Leitura a dois tempos

Por outras palavras

Portugal, Itália

Muitas razões me levam a querer deixar aqui algumas passagens de um dos livros que li durante este verão. A primeira tem a ver com o facto de os textos do autor há muito me inspirarem e me levarem a querer ir aos sítios que tão bem descreve. Prova disso também foi a ideia de criar este blogue, cujo texto de apresentação evoca estas palavras deste livro.

Há depois a razão mais imediata – a capa, cujas coordenadas imediatamente reconheci: as torres de San Gimignano, na Toscana, que conheci em 2012, durante uma estadia em Florença. Mais entusiasmada fiquei quando percebi, folheando o livro na livraria, que muitas das fotografias que aparecem no interior são do próprio autor. Olhar que se mostra duplamente, portanto: através das palavras e dos fragmentos da realidade que se fixam na lente. E eu também gosto muito desta sua forma de olhar os sítios.

Um outro motivo: o que o índice deixa adivinhar – um roteiro que começa pelas cidades do Adriático , Trieste e Veneza; continua pela Emília Romagna, com passagem por Bolonha, Ferrara e Ravenna; segue para a Toscana, levando o leitor para San Gimignano, Siena e Florença, para acabar em Roma e em Pompeia. A sequência apresentada é todo um mapa muito pessoal que se vai construindo e completando depois com a leitura. Mas naquele primeiro contacto, foi para mim um convite irresistível a um regresso a lugares familiares e que tão caros me são. Falar ou escrever sobre eles aqui no blogue é desfiar anos e experiências sempre muito felizes de viagens a esse país imenso que é Itália. O índice prometia esse regresso e as páginas seguintes em nenhum momento desiludiram.

O leitor pode encontrar nelas o que de mais fascinante tem Itália e que fez de António Mega Ferreira um apaixonado por este país. O autor revela ser um profundo conhecedor da história, da arte, da literatura, do cinema, da música, da sociedade italianas. A Itália prometeu regressar todos os anos, pelo menos uma vez (aqui nesta entrevista). Promessa feita a si mesmo em determinada altura da sua vida de viajante. Também eu a fiz a mim própria, quando celebrei o meu 40.º aniversário, precisamente com um regresso a Florença. Tenho cumprido a promessa desde aí.

Levei o livro comigo para ler durante as férias: no avião, na praia, no comboio (entre Milão e Turim, entre Turim e Veneza), nas pausas que aconteceream sob o sol da Ligúria. O início da leitura tinha começado antes da partida, mas o seu termo coincidiu com o fim da viagem. No tempo que aquela durou, aconteceu-me uma viagem dupla – a que fazia de carro e comboio pelas regiões do Veneto, Piemonte e Ligúria e a outra,  a partir do livro, que foi seguindo não propriamente a sequência dos capítulos, antes do meu desejo de “reler” outros lugares de Itália.

[Praia de Finale Ligure, Riviera Lígure. Agosto 2017.]

Nessa leitura estive acompanhada de pintores, escritores, músicos, arquitetos, reis, imperadores, fidalgos, viajantes, entre outras personalidades naturais daquele território ou que por ele passaram. Todos são convocados para este retrato tão pessoal do país.

É assim que o autor o apresenta:

«O livro que o leitor tem em mãos é de natureza e génese diferente. Representa a súmula de muitas viagens a Itália, ao longo de quatro décadas de apaixonada convivência com os lugares e as gentes, mas, sobretudo, com a cultura italiana, à qual não se pode deixar de reconhecer um papel determinante na construção de uma identidade europeia, essencialmente centrada na luminosidade expansiva e sensual do sul, em alternativa à sombria meditação de indução luterana do norte da Europa. É viagem intelectual e afetiva, acima de tudo, embora não dispense a observação presencial de lugares e hábitos, que fazem parte da nossa experiência de um país tanto como os testemunhos visíveis da inscrição na História. E, neste último caso, cobre um arco temporal de quase quarenta anos, durante o qual as condições de viagem e visita aos lugares se alterou dramaticamente, com a generalização do turismo low-cost e a “tematização” de alguns lugares históricos ao gosto do turista ávido de imagens rápidas e fugidias: a Itália transformou-se num gigantesco parque temático cultural, a cuja lógica apenas escapam alguns lugares mais ou menos secretos, muitos deles defendidos apenas pela localização remota ou à margem dos itinerários propostos pelos operadores turísticos.(…)

O livro, esse, segue, no método , e talvez porque o método é resultante de uma sensibilidade, o meu livro Roma, Exercícios de reconhecimento, publicado pela primeira vez há quase duas décadas e sucessivamente atualizado e reimprimido. Tal como esse, também este não é um guia nem um roteiro turístico-cultural: limita-se a abordar temas da paisagem histórica, artística e humana da Itália, ao sabor das minhas inclinações e gostos, tal como resultaram das minhas práticas de viagem.(…) E preferi não me aventurar muito para sul da capital, sobretudo porque não tenho com Nápoles relação frequente (mas visitei por diversas vezes a costa amalfitana) e apenas em uma ocasião estive na Sicília. Ressalvo, isso sim, Pompeia, assombração e (por isso) mito cultural da nossa civilização, visitada por duas vezes em períodos muito diferentes. (…)» (p.11-13)

Este é o texto que abre este livro singular, um não guia de viagem, antes uma forma  de viajar por uma geografia saborosamente repetida, aprofundada, desvendada ao sabor de uma sensibilidade muito particular, de amizades e de acasos e que se traduz em palavras e imagens. Geografia essa aqui organizada em quatro grandes partes, dedicadas a diferentes regiões: “Nas margens do Adriático” , “Triângulo Emiliano”, “Flores da Toscana” e “Roma Eterna”.

