberais.

A sua obra teatral serviu de inspiração ao arquiteto que redesenhou um espaço no Porto – o Hotel Teatro. Foi aqui que fiquei alojada nos primeiros dias do ano. O hotel foi reconstruído precisamente no espaço de um antigo teatro – o Teatro Baquet. Numa rua centralíssima, a dois passos da estação de São Bento e perto de muitos locais de visita obrigatória para quem visita o Porto pela primeira vez. Não era o meu caso, mas soube-me bem revisitar áreas emblemáticas como a Ribeira, a renovada Rua das Flores, o café Majestic, os Clérigos, a Avenida dos Aliados, a Praça dos Leões, o Jardim da Cordoaria. Atravessar a ponte de ferro e apreciar a cidade do outro lado do rio. Ainda ter tempo para observar, sob os primeiros raios de sol do ano, as esplanadas e as gaivotas na zona ribeirinha.

A cidade lá fora oferece inúmeros pontos de interesse, contudo o espaço do próprio hotel é muito apetecível. Para além da porta da entrada, sugestivamente transformada em poema, as únicas de que me lembro são as dos quartos. Cortinas, a lembrar muito as do teatro, separam outras divisões e espaços. O restaurante tem o nome “Palco” e o bar chama-se “Plateia”.

Toda a decoração do Hotel nos transporta para a arte do palco, com recriação dos camarins; há roupa espalhada pelos corredores de acesso aos vários espaços; no bar olha-se para cima e parece que estamos a ver a teia por cima de nós; a iluminação é escassa e há projetores a irradiar a luz focada. Os corredores de acesso aos quartos sugerem os bastidores do palco. Há fotografias num tamanho que preenche as paredes.

No bar do hotel, onde se podia ouvir naqueles dias excelente música brasileira (aqui na foto vê-se Caetano Veloso), fixei duas imagens.

Esta já não sei o que retrata. Foi uma foto aleatória, com uma imagem de luzes que me agrada, por isso aqui a deixo.

Esta sim, sei bem o que fixa: uma foto com uma citação, numa revista que era um catálogo dos hotéis que se destacam pelo design. O hotel portuense constava dessa lista. Merecidamente, quanto a mim, que percebo pouco da matéria. Gostei também de rever o Canal Grande de Veneza – esta cidade alberga vários hotéis que constam do catálogo.

A porta do hotel é esta e é um poema – “Seus olhos”.

Abre-se a porta e o espetáculo da cidade está ao nosso alcance.

O café Majestic.

Bem junto à Torre dos Clérigos.

A livraria Lello a homenagear um poeta.

Antes de terminar este post, deixo um outro poema de Almeida Garrett.

Os cinco sentidos

São belas – bem o sei, essas estrelas,
Mil cores – divinais têm essas flores;
Mas eu não tenho, amor, olhos para elas:
Em toda a natureza
Não vejo outra beleza
Senão a ti – a ti!

Divina – ai! sim, será a voz que afina
Saudosa – na ramagem densa, umbrosa.
Será; mas eu do rouxinol que trina
Não oiço a melodia,
Nem sinto outra harmonia
Senão a ti – a ti!

Respira – n’aura que entre as flores gira,
Celeste – incenso de perfume agreste,
Sei… não sinto: minha alma não aspira,
Não percebe, não toma
Senão o doce aroma
Que vem de ti – de ti!

Formosos – são os pomos saborosos,
É um mimo – de néctar o racimo:
E eu tenho fome e sede… sequiosos,
Famintos meus desejos
Estão… mas é de beijos,
É só de ti – de ti!

Macia – deve a relva luzidia
Do leito – ser por certo em que me deito.
Mas quem, ao pé de ti, quem poderia
Sentir outras carícias,
Tocar noutras delícias
Senão em ti! – em ti!

A ti! ai, a ti só os meus sentidos
Todos num confundidos,
Sentem, ouvem, respiram;
Em ti, por ti deliram.
Em ti a minha sorte,
A minha vida em ti;
E quando venha a morte,
Será morrer por ti.

