Sobre o blogue


fotografia 4 - Cópia

Encontrei nas palavras de outros aquelas que me ajudam a dizer-me…

Tal como David Mourão-Ferreira, «Lamenta a falta imperdoável,/nas três ou quatro línguas/que menos mal conhece,/de um só verbo que significasse:/ler, amar, nadar, viajar, escrever.» (Jogo de Espelhos, David Mourão-Ferreira, Editorial Presença).

«Todo o meu sangue raiva por asas!/Todo o meu corpo atira-se prà frente!»

– Ode Marítima por Álvaro de Campos.

Das razões de um nome e do princípio da indisciplina

Escolher um nome não é fácil. Um nome é algo de muito definitivo, que se cola a alguém ou alguma coisa. «Cartografia pessoal» não foi difícil de imaginar, mas muito difícil de o tornar único e definitivo para este espaço cheio das memórias de outros espaços.

Sou muito o resultado do que leio e a palavra «cartografia» ecoa na minha memória de leitora num título de um dos poetas que adoro e devoro – Nuno Júdice, «Cartografia de Emoções». Se calhar também por causa deste conjunto de poemas que tenta dizer e disciplinar em verso as emoções. Talvez porque quero disciplinar-me nas emoções vividas e revisitadas das viagens que faço e das que ainda vou fazer.

O primeiro passo dessa tentativa de autodisciplina é o registo quase obsessivo em inúmeros caderninhos de notas que andam sempre comigo, sejam as viagens curtas ou longas, pontuais ou integradas na rotina diária. Guardo esses caderninhos num mesmo espaço – mais um passo da autodisciplina. E assim tem sido – escrever para lembrar, escrever para levar a melhor sobre o esquecimento. Tenho de escrever sobre esses caderninhos, mas agora tenho de explicar um nome.

E então, cartografar, «construir» mapas com palavras, frases (minhas e também de outros), notas, imagens, ecos, sons e evocações. Escrever. Também aqui. Sem qualquer critério, apenas aquele que resulta da vontade/saudade de estar num lugar. E então convocá-lo na memória e trazê-lo para aqui, onde há espaço para a imagem, a palavra e o som.

Também evoco para explicar o nome o início de um livro que é toda uma cidade sob um olhar que me agrada particularmente – «Roma. Exercícios de reconhecimento», de António Mega Ferreira:

«Cada viajante constrói, das cidades que ama, uma ideia que raramente coincide com a lógica da geografia urbana. Na sua forma de amar uma cidade, desenha percursos, associações imaginárias, mitos instrumentais que o fazem ver as fachadas, os monumentos, as praças e as gentes de uma determinada zona como os melhores sinais identificadores do espírito do lugar. A sua noção de geografia é essencialmente afectiva, as suas preferências não são racionais, e, por isso, essa zona eleita figura no seu espírito, e para sempre, como o centro da cidade.»

Este espaço não terá propriamente uma lógica que à partida se possa anunciar e declarar como princípio organizativo. Obedecerá talvez à lógica do amor pelos sítios e à indisciplina do registo. Vou dar conta de todos os centros que construi das cidades e de todos os lugares que não são cidades.

Ana Sofia Melo

Textos e fotos – Ana Sofia Melo (exceto quando indicada a fonte)

Creative commons licence

Licença Creative Commons
O trabalho de Ana Sofia Melo de https://cartografiapessoal.wordpress.com/ foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – NãoComercial – CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada. Com base no trabalho disponível em cartografiapessoal.wordpress.com. Podem estar disponíveis autorizações adicionais ao âmbito desta licença em https://cartografiapessoal.wordpress.com/.

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– Nuno Júdice, Cartografia de Emoções, Publicações D. Quixote
– António Mega Ferreira, Roma. Exercícios de Reconhecimento., Assírio & Alvim

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9 thoughts on “Sobre o blogue

  1. “…como se esta cidade exigisse algo novo, ainda não escrito, ainda não inventado para ser dita. Como se cada palavra não bastasse e as frases sobre ela fossem líquidas e por isso não se deixam fixar.”

