Uma visão do mundo muito particular…

Por outras palavras

Este mundo começa com um belo pórtico. Atravessamo-lo e penetramos numa visão muito particular dos vários mundos e das gentes que neles habitam. É uma grande viagem. Que começou a ser sonhada na infância do viajante e futuro escritor. Ou ao contrário, que também é verdade – no escritor que já existia na criança que olhava o mundo com olhos de viajante. Um viajante atento, interventivo e muito, muito humanista, num tempo em que as distâncias eram difíceis de transpor, em que os mundos de cada pessoa eram muitas vezes prisões construídas por outros e difíceis de derrubar. Este viajante escritor deu o salto ainda adolescente e “voou” para lá do horizonte da sua terra natal, rodeada de montes para ele transparentes, pois através deles via o mar e os contornos dos países que estavam à sua espera.

Falo de Ferreira de Castro que, depois do Brasil, para onde foi trabalhar ainda muito novo na dura e hostil Amazónia, nunca mais parou e a sua curiosidade infantil transformou-se em asas que o levaram pelo mundo fora. Como também foi crescendo o escritor, começou a dizer esse mundo. Um mundo feito de maravilhas naturais e ainda daquelas que saíram ao longo do tempo das mãos e dos sonhos dos homens.

O autor nasceu em Ossela, Oliveira de Azeméis, no dia 24 de maio de 1898 e faleceu no Porto, a 29 de junho de 1974. Foi desde Ossela que adivinhou o mundo.

Entremos então no mundo de acordo com Ferreira de Castro…

[Teatro Massimo, Palermo, Sicília.]

Pórtico

«Pequeno, dez, onze anos melancólicos e tímidos, subíamos ao cume da serra que padroa a casa onde nascemos e ali, entre urzes e pinheiros, nos quedávamos a contemplar vizinhas terras. Sete quilómetros, apenas, havíamos percorrido do Mundo em que vivemos; o que, hoje, se ergue perto, parecia-nos, então, distante, mas nós já sonhávamos ir muito mais longe ainda.

Desse bravo sítio, onde desejamos repousar para sempre, face ao sol e ao fulgor das estrelas, via-se, lá em baixo, branquejar a casita nativa, quase a entestar o afogado vale; e, da banda oposta, outras várzeas, outros povoados, outros cerros, maravilhosa sucessão de planos, formas e cores, tudo laborado pela mão do Homem. Ao fundo, esboçava-se o grande sortilégio, o Mar, o íman que nos atraía ali.

No corpo pequenito, os nossos olhos, que haviam de ficar toda a vida tristes, esqueciam-se, horas a fio, a sonhar com a distância infinita, ante essa linha verde-azul do Oceano longínquo. Tudo quanto existia para lá da nossa vista nos parecia fabuloso e nos fascinava irremediavelmente.

Sentíamo-nos encarcerados e, no silêncio da cumeeira, onde ninguém perturbava a nossa cisma infantil, o próprio voo das aves serranas nos fazia sofrer, porque nos dava uma sensação de liberdade que não tínhamos, a liberdade que havíamos de amar, depois, ao longo da nossa existência.

Doze anos  e meio dobados, o feitiço da Distância pôde mais do que a família, do que nós próprios, do que a própria intuição da nossa fragilidade e da nossa inexperiência, e abalámos, voluntariamente, para o Mistério, atravessando o Oceano que tantas vezes nos havia chamado, quando os nossos olhos infantes mal o adivinhavam, difuso, informe, fim de horizonte, desde o tope duma ermática serrania.

Nunca mais essa ansiedade de vida errante encontrou limite. Ela constituíu a razão de muitos dos nossos esforços. E, país a seguir a país, um mar após outro mar, infatigáveis vagamundos, fomos percorrendo o Planeta. Nós amamos a poesia da terra,  as suas pompas naturais, o esplendor da sua luz, o deslumbramento dos seus cromatismos, a carícia dos seus ritmos – e amamos, sobretudo, o ser infeliz que a habita. Mas , nesse tempo, a Terra parecia-nos interminável, a lonjura mantinha-se sempre e a nossa curiosidade, em vez de saciar-se, deslocava-se para além do ponto atingido. Das três divindades – o Amor, a Literatura e o Mundo – o Mundo dir-se-ia ser a mais difícil de adorar integralmente. Eis, porém, um navio atracado ao cais– e o velho sonho que principia a consumar-se. Os nossos olhos vão, enfim, tomar posse do Contínuo Panorama e a nossa alma aliar-se, fraternalmente, com a alma vasta da Humanidade. Podemos ver o Homem e a terra com inteira pureza de espírito, com pleno amor, pois já não haverá em nós nenhuma dessas ambições individuais que perturbam o justo exame e maculam, ao ser remoídas, as horas de soledade.»[p.13-15]

