Uma visão do mundo muito particular…

Por outras palavras

Este mundo começa com um belo pórtico. Atravessamo-lo e penetramos numa visão muito particular dos vários mundos e das gentes que nele habitam. É uma grande viagem. Que começou a ser sonhada na infância do viajante e futuro escritor. Ou ao contrário, que também é verdade – no escritor que já existia na criança que olhava o mundo com olhos de viajante. Um viajante atento, interventivo e muito, muito humanista, num tempo em que as distâncias eram difíceis de transpor, em que os mundos de cada pessoa eram muitas vezes prisões construídas por outros e difíceis de derrubar. Este viajante escritor deu o salto ainda adolescente e “voou” para lá do horizonte da sua terra natal, rodeada de montes para ele transparentes, pois através deles via o mar e os contornos dos países que estavam à sua espera.

Falo de Ferreira de Castro que, depois do Brasil, para onde foi trabalhar ainda muito novo na dura e hostil Amazónia, nunca mais parou e a sua curiosidade infantil transformou-se em asas que o levaram pelo mundo fora. Como também foi crescendo o escritor, começou a dizer esse mundo. Um mundo feito de maravilhas naturais e ainda daquelas que saíram ao longo do tempo das mãos e dos sonhos dos homens.

O autor nasceu em Ossela, Oliveira de Azeméis, no dia 24 de maio de 1898 e faleceu no Porto, a 29 de junho de 1974. Foi desde Ossela que adivinhou o mundo.

Entremos então no mundo de acordo com Ferreira de Castro…

[Teatro Massimo, Palermo, Sicília.]

Pórtico

«Pequeno, dez, onze anos melancólicos e tímidos, subíamos ao cume da serra que padroa a casa onde nascemos e ali, entre urzes e pinheiros, nos quedávamos a contemplar vizinhas terras. Sete quilómetros, apenas, havíamos percorrido do Mundo em que vivemos; o que, hoje, se ergue perto, parecia-nos, então, distante, mas nós já sonhávamos ir muito mais longe ainda.

Desse bravo sítio, onde desejamos repousar para sempre, face ao sol e ao fulgor das estrelas, via-se, lá em baixo, branquejar a casita nativa, quase a entestar o afogado vale; e, da banda oposta, outras várzeas, outros povoados, outros cerros, maravilhosa sucessão de planos, formas e cores, tudo laborado pela mão do Homem. Ao fundo, esboçava-se o grande sortilégio, o Mar, o íman que nos atraía ali.

No corpo pequenito, os nossos olhos, que haviam de ficar toda a vida tristes, esqueciam-se, horas a fio, a sonhar com a distância infinita, ante essa linha verde-azul do Oceano longínquo. Tudo quanto existia para lá da nossa vista nos parecia fabuloso e nos fascinava irremediavelmente.

Sentíamo-nos encarcerados e, no silêncio da cumeeira, onde ninguém perturbava a nossa cisma infantil, o próprio voo das aves serranas nos fazia sofrer, porque nos dava uma sensação de liberdade que não tínhamos, a liberdade que havíamos de amar, depois, ao longo da nossa existência.

Doze anos  e meio dobados, o feitiço da Distância pôde mais do que a família, do que nós próprios, do que a própria intuição da nossa fragilidade e da nossa inexperiência, e abalámos, voluntariamente, para o Mistério, atravessando o Oceano que tantas vezes nos havia chamado, quando os nossos olhos infantes mal o adivinhavam, difuso, informe, fim de horizonte, desde o tope duma ermática serrania.

Nunca mais essa ansiedade de vida errante encontrou limite. Ela constituíu a razão de muitos dos nossos esforços. E, país a seguir a país, um mar após outro mar, infatigáveis vagamundos, fomos percorrendo o Planeta. Nós amamos a poesia da terra,  as suas pompas naturais, o esplendor da sua luz, o deslumbramento dos seus cromatismos, a carícia dos seus ritmos – e amamos, sobretudo, o ser infeliz que a habita. Mas , nesse tempo, a Terra parecia-nos interminável, a lonjura mantinha-se sempre e a nossa curiosidade, em vez de saciar-se, deslocava-se para além do ponto atingido. Das três divindades – o Amor, a Literatura e o Mundo – o Mundo dir-se-ia ser a mais difícil de adorar integralmente. Eis, porém, um navio atracado ao cais– e o velho sonho que principia a consumar-se. Os nossos olhos vão, enfim, tomar posse do Contínuo Panorama e a nossa alma aliar-se, fraternalmente, com a alma vasta da Humanidade. Podemos ver o Homem e a terra com inteira pureza de espírito, com pleno amor, pois já não haverá em nós nenhuma dessas ambições individuais que perturbam o justo exame e maculam, ao ser remoídas, as horas de soledade.»[p.13-15]

Este pórtico abre a trilogia A Volta ao Mundo. Esta viagem em três tomos demorou três anos a ser registada. O tempo da sua realização não se mede em números, em datas, em registos de calendário, mas em emoções e maravilhamentos . Foi na companhia da sua mulher que o autor partiu para o mundo. Com o desejo de traçar uma rota fiel aos seus desejos,  percorreu por mar os longes e passou ao lado de percursos já delineados, distantes da sua curiosidade eclética. Os seus relatos, publicados em fascículos (e posteriormente reunidos e publicados em 1944) apresentam dados arquitetónicos, arqueológicos, históricos, religiosos, enfim, o que de humano faz o seu semelhante espalhado por geografias que ele tentou tornar mais próximas.

