Álbum “romaníssimo” (I)

Roma, Itália

Começo com uma confissão: a viagem a Roma começou a ser desenhada durante  o tempo de um regresso a um livro para mim muito especial e inspirador. Este.

Foi a este livro de António Mega Ferreira que fui buscar uma das passagens que dá sentido a este blogue desde o seu início e que aqui deixei …

Roma seria para mim um longo exercício de reconhecimento, efetivamente. Depois de mais ou menos 20 anos passados desde a minha primeira incursão romana, estava curiosa por perceber até que ponto alguns dos seus recantos me seriam familiares e desejosa de conhecer novos. Com mais tempo, mais calma e outra atenção. O bom de repetirmos lugares é podermos olhar para os sítios sem um desejo sôfrego de tudo abarcar num roteiro sempre incompleto. Por mais vezes que regressemos a um lugar. E em Roma essa incompletude é ainda mais evidente. Como não ser e não sentir ali que devemos regressar sempre, quando estamos numa cidade com quase 3000 anos? Apelidada de a “eterna”. Sem princípio nem fim. Para lá do tempo. O tempo desta cidade é sentido à nossa medida. O nosso tempo em Roma redimensiona todos os tempos da cidade, que se mostram nas fachadas dos palácios, nas pedras das colunas e dos arcos, nas torres das igrejas construídas sobre outras igrejas e outros templos antigos, nas estátuas, nas janelas, nas fontes e nas praças. Roma convida a uma leitura muito própria, a uma gramática que só aqui tem aplicação e que ajuda a  explicar e a integrar as ressonâncias que provoca a quem a visita. Uma gramática que reescreve a cidade ao longo das épocas. Uma cidade extraordinária, antiga como muito poucas e com traços dessa idade que exibe orgulhosamente.

Os meus dias em Roma balançaram entre o já conhecido e o que queria muito conhecer. Levava uma breve lista de lugares obrigatórios e vontades. Sei que vou regressar ao tempo romano, por isso o que ainda não aconteceu vai acontecer.

Percorri as ruas e as praças da cidade com uma alegria extra, a juntar a todas as outras – a de o blogue ter sido nomeado poucos dias antes para os prémios do Concurso “Open World Awards” promovido pela Momondo, em três categorias. Passariam à lista dos finalistas os 10 blogues mais votados pelo público. Já aqui tinha manifestado o meu desejo de passar a essa fase e convidei os meus leitores a ajudarem-me. Muito obrigada! A votação chegou ao fim e na categoria “Fotografia” fiquei em 2.º lugar, fazendo parte dos finalistas. Nas outras duas categorias, “Open World” e “Blog”, alcancei o 14.º e 16.º postos, respetivamente. Considerando  total de candidatos (63 e 85 nestas duas categorias), fiquei muito contente por ter conseguido os resultados mencionados. Estou muito grata e cada um dos votos fez-me ter ainda mais vontade de escrever e de fotografar. De continuar aqui, neste espaço de partilha e, espero, de início de muitas viagens.

Como forma de agradecimento, lembrei-me de organizar um álbum de fotografias de Roma. Imagens que ilustram uma identidade, a de uma cidade que foi já e longamente – caput mundi. O centro de um mundo, de uma cultura, de um povo. O berço de uma matriz que se disseminou pelo espaço do império e que perdura no tempo até aos dias de hoje.

E para que essa viagem em fotos seja ainda mais romana, sugiro uma banda sonora para acompanhar a leitura. Uma música que evoca as ruas, as praças, o céu de Roma. A sua luz ao fim da tarde, que parece que se cola  aos edifícios dando-lhes um tom ocre muito particular. O tema convida ainda a vestir a pele dos romanos, a tornarmo-nos como eles ao deambularmos pelas vie e vicole. Como no ditado: “Em Roma, sê romano.” É esse o convite que cada foto faz.

Bem-vindos a Roma e ao seu modo muito próprio de ser e estar.

Uma boa maneira de começar Roma é com o Panteão. Situado no Campo de Marte, é um monumento dos tempos do império consagrado às mais importantes divindades olímpicas. Mandado construir pelo imperador Adriano, ergueu-se sobre um outro templo, dedicado a Júpiter, entre 118 e 125 a.C.. De entre os monumentos mais antigos, é o mais bem conservado de toda a cidade.

O Panteão por dentro…De uma geometria espantosamente bela e leve.

Era a minha segunda vez ali, no interior do altar dos deuses, aberto ao céu. Também quis repetir o castelo de Sant`Angelo. Adriano é o nome que liga estes dois lugares. Este imperador queria ali a sua última morada e mandou também construir a ponte que tem o mesmo nome do castelo. Na altura o que surgiu ali foi um mausoléu. A história do edifício deu-lhe depois o rosto de fortaleza, prisão e refúgio para papas.

