Uma casa para o Natal

Trentino Alto Adige | Südtirol, Itália

Cheguei a esta casa num dia de agosto, em pleno verão. Depois de seis horas de comboio, a atravessar o norte de Itália desde Turim, cheguei a Monguelfo, uma vila bem próxima da fronteira com a Áustria. O caminho até lá é feito de paisagens montanhosas, pontuadas por castelos medievais no topo de colinas rodeadas de campos onde a maçã é cultivada há séculos. As maçãs desta região do norte de Itália são deliciosas, têm muitas cores e sabores e o seu lugar à mesa é o de rainha. Para se chegar bem a norte, é preciso atravessar túneis ferroviários de quilómetros que desembocam invariavelmente num verde de montanhas.

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As montanhas e os campos alinhados de macieiras.

O meu destino era Monguelfo ou Welsberg. E depois de deixar para trás Trento, Bolzano e  Bressanone, cheguei ao vale de Pusteria. A casa onde fiquei alojada é na verdade um hotel. Um hotel de montanha, familiar (na mesma família há duas gerações) e perto do centro da vila de Monguelfo, a cinco minutos a pé da estação.

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Daqui desta casa (Hotel Dolomiten) parti para conhecer as Dolomiti, os lagos, as  igrejas,os  museus em cidadezinhas de janelas sempre em flor, os mercados de frutas e queijos…Muito graças à linha de comboio que atravessa este vale e o de Braies. Podia ter também a opção de percorrer os vales de bicicleta, pois é um transporte muito usado por estas paragens. Quando as distâncias são muito longas, ciclista e bicicleta entram no comboio e saem no início da etapa seguinte do percurso. As ciclovias são de encantar qualquer um, mesmo os mais renitentes aos pedais, já que o cenário é de uma beleza natural genuína, quase intocada.

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Monguelfo| Welsberg

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Voltando à casa. Trata-se de um hotel de pequenas dimensões (o que me agradou muito), gerido por um casal com dois filhos e que trata de preservar a herança e tradições familiares com um zelo e dedicação extremas. Ali somos recebidos de um modo que nos faz sentir em casa. Fiz lá grande parte das refeições e a sala de jantar ao segundo dia de estadia já me parecia conhecida desde sempre, tal o ambiente descontraído e caloroso que se criou entre a família e os hóspedes. Logo pela manhã, ao pequeno-almoço, havia na mesa um boletim informativo com dados importantes, tais como previsões meteorológicas do dia, os mercados existentes nas vilas vizinhas e que mereciam uma visita, sugestões de excursões para todos os gostos. Qualquer dúvida era de imediato esclarecida pelo casal J. e H.. Ou mesmo pelo seu filho mais velho, um jovem pré-universitário que, depois daquele verão, iria ingressar num curso de Física em Innsbruck. Em conversa disse-me que a Física era a sua grande paixão, embora o ramo da hotelaria lhe agradasse também muito.

Os serões, que registavam um acentuado arrefecimento e que convidavam a um final de dia entre portas, eram pontuados por conversas cruzadas na sala, onde se podia ler jornais, revistas (ambos em edições bilingues) ou programar o dia seguinte com a ajuda preciosa dos anfitriões, para quem as Dolomiti não tinham segredos. Em H., a mulher de J., eu notei uma particular paixão pela sua terra natal, sempre que dela falava com um entusiasmo que alternava o alemão com o italiano. E de tantas vezes que a ouvi consegui perceber que o alemão, na sua voz, era bem mais doce e que o italiano, por sua vez, adquiriu uma entoação que refletia o sentido pragmático e direto que caracteriza muito o espírito das pessoas do Alto Adige. Àquele espaço, ao serão, confluíam habitantes de Monguelfo, amigos da família, visitantes ocasionais, gente de passagem, que procuravam o calor (físico e não só) daquela família e daquela sua casa. Conversas que giravam à volta de histórias de famílias, de regressos a uma paisagem de excursões da infância, reencontros com velhos amigos que tiveram aquele hotel ou aquelas montanhas como cenários de felicidades. Enquanto J. permanecia mais tempo retirado na cozinha, pois era ele o chef do hotel, H. e o filho mais velho eram os dignos anfitriões daquela casa. Toda revestida por dentro a madeira, das suas paredes exalava um constante aroma a madeiras, misturado com um quente da lareira que, apesar de não estar acesa, permanecia desde o último inverno. A isto somava-se um aroma difícil de definir, pois lembrava-me o cheiro da canela, de troncos de árvores resinosas, de terra húmida,  mas também aromas de cozinha: leite, maçãs cozidas, queijos derretidos, cogumelos (que cresciam mesmo ali ao lado, nas encostas da montanha)…Devia ser isto tudo junto.