 

Dia Mundial da Poesia, 2017

ASM

 

 

O lugar das mesas

Milão, Itália

O lugar desta mesa é muitas vezes a minha porta de entrada em Itália. Aterro aqui e sigo para qualquer outro ponto da península. Sempre que acontece estar só de passagem, procuro guardar uns dias para desfrutar da cidade frenética que é Milão. E tantas vezes isso já aconteceu que me lembrei que já era hora de escrever sobre esta cidade. Escrever o tempo de uma breve passagem, em pleno inverno, quando os dias milaneses se mostraram cinzentos, muito frios. Com uma luz que eu nunca tinha visto, porque antes desta vez, só conhecia a cidade vestida de verão.

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Os ingredientes deste prato apontam para uma ilha, a Sicília, bem a sul desta mesa. Este  prato em cerâmica siciliana que eu vi transformada em muitas outras coisas em Caltagirone–jarras, canecas, travessas, azulejos que adornam cúpulas de igrejas, muros da pequena cidade, canteiros de jardins, degraus de escadas que não acabam, fachadas de casas… – devolveu-me o aroma do pistácio de Bronte, famoso pelo seu sabor e textura. E eu, que não aprecio este fruto seco, aqui como na Sicília reconciliei-me com o seu sabor forte nas massas, gelados, biscoitos, saladas.

Pedi este prato de massa com molho de pistácio num restaurante de cozinha siciliana. Tipicamente siciliano na decoração e na ementa. Nas paredes fotos dos mares da Sicília, dos peixes e dos pescadores daquela ilha. Também palavras em dialeto. Alguns empregados alternavam o italiano com expressões dialetais dando uma melodia meridional àquela sala.

Este restaurante fica numa zona algo distante do centro que é o cartão postal de Milão: com a sua icónica catedral, praça e galeria. Longe das salas de acesso exclusivo para os seguidores de tendências na moda. Deixei estes pontos para o fim.

Procurei nestes dias o que há muito queria conhecer. Para além da zona residencial de Brera, a  Pinacoteca com o mesmo nome.

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O pátio da entrada da Pinacoteca. Numa manhã gelada e chuvosa.

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Uma manhã inteira entre as suas portas. Fora, a chuva e o frio. Dentro, a beleza espalhada por várias salas.  Raffaello, Mantegna, Carpaccio, os “vedutistas” venezianos Francesco Guardi e Canaletto e os mais contemporâneos Giorgio Morandi e Giorgio De Chirico têm aqui lugares de destaque.

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Giorgio Morandi, «Natura Morta», 1918.

Tinha em mente procurar algumas obras de nomes que muito admiro e deixar-me ficar a admirá-las. Como estas…

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Francesco Bissolo, «Santo Stefano tra i Santi Agostino e Nicola da Tolentino», 1510.

Tenho particular predileção por este tom de verde…

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Andrea Mantegna, «Madonna con il Bambino e un coro di cherubini (Madonna dei Cherubini)», 1485-1490.

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Giuseppe Pellizza da Volpedo, «Fiumana», 1895-1896.

Este quadro antecede um outro, «O quarto estado», fazendo parte de uma série de três. Queria muito ver este, depois de ter visto e escrito sobre o último da série.

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Raffaello Sanzio, «Sposalizio della Vergine», 1504.

Rafael. Este quadro que é toda uma síntese do equilíbrio das proporções, que joga com a perspetiva. Há muito que queria ver com os meus olhos esta obra, sem filtros. Ele ali estava.

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Gentile Bellini e Giovanni Bellini, «Predica di San Marco in una piazza di Alessandria d`Egitto», 1504-1507.

Deste nada sabia e foi uma grande, enorme surpresa. Veio da Escola de San Marco, em Veneza. Notam-se bem as linhas arquitetónicas da cidade que se misturam com outras, oriundas de cidades mais a oriente. Uma obra que exige tempo e a calma do olhar, para não se perder nenhum pormenor. Teria estado mais tempo a observá-lo, não fosse estar com o meu tempo limitado a uma manhã…

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Uma aproximação ao mesmo quadro. O canto inferior esquerdo da praça que é uma súmula do encontro entre ocidente e oriente.

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Carlo Crivelli, «Madonna della candeletta», 1488-1490.

Outro quadro que mereceu o meu registo. Neste tríptico, fixei-me na parte inferior do retrato da Madonna, devido ao realismo e às cores luminosas da pedra, dos tecidos, das flores…

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Já quase no fim da visita, deparei-me com uma vendedora de fruta. E dela registei este detalhe. Muito por causa dos traços pormenorizados dos diferentes frutos, das suas cores e de serem tão apetecíveis ao olhar.

