6 anos aqui

+ do que 1

Há seis anos que também estou aqui. Foi no terceiro dia do mês de abril de 2011 que decidi criar este espaço para partilha. E já lá vão mais de 100 posts, não sei quantas fotografias, outros tantos comentários… A somar a isto, cada vez mais leitores e seguidores, quer do blogue, quer da página de Facebook ou da minha conta no Instagram, entretanto criadas.

Muito obrigada! Por me lerem, por comentarem, por partilharem e por me fazerem acreditar que vale a pena continuar a ser aqui.

[Quase parece que estou presa em Veneza…Não, eu e ela estamos refletidas numa janela da ilha de San Giorgio Maggiore…]

Dizem as estatísticas do blogue que o texto mais lido e apreciado é este. Logo seguido de um outro, com muitos lugares dentro – Veneza, Constância, Trieste, Israel, Porto, Alentejo, Guimarães. E sons e aromas da Primavera.

[À saída de uma exposição na Biennale de Veneza, 2015. Gostei do tema da mostra – “We must risk delight”.]

Tenho vindo a assinalar o aniversário deste espaço e este ano não é exceção. Tudo o que nos faz feliz deve ser celebrado e este blogue é disso exemplo – sou feliz aqui.

[Uma rua na Zambujeira do Mar.]

Este é o post do primeiro aniversário. Os 5 anos foram assinalados assim. Sou feliz a viajar, a planear as viagens, a falar e a escrever sobre os sítios, as pessoas e as experiências que tenho tido a sorte de conhecer. Sou feliz também quando leio sobre outros lugares ou sobre aqueles por onde passei, mas que não são os mesmos, porque vistos por outros olhos. Cada sítio é caleidoscópico, assume sempre outras formas. Ou porque são destinos repetidos (e como eu gosto de repetir…) e nunca a primeira vez é igual às outras ou porque outra pessoa vive esse mesmo lugar doutra maneira e escreve sobre essa sua experiência do seu “aqui”. Por isso este blogue tem tantas visitas a livros, autores, textos e frases. Daí que nos roteiros que aqui deixo tantas vezes se encontram livrarias, ruas com nomes de escritores, curiosidades de vidas escritas e inscritas nos lugares.

Para assinalar o sexto aniversário decidi escolher alguns momentos de leituras prévias ou posteriores às viagens. Leituras que funcionaram como lugares, já que gosto de voltar a elas várias vezes, como acontece com os regressos que faço aos sítios da minha preferência. Também as escolhi porque explicam muitas das viagens e leituras que faço. Palavras de escritores que alternam com fotografias do meu mapa.

Que cada passagem seja lida como uma forma de agradecimento por estarem desse lado, enquanto eu vou estando aqui.

[Foto tirado a bordo de um vaporetto em Veneza. No vidro, o reflexo do rosto de uma passageira. O  blogue pode ser como este vaporetto, em que se dá a coincidência do eu que escreve com todos quantos leem. ]

«A saudade de casa é uma sensação que muitos conhecem e de que muitos sofrem; eu, por outro lado, sinto uma dor menos conhecida, e o seu nome é “saudade de estar fora”. Quando a neve derrete, quando chegam as cegonhas e partem os primeiros vapores, sinto a dolorosa agitação de viajar.»

Hans Christian Andersen, carta de 1856, citada em Jens Andersen, Hans Christian Andersen

[Encontrei estas asas numa parede do mosteiro da congregação mequitarista em Veneza – na ilha de San Lazzaro degli Armeni. Trouxe-as comigo e andam sempre dentro da minha cabeça…Uns dias mais abertas, outros recolhidas…]

 

«A viagem é um estado de espírito. Não tem nada a ver com a existência nem com o exótico. É quase inteiramente uma experiência íntima.»

Paul Theroux, Fresh Air Friend

 

[Em Ortigia, Siracusa, Sicília. Apanhada a fotografar o mar.]

«Quando observamos um planisfério, a princípio temos alguma dificuldade em avaliar as distâncias. Só os acrobatas em aritmética ou os sobredotados em cálculo entendem clara e distintamente o significado de uma escala. (…) Como dizer o mundo através de um mapa que se limita a representá-lo reduzindo-o a meras convenções?

Ficamos imediatamente presos a este estranho paradoxo: o planisfério parece pequeno e o mundo vasto. Mas o inverso também é verdade: o planisfério é vasto e, contudo, o mundo pequeno porque, não obstante a sua natureza e a sua extensão, qualquer lugar está porém ao nosso alcance e, graças aos transportes modernos, cada vez mais rapidamente. (…) Todos os destinos se tornaram possíveis – é tudo uma questão de tempo. Neste campo dos possíveis, como eleger um local? Qual deles escolher? Ao qual renunciar? E por que motivos? Entre todas as combinações imagináveis, por qual nos devemos decidir, e porquê?(…)

Não escolhemos os lugares predilectos, somos solicitados por eles.(…) Cada corpo aspira  descobrir o elemento no qual se sente melhor e que outrora, nas horas placentárias ou primordiais, fecundou sensações e prazeres confusos, mas memoráveis. Há sempre uma geografia que corresponde a um temperamento. Resta encontrá-la.

