Para celebrar este dia da Poesia: uma cidade, um poeta e um hotel.

Porto, Portugal

A cidade do outro lado do reflexo.

Comecei o ano de 2017 numa cidade que me é muito. Foi a primeira grande cidade que conheci, que muitas vezes visitava em criança com os meus pais e irmãos e onde vivi 5 dos mais importantes anos da minha vida. Muito do que sou e sei devo a esta cidade. Muito do que define as minhas ideossincrasias, muito do que amei e amo encontrei aqui: livros, filmes, jardins, os seus palácios, os seus museus, os cafés, as livrarias, as praças.

E, claro, o rio escuro atravessado por pontes altas de ferro e barcos que vinham do interior do país com os frutos da terra transformados no vinho que tem o nome da própria – Porto. Algumas das pessoas que fazem parte da minha biografia mais solar encontrei-as aqui.

O “Porto” no interior da Livraria Lello & Irmão.

É natural do Porto um dos meus poetas preferidos – Almeida Garrett. Nasceu em 1799 na cidade, numa casa que ainda está de pé.

Para o seu tempo, era um moderno: na visão do mundo, do seu país e do que queria para este. Um romântico que renovou a forma de dizer o amor e o turbilhão de emoções e contradições que este sentimento instala no ser humano. Comecei logo por gostar muito dos seus poemas reunidos em duas antologias – “Flores sem fruto” (1845) e “Folhas Caídas”(1853). Li depois o livro “Viagens na minha terra”(1846). Quando li esta obra pela primeira vez era demasiado jovem para a apreciar devidamente e para reconhecer nela a modernidade que encerra – nos temas, na linguagem, no discurso que deambula pelas paisagens, pelas ideias, pelas personagens e pelas reflexões de uma profundidade poética e à qual o leitor adere naturalmente. Começa assim:

«Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes, de Inverno, em Turim, que é quase tão frio como Sampetersburgo — entende-se. Mas com este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse, ao menos ia até o quintal.

Eu muitas vezes, nestas sufocadas noites de Estio, viajo até à minha janela para ver uma nesguita de Tejo que está no fim da rua, e me enganar com uns verdes de árvores que ali vegetam sua laboriosa infância nos entulhos do Cais do Sodré. E nunca escrevi estas minhas viagens nem as suas impressões: pois tinham muito que ver! Foi sempre ambiciosa a minha pena: pobre e soberba, quer assunto mais largo. Pois hei-de dar-lho. Vou nada menos que a Santarém; e protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se há-de fazer crónica.

Era uma ideia vaga, mais desejo que tenção, que eu tinha há muito de ir conhecer as ricas várzeas desse Ribatejo, e saudar em seu alto cume a mais histórica e monumental das nossas vilas. Abalam-me as instâncias de um amigo, decidem-me as tonterias de um jornal, que por mexeriquice quis encabeçar em desígnio político determinado a minha visita .

Pois por isso mesmo, vou: — pronunciei-me.

São 17 deste mês de Julho, ano de graça de 1843, uma segunda- feira, dia sem nota e de boa estreia. Seis horas da manhã a dar em S. Paulo, e eu a caminhar para o Terreiro do Paço. Chego muito a horas, envergonhei os mais madrugadores dos meus companheiros de viagem, que todos se prezam de mais matutinos homens que eu. Já vou quase no fim da praça, quando oiço o rodar grave mas pressuroso de uma carroça d’ancien régime: é o nosso chefe e comandante, o capitão da empresa, o Sr. C. da T. que chega em estado.

Também são chegados os outros companheiros. O sino dá o último rebate. Partimos.(…)»

Almeida Garrett, Viagens na minha terra, Editora Livraria Sá da Costa, Lisboa.

Já a reli várias vezes e de cada vez que o faço fico a gostar ainda mais deste discurso que é colado a uma viagem e cujo narrador parece que está sentado ao nosso lado, a apreciar e a focar ao mesmo tempo a paisagem física do Vale de Santarém, mas também a difícil e complexa paisagem política, económica e moral que caracterizava o Portugal da época. E que tão bem soube Garrett retratar.

Mas Garrett inovou também no teatro, protagonizando uma renovação nesta arte cuja herança se nota ainda hoje: fundou o Conservatório Nacional, a ideia da criação de um teatro nacional foi sua e surgiu o Teatro Nacional D.Maria II e escreveu ele também um novo reportório para os palcos portugueses. Muito a pensar no público que queria que enchesse as salas, que admirasse o trabalho dos atores, que se reconciliasse com esta arte. Tudo isto em novos moldes, que ele bebera nos países do norte da Europa, quando se viu obrigado a abandonar o seu país, pois o Garrett liberal era mal visto pelos não liberais.