Desta vez fui eu com ele a bordo dos vários navios. As suas palavras levaram-me de volta a uma ilha que muito me fascinou – Sicília. Fui aos meus arquivos fotográficos e selecionei algumas imagens que retratam as minhas memórias de Palermo de outros pontos da ilha e que vão alternar com a visão do autor. Reconheci “a minha” Palermo em muitas das linhas por ele assinadas. As palavras são dos anos 40 do século passado, as imagens de 2013.

«(…) Estamos na maior ilha do Mediterrâneo, na mais povoada e na que encerra maiores ruínas dum pretérito esplendor. Mal, porém, metemos o pé em terra, a primeira coisa que os olhos leem é uma legenda política, em grandes letras traçada sobre os armazéns do cais: «O Mediterrâneo que, para os outros, constitui apenas uma estrada, representa, para nós, italianos, a própria vida».

Junto do porto rodam as famosas carroças sicilianas, de cavalos empenachados e varais, rodas e anteparas com cenas mitológicas, bíblicas e históricas, esculpidas em baixo relevo e pintadas, depois, num admirável acabamento artístico.

[Acho que as carroças sicilianas de que fala são estas, que nos dias de hoje permitem ao visitante passear pela cidade ou ao siciliano publicitar o seu negócio, recorrendo a este ícone…]

A cidade começa por ampla avenida marginal – Foro Umberto I – e o descuidoso visitante vê-se, de súbito, rodeado por bandos de cocheiros, tão gesticuladores, tão loquazes e persistentes na conquista do eventual cliente, como se tivessem herdado a personalidade e os costumes dos árabes que, outrora, dominaram aqui.

Palermo frui, desde tempos idos, o título de «Cidade Feliz» – e por grande porta, também «Felice» chamada, nela se entra, pelo lado do mar.

[Santa Rosalia, a protetora da cidade. As torres que se veem na fotografia pertencem à catedral.]

Apesar da sua longevidade, Palermo, sempre reconstruída através dos séculos, apresenta excelente traçado urbano, ruas amplas e retas, exuberantes jardins, airosas praças. Por toda a parte se topam igrejas barrocas, estátuas, um teatro monumental, de bela fachada, severos palácios, outros edifícios soberbos. Duas longas avenidas, a Via Maqueda e o Corso Vittorio Emmanuele, formam, ao cruzar-se, uma praça original: os «Quattro Canti». Em vez de terminarem em agudos cunhais, as quatro esquinas foram tornadas côncavas e em todas elas se construíram artísticas fachadas, com estátuas de reis da Sicília, das quatro estações e das quatro padroeiras da cidade. Destarte se obteve arredondada e graciosa praça barroca, que o barroco, o barroqueto e o árabe-normando imperam na maioria dos monumentos de Palermo.

[ A caminho da confluência das duas avenidas.]

É aqui o centro comercial, um comércio de luxo, de influência francesa, alternando com as lojazitas de todos os burgos. Cidade de 400.000 habitantes, nestas ruas transita, entre autocarros, automóveis e carros de cavalos, uma multidão simples, modesta e de olhos ora nostálgicos, ora sorridentes, que a alegria e a melancolia parece terem descoberto grata instalação na alma siciliana. De quando em quando, passam homens sem um braço ou sem uma perna; outros com as faces cheias de cicatrizes, restos das campanhas que a Itália tem realizado ultimamente.

[ Um dos “Quattro Canti”.]

Perto dos «Quattro Canti» campeiam vários templos, uma fonte monumental espelhando marmóreas estátuas e sempre esta teoria de nobres edifícios, simultaneamente austeros e garridos.

[Acredito, pela descrição feita, que a fonte de que fala é mesmo esta, na Piazza Pretoria. Tem o nome da praça.]

[Não me cansei de a fotografar…Chamam-lhe também a Fonte da Vergonha. E é fácil de perceber porquê, ao observarmos as estátuas.]

Ao lado dessas artérias de aristocrática fisionomia e das ruas de movimentado rumor, cheias de veículos, de transeuntes e do colorido que lhes dão tabuletas e escaparates comerciais, outras existem, tão solitárias e modorrentas, que, mesmo nos dias de semana, têm o ar e a luz das tardes dominicais.

[O Teatro Massimo. A praça que se situa em frente ao teatro é de visita obrigatória. Forasteiros e habitantes da cidade cruzam-se ali.]

Em toda a cidade flutua, porém, branda atmosfera, espécie de ternura geral, que se exala de tudo, dos seres e das coisas, e a tudo envolve, acariciadoramente.(…)[p.50-52]

[Um dos muitos quiosques espalhados pela cidade.]

Ilha de várias faces, os seus ridentes burgos costeiros, as suas excelsas paisagens, contrastam com as desoladas regiões do interior, promeninências de arrefecidas lavas, terra estéril que só dá o enxofre e na qual labuta, dia e noite, num ambiente de plaga infernal, mísera multidão. Na parte ribeirinha, entre as montanhas que cortam a Sicília, algumas tão imponentes que o Etna pode abrir a ígnea boca a 3.275 metros de altura, o homem cura da vida agrícola. Aí, a terra, de exuberante, deixa o fuste europeu medrar ao lado do fuste tropical, como se o clima se empenhasse em desfazer a divisão do Mundo por continentes.