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Risotto ai funghi…

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Panna cotta…

Um dia tive oportunidade de me juntar a H. e à sua cunhada, também ela gestora de um hotel em Monguelfo, para um chá numa mesa de madeira escura. Ambas vestidas com os trajes de tirolesas. Lindos, em tons de rosa e verde. Preparavam-se para as festas da vila, que ocorrem no final de agosto e que contam com um festival dedicado ao chocolate. Um fim de semana que encheu as artérias principais de Monguelfo de artesãos do chocolate oriundos de muitas partes de Itália: Milão, Turim, Veneza, Sicília. Ao chocolate juntaram-se o mel e os doces de maçã, tão característicos desta região: o apfelstrudel tem lugar de destaque em qualquer mesa. Falámos um pouco destes costumes e do orgulho que têm em mostrar aos que visitam a sua casa estas tradições que  fazem parte do seu ADN.

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Provei este apfelstrudel  no festival do chocolate…

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Os chocolates italianos…

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Ainda não tinha escrito sobre esta “minha” casa nas montanhas. Guardei para agora, porque achei que o ambiente que lá encontrei se coadunava muito com esta época natalícia: da família, da casa e das tradições. Do viver tudo isto em paz e harmonia com os outros, recuperando e zelando por aquilo que os mais velhos nos legaram. Aquele hotel é muito procurado por esta altura e durante todo o inverno. Imagino o J. nestas semanas de dezembro empenhado em renovar a tradição culinária. Disse-me que procurava sempre os ingredientes mais autênticos, mais  típicos da sua terra e com eles, pude eu testemunhar, fazia grandes maravilhas. Pela minha mesa passaram delícias doces e salgadas. Imagino agora a sala de jantar toda decorada para o Natal daqueles que escolheram estar ali com os seus, a chegada da sopa fumegante, o calor das lareiras que devem estar acesas. As luzes cá fora que iluminam os caminhos entre as montanhas.

Enviei votos de bom Natal para esta família e perguntei se havia neve por esta altura. Disseram que não, que ainda não tinha chegado e prometeram-me uma fotografia assim que a paisagem que eu via todas a manhãs da janela do meu quarto se cobrisse de branco. Quando a receber, partilhá-la-ei. Sem neve era isto que via da janela do meu quarto…

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De um lado e do outro…

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As Dolomiti ao fundo.

Acrescentaram que tinham vindo a Portugal em novembro, mais precisamente a Lisboa. Encontraram uma cidade alegre, musical e com uma gastronomia que muito apreciaram. Foram ainda a Sintra e ao Cabo da Roca. Adoraram. Lisboa e Portugal vão fazer parte das suas conversas em volta das mesas em madeira escura, estou certa. Eu falo/escrevo sobre como fui recebida entre eles,  como senti as montanhas, como gostei da mesa com as maçãs e o chocolate e uma profusão de cogumelos. Ainda terei muito por contar, pois trouxe memórias felizes.

Serve este texto para desejar festas felizes a todos quantos me leem. A todos os que generosamente me fazem chegar a sua opinião sobre o que aqui vou deixando.No ano passado, também no dia 23 de dezembro, deixei este texto para assinalar a quadra festiva que atravessamos. E gostaria de neste dia enunciar votos diferentes dos do ano passado. Infelizmente, ao reler o que antes escrevi, percebi que ainda são atuais. Por isso os renovo.

Que estes dias sejam celebrados da maneira que se quiser, não esquecendo o que de melhor podemos ir buscar a esta data. Faço votos para que a natividade seja sinónimo de nascimento de uma época bem melhor que a anterior, que o espírito de Natal seja uma constante ao longo de todos os dias do ano e não uma celebração pontual, um sinal de “tarefa cumprida e terminada” no calendário individual. E o meu maior desejo: paz. Paz no mundo e em cada um de nós e em nós com os outros (se começarmos por aqui, a do mundo parece tangível). Que as diferenças religiosas sejam um acrescento à humanidade, sinal da sua diversidade e beleza e não um pretexto para a sua autodestruição.

Bom Natal!

 

ASM

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4 thoughts on “Uma casa para o Natal

    1. Concordo, todos temos. Esta é a minha 😌 Havia outra hipótese de título para este post, era “A minha casa na montanha”. Acho que vou ler o título que ficou como se fosse este. Muito obrigada pelo comentário!

  1. Um belo texto que me fez viajar a uma regiao que ainda nao conheco e que espero conhecer em breve.
    Nao sou muito adepto de neve, pelo que prefiro ver as montanhas e vales cobertos de verde.
    Talvez nessa altura te peca unas dicas…
    Um bom natal !

    1. Obrigada pelas tuas palavras! Sim, vale a pena conhecer esta região italiana, não muito óbvia e com uma identidade muito particular. Quando estiveres para ir, diz, que te dou boas dicas 😉 Um bom Natal para ti também!!!🎄

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