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Vincenzo Campi, «Fruttivendola», 1578-1581.

Milão rima ainda com moda, design, tendências, estilo e avenidas repletas de gente a entrar e a sair de lojas cujas montras se antecipam a todas em todos os lugares, porque nesta cidade muita coisa é pensada, criada e dada a conhecer ao mundo antes da hora. É a cidade do minuto zero para muitas criações.

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Via della Spiga.

A via della Spiga é um dos palcos dessas antestreias exclusivas. Abrem-se as cortinas, isto é,  atravessam-se as portas (por si só merecedoras de um olhar atento) e imerge-se num universo criado por um nome que tem ecos de fazedor de mundos de maravilhas. Foi naqueles dias de frio invernoso que me cruzei com as criações para o verão quente que estava para vir.

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Uma loja de roupa para crianças. E na porta, uma história para crianças. Para ler antes de entrar.

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Criações de uma dupla (D&G) que nesta coleção recria a identidade de um país.

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Estas montras não deixavam ninguém indiferente…

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Esta porta dava para um prédio residencial, um pequeno refúgio de silêncio no meio da agitação das ruas e praças ali próximas.

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Nesta estadia em Milão houve ainda tempo não para um gelado, como acontece sempre que chego aqui no verão, mas para um cappuccino bem quente, num dos pontos nevrálgicos da cidade – a galeria Vittorio Emanuele II.

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Galeria Vittorio Emanuele II.

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Sentada a esta mesa, a observar o lá fora. Em movimento constante, porque naquele palco das galerias as vidas passam, em trânsito, sob as  belíssimas cúpulas. Corpos de passagem, refletidos nos vidros que são como espelhos de uma cidade que se mostra elegante e cosmopolita, sedenta de futuro e novidade.

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Para os italianos, os gelados não obedecem a calendários. Estão sempre presentes…

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O interior da catedral de Milão.

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ASM

O primeiro. O dobro. A metade.

Eslovénia

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F1- Ilha e lago de Bled.

Há poucos dias estive a rever os meus arquivos fotográficos e a atualizar a página do blogue com o índice dos destinos. Assaltou-me uma nostalgia imensa e dei-me conta de que podia estar parada, quieta, sossegada, sem sair para lado nenhum durante bastante tempo e teria ainda muitos lugares para escrever sobre.

Não consigo estar parada. Não o desejo também. E prometi a mim mesma que recuperaria desse arquivo algumas imagens.  Lembrei-me depois daquela frase que diz que “Uma imagem vale mais que mil palavras”. Muitas vezes não acontece. Ou são precisas mais imagens ou então mais palavras. O melhor é não medir com régua e esquadro nem apurar números tão definitivos. Por isso, resolvi definir outras medidas para dizer estes lugares perdidos nos álbuns fotográficos: duas imagens e o limite máximo de metade do valor indicado na frase tão citada. Sei que ainda assim são redutores, mas serão para mim como que um desafio de síntese.

Este é o primeiro texto neste novo espaço aqui no blogue – 2 fotos para 500 palavras (no máximo).

A primeira escolha recai sobre um lago, que tem no meio uma ilha, num país encaixado entre a Itália, Áustria, Hungria e Croácia. Uma nação recente com este nome e estas fronteiras: a Eslovénia. Visitei-a em 2010 e, juntamente com a Croácia e depois de um saltinho dado ao Montenegro, fiquei com uma pequena noção do que teria sido o país que na minha infância se chamava Jugoslávia.

Gostei muito da capital deste pequeno e sereno país, sobre a qual já escrevi (o segundo texto do blogue). Este recanto do território pareceu a meus olhos um quadro pintado a aguarelas fortes, onde tudo parecia estar no lugar certo: as águas verdes, a vegetação densa em torno do lago e a ilha de Bled com o campanário da igreja ( lugar de peregrinação, esta igreja – a da Assunção de Maria).

Chega-se até à ilha e sobe-se a escadaria que dá acesso à igreja ( e que bem merece uma visita demorada) depois de uma curta viagem em barcos de madeira movidos a remos por remadores que os conduzem de pé, num exercício admirável de equilibrío entre força e habilidade. Os barcos são encantadores e parecem saídos de um dos nossos melhores desenhos.