[Um olival siciliano.]

A Sicília exporta azeite, frutas secas, algum vinho, alguns cereais e muito enxofre – e exportava, sobretudo, homens, no tempo em que as portas americanas não haviam sido fechadas à emigração. Afanoso e sonhador, bom camponês, destemido marinheiro, o povo siciliano, apesar das muitas experiência históricas feitas na sua terra, viveu sempre em regime de deserdado. Os grandes latifúndios, que mantinham sobrevivências feudais, existiram na Sicília até agora. Contam-se os dias desde que o governo italiano aboliu parte desses remotos privilégios e cuidou de entregar as terras a quem as fizesse prosperar, obra que está longe de ser concluída, dado que os velhos interesses particulares a contrariam a todo o instante. Além disso, as lides bélicas em que Roma tem andado exigiram da ilha e de toda a Itália um esforço depauperante. (…) [p.62-63]

[O Etna e as suas crateras fumegantes.]

É quase a hora do «tramonto» quando reentramos em Palermo. As tintas crepusculares do Mediterrâneo dão à velha cidade uma expressão lírica, uma espécie de nostalgia de vida imponderável, talvez de vida oculta, de braços masculinos cerrando-se sobre corpos femininos, algures, na penumbra das alcovas de intensas volúpias. Os parques das grandes vilas palermitanas, com suas estátuas, seus íntimos pavilhões entre arvoredo, insuflam um feitiço maior à terra siciliana de montanhas, esguios ciprestes, quentes palmeiras e frescos loureiros-rosas. (…)»[p.72-73]

Ferreira de Castro, A Volta ao Mundo, vol.I, Guimarães & C.ª, 1950.

[Esta foto foi tirada à hora do “tramonto”…]

A ilha siciliana é uma das paragens no seu itinerário. A viagem segue depois para a Grécia e termina, no primeiro volume, no Iraque. Nos dois seguintes, as coordenadas do mapa que vai construindo ao ritmo das chegadas aos portos e do levantar das âncoras, vão passar ainda pela Índia, Birmânia, Japão, Indochina, Estados Unidos da América, Bornéu.

Vale bem a pena continuar viagem com Ferreira de Castro!

Álbum “romaníssimo” (I)

Roma, Itália

Começo com uma confissão: a viagem a Roma começou a ser desenhada durante  o tempo de um regresso a um livro para mim muito especial e inspirador. Este.

Foi a este livro de António Mega Ferreira que fui buscar uma das passagens que dá sentido a este blogue desde o seu início e que aqui deixei …

Roma seria para mim um longo exercício de reconhecimento, efetivamente. Depois de mais ou menos 20 anos passados desde a minha primeira incursão romana, estava curiosa por perceber até que ponto alguns dos seus recantos me seriam familiares e desejosa de conhecer novos. Com mais tempo, mais calma e outra atenção. O bom de repetirmos lugares é podermos olhar para os sítios sem um desejo sôfrego de tudo abarcar num roteiro sempre incompleto. Por mais vezes que regressemos a um lugar. E em Roma essa incompletude é ainda mais evidente. Como não ser e não sentir ali que devemos regressar sempre, quando estamos numa cidade com quase 3000 anos? Apelidada de a “eterna”. Sem princípio nem fim. Para lá do tempo. O tempo desta cidade é sentido à nossa medida. O nosso tempo em Roma redimensiona todos os tempos da cidade, que se mostram nas fachadas dos palácios, nas pedras das colunas e dos arcos, nas torres das igrejas construídas sobre outras igrejas e outros templos antigos, nas estátuas, nas janelas, nas fontes e nas praças. Roma convida a uma leitura muito própria, a uma gramática que só aqui tem aplicação e que ajuda a  explicar e a integrar as ressonâncias que provoca a quem a visita. Uma gramática que reescreve a cidade ao longo das épocas. Uma cidade extraordinária, antiga como muito poucas e com traços dessa idade que exibe orgulhosamente.

Os meus dias em Roma balançaram entre o já conhecido e o que queria muito conhecer. Levava uma breve lista de lugares obrigatórios e vontades. Sei que vou regressar ao tempo romano, por isso o que ainda não aconteceu vai acontecer.

Percorri as ruas e as praças da cidade com uma alegria extra, a juntar a todas as outras – a de o blogue ter sido nomeado poucos dias antes para os prémios do Concurso “Open World Awards” promovido pela Momondo, em três categorias. Passariam à lista dos finalistas os 10 blogues mais votados pelo público. Já aqui tinha manifestado o meu desejo de passar a essa fase e convidei os meus leitores a ajudarem-me. Muito obrigada! A votação chegou ao fim e na categoria “Fotografia” fiquei em 2.º lugar, fazendo parte dos finalistas. Nas outras duas categorias, “Open World” e “Blog”, alcancei o 14.º e 16.º postos, respetivamente. Considerando  total de candidatos (63 e 85 nestas duas categorias), fiquei muito contente por ter conseguido os resultados mencionados. Estou muito grata e cada um dos votos fez-me ter ainda mais vontade de escrever e de fotografar. De continuar aqui, neste espaço de partilha e, espero, de início de muitas viagens.