Assim começa o elogio de Itália – em Friuli-Venezia-Giulia, na cidade de Trieste:

[Trieste, agosto de 2014.]

« Por um momento, na fria limpidez da tarde, o panorama assemelha-se a um cenário de teatro. Visto da praça, o mar parece suspenso acima do nosso olhar. É de um verde-esmeralda, batido pelo vento do Adriático, e agita-se em movimentos regulares, quase mecânicos, pontilhado de cristas brancas de espuma. Mais longe, o azul afunda-se em profundezas de cobalto. É uma massa compacta, de fotográfica nitidez. Lembra um daqueles cenários do final do século XIX, movido por engenhosas máquinas de cena. Aqui, é o mar a fingir que é mar. Por cima de nós, a tonalidade uniforme do céu recobre a cena de uma cúpula de azzurro, a recordar-nos que estamos nos confins do Mediterrâneo.

[Trieste, agosto 2014.]

Brevemente, Trieste aparece-nos no esplendor da sua aura mítica, capital de dois mundos, porta austro-húngara para o ar que conduz a todos os mares, lugar de encontro, recontros e tédios criativos. Deve ter sido este azul que Rilke amou, entre os ciprestes que envolvem o castelo de Duíno, debruçado sobre o deslumbrante golfo de Trieste; o mesmo que inspirou a Maximiliano de Áustria o delírio que deu a fatídica aventura mexicana o mesmo ainda que reteve Joyce nestas paragens durante muitos anos, no auge do prestígio novecentista da cidade. (…)» p.17-18

[Trieste, agosto 2014. O golfo e o Mole Audace.]

O leitor segue depois para Veneza, na companhia de Carpaccio, Tintoretto, Casanova, ao som da música de Vivaldi, Monteverdi, Albinoni, Gabrielli, Galuppi…

Num capítulo a que deu o nome de “Bizâncio em Itália” vi-me outra vez em Ravenna, uma cidade nas costas do Adriático, que me encantou quando visitei o país pela primeira vez. O título não podia ser mais sugestivo, já que em Ravenna o esplendor e a luz dos mosaicos constituem um tesouro bem guardado nas igrejas, batistérios e mausoléus (o de Galla Placidia é belíssimo…).

Entre as grandes partes que constituem o livro, dedicadas a diferentes regiões italianas, lembrou-se o autor de fazer breves pausas, com aquilo a que chamou intermezzo e então o leitor conhece a história por trás de um nome ligado à música, à literatura, à pintura e ao cinema italianos…Destaco um deles: é sobre um músico, uma voz, um repertório.

A minha vontade é transcrever todo o intermezzo dedicado a Paolo Conte, um músico italiano natural de Asti, na região do Piemonte, cuja voz me encanta desde há muito…E António Mega Ferreira escolhe as palavras certas para descrever a música deste artista tão eclético. Por isso, leiam-se as palavras ao som de um dos seus temas ( a escolha foi difícil e ingrata, tantos os temas que podiam constar aqui…).

[Gosto muito deste tema e deste vídeo. Refletem bem o gosto do músico por cinema e pelos primeiros anos do século XX, que tanto o inspiram. Acho também que ilustram as palavras de António Mega Ferreira.]

Segundo António Mega Ferreira, as suas músicas «São micro-narrativas feitas de rumores e enigmas, de sonhos e quimeras, de amores desfeitos e de jardins suspensos que não voltaremos a ver, de tudo o que nunca chegámos a ver. Este canzionere absolutamente singular alimenta-se de coisas soltas, pequenas ideias musicais e grandes ideias poéticas, para se construir, dispersamente, vagamente, num lugar único, inominável, ao qual apenas chegamos através da voz do seu autor. Palavras, sussurros, interjeições, silêncios. Jazz? Blues? Samba? Tango? Farrapos disso, e de boleros, mambos, chansons – mas outra coisa ainda.(…)»

Sobre a voz – «Porque elas, as canções, são indissociáveis da sua voz, rouca, usada, quebrada, uma voz distante mas íntima, porque ressoa dentro de nós com a força de uma evocação que nos remete para qualquer coisa de perdido, qualquer coisa de alheio, que, por um momento (o momento da canção) , temos a ilusão de podermos voltar a fazer nosso.(…)» p. 225-226

O livro termina com uma incursão pela capital do país – “Roma eterna”. Com um regresso a Pompeia e um desvendar de recantos insuspeitados de Roma, alguns deles na companhia de um português, cuja estadia naquela cidade está envolta em muitos intervalos de não conhecimento – ficamos a conhecer o que se sabe de um fidalgo de Chaves. O esplendor de Roma deve muito a um nome, Gian Lorenzo Bernini (1598-1680), que merece todo um capítulo e a transcrição de palavras de um outro autor, de tanta luz que dão para a compreensão de toda a beleza criada pelas mãos de Bernini: «Trata-se de pintar com a escultura, de arquitetar a pintura, de pintar e modelar os elementos arquitetónicos.», Franco Borsi p.262

Este post acaba com duas fotos com a luz de Bernini, captadas na minha última vez em Roma. Estava nos meus planos ir à Villa Borghese, onde estão muitas das obras deste artista. Guardei um dia para essa visita.

[Gian Lorenzo Bernini, Rapto de Prosérpina, 1621-22.]

