Refúgio numa estrela

Punta Chiappa, Ligúria, Itália

Parte 1

No final de agosto regressei de mais uma viagem. E na bagagem trouxe memórias de lugares, pessoas, histórias, sabores e aromas; de horas que pareceram intermináveis, com a luz do sol que permanecia mais tempo, até ao fim das horas; de experiências repetidas e de outras vividas pela primeira vez, que merecerão, por certo, um registo aqui.

Retorno também ao blogue com saudades de um refúgio. É deste refúgio que se pode admirar este pôr-do-sol…

Começo pela geografia: o refúgio situa-se na região da Ligúria, região do norte de Itália, também conhecida por Riviera. Banhada pelo Mediterrâneo, aqui Mar Lígure, tem como cenário muito próximo os Apeninos e os Alpes Marítimos. A cidade mais importante é Génova, mas a Riviera conta ainda com cidades como Savona, Imperia e La Spezia – cada uma a encabeçar as suas quatro regiões administrativas. Se, num mapa de Itália, centrarmos o nosso olhar no ponto que é Génova, então teremos, a este, a chamada Riviera do Levante e a oeste, a Riviera do Ponente. Génova como eixo, Génova como ponto intermédio.

O  meu refúgio por 3 dias fica na Riviera do Levante, a sul de Génova e de Camogli, no Monte de Portofino – uma área protegida desde o início do século XX, que se ergue sobre o Mediterrâneo. Onde há um promontório e onde se situa uma estância balnear com o mesmo nome, sobejamente conhecida e reconhecida. Mas não está aí o meu refúgio. Este fica no mesmo monte, sobre o Golfo Paradiso e chama-se Punta Chiappa.

                                      [Um terraço sobre o Golfo Paradiso.]

De Finale Ligure, na Riviera do Ponente, onde estava, cheguei a Camogli de comboio. Génova, para além de um relavante ponto de ligação por mar, é também uma paragem importante da linha ferroviária que percorre a Ligúria e os seus inumeráveis túneis. A viagem pela linha que acompanha de muito perto o mar teve um breve intervalo naquela cidade que, na altura em que fui, estava ainda muito abalada com a tragédia recente da queda da ponte Morandi. Cheguei a ver, da janela do comboio, a ponte e o vazio que ficou depois da queda. Nesse fim de semana de 17-19 de agosto algumas linhas estavam ainda com trânsito condicionado ou desviado. Não foi o caso da que me deveria deixar em Camogli. A direção era Sestri Levante, a estação última do percurso. Eu desci antes.

[A Riviera lígure é muito assim : escarpas com declives impossíveis, onde tudo é possível, afinal – uma flora verdejante e variada , construções impressionantes com raízes bem fundas na terra e caminhos que levam a todos os lugares.]
[A ponta que se prolonga para lá do promontório – Punta Chiappa.]
[As escarpas de uma verticalidade verde.]
Mas ainda não quero lá chegar, porque depois da geografia, quero trazer para aqui o sentido da palavra “refúgio”, para poder escrever sobre este, muito particular. No dicionário, a respetiva entrada diz-nos:

Refúgio:

1.Lugar considerado seguro para nele algo ou alguém se refugiar. = Abrigo, asilo, retiro. 2.Cova, antro, valhacouto.3. Recolhimento religioso.4. [Figurado] Pessoa, coisa ou ideia que protege ou ampara.=Amparo, auxílio, proteção, socorro.

“refúgio”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha]

Todos estes sinónimos podem aplicar-se a um qualquer refúgio. Não a este.  Escolho os números 1 e 3 para melhor o definir. Assim diz a sua história, também. E no dicionário poderia constar ainda “Stella Maris” como sinónimo. É que é este o nome daquele lugar.

[Uma das casinhas do refúgio, o “Stella Maris”.]
Quase invisível no meio do verde do promontório de Portofino, disseminado pela sua encosta, o hotel “Stella Maris” começou por ser um espaço de uma villa (século XVIII) , para mais tarde ser transformada num mosteiro. Entre a villa e o mosteiro, houve uma época em que era um espaço agrícola. Do mosteiro permanecem as pequenas casas atualmente transformadas nos quartos, restaurante, cozinha, terraços entre as edificações e ainda uma capela. Sempre com o mar ao fundo, lá bem em baixo. E, ao longe, Camogli.

[O meu caminho até Punta Chiappa começou aqui, depois do comboio, deixando a “bella” Camogli para trás.]
Foi a partir de Camogli que cheguei a Punta Chiappa e a Stella Maris. Só há duas maneiras de o fazer: de barco ou a pé. Esta última opção segue os trilhos ancestrais que percorrem o Monte de Portofino. É possível caminhar por entre árvores centenárias (pinheiros, oliveiras, castanheiros e figueiras), caminhos de terra e rocha que parecem desenhados na vertical, tal o declive acentuado daquelas paragens. O mar sempre por companhia e parece que caminhamos suspensos sobre ele, tal a altitude. O comboio não passa por Punta Chiappa. O barco sim. Com uma frequência diária e horária. Leva cerca de 20 minutos e a viagem é inesquecível – por muitas razões: pela perceção de Camogli a afastar-se à medida que atravessamos o Golfo, pela visão magnífica que se tem das escarpas majestosas do monte, pelo impressionante azul do mar ali e pela aparição crescente de um promontório estreito, Punta Chiappa, com o “Stella” em tons de rosa a deixar-se entrever entre a vegetação marítima, de onde se destacam os pinheiros, pela sua altura e beleza. No fim da linha, o pequeno cais, onde o barco atraca e deixa os passageiros. A seguir continua o seu percurso até à última paragem, San Fruttuoso, onde existe uma abadia beneditina de difícil acesso, dado que repousa entre mar e montanha.

[Camogli a ficar cada vez mais pequena…]
[No barco, a atravessar o golfo.]
Primeira conclusão: só por esta viagem vale a pena apanhar o barco e desfrutar do golfo. Passar um dia em Punta Chiappa e depois regressar ao ponto de partida. Eu tive a sorte de estar ali 3 dias…E não quis sair. Não quis deixar de viver ali o maior intervalo de tempo que me era possível. Com tudo o que tinha para oferecer. E foi tanto! Foram horas intermináveis, como comecei por dizer, preenchidas com natureza, leituras, pessoas, caminhadas, sol e o mar à mesa das refeições que aconteceram, invariavelmente, sobre o Golfo com o nome certo – Paradiso.

[O fim de um dia e o Mar da Ligúria.]
De como preenchi essas horas darei conta nos próximos artigos. Temos, por isso,  encontro marcado em Punta Chiappa. Para lá chegarmos, descemos aqui:

Até breve!

 

ASM

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4 Comments Add yours

  1. manuelvitorino diz:

    Magnífica descrição dos lugares, paisagens sempre deslumbrantes debruadas sobre o mar da Ligúria. Lá terei de fazer outra vez a mala e percorrer estes caminhos de sonho e fantasia. Os meus agradecimentos por voltar a avivar boas memórias. E votos de boas viagens- Manuel Vitorino

    1. anasofiamel diz:

      Muito obrigada pelo comentário! Itália é sempre irresistível, há que ter a mala sempre pronta para partir 😉

  2. Ana Lopes diz:

    Viajei um bocadinho contigo e suspirei com uma vontade imensa de ir…
    Obrigada!
    Beijinhos!

    1. anasofiamel diz:

      Obrigada eu, por me acompanhares sempre com tanto entusiasmo! Até à próxima viagem, temos encontro marcado 😉 beijinhos

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