Como forma de agradecimento, lembrei-me de organizar um álbum de fotografias de Roma. Imagens que ilustram uma identidade, a de uma cidade que foi já e longamente – caput mundi. O centro de um mundo, de uma cultura, de um povo. O berço de uma matriz que se disseminou pelo espaço do império e que perdura no tempo até aos dias de hoje.

E para que essa viagem em fotos seja ainda mais romana, sugiro uma banda sonora para acompanhar a leitura. Uma música que evoca as ruas, as praças, o céu de Roma. A sua luz ao fim da tarde, que parece que se cola  aos edifícios dando-lhes um tom ocre muito particular. O tema convida ainda a vestir a pele dos romanos, a tornarmo-nos como eles ao deambularmos pelas vie e vicole. Como no ditado: “Em Roma, sê romano.” É esse o convite que cada foto faz.

Bem-vindos a Roma e ao seu modo muito próprio de ser e estar.

Uma boa maneira de começar Roma é com o Panteão. Situado no Campo de Marte, é um monumento dos tempos do império consagrado às mais importantes divindades olímpicas. Mandado construir pelo imperador Adriano, ergueu-se sobre um outro templo, dedicado a Júpiter, entre 118 e 125 a.C.. De entre os monumentos mais antigos, é o mais bem conservado de toda a cidade.

O Panteão por dentro…De uma geometria espantosamente bela e leve.

Era a minha segunda vez ali, no interior do altar dos deuses, aberto ao céu. Também quis repetir o castelo de Sant`Angelo. Adriano é o nome que liga estes dois lugares. Este imperador queria ali a sua última morada e mandou também construir a ponte que tem o mesmo nome do castelo. Na altura o que surgiu ali foi um mausoléu. A história do edifício deu-lhe depois o rosto de fortaleza, prisão e refúgio para papas.

Ponte e castelo Sant`Angelo.

Até chegar ao castelo, percorri as margens do Tibre.

Um passeio imperdível, este. Deixarmo-nos ir, seguindo o leito do rio, ladeado por árvores cujas copas e ramos se lançam sobre ele, inconformados que estão com os muros que os separam.

Em redor do castelo há um jardim com pinheiros, ciprestes e carvalhos centenários. Percorri  o jardim e foi isto que vi.

 

Havia outro regresso muito desejado. À minha praça preferida – a praça Navona. Fui lá quase todos os dias, geralmente de manhã bem cedo, quando se preparava para um novo dia. Tive muita sorte com o tempo, tive sol e luz todos os dias. E todas as manhãs aquela praça me pareceu ainda mais brilhante do que aquela que tinha na memória.

A praça tem um formato que se explica se pensarmos que outrora foi um estádio, mandado construir por Domiciano em 86 d.C.. Com os seus 275 por 106 metros, desafia as referências habituais para espaços como este. Mais tarde, foi um mercado.Com o tempo, em seu redor foram erguidos palazzi muito ao gosto barroco. A fonte que se vê nesta fotografia tem assinatura de Gian Lorenzo Bernini e representa quatro rios: o Ganges, o Nilo, o Danúbio e Rio da Prata, simbolizando quatro continentes. Não é só esta fonte que é barroca, a igreja(Chiesa di Sant`Agnese in Agone), cuja fachada domina a imagem, é de Borromini  e apresenta também traços dessa sensibilidade. Por dentro e por fora. Desta vez entrei, ainda não a conhecia no seu interior.

O rio Ganges, segundo Bernini.

No outro lado da praça uma outra fonte – Fontana del Nettuno. Estas são as minhas preferidas. Há uma terceira fonte, na parte sul da piazza – Fontana del Moro.

Foi bem junto da Fontana del Nettuno que eu comi o primeiro gelado em Roma, no Tre Scalini.

Durante as longas caminhadas pela cidade fui registando alguns traços que completam o retrato de Roma. Pequenos detalhes que me fizeram parar e adiar alguns dos meus desejos, alterar escolhas e prioridades.

Na via Condotti, uma das mais afamadas pelas suas lojas e pelo facto de estar muito próxima da escadaria de Trinità dei Monti, deparei-me com estas flores a contrariarem o sentido dos passos de todos quantos se dirigiam para a famosa scalinata. Tive a sorte de no terceiro dia ter visto as escadas cobertas de vasos de azáleas. De um dia para o outro, mãos mágicas de funcionários da câmara tinham trazido a primavera aos degraus mais cobiçados para fotos e poses multiplicadas.

Scalinata della Trinità dei Monti.

As nuvens que se veem despareceram dos céus de Roma. São ainda restos de noite; esta imagem foi captada bem cedo pela manhã. As flores “nasceram” aqui no dia 13 de abril.

No chão, o distintivo – Senatus Populusque Romanus , sinónimo de Roma.

Estátuas assim, de uma incompletude que é sinal de tempos antiquíssimos e de uma história contada em cada fratura, falha, remendo, mancha. Espalhadas pela cidade, pelos museus e galerias, empoleiradas nas pontes, em pedestais ou incrustadas em nichos nas fachadas. Esta fica encostada ao Palazzo Venezia.

Os gatos de Roma. Parece que este animal gosta de Roma. Também em Veneza há muitos gatos, encontrei-os por toda a parte  e de certeza que também gostam daquela cidade. Começo a acreditar que estes felinos adoram Itália…

As vespas. Muitas. Estas aparecem alinhadas. Com um intervalo deixado por uma que rapidamente foi substituída.