ASM

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História da capa (3)

Itália

De regresso a casa e também aqui depois de mais uma viagem. E comigo trouxe memórias de experiências novas em sítios de sempre: Turim e Veneza. Como absoluta novidade, lugares intermédios na cronologia da viagem, que no mapa coincidem com o Piemonte e a Ligúria: Rivoli, Giaveno, Avigliana e Finale Ligure, Finalborgo, Noli. E há também a viagem de carro desde Turim até Finale Ligure,na direção norte-sul, interior-litoral, passando pela planície padana e pelos Alpes Marítimos.

A precedente imagem da capa retratava um verão nas montanhas, ao contrário das ondas. Não foi o caso deste ano. Procurei-as e encontrei tudo o que elas trazem consigo: sol, banhos em águas quentes, refeições leves, fins de tarde em frente ao mar, horas perdidas nas páginas de livros e um tempo muito distante do relógio tirânico. A acrescentar a isto, o prazer e a felicidade única da descoberta: de lugares novos, de sabores diferentes, de pessoas que fazem da geografia humana um lugar que vale muito a pena, apesar de às vezes pensarmos que não.

Tratarei de dar conta dessas memórias nos próximos posts. E ainda de outras mais antigas, já que o regresso a lugares como Turim e Veneza me lembraram que ainda não escrevi tudo o que quero sobre o que já vivi em ambas as cidades.

Se Turim abriu e fechou  roteiro deste verão, Veneza antecedeu a praia. E sobre a escolha da ilha da Giudecca como o meu lugar ali já escrevi aqui. É nesta ilha que caminho na foto da capa, no segundo dia de estadia. No primeiro, o final de tarde trouxe consigo vento, chuva, raios e trovões, que provocaram na laguna uma agitação que eu reconheci de outros momentos já lá vividos. Mais fotos da Giudecca vão surgir ao longo deste post.

[As nuvens a anunciarem o mau tempo da noite.]

No entanto, os dias a seguir foram de um calor inusitado. Nunca eu tinha estado na cidade com tanta sede. Nem com tanta gente a circular pelos pontos mais procurados. Não é o caso da Giudecca e, por isso, ao fim do dia tinha a certeza de que iria regressar ao sossego e ao silêncio que esta ilha reserva só para si. Mas tem outros fatores de interesse que eu aproveitei para conhecer. Dediquei uma manhã a explorar a zona residencial de Sacca Fisola, numa das pontas da ilha.

Este ano a Giudecca albergou a representação portuguesa na Biennale de Arte, com as esculturas de José Pedro Croft, na belíssima Villa Hériot e eu guardei as últimas horas em Veneza para a visitar. A exposição internacional de arte (este ano com o nome “Viva Arte Viva”) foi um dos motivos para querer voltar ao palco dos artistas que é a cidade. Para além dos dois espaços que concentram o maior número de artistas e/ou países representados, o Arsenale e os Giardini, há uma série de  “eventi collaterali”, ou seja, exposições espalhadas por vários pontos de Veneza e das suas inúmeras ilhas. Nas minhas deambulações por calli, fondamente e pontes, aconteceu entrar em alguns desses espaços e ser surpreendida. Por exemplo, na igreja de San Giorgio Maggiore que acolheu, mais uma vez, um artista. Desta vez italiano – Michelangelo Pistoletto, com a exposição “One and one makes three”.

Já tinha visto parte da sua obra em Rivoli (fica a cerca de 15km de Turim), no Museu de Arte Contemporânea (um castelo transformado em museu). Foi mais uma razão para querer muito ir à igreja de San Giorgio Maggiore, povoada pela sensibilidade deste artista.

O caminho a seguir a Veneza levou-me até à praia. Que fica depois de uma cadeia de montanhas – os Alpes Marítimos. Lindos de atravessar de carro. Por curvas e contracurvas no meio de uma floresta densa de um verde húmido. E que são o sonho de quem gosta muito de conduzir ou de pedalar. Há roteiros específicos para os amantes da bicicleta e há muitos por esta zona. Cruzei-me com eles e admirei a sua persistência, força e equilíbrio.

[A vegetação naquelas terras altas. Colle del Melogno: 1.028 m de altitude.]

[A seguir a esta espécie de fortaleza, o caminho começa a descer. Colle del Melogno.]

A seguir às montanhas, este mar. De um azul translúcido. De um quente apetecível a todas as horas. Cenário para dias distendidos, lentos.

Com sabores de verão.

A fechar, o regresso a Turim. Uma cidade de permanente descoberta, tão densa que é de história, onde o antigo se funde e se renova com o novo. É, a muitos títulos, uma cidade que se destaca pela sua modernidade ao longo dos tempos – a RAI nasceu aqui, os primeiros estúdios de cinema em italiano foi aqui que surgiram, a FIAT tem a sua sede primeira nesta cidade. E a lista podia continuar. Foi a primeira capital do reino de Itália. À sua volta, na maravilhosa planície entre os Alpes, espalham-se palácios e castelos mandados construir pelos Saboia. A história desta família reinante confunde-se com a  história da cidade.

[Esta foi a última foto que tirei em Turim. Antes de iniciar a viagem de regresso.]

[Reggia di Venaria: uma das magníficas residências dos Saboia. É agora um museu que conta a história desta família e a da cidade de Turim.]

Repeti lugares (cafés, livrarias, praças, parques), segui o exemplo de muitos turinenses e peguei na bicicleta. Com ela olhei a cidade de outra forma e regressei a uma sensação infantil de largar os pedais nas descidas, de sentir nas mãos a velocidade em crescendo. Turim é bastante plana e de fácil circulação em bicicleta, sobretudo numa das margens do rio Pó. E naqueles últimos dias de agosto a cidade estava muito despida de habitantes, que se encontravam nas praias, nos lagos ou noutros locais em férias. Circulavam pelas ruas aqueles que se encontravam a trabalhar e os turistas. E mesmo estes, em muito menor número do que aqueles que na mesma altura estariam noutras cidades italianas mais a sul.

