O lugar das mesas

Milão, Itália

O lugar desta mesa é muitas vezes a minha porta de entrada em Itália. Aterro aqui e sigo para qualquer outro ponto da península. Sempre que acontece estar só de passagem, procuro guardar uns dias para desfrutar da cidade frenética que é Milão. E tantas vezes isso já aconteceu que me lembrei que já era hora de escrever sobre esta cidade. Escrever o tempo de uma breve passagem, em pleno inverno, quando os dias milaneses se mostraram cinzentos, muito frios. Com uma luz que eu nunca tinha visto, porque antes desta vez, só conhecia a cidade vestida de verão.

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Os ingredientes deste prato apontam para uma ilha, a Sicília, bem a sul desta mesa. Este  prato em cerâmica siciliana que eu vi transformada em muitas outras coisas em Caltagirone–jarras, canecas, travessas, azulejos que adornam cúpulas de igrejas, muros da pequena cidade, canteiros de jardins, degraus de escadas que não acabam, fachadas de casas… – devolveu-me o aroma do pistácio de Bronte, famoso pelo seu sabor e textura. E eu, que não aprecio este fruto seco, aqui como na Sicília reconciliei-me com o seu sabor forte nas massas, gelados, biscoitos, saladas.

Pedi este prato de massa com molho de pistácio num restaurante de cozinha siciliana. Tipicamente siciliano na decoração e na ementa. Nas paredes fotos dos mares da Sicília, dos peixes e dos pescadores daquela ilha. Também palavras em dialeto. Alguns empregados alternavam o italiano com expressões dialetais dando uma melodia meridional àquela sala.

Este restaurante fica numa zona algo distante do centro que é o cartão postal de Milão: com a sua icónica catedral, praça e galeria. Longe das salas de acesso exclusivo para os seguidores de tendências na moda. Deixei estes pontos para o fim.

Procurei nestes dias o que há muito queria conhecer. Para além da zona residencial de Brera, a  Pinacoteca com o mesmo nome.

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O pátio da entrada da Pinacoteca. Numa manhã gelada e chuvosa.

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Uma manhã inteira entre as suas portas. Fora, a chuva e o frio. Dentro, a beleza espalhada por várias salas.  Raffaello, Mantegna, Carpaccio, os “vedutistas” venezianos Francesco Guardi e Canaletto e os mais contemporâneos Giorgio Morandi e Giorgio De Chirico têm aqui lugares de destaque.

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Giorgio Morandi, «Natura Morta», 1918.

Tinha em mente procurar algumas obras de nomes que muito admiro e deixar-me ficar a admirá-las. Como estas…

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Francesco Bissolo, «Santo Stefano tra i Santi Agostino e Nicola da Tolentino», 1510.

Tenho particular predileção por este tom de verde…

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Andrea Mantegna, «Madonna con il Bambino e un coro di cherubini (Madonna dei Cherubini)», 1485-1490.

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Giuseppe Pellizza da Volpedo, «Fiumana», 1895-1896.

Este quadro antecede um outro, «O quarto estado», fazendo parte de uma série de três. Queria muito ver este, depois de ter visto e escrito sobre o último da série.

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Raffaello Sanzio, «Sposalizio della Vergine», 1504.

Rafael. Este quadro que é toda uma síntese do equilíbrio das proporções, que joga com a perspetiva. Há muito que queria ver com os meus olhos esta obra, sem filtros. Ele ali estava.

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Gentile Bellini e Giovanni Bellini, «Predica di San Marco in una piazza di Alessandria d`Egitto», 1504-1507.

Deste nada sabia e foi uma grande, enorme surpresa. Veio da Escola de San Marco, em Veneza. Notam-se bem as linhas arquitetónicas da cidade que se misturam com outras, oriundas de cidades mais a oriente. Uma obra que exige tempo e a calma do olhar, para não se perder nenhum pormenor. Teria estado mais tempo a observá-lo, não fosse estar com o meu tempo limitado a uma manhã…

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Uma aproximação ao mesmo quadro. O canto inferior esquerdo da praça que é uma súmula do encontro entre ocidente e oriente.