Estas são bem mais coloridas, como mais colorido me pareceu também o Trastevere, que literalmente significa “o que fica do outro lado do Tevere”, ou seja, do rio Tibre. Não me lembro de ter ido a esta zona da cidade na minha primeira vez em Roma. Por isso estava na minha lista de desejos prioritários. Foi praticamente todo um dia passado deste lado do rio, que merece um artigo só a ele dedicado.

Assim como a história desta imagem: tirado no Campo de`Fiori, outra praça que eu queria tanto conhecer. Por muitas razões. Uma delas tem a forma de carciofi (alcachofras). São centrais num prato bem romano – carciofi alla romana. Eu experimentei-as, sim, mas alla giudia, no bairro judeu.

Eis a alcachofra. Como uma flor que se come. Neste mercado na praça havia muitas. Fresquíssimas. A serem preparadas para quem as quisesse levar para o almoço daquele dia. No dia a seguir haveria mais.

 

(Este álbum continua…)

 

ASM

De Roma com alegria

+ do que 1

Cheguei há poucos dias de Roma e trago comigo boas notícias. De um feliz regresso a uma cidade que visitei pela primeira vez há cerca de vinte anos darei conta em próximos posts. Mas agora importa falar de um extra que levei na bagagem – a notícia recebida em véspera de partida de que o blogue está nomeado em três categorias num concurso lançado e organizado pela Momondo.

[Vista desde o cimo da Trinità dei Monti.]

A Momondo quer levar pessoas a viajar, a descobrir, a deixarem-se encantar pela diversidade do mundo, pelas pessoas que o habitam, pelos costumes e tradições dos lugares que fazem este planeta. Para isso, quer dar maior visibilidade e destaque a todos aqueles que escrevem, fotografam, pensam e sentem o mundo. A ideia é meritória de aplausos e os blogues a concurso merecem visitas demoradas. Há palavras e imagens que dão conta de formas muito pessoais e interessantes de olhar o mundo.

Foi por isso com muito entusiasmo e alegria que recebi a notícia de que fazia parte da lista. E em três categorias: Open World, Blog e Fotografia. Com esta alegria na minha bagagem emocional percorri as ruas de Roma, ainda com mais vontade de sobre elas escrever aqui. Cada disparo na máquina revestiu-se de maior motivação. Cada experiência foi marcada ainda com mais atenção aos detalhes e anotações rápidas no meu bloco de notas que sempre me acompanha. Com o tempo, vou dar conta dos meus dias romanos, esperando que da minha partilha resulte um desejo irreprimível de partir à descoberta da cidade.

[Fori Imperiali.]

O concurso está numa fase de seleção de finalistas e estes serão apurados de acordo com a  votação do público. A votação decorre até ao dia 30 de abril. Eu gostava muito de passar à fase seguinte. Por isso conto com o vosso voto, pode ser? É fácil e rápido, é só aceder aos links que aqui deixo e votar. Se acharem que sim, podem fazê-lo todos os dias nas 3 categorias. Cliquem aqui para votar:

Open world
Fotografia
Blog

[Vista que se tem da cidade desde a Passeggiata del Pincio.]

Agradeço já, muito muito. Um obrigada gigante.

E deixo aqui imagens de Roma. Com a sua luz e com as suas árvores. E eu, que gosto tanto de árvores, deliciei-me com os pinheiros, mais altos que as torres altas, com os ciprestes. Em próximos posts deixarei mais imagens. Das suas praças, ruas,mercados,  jardins, fontes, fachadas imponentes, gente, sabores e aromas…Sem esquecer os seus cenários de filme(s).

[Lungotevere.]

ASM

6 anos aqui

+ do que 1

Há seis anos que também estou aqui. Foi no terceiro dia do mês de abril de 2011 que decidi criar este espaço para partilha. E já lá vão mais de 100 posts, não sei quantas fotografias, outros tantos comentários… A somar a isto, cada vez mais leitores e seguidores, quer do blogue, quer da página de Facebook ou da minha conta no Instagram, entretanto criadas.

Muito obrigada! Por me lerem, por comentarem, por partilharem e por me fazerem acreditar que vale a pena continuar a ser aqui.

[Quase parece que estou presa em Veneza…Não, eu e ela estamos refletidas numa janela da ilha de San Giorgio Maggiore…]

Dizem as estatísticas do blogue que o texto mais lido e apreciado é este. Logo seguido de um outro, com muitos lugares dentro – Veneza, Constância, Trieste, Israel, Porto, Alentejo, Guimarães. E sons e aromas da Primavera.

[À saída de uma exposição na Biennale de Veneza, 2015. Gostei do tema da mostra – “We must risk delight”.]

Tenho vindo a assinalar o aniversário deste espaço e este ano não é exceção. Tudo o que nos faz feliz deve ser celebrado e este blogue é disso exemplo – sou feliz aqui.

[Uma rua na Zambujeira do Mar.]

Este é o post do primeiro aniversário. Os 5 anos foram assinalados assim. Sou feliz a viajar, a planear as viagens, a falar e a escrever sobre os sítios, as pessoas e as experiências que tenho tido a sorte de conhecer. Sou feliz também quando leio sobre outros lugares ou sobre aqueles por onde passei, mas que não são os mesmos, porque vistos por outros olhos. Cada sítio é caleidoscópico, assume sempre outras formas. Ou porque são destinos repetidos (e como eu gosto de repetir…) e nunca a primeira vez é igual às outras ou porque outra pessoa vive esse mesmo lugar doutra maneira e escreve sobre essa sua experiência do seu “aqui”. Por isso este blogue tem tantas visitas a livros, autores, textos e frases. Daí que nos roteiros que aqui deixo tantas vezes se encontram livrarias, ruas com nomes de escritores, curiosidades de vidas escritas e inscritas nos lugares.