Turim – uma cidade que merece, sem dúvida, palavras mais demoradas.

[A ciclovia que segue o rio Pó. Parque Valentino.]

ASM

 

 

7 partes de mim

+ do que 1

 No passado mês fui surpreendida com uma mensagem da Catarina Leonardo (autora do blogue Viajar pela História). Essa mensagem tinha lá dentro uma distinção que muito me honrou – trata-se de um reconhecimento, o “Versatile blogger award”, que visa destacar um blogue particularmente inspirador  através das suas palavras e/ou fotografias. Não podia ter ficado mais contente. Sigo o trabalho da Catarina (que muito admiro ou não fosse eu uma amante da História) e sem dúvida que também contribui para que o meu quotidiano de todos os dias seja mais rico e interessante.

Muito obrigada, Catarina, por este prémio! Uma motivação extra para continuar a viajar e a achar que vale a pena continuar aqui!

[Painel de azulejos nos jardins do Palácio Marquês de Fronteira.Lisboa.]

É suposto um vencedor do “Versatile blogger award” dar-se a conhecer em 7 factos, em 7 pinceladas, para dar uma ideia aos leitores de quem está por trás do blogue. É o que vou tentar fazer a seguir…

1. Adoro poesia

É raro o dia em que não leia poesia: um poema, um verso ou então algo relacionado com um poeta – podem ser notas biográficas, notícias sobre novos livros ou edições, recensões, outros textos que não poemas escritos pelos poetas.

[Livraria Sovilla, Cortina d`Ampezzo, agosto 2016.]

O  poema mais antigo na minha memória é da autoria de José Gomes Ferreira. Era ainda criança e peguei num livro de poemas – Poeta Militante. Os meus pais tinham vários títulos  obra toda do autor, que engloba crónicas, contos, diário e esse romance extraordinário que é Aventuras de João sem medo, que eu li muito mais tarde.

O poema é este e recordo-me ainda hoje do impacto que teve em mim e como o escrevi em inúmeros cadernos que mais tarde tive. Era sempre este o texto que eu queria para a primeira página.

 

Comício

 

Vivam, apenas.

 

Sejam bons como o sol.

Livres como o vento.

Naturais como as fontes.

 

Imitem as árvores dos caminhos

que dão flores e frutos

sem complicações.

 

Mas não queiram convencer os cardos

a transformar os espinhos

em rosas e canções.

 

E principalmente não pensem na Morte.

Não sofram por causa dos cadáveres

que só são belos

quando se desenham na terra em flores.

 

Vivam, apenas.

A Morte é para os mortos!

 

José Gomes Ferreira

2. Cinema

[Palavras de Manoel de Oliveira. Cinemateca, Lisboa.]

Sou apaixonada pela sétima arte. Gosto de ir ao cinema, de ler e de escrever sobre cinema.E não é de agora…

Em arrumações recentes, reencontrei-me com os diários da minha adolescência onde a partir de certa altura comecei a registar as minhas idas ao cinema, num tempo em que só se viam filmes no CINEMA. Em mais lugar nenhum. E ir era um acontecimento, um motivo de alegrias. Nesses diários, guardava os bilhetes e no verso de cada um deles registava o nome do filme e do realizador. Alguns mereciam uma “crítica” e a atribuição de estrelas de acordo coma minha apreciação. Tinha eu 15 anos  e ainda me faltavam muitos filmes.

Lembro-me bem do primeiro filme visto numa sala de  cinema: foi “Mary Poppins”, com Julie Andrews, eu ainda nem sabia ler. Mais tarde aprendi o nome dos atores, revi o filme e quis ver mais.

Em abril, em Roma, tive pena de não ter tido oportunidade de visitar a Cinecittà. Está nos meus planos. Em 2014 pude assistir a uma sessão no festival de Cinema de Veneza e foi com grande emoção que visitei o Museu do Cinema em Turim (agosto de 2015).

[Sala Darsena. O filme era “Senza nessuna pietà”. Estreia com a presença dos atores  Pierfrancesco Favino e Adriano Giannini . Lido, Veneza.]

[A caminho do Museu do Cinema. Turim.]

[Museu do Cinema. Turim. Aprender: como surgiu o cinema, como se faz cinema, quem contribui para a obra final que é um filme. Pistas para lermos uma obra cinematográfica – tudo ali.]

[Museu do Cinema. Turim.]

Da adolescente que fui, guardo o hábito de guardar os bilhetes de cinema, de teatro, das entradas em museus, dos comboios, dos aviões e não só…

3. Café e livros

O café é uma das minhas bebidas favoritas. Também gosto na sua versão gelada, granita, caramelos, cappuccino, ou mesmo bola de gelado. Gosto muito de livros. E quando se misturam estes dois prazeres no mesmo espaço, então esse lugar é onde eu quero ir.

[Livraria Acqua Alta, em Veneza. Talvez a mais extraordinária de todas as livrarias onde já estive até agora. Há prateleiras, mas sobretudo barcas e uma gôndola. Espalhados e empilhados, os livros.]

[Café San Marco, em Trieste. É também uma livraria e uma galeria. Existe desde 1914. Belíssimo!]

