Encontro marcado (6)

Roma, Itália

O encontro é em Roma. Com um poeta – José Tolentino Mendonça. A propósito do seu último livro – A beleza que nos pertence–  e que reúne aforismos sobre os mais variados temas: amizade, compaixão, felicidade, infinito, lentidão, literatura e arte, peregrinação, perguntar, sabedoria, tempo… Os exemplos podiam continuar, esta é apenas uma breve escolha que seguiu o meu critério de leitura.  O livro é muito recente e chegou há dias às minhas mãos.

Esta folha é de um dos muitos plátanos frondosos que se debruçam sobre o rio Tibre.

As palavras que tem dentro estão disseminadas pelas obras anteriores do autor. Livros que traduzem o seu pensamento, porque é também um pensador. A sua reflexão sobre a religião e a fé, porque é também um teólogo e um destacado biblista e tradutor. A sua sensibilidade e visão poética do mundo, porque é também um grande poeta. Esta dimensão da sua vida interessa-me mais e acompanho-a com toda a atenção e interesse. Depois todas as outras.

José Tolentino Mendonça já habita este blogue há algum tempo. Lembro-me de um seu poema, “Foglio d`Inverno”, que convoquei para um texto sobre o dia da poesia em 2015.A leitura das suas palavras no artigo “Em Roma, salvos pela beleza” integrado num guia da cidade, fez-me sonhar com um regresso lento a Roma. Em 2015, data da edição desse guia, eu ainda não imaginava que, de facto, esse regresso iria acontecer dali a dois anos. Também não sabia que esse regresso seria repetido em 2018 e 2019.

O Tibre, a ponte Sisto e ao fundo a cúpula de São Pedro, Vaticano. E os plátanos.

No intervalo desses regressos, o poeta, teólogo, filósofo, biblista tornou-se bibliotecário da biblioteca do Vaticano e responsável pelo seu arquivo. Tornou-se Arcebispo e Cardeal. Poeta sempre, os livros de poemas continuaram a surgir. E continuarão, estou certa. Vale muito a pena conhecê-los, relê-los como quem bebe e quer beber para saciar uma sede que não cessa.

A pretexto deste seu último livro e depois de um fim de semana de uma tão importante nomeação, revisitei o meu mais recente álbum romano. Deixo imagens da Roma que vi, com ressonâncias da Roma que li e antecipei nas palavras de José Tolentino Mendonça. Sejam elas em forma de prosa ou de poesia. São fotografias da cidade em pleno verão, este que passou e que ficou marcado por muita turbulência política que abalou Itália. Nada a que a cidade eterna não esteja habituada. A ela sobreviverá, como sempre sobreviveu.

No verão a Ilha Tiberina transforma-se numa enorme sala de cinema ao ar livre.

As imagens são minhas, as palavras são do poeta que vive em Roma.

Neste regresso subi ao Gianicolo, uma das colinas da cidade. É este o panorama que dali se tem…

Sobre a amizade:

«Há aquele aforismo conhecido de T.E.Lawrence: “O meu nome é pertença dos meus amigos.”(“My name is for my friends.”) De facto, só quem nos ama pronuncia corretamente o nosso nome, sabe o seu significado até ao fim, está apto a nomear o nosso mundo na sua complexa e enigmática inteireza. Só quem nos ama é capaz de ver-nos como realmente somos: esta mistura apaixonada e contraditória, esta aventura conseguida e, ainda assim, inacabada, esta pulsão de nervos e de alma, de opacidade e vislumbre.» (p.17-18)

Ainda a vista desde o Gianicolo.

A lentidão:

«A lentidão ensaia uma fuga ao quadriculado; ousa transcender sempre que possível o meramente funcional e utilitário; escolhe muitas vezes conviver com a vida silenciosa; anota os pequenos tráficos de sentido, o manuseamento diversificado da luz, as trocas de sabor.» (p.105)

Depois dos degraus, uma igreja no Gianicolo: a de San Pietro in Montorio.
O interior da igreja(1).
No interior(2).
A última imagem do interior, mesmo antes de sair.

Palavras sobre  peregrinação:

«A experiência da viagem é a experiência de fronteira e do aberto, de que o homem precisa para ser ele próprio. Nesse sentido, a viagem é uma etapa fundamental da descoberta e da construção de nós próprios e do mundo. É a nossa consciência que deambula, descobre cada detalhe do mundo e olha tudo de novo como da primeira vez.» (p.147)

Uma pequena piazza antes de chegar ao Campo de` Fiori.

«As viagens nunca são apenas exteriores. Não é simplesmente na cartografia do mundo que o homem viaja. Seria não perceber o fundo do ser humano, por exemplo, não identificar em toda esta inquietação, que se apodera dele nos meses de verão, o desejo de mais, de ir mais longe.»(p.148)

A caminho das escadas de Trinità dei Monti…

 

Ainda durante a caminhada na viale della Trinità dei Monti sob as sombras.

«(…)Têm em português um nome que deriva de uma forma latina :Per ager, que significa “através dos campos”; ou Per eger, “Para lá das fronteiras”. Definem-se, assim, por uma extraterritorialidade simbólica que os faz, momentaneamente, viver sem cidade e sem morada. Experimentam uma espécie de nomadismo: não se demoram em parte alguma, comem ao sabor da própria jornada, dormem aqui e ali. Num tempo ferozmente cioso da produção e do consumo, eles são um elogio da frugalidade e do dom. Relativizam a prisão de comodismos, necessidades, fatalismos e desculpas. E o seu coração abre-se à revelação de um sentido maior.» (p.150)

Da velocidade:

«A velocidade com que vivemos impede-nos de viver. Uma alternativa será resgatar a nossa relação com o tempo. Por tentativas, por pequenos passos.» (p.207)

 

in José Tolentino Mendonça, Uma beleza que nos pertence, Quetzal

ASM

 

 

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