Para assinalar o sexto aniversário decidi escolher alguns momentos de leituras prévias ou posteriores às viagens. Leituras que funcionaram como lugares, já que gosto de voltar a elas várias vezes, como acontece com os regressos que faço aos sítios da minha preferência. Também as escolhi porque explicam muitas das viagens e leituras que faço. Palavras de escritores que alternam com fotografias do meu mapa.

Que cada passagem seja lida como uma forma de agradecimento por estarem desse lado, enquanto eu vou estando aqui.

[Foto tirado a bordo de um vaporetto em Veneza. No vidro, o reflexo do rosto de uma passageira. O  blogue pode ser como este vaporetto, em que se dá a coincidência do eu que escreve com todos quantos leem. ]

«A saudade de casa é uma sensação que muitos conhecem e de que muitos sofrem; eu, por outro lado, sinto uma dor menos conhecida, e o seu nome é “saudade de estar fora”. Quando a neve derrete, quando chegam as cegonhas e partem os primeiros vapores, sinto a dolorosa agitação de viajar.»

Hans Christian Andersen, carta de 1856, citada em Jens Andersen, Hans Christian Andersen

[Encontrei estas asas numa parede do mosteiro da congregação mequitarista em Veneza – na ilha de San Lazzaro degli Armeni. Trouxe-as comigo e andam sempre dentro da minha cabeça…Uns dias mais abertas, outros recolhidas…]

 

«A viagem é um estado de espírito. Não tem nada a ver com a existência nem com o exótico. É quase inteiramente uma experiência íntima.»

Paul Theroux, Fresh Air Friend

 

[Em Ortigia, Siracusa, Sicília. Apanhada a fotografar o mar.]

«Quando observamos um planisfério, a princípio temos alguma dificuldade em avaliar as distâncias. Só os acrobatas em aritmética ou os sobredotados em cálculo entendem clara e distintamente o significado de uma escala. (…) Como dizer o mundo através de um mapa que se limita a representá-lo reduzindo-o a meras convenções?

Ficamos imediatamente presos a este estranho paradoxo: o planisfério parece pequeno e o mundo vasto. Mas o inverso também é verdade: o planisfério é vasto e, contudo, o mundo pequeno porque, não obstante a sua natureza e a sua extensão, qualquer lugar está porém ao nosso alcance e, graças aos transportes modernos, cada vez mais rapidamente. (…) Todos os destinos se tornaram possíveis – é tudo uma questão de tempo. Neste campo dos possíveis, como eleger um local? Qual deles escolher? Ao qual renunciar? E por que motivos? Entre todas as combinações imagináveis, por qual nos devemos decidir, e porquê?(…)

Não escolhemos os lugares predilectos, somos solicitados por eles.(…) Cada corpo aspira  descobrir o elemento no qual se sente melhor e que outrora, nas horas placentárias ou primordiais, fecundou sensações e prazeres confusos, mas memoráveis. Há sempre uma geografia que corresponde a um temperamento. Resta encontrá-la.

Uma palavra, um nome, um lugar, um sítio legível no mapa chama então a nossa atenção. O nome de um país, de um curso de água, de uma montanha, de um vulcão, de um continente, de uma ilha ou de uma cidade. O indistinto, o visceral reencontram-se numa emoção desencadeada subitamente por um nome fixado na memória: ir ao Tibete, contemplar o rio Amour, subir ao monte Fuji, escalar o Etna, atravessar as montanhas Ngong, nadar no oceano Pacífico, atracar em Guernsey, visitar Adis Abeba, percorrer as ruas de Cirene, navegar na baía de Along – cada qual dispõe de uma mitologia antiga criada pelas leituras de infância, pelas recordações de família, pelos filmes, pelas fotografias, pelas imagens de um mapa-múndi de escola pendurado no fundo da sala de aula num dia melancólico. Depois, passamos à acção de forma a concretizar o nosso sonho antes de morrer(…)

[Escalei uma das crateras do Etna. No caminho para o topo, foi esta uma das imagens que retive.]

[Se fui ao Mont Saint-Michel foi porque entrei dentro do sonho do meu pai. Ele queria muito lá ir e sempre falou, a mim e aos meus irmãos, desde pequenos, deste sítio mágico.]