Se pudesse, diria a Jorge Carrión que escreveu o livro que eu sempre quis ler – Livrarias, uma espécie de guia de uma viagem pelas livrarias do mundo, pelas biografias dos seus livreiros, pelas histórias vividas ali, naqueles espaços.  Um livro sobre o amor aos livros. Na capa da edição portuguesa, uma foto da Shakespeare & Company. No interior, imagens e palavras sobre tantas outras. Numas já entrei, outras estão nos meus roteiros de sonho.

4. Itália

[Pavilhão de Itália na Bienal de Veneza. Agosto 2015.]

É este o país, a seguir a Portugal, onde sou mais feliz. É este o país que conheço melhor depois do meu. É a Itália que quero sempre regressar.

[Pavilhão de Itália na Bienal de Veneza. Agosto 2015.]

5. Asas

[Detalhe de asas. Igreja de Santa Maria del Popolo. Roma. Abril 2017.]

Coleciono asas. Tenho várias no meu arquivo fotográfico e sem pensar muito no porquê  fui registando. Sempre gostei da palavra “alado”, que me faz lembrar Pégaso e Mercúrio (este último também o deus protetor dos viajantes). Há as dos anjos e as dos pássaros. As dos aviões. As dos leões e dos cavalos alados…

Deixo aqui algumas asas da minha coleção.

[O leão alado, símbolo de Veneza. Agosto 2015.]

[Basílica do Sacré Coeur. Paris. Abril 2016.]

[Faro della Vittoria. Trieste, agosto 2014.]

[Esculturas na Piazza Statuto, Turim. Agosto 2016.]

[Asas no Palazzo Grimani. Veneza. Agosto 2015.]

[Um restaurante que é um museu, uma oficina, uma galeria. Aqui neste espaço fabricam-se asas…Fica em Roma, na via del Babuino – Museo Atelier Canova Tadolini. Abril 2017.]

6. Alfabetos e caligrafias

 Gosto muito da parte física das línguas, daquilo que nelas é mais imediato para os sentidos. Falo dos alfabetos, pelos quais tenho a maior das curiosidades. Admiro as diferentes caligrafias quando a língua passa a ser escrita e cada falante a toma para si nas mãos, que a desenham…

[Aeroporto de Telavive. Agosto 2015.]

Gosto muito de aprender línguas, de as ouvir nas ruas, nos mercados, nos cafés. Ou então, num registo musical.

Há línguas particularmente doces de ouvir e de pronunciar – nenhuma, a meu ver, bate o Francês. A mais violenta das afirmações pronunciada neste idioma é suavizada pela doçura fonética das suas consoantes, vogais, acentos e combinações… Aos meus ouvidos, não existe a rudeza no Francês. A mais musical, das que eu conheço, é a língua italiana.

[Numa Pizzaria em Pisa, 2016.]

Quando estive em Israel, agradou-me a novidade melódica do Hebraico e deliciei-me com o alfabeto. A este, veio juntar-se o Árabe escrito. A estas duas juntava-se o Inglês e assim tinha sempre 3 línguas para ver/ler em silêncio dentro de mim.

[Jerusalém. Agosto 2015.]

Em Marrocos, um berbere teve a paciência de me ensinar algumas palavras em Árabe e em Berbere.

O Japonês, que não conheço, é lindo de ver escrito na sua sintaxe vertical. Aprender Mandarim, com os seus tons variáveis que condicionam a semântica de um mesmo vocábulo, parece-me um desafio fascinante. O Grego soa-me muitas vezes a uma língua familiar, ou não tivesse a minha língua mãe um léxico tão recheado de vocábulos oriundos da  Grécia.

Aos alfabetos e à  caligrafia posso juntar o meu interesse pela etimologia: as origens e a memória inscritas nas palavras.

[Efeito de sombra e de luz solar numa fachada de um edifício próximo do B&B onde fiquei em Turim. Agosto 2015.]

[Inscrições em Latim na Ponte Romana de Trajano. Chaves.]

Sobre esta minha “parte” já escrevi aqui

8. Ler a História

Interessa-me muito o passado. Ajuda muito a compreender o presente. É fundamental para pensar um futuro melhor. Seja em termos individuais, seja em termos coletivos.

Gosto de ler livros de História e tenho um fascínio muito particular pela Idade Média.

No entanto, se pudesse concretizar um sonho que tenho desde sempre – viajar no tempo – gostava de ir até à época do Renascimento e vivê-la  exatamente no lugar onde surgiram os primeiros sinais desta verdadeira revolução cultural : Florença.

[Florença vista desde os jardins do Palazzo Pitti. Julho 2012.]

 

[Casa museu de Dante. Florença, 2012.]

Com o prémio “Versatile blogger award”, quero distinguir um outro blogue que sigo – Documentar o Mundo, da Eva Marcela.  Através das suas histórias, sabores e viagens, a Eva leva o leitor por esse mundo fora e dá-nos a conhecer pessoas, tradições, histórias de vida que se cruzam com a História. Visitem-no e viajem com ela!

Parabéns, Eva! Votos de boas viagens, porque delas resultam textos muito inspiradores!

 

ASM

Palavras para Veneza

Por outras palavras

Veneza,Itália

[Uma inscrição de luzes no Museu Peggy Guggenheim.]

As palavras que eternizam Veneza nunca são suficientes. São necessárias, fundamentais, quando a cidade se encontra ameaçada por inúmeros “inimigos” – os desmedidos barcos de cruzeiro, os milhares de visitantes que desaguam na cidade, numa torrente desordenada, desregrada e sôfrega de uma Veneza que existe na imaginação de cada um e que se julga eterna. Mas quando imersos na verdadeira, esquecem-se que a cidade real, autêntica é de uma fragilidade extrema. E por isso precisa de todos os cuidados para continuar tangível.