Este pórtico abre a trilogia A Volta ao Mundo. Esta viagem em três tomos demorou três anos a ser registada. O tempo da sua realização não se mede em números, em datas, em registos de calendário, mas em emoções e maravilhamentos . Foi na companhia da sua mulher que o autor partiu para o mundo. Com o desejo de traçar uma rota fiel aos seus desejos,  percorreu por mar os longes e passou ao lado de percursos já delineados, distantes da sua curiosidade eclética. Os seus relatos, publicados em fascículos (e posteriormente reunidos e publicados em 1944) apresentam dados arquitetónicos, arqueológicos, históricos, religiosos, enfim, o que de humano faz o seu semelhante espalhado por geografias que ele tentou tornar mais próximas.

Desta vez fui eu com ele a bordo dos vários navios. As suas palavras levaram-me de volta a uma ilha que muito me fascinou – Sicília. Fui aos meus arquivos fotográficos e selecionei algumas imagens que retratam as minhas memórias de Palermo, de outros pontos da ilha e que vão alternar com a visão do autor. Reconheci “a minha” Palermo em muitas das linhas por ele assinadas. As palavras são dos anos 40 do século passado, as imagens de 2013.

«(…) Estamos na maior ilha do Mediterrâneo, na mais povoada e na que encerra maiores ruínas dum pretérito esplendor. Mal, porém, metemos o pé em terra, a primeira coisa que os olhos leem é uma legenda política, em grandes letras traçada sobre os armazéns do cais: «O Mediterrâneo que, para os outros, constitui apenas uma estrada, representa, para nós, italianos, a própria vida».

Junto do porto rodam as famosas carroças sicilianas, de cavalos empenachados e varais, rodas e anteparas com cenas mitológicas, bíblicas e históricas, esculpidas em baixo relevo e pintadas, depois, num admirável acabamento artístico.

[Acho que as carroças sicilianas de que fala são estas, que nos dias de hoje permitem ao visitante passear pela cidade ou ao siciliano publicitar o seu negócio, recorrendo a este ícone…]

A cidade começa por ampla avenida marginal – Foro Umberto I – e o descuidoso visitante vê-se, de súbito, rodeado por bandos de cocheiros, tão gesticuladores, tão loquazes e persistentes na conquista do eventual cliente, como se tivessem herdado a personalidade e os costumes dos árabes que, outrora, dominaram aqui.

Palermo frui, desde tempos idos, o título de «Cidade Feliz» – e por grande porta, também «Felice» chamada, nela se entra, pelo lado do mar.

[Santa Rosalia, a protetora da cidade. As torres que se veem na fotografia pertencem à catedral.]

Apesar da sua longevidade, Palermo, sempre reconstruída através dos séculos, apresenta excelente traçado urbano, ruas amplas e retas, exuberantes jardins, airosas praças. Por toda a parte se topam igrejas barrocas, estátuas, um teatro monumental, de bela fachada, severos palácios, outros edifícios soberbos. Duas longas avenidas, a Via Maqueda e o Corso Vittorio Emmanuele, formam, ao cruzar-se, uma praça original: os «Quattro Canti». Em vez de terminarem em agudos cunhais, as quatro esquinas foram tornadas côncavas e em todas elas se construíram artísticas fachadas, com estátuas de reis da Sicília, das quatro estações e das quatro padroeiras da cidade. Destarte se obteve arredondada e graciosa praça barroca, que o barroco, o barroqueto e o árabe-normando imperam na maioria dos monumentos de Palermo.

[ A caminho da confluência das duas avenidas.]

É aqui o centro comercial, um comércio de luxo, de influência francesa, alternando com as lojazitas de todos os burgos. Cidade de 400.000 habitantes, nestas ruas transita, entre autocarros, automóveis e carros de cavalos, uma multidão simples, modesta e de olhos ora nostálgicos, ora sorridentes, que a alegria e a melancolia parece terem descoberto grata instalação na alma siciliana. De quando em quando, passam homens sem um braço ou sem uma perna; outros com as faces cheias de cicatrizes, restos das campanhas que a Itália tem realizado ultimamente.