Uma palavra, um nome, um lugar, um sítio legível no mapa chama então a nossa atenção. O nome de um país, de um curso de água, de uma montanha, de um vulcão, de um continente, de uma ilha ou de uma cidade. O indistinto, o visceral reencontram-se numa emoção desencadeada subitamente por um nome fixado na memória: ir ao Tibete, contemplar o rio Amour, subir ao monte Fuji, escalar o Etna, atravessar as montanhas Ngong, nadar no oceano Pacífico, atracar em Guernsey, visitar Adis Abeba, percorrer as ruas de Cirene, navegar na baía de Along – cada qual dispõe de uma mitologia antiga criada pelas leituras de infância, pelas recordações de família, pelos filmes, pelas fotografias, pelas imagens de um mapa-múndi de escola pendurado no fundo da sala de aula num dia melancólico. Depois, passamos à acção de forma a concretizar o nosso sonho antes de morrer(…)

[Escalei uma das crateras do Etna. No caminho para o topo, foi esta uma das imagens que retive.]

[Se fui ao Mont Saint-Michel foi porque entrei dentro do sonho do meu pai. Ele queria muito lá ir e sempre falou, a mim e aos meus irmãos, desde pequenos, deste sítio mágico.]

Sonhar com um destino é obedecer a um imperativo que, no nosso íntimo, fala uma língua estrangeira. (…)

A viagem começa numa biblioteca. Ou numa livraria. Misteriosamente, ali prossegue, na claridade de razões antes recalcadas no corpo. (…) A riqueza de uma viagem necessita, antes de mais, da densidade de uma preparação – da mesma forma que nos expomos a experiências espirituais convidando a alma à abertura, ao acolhimento de uma verdade submersa. A leitura age como rito iniciático, revela uma mística pagã. O aumento do desejo culmina num prazer requintado, elegante e singular.(…)

Daí os livros e, em primeiro lugar, o atlas(…). Com um mapa, iniciamos a nossa primeira viagem, seguramente a mais mágica, de certeza a mais misteriosa. Porque evoluímos numa poética de nomes, de traçados, de volumes desenhados, de cores.(…)

O atlas revela, sem dúvida, o essencial, mas não tudo. Falta à sua opção conceptual uma polpa adicionada pela literatura e pela poesia. Porque, mais do que ninguém, o poeta coloca o seu corpo subjectivo no centro do lugar assombrado pela sua consciência e sensibilidade. Todas as suas emoções, sensações, percepções, todas as suas histórias singulares amadurecem na sua alma fantasiosa e traduzem-se um dia num pequeno texto que oferece a quinta-essência de sinestesias fantasiosas: sentir cores, saborear perfumes, tocars sons, escutar temperaturas, vislumbrar ruídos. (…)»

Michel Onfray, Teoria da Viagem

«Um lugar nunca é apenas “aquele” lugar: aquele lugar somos um pouco também de nós. Seja como for, sem o sabermos, trazíamo-lo dentro de nós e um dia, por acaso, chegamos lá. Chegamos no dia certo ou no dia errado, conforme, mas isso não é reponsabilidade do lugar, depende de nós. Depende de como lemos esse lugar, da nossa disponibilidade para o acolhermos dentro dos nossos olhos e dentro da nossa alma, de estarmos alegres ou melancólicos, eufóricos ou disfóricos, de sermos jovens ou velhos, de nos sentirmos bem ou de nos doer a barriga. Depende de quem somos no momento em que chegamos a esse lugar. Estas coisas aprendem-se com o tempo e, sobretudo, viajando. (…)»

Antonio Tabucchi, Viagens e outras viagens

 

[Um lugar onde já estive várias vezes e onde quero sempre voltar, porque fui lá sempre em momentos certos – Veneza. Aqui estou dentro do Caffè Florian. Um café que existe desde 1720. Esta sala “vestiu-se” por dentro de roupagens mais modernas, pois tratava-se de uma instalação artística para a bienal de arte.]

Boas viagens e boas leituras!

 

ASM

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2 thoughts on “6 anos aqui

  1. Muitos e muitos parabéns, querida Sofia! A tua Cartografia faz-me sempre querer levantar-me da cadeira onde estou sentada e evadir-me para qualquer lugar que me preencha, que me abra os horizontes e que me faça sentir como sendo um bocadinho meu!
    Desejo-vos muitos e muitos anos de viagens inesquecíveis!

    1. Muito obrigada, querida Ana!!!! Fico muito feliz que o que deixo aqui te leve bem longe. E esta cartografia é também de quem a lê 😉 Obrigada mais uma vez!

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