[Desequilíbrio. Erro de escala 1.]

Vem este post a propósito das notícias recentes que dão conta da crescente “erosão” de Veneza.  Todos os anos chega o verão,  cada vez mais difícil de suportar pelos venezianos, que insistem em permanecer no sítio onde nasceram. São os que melhor conhecem os canais, as águas, as torres, as igrejas e os segredos da cidade e, como fiéis guardiões, saíram à rua para gritar “Basta!”. A ideia não é fechar Veneza, líquida na sua essência, flutuante na sua forma de perdurar no tempo. Trata-se tão só de zelar por um turismo sustentável, equilibrado, que permita aos locais continuarem com as suas vidas e terem a Sereníssima como cenário dos seus projetos de  futuro.

[Desequilíbrio. Erro de escala 2.]

Há muitos estudos, relatórios, soluções pensadas e fundadas na mais avançada tecnologia para que a cidade não desapareça. E no entanto parece que nada previne o inevitável. As melhores ideias e técnicas são ultrapassadas pelos excessos revelados pelos números, presentes nas dimensões das embarcações, nas estatísticas a desfavor da Sereníssima.

[Desequilíbrio. Erro de escala 3.]

[Veneza e a sua laguna são indissociáveis.]

Trago para aqui as palavras que recentemente li sobre Veneza. São de Eduardo Lourenço, numa coletânea de textos sobre vários temas e pretextos relacionados com a arte, com particular destaque para a pintura – Da Pintura. Há um texto que foi a minha primeira paragem, mal dei com o título no índice – “Veneza, um retrato”, escrito em 1971.

[O quotidiano veneziano no sestiere de Castello.]

Deixo duas passagens belíssimas e que refletem a singularidade da cidade.

«(…) Veneza é um sonho petrificado, um passeio sonâmbulo por um espaço entre água e céu, entre vida e morte. A bem dizer não é um espaço, mas um tempo. De ponte a ponte, de rio a rio, de cale a cale o que vem ao vosso encontro são fantasmas sumptuosamente vivos, olhares extintos que vos convocam para esplendores abolidos. O que a arquitectura teria por função esconder: a fragilidade dos nossos passos sobre a terra imóvel aqui se inverte – o sólido emigra no efémero, o reflexo absorve a imobilidade da fachada. Sem cessar Veneza escorre para a sua morte como um fogo-de-artifício tirado do fundo das águas.(…)»

[Gondolieri, gondoleiros: uma profissão e uma palavra que só existem em Veneza.]

[Campo di Santo Stefano, sestiere San Marco.]

E esta ainda…

«(…) De noite Veneza lembra um navio amarrado à beira de um cais que se chama tempo.(…)»

Eduardo Lourenço, “Veneza, um retrato”, Da Pintura, Gradiva (maio 2017)

[Mercado de Rialto: oferece uma grande e deliciosa variedade de legumes, frutas e peixe.]

Depois de uma conversa com colegas sobre estas ameaças à cidade, veio a ideia de escrever este texto. Esta cidade não é único exemplo de um turismo nocivo para os habitantes e das consequências negativas que aquele pode acarretar para o património da humanidade. Há mais. Há muitos outros, em estádios de “erosão” diferenciados. Que este exemplo sirva de sinal de alerta máximo para uma intervenção preventiva em muitas partes do mundo. Sob pena de o tempo que resta de vida a Veneza  ser muito menor do que aquele que já viveu.

As fotografias deste artigo foram tiradas em 2014 e 2015. As ameaças à  fragilidade de Veneza eram muito evidentes. Os anos passam e elas permanecem, assumindo novas formas e novas forças.

 

ASM

Uma visão do mundo muito particular…

Por outras palavras

Este mundo começa com um belo pórtico. Atravessamo-lo e penetramos numa visão muito particular dos vários mundos e das gentes que neles habitam. É uma grande viagem. Que começou a ser sonhada na infância do viajante e futuro escritor. Ou ao contrário, que também é verdade – no escritor que já existia na criança que olhava o mundo com olhos de viajante. Um viajante atento, interventivo e muito, muito humanista, num tempo em que as distâncias eram difíceis de transpor, em que os mundos de cada pessoa eram muitas vezes prisões construídas por outros e difíceis de derrubar. Este viajante escritor deu o salto ainda adolescente e “voou” para lá do horizonte da sua terra natal, rodeada de montes para ele transparentes, pois através deles via o mar e os contornos dos países que estavam à sua espera.

Falo de Ferreira de Castro que, depois do Brasil, para onde foi trabalhar ainda muito novo na dura e hostil Amazónia, nunca mais parou e a sua curiosidade infantil transformou-se em asas que o levaram pelo mundo fora. Como também foi crescendo o escritor, começou a dizer esse mundo. Um mundo feito de maravilhas naturais e ainda daquelas que saíram ao longo do tempo das mãos e dos sonhos dos homens.

O autor nasceu em Ossela, Oliveira de Azeméis, no dia 24 de maio de 1898 e faleceu no Porto, a 29 de junho de 1974. Foi desde Ossela que adivinhou o mundo.

Entremos então no mundo de acordo com Ferreira de Castro…

[Teatro Massimo, Palermo, Sicília.]

Pórtico

«Pequeno, dez, onze anos melancólicos e tímidos, subíamos ao cume da serra que padroa a casa onde nascemos e ali, entre urzes e pinheiros, nos quedávamos a contemplar vizinhas terras. Sete quilómetros, apenas, havíamos percorrido do Mundo em que vivemos; o que, hoje, se ergue perto, parecia-nos, então, distante, mas nós já sonhávamos ir muito mais longe ainda.