Nas margens do lago descobrem-se, no meio da vegetação, casas que mais parecem pequenos palácios e no topo de uma das montanhas vislumbra-se o castelo de Bled. Subi até ao topo do castelo e foi de lá que registei esta imagem, a segunda do texto.

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F2 – Ilha e lago de Bled desde o castelo.

Foi durante esta viagem que comecei a desenvolver em mim o meu gosto pela fotografia. No ano anterior tinha ido à Noruega, que me fez recordar o quanto gosto de fotografar. Comprei logo a seguir a máquina fotográfica que ainda hoje tenho. Estreei-a na Croácia e na Eslovénia.

 

ASM

Inverno na paisagem

Monguelfo|Welsberg, Trentino Alto Adige|Südtirol

Itália

A promessa tinha sido feita e foi cumprida. Sobre ela escrevi aqui e andava ansiosa por poder estar nesta mesma janela a apreciar a paisagem. Desta vez com neve. Desta vez com o frio branco. E neste domingo que passou aconteceu. Chegaram-me à caixa de correio eletrónico as imagens que me fizeram regressar ao tirol italiano.

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Janeiro de 2017

E estava lá tudo o que pedi: o jardim lá fora, ao fundo as Dolomiti, as árvores, o outro hotel (aos meus olhos de aspeto um pouco misterioso) que já não está escondido atrás da copa verde das árvores, a torre da igrejinha, a casa de madeira atrás dos dois grandes pinheiros… O parque do minigolfe coberto de verde está a agora de branco. A perspetiva é da varanda do meu quarto, no último andar da casa. O G. e a H. mais uma vez a acederem a um pedido meu.

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Agosto de 2016

As notícias do tempo que faz no centro da Europa levavam-me a crer que as fotos não tardariam a chegar. Vi primeiro na imprensa a neve na Alemanha, depois no sul de Itália. Vi imagens da neve na Sicília, em Turim e em Veneza o início de 2017 vai ficar na memória por ter coberto os canais da Sereníssima de um gelo com uma cor como só lá…

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Agosto de 2016

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Janeiro de 2017

Enquanto esperava pelas fotos, o texto sobre Monguelfo fez o seu caminho e uma amiga pediu-me mais informações sobre a minha estadia, as minhas caminhadas. Fico contente por saber que as minhas palavras levam ao desejo de partida.

Sinto-me muito grata pelo facto de aquela família do hotel ter acedido a um pedido simples, ter dispensado uns minutos da sua rotina de trabalho, ter subido ao último andar e ter posicionado a máquina fotográfica quase exatamente como eu fazia. Houve ainda o tempo para o envio. E hoje as tecnologias fazem maravilhas, transformam o longe em perto, o demorado em rápido, tornando o que se imagina mais próximo do que é real. Eu imaginava a neve mais ou menos assim. Agora sei como está.  Gosto particularmente das três árvores que parece que dão bolas de neve em vez dos frutos que estão para chegar na primavera. À esquerda vê-se a rua que todos os dias fazia bem cedo pela manhã, para apanhar o comboio que me levava a lindas cidadezinhas desta região: San Candido|Innichen, Brunico| Bruneck, Dobbiaco | Toblach, Villabassa | Niederdorf.

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Brunico|Bruneck

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Uma das ruas mais floridas de Brunico|Bruneck

 

Só me resta agradecer mais uma vez à H. e ao G. pela sua generosidade. Por terem percebido que as fotos são importantes para mim, levando-me com elas de volta a um lugar onde fui feliz. Alimentei ainda mais a minha vontade de regresso, quem sabe na época do frio e da neve…

Grazie mille!!!!

Por outras palavras

Marrocos

Marrocos noutras palavras que não as minhas. Foi esta a proposta, é este o post que dela resulta. O desafio foi lançado à Catarina Leonardo, que assina o blogue Viajar pela História. A Catarina escolheu uma praça que eu também adoro e sobre a qual também já escrevi. Tal como ela, tenho vontade de lá regressar, de beber uma laranja ao entardecer, de ouvir o burburinho que, num crescendo estonteante, vai dominando a praça. Mas depois é a atmosfera da praça que nos domina…

Obrigada, Catarina, por este belo texto escrito especialmente para esta cartografia! E que boa maneira de começar um novo ano aqui no blogue!