Sonhar com um destino é obedecer a um imperativo que, no nosso íntimo, fala uma língua estrangeira. (…)

A viagem começa numa biblioteca. Ou numa livraria. Misteriosamente, ali prossegue, na claridade de razões antes recalcadas no corpo. (…) A riqueza de uma viagem necessita, antes de mais, da densidade de uma preparação – da mesma forma que nos expomos a experiências espirituais convidando a alma à abertura, ao acolhimento de uma verdade submersa. A leitura age como rito iniciático, revela uma mística pagã. O aumento do desejo culmina num prazer requintado, elegante e singular.(…)

Daí os livros e, em primeiro lugar, o atlas(…). Com um mapa, iniciamos a nossa primeira viagem, seguramente a mais mágica, de certeza a mais misteriosa. Porque evoluímos numa poética de nomes, de traçados, de volumes desenhados, de cores.(…)

O atlas revela, sem dúvida, o essencial, mas não tudo. Falta à sua opção conceptual uma polpa adicionada pela literatura e pela poesia. Porque, mais do que ninguém, o poeta coloca o seu corpo subjectivo no centro do lugar assombrado pela sua consciência e sensibilidade. Todas as suas emoções, sensações, percepções, todas as suas histórias singulares amadurecem na sua alma fantasiosa e traduzem-se um dia num pequeno texto que oferece a quinta-essência de sinestesias fantasiosas: sentir cores, saborear perfumes, tocars sons, escutar temperaturas, vislumbrar ruídos. (…)»

Michel Onfray, Teoria da Viagem

«Um lugar nunca é apenas “aquele” lugar: aquele lugar somos um pouco também de nós. Seja como for, sem o sabermos, trazíamo-lo dentro de nós e um dia, por acaso, chegamos lá. Chegamos no dia certo ou no dia errado, conforme, mas isso não é reponsabilidade do lugar, depende de nós. Depende de como lemos esse lugar, da nossa disponibilidade para o acolhermos dentro dos nossos olhos e dentro da nossa alma, de estarmos alegres ou melancólicos, eufóricos ou disfóricos, de sermos jovens ou velhos, de nos sentirmos bem ou de nos doer a barriga. Depende de quem somos no momento em que chegamos a esse lugar. Estas coisas aprendem-se com o tempo e, sobretudo, viajando. (…)»

Antonio Tabucchi, Viagens e outras viagens

 

[Um lugar onde já estive várias vezes e onde quero sempre voltar, porque fui lá sempre em momentos certos – Veneza. Aqui estou dentro do Caffè Florian. Um café que existe desde 1720. Esta sala “vestiu-se” por dentro de roupagens mais modernas, pois tratava-se de uma instalação artística para a bienal de arte.]

Boas viagens e boas leituras!

 

ASM

Para celebrar este dia da Poesia: uma cidade, um poeta e um hotel.

Porto, Portugal

A cidade do outro lado do reflexo.

Comecei o ano de 2017 numa cidade que me é muito. Foi a primeira grande cidade que conheci, que muitas vezes visitava em criança com os meus pais e irmãos e onde vivi 5 dos mais importantes anos da minha vida. Muito do que sou e sei devo a esta cidade. Muito do que define as minhas ideossincrasias, muito do que amei e amo encontrei aqui: livros, filmes, jardins, os seus palácios, os seus museus, os cafés, as livrarias, as praças.

E, claro, o rio escuro atravessado por pontes altas de ferro e barcos que vinham do interior do país com os frutos da terra transformados no vinho que tem o nome da própria – Porto. Algumas das pessoas que fazem parte da minha biografia mais solar encontrei-as aqui.

O “Porto” no interior da Livraria Lello & Irmão.

É natural do Porto um dos meus poetas preferidos – Almeida Garrett. Nasceu em 1799 na cidade, numa casa que ainda está de pé.

Para o seu tempo, era um moderno: na visão do mundo, do seu país e do que queria para este. Um romântico que renovou a forma de dizer o amor e o turbilhão de emoções e contradições que este sentimento instala no ser humano. Comecei logo por gostar muito dos seus poemas reunidos em duas antologias – “Flores sem fruto” (1845) e “Folhas Caídas”(1853). Li depois o livro “Viagens na minha terra”(1846). Quando li esta obra pela primeira vez era demasiado jovem para a apreciar devidamente e para reconhecer nela a modernidade que encerra – nos temas, na linguagem, no discurso que deambula pelas paisagens, pelas ideias, pelas personagens e pelas reflexões de uma profundidade poética e à qual o leitor adere naturalmente. Começa assim:

«Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes, de Inverno, em Turim, que é quase tão frio como Sampetersburgo — entende-se. Mas com este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse, ao menos ia até o quintal.

Eu muitas vezes, nestas sufocadas noites de Estio, viajo até à minha janela para ver uma nesguita de Tejo que está no fim da rua, e me enganar com uns verdes de árvores que ali vegetam sua laboriosa infância nos entulhos do Cais do Sodré. E nunca escrevi estas minhas viagens nem as suas impressões: pois tinham muito que ver! Foi sempre ambiciosa a minha pena: pobre e soberba, quer assunto mais largo. Pois hei-de dar-lho. Vou nada menos que a Santarém; e protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se há-de fazer crónica.

Era uma ideia vaga, mais desejo que tenção, que eu tinha há muito de ir conhecer as ricas várzeas desse Ribatejo, e saudar em seu alto cume a mais histórica e monumental das nossas vilas. Abalam-me as instâncias de um amigo, decidem-me as tonterias de um jornal, que por mexeriquice quis encabeçar em desígnio político determinado a minha visita .

Pois por isso mesmo, vou: — pronunciei-me.

São 17 deste mês de Julho, ano de graça de 1843, uma segunda- feira, dia sem nota e de boa estreia. Seis horas da manhã a dar em S. Paulo, e eu a caminhar para o Terreiro do Paço. Chego muito a horas, envergonhei os mais madrugadores dos meus companheiros de viagem, que todos se prezam de mais matutinos homens que eu. Já vou quase no fim da praça, quando oiço o rodar grave mas pressuroso de uma carroça d’ancien régime: é o nosso chefe e comandante, o capitão da empresa, o Sr. C. da T. que chega em estado.