Desse bravo sítio, onde desejamos repousar para sempre, face ao sol e ao fulgor das estrelas, via-se, lá em baixo, branquejar a casita nativa, quase a entestar o afogado vale; e, da banda oposta, outras várzeas, outros povoados, outros cerros, maravilhosa sucessão de planos, formas e cores, tudo laborado pela mão do Homem. Ao fundo, esboçava-se o grande sortilégio, o Mar, o íman que nos atraía ali.

No corpo pequenito, os nossos olhos, que haviam de ficar toda a vida tristes, esqueciam-se, horas a fio, a sonhar com a distância infinita, ante essa linha verde-azul do Oceano longínquo. Tudo quanto existia para lá da nossa vista nos parecia fabuloso e nos fascinava irremediavelmente.

Sentíamo-nos encarcerados e, no silêncio da cumeeira, onde ninguém perturbava a nossa cisma infantil, o próprio voo das aves serranas nos fazia sofrer, porque nos dava uma sensação de liberdade que não tínhamos, a liberdade que havíamos de amar, depois, ao longo da nossa existência.

Doze anos  e meio dobados, o feitiço da Distância pôde mais do que a família, do que nós próprios, do que a própria intuição da nossa fragilidade e da nossa inexperiência, e abalámos, voluntariamente, para o Mistério, atravessando o Oceano que tantas vezes nos havia chamado, quando os nossos olhos infantes mal o adivinhavam, difuso, informe, fim de horizonte, desde o tope duma ermática serrania.

Nunca mais essa ansiedade de vida errante encontrou limite. Ela constituíu a razão de muitos dos nossos esforços. E, país a seguir a país, um mar após outro mar, infatigáveis vagamundos, fomos percorrendo o Planeta. Nós amamos a poesia da terra,  as suas pompas naturais, o esplendor da sua luz, o deslumbramento dos seus cromatismos, a carícia dos seus ritmos – e amamos, sobretudo, o ser infeliz que a habita. Mas , nesse tempo, a Terra parecia-nos interminável, a lonjura mantinha-se sempre e a nossa curiosidade, em vez de saciar-se, deslocava-se para além do ponto atingido. Das três divindades – o Amor, a Literatura e o Mundo – o Mundo dir-se-ia ser a mais difícil de adorar integralmente. Eis, porém, um navio atracado ao cais– e o velho sonho que principia a consumar-se. Os nossos olhos vão, enfim, tomar posse do Contínuo Panorama e a nossa alma aliar-se, fraternalmente, com a alma vasta da Humanidade. Podemos ver o Homem e a terra com inteira pureza de espírito, com pleno amor, pois já não haverá em nós nenhuma dessas ambições individuais que perturbam o justo exame e maculam, ao ser remoídas, as horas de soledade.»[p.13-15]

Este pórtico abre a trilogia A Volta ao Mundo. Esta viagem em três tomos demorou três anos a ser registada. O tempo da sua realização não se mede em números, em datas, em registos de calendário, mas em emoções e maravilhamentos . Foi na companhia da sua mulher que o autor partiu para o mundo. Com o desejo de traçar uma rota fiel aos seus desejos,  percorreu por mar os longes e passou ao lado de percursos já delineados, distantes da sua curiosidade eclética. Os seus relatos, publicados em fascículos (e posteriormente reunidos e publicados em 1944) apresentam dados arquitetónicos, arqueológicos, históricos, religiosos, enfim, o que de humano faz o seu semelhante espalhado por geografias que ele tentou tornar mais próximas.

Desta vez fui eu com ele a bordo dos vários navios. As suas palavras levaram-me de volta a uma ilha que muito me fascinou – Sicília. Fui aos meus arquivos fotográficos e selecionei algumas imagens que retratam as minhas memórias de Palermo, de outros pontos da ilha e que vão alternar com a visão do autor. Reconheci “a minha” Palermo em muitas das linhas por ele assinadas. As palavras são dos anos 40 do século passado, as imagens de 2013.

«(…) Estamos na maior ilha do Mediterrâneo, na mais povoada e na que encerra maiores ruínas dum pretérito esplendor. Mal, porém, metemos o pé em terra, a primeira coisa que os olhos leem é uma legenda política, em grandes letras traçada sobre os armazéns do cais: «O Mediterrâneo que, para os outros, constitui apenas uma estrada, representa, para nós, italianos, a própria vida».

Junto do porto rodam as famosas carroças sicilianas, de cavalos empenachados e varais, rodas e anteparas com cenas mitológicas, bíblicas e históricas, esculpidas em baixo relevo e pintadas, depois, num admirável acabamento artístico.

[Acho que as carroças sicilianas de que fala são estas, que nos dias de hoje permitem ao visitante passear pela cidade ou ao siciliano publicitar o seu negócio, recorrendo a este ícone…]

A cidade começa por ampla avenida marginal – Foro Umberto I – e o descuidoso visitante vê-se, de súbito, rodeado por bandos de cocheiros, tão gesticuladores, tão loquazes e persistentes na conquista do eventual cliente, como se tivessem herdado a personalidade e os costumes dos árabes que, outrora, dominaram aqui.

Palermo frui, desde tempos idos, o título de «Cidade Feliz» – e por grande porta, também «Felice» chamada, nela se entra, pelo lado do mar.

[Santa Rosalia, a protetora da cidade. As torres que se veem na fotografia pertencem à catedral.]