    Dices bien, Ana Sofía…dices bien. Pero no es sólo la ciudad de Venecia la que exige algo nuevo. Es nuestro mundo todo el que necesita nuevas palabras que se fijen y nos fijen, que nos enseñen a mirar el mundo de una manera mas líquida y transparente, surgida a partir de la “lógica do amor pelos sítios”. Y que la indisciplina del registro devenga una nueva poética: una poética los lugares: Geopoética.
    Felicidades por tu blog.
    Xavier

    1. Olá, Xavier! Muito obrigada pelo seu comentário tão generoso…e encorajador, também. Foi com muita curiosidade que “visitei” as suas sugestões: o livro sobre Veneza e o blogue sobre a Costa Brava. E depois o site sobre “geopoética”. Gostei muito e estou muito grata por me ter dado a conhecer. Concordo, não é só Veneza que merece palavras novas…o difícil é encontrá-las, não é? Gostei muito da ideia de “mirar el mundo de una manera mas líquida y transparente” 🙂 A ver se conseguimos, então.
      Gracias por las felicitaciones 🙂 Felicidades para o seu blogue, também (já está na minha lista de blogroll).
      Sofia

  2. Gracias Sofía por tu comentario sobre mi web-site. Y me alegra que te hayan servido mis comentarios.

    Dices de Venecia que “Não encaixa em modelos de cidades, mesmo daquelas que, como ela, são atravessadas por água. A água é também parte desta cidade, habita-a.” Es una suerte que no encaje en ningún modelo de ciudad, en estos tiempos que todo lo homogenizan. Hoy en día, las ciudades pierden su hálito y su sentido a golpe de grandes eventos (exposiciones universales, olimpiadas…).

    ¿Crees, Sofia, que quiza el agua, esta agua que habita las cuidades, de alguna manera, las salva y las preserva? ¿A Venecia, a Barcelona, a Lisboa?
    Xavier

    1. Olá! Sim, mudei o “look” do blogue, sobretudo por causa das fotos, agora há mais espaço para elas. Aqui a primavera está muito cinzenta…Espero que por aí o sol brilhe mais 🙂 Obrigada por seguir-me aqui.
      Até breve!

  3. Ola adorei seu relato sobre Veneza.
    Vou em julho fazer o curso no Instituto Venezia e estou na duvida entre me hospedar no sestiere Dorsoduro ou Redentore. Como sou um pouco tímida e atrapalhada, fiquei insegura em ter que diariamente atravessar de vaporetto quando eu quiser descansar em meu quarto.
    Lendo suas anotações … quase mudei de ideia. assim peço uma sugestão sobre ficar na Giudecca ou hospedar me na casa de uma familia veneziana( como está combinado)
    você pode me contar mais sobre esta questão da travessia todas as vezes que volta para seu hotel; voltar tarde da noite? até que horas tem barco etc.
    Muito Obrigada Heloisa

    1. Olá, Heloísa!Muito obrigada pelas palavras tão simpáticas e bem-vinda ao blogue!
      Também eu estudei no Istituto Venezia 🙂 O Redentore foi a minha opção das duas vezes em que lá fiquei e, como se percebe pelo texto, ADOREI!!!! Um espaço muito especial, pela sua simplicidade (de essência muito franciscana), beleza natural dos jardins e meio envolvente, recursos e ambiente que se vive no Convento. É um espaço que nos proporciona muita autonomia, pois temos cozinha e sala comunitárias, sem horas de entrada e de saída limitadas. Da ilha da Giudecca ao Istituto demoramos 20minutos: 5/8m no vaporetto e o resto calmamente a pé, até chegarmos ao sestiere de Dorsoduro 🙂 O caminho a pé até lá é DELICIOSO…Nunca esperei mais do que 10m por um vaporetto e há 3 linhas diurnas que passam pela paragem do Redentor ( e que ligam a Dorsoduro e outros pontos importante de ligação ao centro aqui as linhas e os horários: http://actv.avmspa.it/it/content/orario-servizio-navigazione-0) e mais uma específica para a noite. Há sempre tansporte, mas, à medida que se aproxima a noite, os intervalos entre os vaporetto vão aumentando.E o noturno assegura as deslocações a horas tardias. Eu tinha as aulas da tarde, pelo que chegava a “casa” sempre depois das 22, às vezes mais, se jantava na cidade. Nunca tive problemas e também sou tímida e um pouco atrapalhada 🙂 E poder ver Veneza noturna desde o vaporetto é um privilégio, do meu ponto de vista. Tive colegas do Istituto que optaram por alojamento em famílias e também gostaram. Eu já tive essa experiência, também, noutra cidade italiana. É diferente, mas igualmente interessante.O sestiere Dorsoduro tem também um espírito muito de bairro e é muito popular na cidade, porque é o bairro universitário e porque tem muitos pontos de interesse turístico. Então, locais e turistas de passagem convivem muito bem ali. Além disso, está muito próximo das grandes atrações de Veneza.
      Bom, espero ter dado boas dicas 🙂 Se precisar de mais alguma informação, não hesite em contactar-me! É com muito prazer que partilho experiências e dicas de viagens 😉
      Desejo-lhe uma boa estadia em Veneza e dias felizes nesta cidade única!

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