Também são chegados os outros companheiros. O sino dá o último rebate. Partimos.(…)»

Almeida Garrett, Viagens na minha terra, Editora Livraria Sá da Costa, Lisboa.

Já a reli várias vezes e de cada vez que o faço fico a gostar ainda mais deste discurso que é colado a uma viagem e cujo narrador parece que está sentado ao nosso lado, a apreciar e a focar ao mesmo tempo a paisagem física do Vale de Santarém, mas também a difícil e complexa paisagem política, económica e moral que caracterizava o Portugal da época. E que tão bem soube Garrett retratar.

Mas Garrett inovou também no teatro, protagonizando uma renovação nesta arte cuja herança se nota ainda hoje: fundou o Conservatório Nacional, a ideia da criação de um teatro nacional foi sua e surgiu o Teatro Nacional D.Maria II e escreveu ele também um novo reportório para os palcos portugueses. Muito a pensar no público que queria que enchesse as salas, que admirasse o trabalho dos atores, que se reconciliasse com esta arte. Tudo isto em novos moldes, que ele bebera nos países do norte da Europa, quando se viu obrigado a abandonar o seu país, pois o Garrett liberal era mal visto pelos não liberais.

A sua obra teatral serviu de inspiração ao arquiteto que redesenhou um espaço no Porto – o Hotel Teatro. Foi aqui que fiquei alojada nos primeiros dias do ano. O hotel foi reconstruído precisamente no espaço de um antigo teatro – o Teatro Baquet. Numa rua centralíssima, a dois passos da estação de São Bento e perto de muitos locais de visita obrigatória para quem visita o Porto pela primeira vez. Não era o meu caso, mas soube-me bem revisitar áreas emblemáticas como a Ribeira, a renovada Rua das Flores, o café Majestic, os Clérigos, a Avenida dos Aliados, a Praça dos Leões, o Jardim da Cordoaria. Atravessar a ponte de ferro e apreciar a cidade do outro lado do rio. Ainda ter tempo para observar, sob os primeiros raios de sol do ano, as esplanadas e as gaivotas na zona ribeirinha.

A cidade lá fora oferece inúmeros pontos de interesse, contudo o espaço do próprio hotel é muito apetecível. Para além da porta da entrada, sugestivamente transformada em poema, as únicas de que me lembro são as dos quartos. Cortinas, a lembrar muito as do teatro, separam outras divisões e espaços. O restaurante tem o nome “Palco” e o bar chama-se “Plateia”.

Toda a decoração do Hotel nos transporta para a arte do palco, com recriação dos camarins; há roupa espalhada pelos corredores de acesso aos vários espaços; no bar olha-se para cima e parece que estamos a ver a teia por cima de nós; a iluminação é escassa e há projetores a irradiar a luz focada. Os corredores de acesso aos quartos sugerem os bastidores do palco. Há fotografias num tamanho que preenche as paredes.

No bar do hotel, onde se podia ouvir naqueles dias excelente música brasileira (aqui na foto vê-se Caetano Veloso), fixei duas imagens.

Esta já não sei o que retrata. Foi uma foto aleatória, com uma imagem de luzes que me agrada, por isso aqui a deixo.

Esta sim, sei bem o que fixa: uma foto com uma citação, numa revista que era um catálogo dos hotéis que se destacam pelo design. O hotel portuense constava dessa lista. Merecidamente, quanto a mim, que percebo pouco da matéria. Gostei também de rever o Canal Grande de Veneza – esta cidade alberga vários hotéis que constam do catálogo.

A porta do hotel é esta e é um poema – “Seus olhos”.

Abre-se a porta e o espetáculo da cidade está ao nosso alcance.

O café Majestic.

Bem junto à Torre dos Clérigos.

A livraria Lello a homenagear um poeta.

Antes de terminar este post, deixo um outro poema de Almeida Garrett.

Os cinco sentidos

São belas – bem o sei, essas estrelas,
Mil cores – divinais têm essas flores;
Mas eu não tenho, amor, olhos para elas:
Em toda a natureza
Não vejo outra beleza
Senão a ti – a ti!

Divina – ai! sim, será a voz que afina
Saudosa – na ramagem densa, umbrosa.
Será; mas eu do rouxinol que trina
Não oiço a melodia,
Nem sinto outra harmonia
Senão a ti – a ti!

Respira – n’aura que entre as flores gira,
Celeste – incenso de perfume agreste,
Sei… não sinto: minha alma não aspira,
Não percebe, não toma
Senão o doce aroma
Que vem de ti – de ti!

Formosos – são os pomos saborosos,
É um mimo – de néctar o racimo:
E eu tenho fome e sede… sequiosos,
Famintos meus desejos
Estão… mas é de beijos,
É só de ti – de ti!

Macia – deve a relva luzidia
Do leito – ser por certo em que me deito.
Mas quem, ao pé de ti, quem poderia
Sentir outras carícias,
Tocar noutras delícias
Senão em ti! – em ti!

A ti! ai, a ti só os meus sentidos
Todos num confundidos,
Sentem, ouvem, respiram;
Em ti, por ti deliram.
Em ti a minha sorte,
A minha vida em ti;
E quando venha a morte,
Será morrer por ti.

 

Dia Mundial da Poesia, 2017

ASM