[ Um dos “Quattro Canti”.]

Perto dos «Quattro Canti» campeiam vários templos, uma fonte monumental espelhando marmóreas estátuas e sempre esta teoria de nobres edifícios, simultaneamente austeros e garridos.

[Acredito, pela descrição feita, que a fonte de que fala é mesmo esta, na Piazza Pretoria. Tem o nome da praça.]

[Não me cansei de a fotografar…Chamam-lhe também a Fonte da Vergonha. E é fácil de perceber porquê, ao observarmos as estátuas.]

Ao lado dessas artérias de aristocrática fisionomia e das ruas de movimentado rumor, cheias de veículos, de transeuntes e do colorido que lhes dão tabuletas e escaparates comerciais, outras existem, tão solitárias e modorrentas, que, mesmo nos dias de semana, têm o ar e a luz das tardes dominicais.

[O Teatro Massimo. A praça que se situa em frente ao teatro é de visita obrigatória. Forasteiros e habitantes da cidade cruzam-se ali.]

Em toda a cidade flutua, porém, branda atmosfera, espécie de ternura geral, que se exala de tudo, dos seres e das coisas, e a tudo envolve, acariciadoramente.(…)[p.50-52]

[Um dos muitos quiosques espalhados pela cidade.]

Ilha de várias faces, os seus ridentes burgos costeiros, as suas excelsas paisagens, contrastam com as desoladas regiões do interior, promeninências de arrefecidas lavas, terra estéril que só dá o enxofre e na qual labuta, dia e noite, num ambiente de plaga infernal, mísera multidão. Na parte ribeirinha, entre as montanhas que cortam a Sicília, algumas tão imponentes que o Etna pode abrir a ígnea boca a 3.275 metros de altura, o homem cura da vida agrícola. Aí, a terra, de exuberante, deixa o fuste europeu medrar ao lado do fuste tropical, como se o clima se empenhasse em desfazer a divisão do Mundo por continentes.

[Um olival siciliano.]

A Sicília exporta azeite, frutas secas, algum vinho, alguns cereais e muito enxofre – e exportava, sobretudo, homens, no tempo em que as portas americanas não haviam sido fechadas à emigração. Afanoso e sonhador, bom camponês, destemido marinheiro, o povo siciliano, apesar das muitas experiência históricas feitas na sua terra, viveu sempre em regime de deserdado. Os grandes latifúndios, que mantinham sobrevivências feudais, existiram na Sicília até agora. Contam-se os dias desde que o governo italiano aboliu parte desses remotos privilégios e cuidou de entregar as terras a quem as fizesse prosperar, obra que está longe de ser concluída, dado que os velhos interesses particulares a contrariam a todo o instante. Além disso, as lides bélicas em que Roma tem andado exigiram da ilha e de toda a Itália um esforço depauperante. (…) [p.62-63]

[O Etna e as suas crateras fumegantes.]

É quase a hora do «tramonto» quando reentramos em Palermo. As tintas crepusculares do Mediterrâneo dão à velha cidade uma expressão lírica, uma espécie de nostalgia de vida imponderável, talvez de vida oculta, de braços masculinos cerrando-se sobre corpos femininos, algures, na penumbra das alcovas de intensas volúpias. Os parques das grandes vilas palermitanas, com suas estátuas, seus íntimos pavilhões entre arvoredo, insuflam um feitiço maior à terra siciliana de montanhas, esguios ciprestes, quentes palmeiras e frescos loureiros-rosas. (…)»[p.72-73]

Ferreira de Castro, A Volta ao Mundo, vol.I, Guimarães & C.ª, 1950.

[Esta foto foi tirada à hora do “tramonto”…]

A ilha siciliana é uma das paragens no seu itinerário. A viagem segue depois para a Grécia e termina, no primeiro volume, no Iraque. Nos dois seguintes, as coordenadas do mapa que vai construindo ao ritmo das chegadas aos portos e do levantar das âncoras, vão passar ainda pela Índia, Birmânia, Japão, Indochina, Estados Unidos da América, Bornéu.

Vale bem a pena continuar viagem com Ferreira de Castro!

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