Ponte e castelo Sant`Angelo.

Até chegar ao castelo, percorri as margens do Tibre.

Um passeio imperdível, este. Deixarmo-nos ir, seguindo o leito do rio, ladeado por árvores cujas copas e ramos se lançam sobre ele, inconformados que estão com os muros que os separam.

Em redor do castelo há um jardim com pinheiros, ciprestes e carvalhos centenários. Percorri  o jardim e foi isto que vi.

 

Havia outro regresso muito desejado. À minha praça preferida – a praça Navona. Fui lá quase todos os dias, geralmente de manhã bem cedo, quando se preparava para um novo dia. Tive muita sorte com o tempo, tive sol e luz todos os dias. E todas as manhãs aquela praça me pareceu ainda mais brilhante do que aquela que tinha na memória.

A praça tem um formato que se explica se pensarmos que outrora foi um estádio, mandado construir por Domiciano em 86 d.C.. Com os seus 275 por 106 metros, desafia as referências habituais para espaços como este. Mais tarde, foi um mercado.Com o tempo, em seu redor foram erguidos palazzi muito ao gosto barroco. A fonte que se vê nesta fotografia tem assinatura de Gian Lorenzo Bernini e representa quatro rios: o Ganges, o Nilo, o Danúbio e Rio da Prata, simbolizando quatro continentes. Não é só esta fonte que é barroca, a igreja(Chiesa di Sant`Agnese in Agone), cuja fachada domina a imagem, é de Borromini  e apresenta também traços dessa sensibilidade. Por dentro e por fora. Desta vez entrei, ainda não a conhecia no seu interior.

O rio Ganges, segundo Bernini.

No outro lado da praça uma outra fonte – Fontana del Nettuno. Estas são as minhas preferidas. Há uma terceira fonte, na parte sul da piazza – Fontana del Moro.

Foi bem junto da Fontana del Nettuno que eu comi o primeiro gelado em Roma, no Tre Scalini.

Durante as longas caminhadas pela cidade fui registando alguns traços que completam o retrato de Roma. Pequenos detalhes que me fizeram parar e adiar alguns dos meus desejos, alterar escolhas e prioridades.

Na via Condotti, uma das mais afamadas pelas suas lojas e pelo facto de estar muito próxima da escadaria de Trinità dei Monti, deparei-me com estas flores a contrariarem o sentido dos passos de todos quantos se dirigiam para a famosa scalinata. Tive a sorte de no terceiro dia ter visto as escadas cobertas de vasos de azáleas. De um dia para o outro, mãos mágicas de funcionários da câmara tinham trazido a primavera aos degraus mais cobiçados para fotos e poses multiplicadas.

Scalinata della Trinità dei Monti.

As nuvens que se veem despareceram dos céus de Roma. São ainda restos de noite; esta imagem foi captada bem cedo pela manhã. As flores “nasceram” aqui no dia 13 de abril.

No chão, o distintivo – Senatus Populusque Romanus , sinónimo de Roma.

Estátuas assim, de uma incompletude que é sinal de tempos antiquíssimos e de uma história contada em cada fratura, falha, remendo, mancha. Espalhadas pela cidade, pelos museus e galerias, empoleiradas nas pontes, em pedestais ou incrustadas em nichos nas fachadas. Esta fica encostada ao Palazzo Venezia.

Os gatos de Roma. Parece que este animal gosta de Roma. Também em Veneza há muitos gatos, encontrei-os por toda a parte  e de certeza que também gostam daquela cidade. Começo a acreditar que estes felinos adoram Itália…

As vespas. Muitas. Estas aparecem alinhadas. Com um intervalo deixado por uma que rapidamente foi substituída.

Estas são bem mais coloridas, como mais colorido me pareceu também o Trastevere, que literalmente significa “o que fica do outro lado do Tevere”, ou seja, do rio Tibre. Não me lembro de ter ido a esta zona da cidade na minha primeira vez em Roma. Por isso estava na minha lista de desejos prioritários. Foi praticamente todo um dia passado deste lado do rio, que merece um artigo só a ele dedicado.

Assim como a história desta imagem: tirado no Campo de`Fiori, outra praça que eu queria tanto conhecer. Por muitas razões. Uma delas tem a forma de carciofi (alcachofras). São centrais num prato bem romano – carciofi alla romana. Eu experimentei-as, sim, mas alla giudia, no bairro judeu.

Eis a alcachofra. Como uma flor que se come. Neste mercado na praça havia muitas. Fresquíssimas. A serem preparadas para quem as quisesse levar para o almoço daquele dia. No dia a seguir haveria mais.

 

(Este álbum continua…)

 

ASM

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