Apesar da sua longevidade, Palermo, sempre reconstruída através dos séculos, apresenta excelente traçado urbano, ruas amplas e retas, exuberantes jardins, airosas praças. Por toda a parte se topam igrejas barrocas, estátuas, um teatro monumental, de bela fachada, severos palácios, outros edifícios soberbos. Duas longas avenidas, a Via Maqueda e o Corso Vittorio Emmanuele, formam, ao cruzar-se, uma praça original: os «Quattro Canti». Em vez de terminarem em agudos cunhais, as quatro esquinas foram tornadas côncavas e em todas elas se construíram artísticas fachadas, com estátuas de reis da Sicília, das quatro estações e das quatro padroeiras da cidade. Destarte se obteve arredondada e graciosa praça barroca, que o barroco, o barroqueto e o árabe-normando imperam na maioria dos monumentos de Palermo.

[ A caminho da confluência das duas avenidas.]

É aqui o centro comercial, um comércio de luxo, de influência francesa, alternando com as lojazitas de todos os burgos. Cidade de 400.000 habitantes, nestas ruas transita, entre autocarros, automóveis e carros de cavalos, uma multidão simples, modesta e de olhos ora nostálgicos, ora sorridentes, que a alegria e a melancolia parece terem descoberto grata instalação na alma siciliana. De quando em quando, passam homens sem um braço ou sem uma perna; outros com as faces cheias de cicatrizes, restos das campanhas que a Itália tem realizado ultimamente.

[ Um dos “Quattro Canti”.]

Perto dos «Quattro Canti» campeiam vários templos, uma fonte monumental espelhando marmóreas estátuas e sempre esta teoria de nobres edifícios, simultaneamente austeros e garridos.

[Acredito, pela descrição feita, que a fonte de que fala é mesmo esta, na Piazza Pretoria. Tem o nome da praça.]

[Não me cansei de a fotografar…Chamam-lhe também a Fonte da Vergonha. E é fácil de perceber porquê, ao observarmos as estátuas.]

Ao lado dessas artérias de aristocrática fisionomia e das ruas de movimentado rumor, cheias de veículos, de transeuntes e do colorido que lhes dão tabuletas e escaparates comerciais, outras existem, tão solitárias e modorrentas, que, mesmo nos dias de semana, têm o ar e a luz das tardes dominicais.

[O Teatro Massimo. A praça que se situa em frente ao teatro é de visita obrigatória. Forasteiros e habitantes da cidade cruzam-se ali.]

Em toda a cidade flutua, porém, branda atmosfera, espécie de ternura geral, que se exala de tudo, dos seres e das coisas, e a tudo envolve, acariciadoramente.(…)[p.50-52]

[Um dos muitos quiosques espalhados pela cidade.]

Ilha de várias faces, os seus ridentes burgos costeiros, as suas excelsas paisagens, contrastam com as desoladas regiões do interior, promeninências de arrefecidas lavas, terra estéril que só dá o enxofre e na qual labuta, dia e noite, num ambiente de plaga infernal, mísera multidão. Na parte ribeirinha, entre as montanhas que cortam a Sicília, algumas tão imponentes que o Etna pode abrir a ígnea boca a 3.275 metros de altura, o homem cura da vida agrícola. Aí, a terra, de exuberante, deixa o fuste europeu medrar ao lado do fuste tropical, como se o clima se empenhasse em desfazer a divisão do Mundo por continentes.

[Um olival siciliano.]

A Sicília exporta azeite, frutas secas, algum vinho, alguns cereais e muito enxofre – e exportava, sobretudo, homens, no tempo em que as portas americanas não haviam sido fechadas à emigração. Afanoso e sonhador, bom camponês, destemido marinheiro, o povo siciliano, apesar das muitas experiência históricas feitas na sua terra, viveu sempre em regime de deserdado. Os grandes latifúndios, que mantinham sobrevivências feudais, existiram na Sicília até agora. Contam-se os dias desde que o governo italiano aboliu parte desses remotos privilégios e cuidou de entregar as terras a quem as fizesse prosperar, obra que está longe de ser concluída, dado que os velhos interesses particulares a contrariam a todo o instante. Além disso, as lides bélicas em que Roma tem andado exigiram da ilha e de toda a Itália um esforço depauperante. (…) [p.62-63]

[O Etna e as suas crateras fumegantes.]

É quase a hora do «tramonto» quando reentramos em Palermo. As tintas crepusculares do Mediterrâneo dão à velha cidade uma expressão lírica, uma espécie de nostalgia de vida imponderável, talvez de vida oculta, de braços masculinos cerrando-se sobre corpos femininos, algures, na penumbra das alcovas de intensas volúpias. Os parques das grandes vilas palermitanas, com suas estátuas, seus íntimos pavilhões entre arvoredo, insuflam um feitiço maior à terra siciliana de montanhas, esguios ciprestes, quentes palmeiras e frescos loureiros-rosas. (…)»[p.72-73]

Ferreira de Castro, A Volta ao Mundo, vol.I, Guimarães & C.ª, 1950.

[Esta foto foi tirada à hora do “tramonto”…]

A ilha siciliana é uma das paragens no seu itinerário. A viagem segue depois para a Grécia e termina, no primeiro volume, no Iraque. Nos dois seguintes, as coordenadas do mapa que vai construindo ao ritmo das chegadas aos portos e do levantar das âncoras, vão passar ainda pela Índia, Birmânia, Japão, Indochina, Estados Unidos da América, Bornéu.

Vale bem a pena continuar viagem com Ferreira de Castro!