Palavras para Veneza

Por outras palavras

Veneza,Itália

[Uma inscrição de luzes no Museu Peggy Guggenheim.]

As palavras que eternizam Veneza nunca são suficientes. São necessárias, fundamentais, quando a cidade se encontra ameaçada por inúmeros “inimigos” – os desmedidos barcos de cruzeiro, os milhares de visitantes que desaguam na cidade, numa torrente desordenada, desregrada e sôfrega de uma Veneza que existe na imaginação de cada um e que se julga eterna. Mas quando imersos na verdadeira, esquecem-se que a cidade real, autêntica é de uma fragilidade extrema. E por isso precisa de todos os cuidados para continuar tangível.

[Desequilíbrio. Erro de escala 1.]

Vem este post a propósito das notícias recentes que dão conta da crescente “erosão” de Veneza.  Todos os anos chega o verão,  cada vez mais difícil de suportar pelos venezianos, que insistem em permanecer no sítio onde nasceram. São os que melhor conhecem os canais, as águas, as torres, as igrejas e os segredos da cidade e, como fiéis guardiões, saíram à rua para gritar “Basta!”. A ideia não é fechar Veneza, líquida na sua essência, flutuante na sua forma de perdurar no tempo. Trata-se tão só de zelar por um turismo sustentável, equilibrado, que permita aos locais continuarem com as suas vidas e terem a Sereníssima como cenário dos seus projetos de  futuro.

[Desequilíbrio. Erro de escala 2.]

Há muitos estudos, relatórios, soluções pensadas e fundadas na mais avançada tecnologia para que a cidade não desapareça. E no entanto parece que nada previne o inevitável. As melhores ideias e técnicas são ultrapassadas pelos excessos revelados pelos números, presentes nas dimensões das embarcações, nas estatísticas a desfavor da Sereníssima.

[Desequilíbrio. Erro de escala 3.]

[Veneza e a sua laguna são indissociáveis.]

Trago para aqui as palavras que recentemente li sobre Veneza. São de Eduardo Lourenço, numa coletânea de textos sobre vários temas e pretextos relacionados com a arte, com particular destaque para a pintura – Da Pintura. Há um texto que foi a minha primeira paragem, mal dei com o título no índice – “Veneza, um retrato”, escrito em 1971.

[O quotidiano veneziano no sestiere de Castello.]

Deixo duas passagens belíssimas e que refletem a singularidade da cidade.

«(…) Veneza é um sonho petrificado, um passeio sonâmbulo por um espaço entre água e céu, entre vida e morte. A bem dizer não é um espaço, mas um tempo. De ponte a ponte, de rio a rio, de cale a cale o que vem ao vosso encontro são fantasmas sumptuosamente vivos, olhares extintos que vos convocam para esplendores abolidos. O que a arquitectura teria por função esconder: a fragilidade dos nossos passos sobre a terra imóvel aqui se inverte – o sólido emigra no efémero, o reflexo absorve a imobilidade da fachada. Sem cessar Veneza escorre para a sua morte como um fogo-de-artifício tirado do fundo das águas.(…)»

[Gondolieri, gondoleiros: uma profissão e uma palavra que só existem em Veneza.]

[Campo di Santo Stefano, sestiere San Marco.]

E esta ainda…

«(…) De noite Veneza lembra um navio amarrado à beira de um cais que se chama tempo.(…)»

Eduardo Lourenço, “Veneza, um retrato”, Da Pintura, Gradiva (maio 2017)

[Mercado de Rialto: oferece uma grande e deliciosa variedade de legumes, frutas e peixe.]

Depois de uma conversa com colegas sobre estas ameaças à cidade, veio a ideia de escrever este texto. Esta cidade não é único exemplo de um turismo nocivo para os habitantes e das consequências negativas que aquele pode acarretar para o património da humanidade. Há mais. Há muitos outros, em estádios de “erosão” diferenciados. Que este exemplo sirva de sinal de alerta máximo para uma intervenção preventiva em muitas partes do mundo. Sob pena de o tempo que resta de vida a Veneza  ser muito menor do que aquele que já viveu.

As fotografias deste artigo foram tiradas em 2014 e 2015. As ameaças à  fragilidade de Veneza eram muito evidentes. Os anos passam e elas permanecem, assumindo novas formas e novas forças.

 

ASM

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2 thoughts on “Palavras para Veneza

  1. Olá Ana: este ano vou regressar a Itália e pela segunda vez não vou conhecer Veneza. No plano inicial estava previsto ser o último local mas acabei por alterar, exatamente por esse receio das multidões, dos excessos que não permitem contemplar a singularidade de Veneza. As palavras de Eduardo Lourenço inseriram-se muito bem no teu texto.

    1. Olá! Que pena que Veneza ainda fique fora do teu roteiro. Mas compreendo bem essa relutância, Veneza merece mesmo uma visita mais calma e atenta, sem as enchentes de verão. Também eu estou a preparar o meu regresso ao “bel paese” 😉 Obrigada pelo teu comentário e pela tua leitura sempre atenta. As palavras de Eduardo Lourenço são belíssimas…

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