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Carlo Crivelli, «Madonna della candeletta», 1488-1490.

Outro quadro que mereceu o meu registo. Neste tríptico, fixei-me na parte inferior do retrato da Madonna, devido ao realismo e às cores luminosas da pedra, dos tecidos, das flores…

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Já quase no fim da visita, deparei-me com uma vendedora de fruta. E dela registei este detalhe. Muito por causa dos traços pormenorizados dos diferentes frutos, das suas cores e de serem tão apetecíveis ao olhar.

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Vincenzo Campi, «Fruttivendola», 1578-1581.

Milão rima ainda com moda, design, tendências, estilo e avenidas repletas de gente a entrar e a sair de lojas cujas montras se antecipam a todas em todos os lugares, porque nesta cidade muita coisa é pensada, criada e dada a conhecer ao mundo antes da hora. É a cidade do minuto zero para muitas criações.

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Via della Spiga.

A via della Spiga é um dos palcos dessas antestreias exclusivas. Abrem-se as cortinas, isto é,  atravessam-se as portas (por si só merecedoras de um olhar atento) e imerge-se num universo criado por um nome que tem ecos de fazedor de mundos de maravilhas. Foi naqueles dias de frio invernoso que me cruzei com as criações para o verão quente que estava para vir.

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Uma loja de roupa para crianças. E na porta, uma história para crianças. Para ler antes de entrar.

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Criações de uma dupla (D&G) que nesta coleção recria a identidade de um país.

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Estas montras não deixavam ninguém indiferente…

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Esta porta dava para um prédio residencial, um pequeno refúgio de silêncio no meio da agitação das ruas e praças ali próximas.

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Nesta estadia em Milão houve ainda tempo não para um gelado, como acontece sempre que chego aqui no verão, mas para um cappuccino bem quente, num dos pontos nevrálgicos da cidade – a galeria Vittorio Emanuele II.

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Galeria Vittorio Emanuele II.

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Sentada a esta mesa, a observar o lá fora. Em movimento constante, porque naquele palco das galerias as vidas passam, em trânsito, sob as  belíssimas cúpulas. Corpos de passagem, refletidos nos vidros que são como espelhos de uma cidade que se mostra elegante e cosmopolita, sedenta de futuro e novidade.

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Para os italianos, os gelados não obedecem a calendários. Estão sempre presentes…

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O interior da catedral de Milão.

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ASM

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7 thoughts on “O lugar das mesas

  1. Olá Ana: Milão também foi o meu “minuto zero”, a minha porta de entrada em Itália há uns anos. E que bem me soube recordar a Pinacoteca com os seus quadros cheios de figuras carismáticas. Estive apenas um dia e soube a pouco. Quando assim é, temos de correr contra o tempo e as vivências não conseguem acompanhar o ritmo. Este ano penso voltar e voltarei ao teu blog várias vezes para ler as tuas histórias e inspirar um novo roteiro.

    1. Olá, Eva! Muito obrigada pelo comentário! Milão é mesmo uma tentação 🙂 Adoro a zona de Brera e finalmente visitei a Pinacoteca. Três sugestões para a tua próxima vez: não deixes de provar o “risotto allo zafferano”(tem açafrão e é tipicamente milanês);dá um salto até ao Bar Magenta (na rua Giosue Carducci), fui lá este verão e tem uma história e um ambiente muito especiais…(http://barmagenta.it/about/);e vai até ao último andar do La Rinascente (uma galeria comercial mesmo ao lado da Galleria Vittorio Emanuele II) e desfruta de um aperitivo e da magnífica vista sobre a praça da catedral e sobre a cidade (https://www.rinascente.it/rinascente/it). Estas três coisas marcaram a minha última vez na cidade, no verão passado 😉

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