A mágica praça Jemaa el-Fna

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A Praça Jemaa el-Fna é um dos lugares mais fascinantes onde já estive.

É o coração da medina da bela cidade de Marraquexe e uma das praças mais famosas de África. A praça foi considerada Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO no ano de 2008.

Um escritor de que eu tanto gosto disse uma vez que em “cada uma das portas das entradas da cidade” deveria estar escrito “Marraquexe: vive devagar e parte depressa”. “Porque Marraquexe é uma emboscada”.

Eu apaixonei-me por esta cidade desde a primeira vez que a vi. E desde então tenho voltado algumas vezes e o sentimento tem crescido… Concordo que seja uma verdadeira emboscada. De certa forma nunca mais se sai de lá. Eu não saí.

Muitas vezes na varanda da minha casa me lembro dos pátios magníficos que vi por lá. Trouxe lanternas de uma das vezes. Para matar um pouco a saudade daquela magia acendo uma delas e sonho acordada com aquele burburinho de pessoas a passar e da chamada à oração.

O local mais mágico da cidade é a praça Jemaa el-Fna. E tanta coisa se passa por lá ao mesmo tempo , que é até difícil de descrever. É o coração da medina, da zona antiga da cidade. É aqui o coração e a alma de Marraquexe.

Por aqui todos passam, a caminho de casa ou de uma específica zona de comércio, para vender e/ou comprar alguma coisa. Existem várias ruas que partem da praça e por onde podemos encontrar comércio de joalharia, artigos de pele, vestuário, tapetes, instrumentos de corda, artigos de bronze ou  de cobre.

De manhã cedo reina a calma. No chão existem apenas vestígios do que se viveu na noite anterior. Gradualmente vão-se começando a vender sumos de laranja, dos mais doces que já bebi e tâmaras, deliciosas tâmaras, de cores diferentes.

Encontram-se também aqui os aguadeiros nas suas vestes tradicionais. De vez em quando lá servem um copo de água a algum dos marroquinos.

O dia vai passando e o frenesim das pessoas vai aumentando, até ao verdadeiro clímax, que acontece na altura do pôr-do-sol. A quantidade e a velocidade das pessoas que circulam a pé, de burro ou de carro de mão vai-se intensificando chegando a um ritmo absolutamente inacreditável.

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Nesta altura veem-se chegar gradualmente bancas de comida. Elas alinham-se numa maravilhosa dança que se repete uma e outra vez a cada dia. Jantar aqui é absolutamente obrigatório. É estar em Marrocos entre os marroquinos, viver como eles, observar de perto os seus hábitos culturais e sociais.Todas as bancas estão numeradas e os respetivos donos aliciam os turistas que passam para que jantem na sua. A melhor forma é entrar neste jogo e deixar-se levar… sente-se numa delas e peça as magníficas azeitonas tão bem temperadas, uma tagine super bem condimentada e as famosas bruschettas de carne super deliciosas.

Nas ruas que saem da praça há imensos restaurantes mais ou menos elegantes, que também se poderá experimentar, mas comer na praça Jemaa el-Fna é o melhor.

Mas na praça existem muito mais do que bancas de comida a deitar fumo pela noite dentro. Há homens e mulheres que vendem todos os artigos imaginários numa manta no chão, há mulheres que leem a sina, há encantadores de serpentes.Há quem cante, quem dance, quem conte histórias e quem traga jogos. E a multidão forma círculos à sua volta que ao longo da noite se vão tornando maiores.

Já passei algumas horas na praça a espreitar cada atração e a participar em algumas delas. Já assisti também a todo este magnífico espetáculo num dos cafés de que mais gosto. O café de Paris que tem uma vista privilegiada no 2.º andar para toda a praça.

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É verdadeiramente fascinante ver toda esta azáfama que acontece a cada noite e que nunca é igual. A mesquita Koutubia está lá adiante a ver-nos a nós e a tudo isto.

Outros como nós terão a sorte de viver e assistir à magia que existe na praça Jemma el-Fna. Espero que sim. E que, como eu, nunca queiram sair desta verdadeira emboscada.

Até breve, Marrakesh.

 

Texto e fotos de Catarina Leonardo, autora do blogue Viajar pela História.