A sua obra teatral serviu de inspiração ao arquiteto que redesenhou um espaço no Porto – o Hotel Teatro. Foi aqui que fiquei alojada nos primeiros dias do ano. O hotel foi reconstruído precisamente no espaço de um antigo teatro – o Teatro Baquet. Numa rua centralíssima, a dois passos da estação de São Bento e perto de muitos locais de visita obrigatória para quem visita o Porto pela primeira vez. Não era o meu caso, mas soube-me bem revisitar áreas emblemáticas como a Ribeira, a renovada Rua das Flores, o café Majestic, os Clérigos, a Avenida dos Aliados, a Praça dos Leões, o Jardim da Cordoaria. Atravessar a ponte de ferro e apreciar a cidade do outro lado do rio. Ainda ter tempo para observar, sob os primeiros raios de sol do ano, as esplanadas e as gaivotas na zona ribeirinha.

A cidade lá fora oferece inúmeros pontos de interesse, contudo o espaço do próprio hotel é muito apetecível. Para além da porta da entrada, sugestivamente transformada em poema, as únicas de que me lembro são as dos quartos. Cortinas, a lembrar muito as do teatro, separam outras divisões e espaços. O restaurante tem o nome “Palco” e o bar chama-se “Plateia”.

Toda a decoração do Hotel nos transporta para a arte do palco, com recriação dos camarins; há roupa espalhada pelos corredores de acesso aos vários espaços; no bar olha-se para cima e parece que estamos a ver a teia por cima de nós; a iluminação é escassa e há projetores a irradiar a luz focada. Os corredores de acesso aos quartos sugerem os bastidores do palco. Há fotografias num tamanho que preenche as paredes.

No bar do hotel, onde se podia ouvir naqueles dias excelente música brasileira (aqui na foto vê-se Caetano Veloso), fixei duas imagens.

Esta já não sei o que retrata. Foi uma foto aleatória, com uma imagem de luzes que me agrada, por isso aqui a deixo.

Esta sim, sei bem o que fixa: uma foto com uma citação, numa revista que era um catálogo dos hotéis que se destacam pelo design. O hotel portuense constava dessa lista. Merecidamente, quanto a mim, que percebo pouco da matéria. Gostei também de rever o Canal Grande de Veneza – esta cidade alberga vários hotéis que constam do catálogo.

A porta do hotel é esta e é um poema – “Seus olhos”.

Abre-se a porta e o espetáculo da cidade está ao nosso alcance.

O café Majestic.

Bem junto à Torre dos Clérigos.

A livraria Lello a homenagear um poeta.

Antes de terminar este post, deixo um outro poema de Almeida Garrett.

Os cinco sentidos

São belas – bem o sei, essas estrelas,
Mil cores – divinais têm essas flores;
Mas eu não tenho, amor, olhos para elas:
Em toda a natureza
Não vejo outra beleza
Senão a ti – a ti!

Divina – ai! sim, será a voz que afina
Saudosa – na ramagem densa, umbrosa.
Será; mas eu do rouxinol que trina
Não oiço a melodia,
Nem sinto outra harmonia
Senão a ti – a ti!

Respira – n’aura que entre as flores gira,
Celeste – incenso de perfume agreste,
Sei… não sinto: minha alma não aspira,
Não percebe, não toma
Senão o doce aroma
Que vem de ti – de ti!

Formosos – são os pomos saborosos,
É um mimo – de néctar o racimo:
E eu tenho fome e sede… sequiosos,
Famintos meus desejos
Estão… mas é de beijos,
É só de ti – de ti!

Macia – deve a relva luzidia
Do leito – ser por certo em que me deito.
Mas quem, ao pé de ti, quem poderia
Sentir outras carícias,
Tocar noutras delícias
Senão em ti! – em ti!

A ti! ai, a ti só os meus sentidos
Todos num confundidos,
Sentem, ouvem, respiram;
Em ti, por ti deliram.
Em ti a minha sorte,
A minha vida em ti;
E quando venha a morte,
Será morrer por ti.

 

Dia Mundial da Poesia, 2017

ASM

 

 

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2 thoughts on “Para celebrar este dia da Poesia: uma cidade, um poeta e um hotel.

  1. Querida, Sofia, como entendo esse amor pelo Porto. Embora não seja portuense de gema, sinto-me como se fosse e adoro calcorrear os seus espaços, as suas ruas…
    Quanto a Garrett, adorei revisitar as palavras iniciais das suas Viagens. Lembro-me de que quando as estudei na escola, a professora de Português disse-nos que não era obrigatório ler os primeiros capítulos, que poderíamos ler a partir do X. Mas eu, que já devorava livros, não lhe liguei e ainda hoje considero esses capítulo anteriores ao X os melhores da obra!
    Beijinhos e obrigada por estas visitas!

    1. Ana, eu também não nasci no Porto, mas vivi momentos fundamentais da minha vida nesta cidade… Garrett é um dos “meus” autores portugueses. Como as “Viagens…” continuam tão atuais e tão modernas! Li o livro muito nova e causou-me muita estranheza. A leitura na escola ajudou-me a perceber a obra e a gostar mais dela. Até hoje. Concordo contigo- saltar os dez primeiros capítulos é imperdoável 🙂
      Ainda bem que gostaste desta visita guiada 😉
      beijinhos

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