Quando (não) estou em viagem

Por outras palavras

 Numa viagem gosto do durante. De tudo aquilo que a faz, das surpresas que preenchem os vazios da planificação prévia, dos imprevistos que tenho de resolver, das pessoas que vou conhecendo e que me dão a conhecer, pelo seu olhar, o lugar em que coincidimos. E se vêm de outro ponto do mapa, então os lugares de onde vimos sentam-se à mesa e servem-se no mais rico e apetecível dos pratos. Com tempo para degustar e apreciar todos os detalhes partilhados.

Numa viagem, gosto também muito do antes. Da pesquisa que sempre faço sobre aquilo que quero conhecer, das expectativas alimentadas por uma curiosidade  muitas vezes difícil de controlar e que já me levou (e ainda bem) a alterar roteiros, saltar etapas, demorar mais tempo nos sítios, perder-me no tempo, deixar-me levar por sugestões do momento. No período antes da partida já eu andei por países, cidades, cafés, museus, praias, praças, pontes, ruas, debaixo de arcadas, livrarias, mercados…Isto porque também gosto de ler o que outros escreveram sobre o que viveram. E há tantos autores que escrevem tão, mas tão bem, que me transportam com eles para esses lugares longe dos meus “aqui” e “agora”.  Na verdade posso  não estar fora das minhas coordenadas mais constantes, que vulgarmente se designam por local de residência, local de trabalho… No entanto altero o meu mapa de muitas maneiras. É esse o meu estado habitual.

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[Os livros que são viagens e a máscara trazida de Veneza, depois de muito a procurar nas lojas oficina, onde se podem observar as várias etapas da sua criação. ]

Muitas vezes mergulho nas páginas de um livro, deixo-me levar pelas mãos que escrevem  sobre os sítios que eu ainda quero conhecer, encanto-me com imagens de lugares que estão à minha espera, regresso a paisagens que conheci com sol e que vejo nos textos e fotos de outros, com as cores do outono ou do inverno. Folheio, com uma urgência boa de desejo de partida, revistas e livros e embrenho-me em episódios que foram vividos por outros viajantes e torno-me, pela força das palavras, em testemunha direta. Há palavras com uma força imensa, capazes de nos puxar para dentro de um comboio, de um café histórico, de uma praça, de uma igreja e de nos fazer sentir como se lá estivéssemos. Pode acontecer durante frações de segundo, minutos que se alongam, suspensos num espaço intermédio entre o “cá” e o “lá”.

E então o tempo dilata-se, os espaços alargam-se e tudo se mistura na minha memória – o que li, o que quero viver e conhecer e o que já conheci… e as fronteiras desaparecem e a viagem é um continuum entre o que se viveu e o que está para viver.

Gosto de ser seduzida pelo que vou lendo, ouvindo em conversas fugazes, vendo em fotografias irresistíveis. É assim todos os dias. Sou assim sempre. Se não estou em viagem, estou para estar.

Escrever aqui é também uma forma de viajar e por isso tiro notas, releio-as, edito fotos, revisito fotos. Registo ideias num caderninho que anda sempre comigo, pois elas surgem em momentos tão diferentes como quando conduzo para o trabalho, quando experimento determinado sabor que me faz lembrar outro que provei a muitos quilómetros do “aqui”, vejo um filme e o cenário é uma rua, um café, uma cidade onde já estive, leio uma reportagem sobre um lugar que conheço, ouço uma notícia que me põe ao corrente do que se passa no “lá”. Quando ouço uma música que já ouvi em algum lugar. Quando olho pela janela de minha casa e vejo a água dos canais que a rodeiam e por isso me fazem regressar a cidades onde eles também existem e onde eu também já fui eu: Amesterdão, Bruges, Estocolmo, São Petersburgo e, claro, Veneza. Quem me conhece bem sabe que nunca me separo de um caderninho para notas deste tipo. Sabe também que esses registos por vezes tomam a forma de imagens. De cada vez que abro esses cadernos ou quando revejo uma fotografia regresso aos lugares onde já estive e reencontro-me com pessoas e momentos felizes. Há objetos que tenho comigo que produzem o mesmo efeito.  Sobre eles já comecei a escrever. A explicar de onde vieram, por que razões os tenho na minha casa, por quem foram oferecidos. No fundo, a história de cada um e que se combina com a minha.

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[Vejo este barco, desta cor assim, bem perto de casa…]

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[O cavalo vermelho feito por artesãos suecos, comprado em Estocolmo. Em tempos mais recuados, era um brinquedo muito desejado pelas crianças. Este já não tem uma das orelhas, de tanto ter cavalgado pelas mãos de uma das minhas sobrinhas. O bule pequenino foi-me oferecido e veio da Tunísia. Um presente dos meus pais, que sabem como eu gosto de chá e conhecem a minha vontade de conhecer este território.]

Escrever e ler sobre lugares são duas das dimensões das minhas viagens. Recentemente tenho comigo uma promessa de uma viagem à Grécia. Que conheço de há muito, por outras palavras.  Desta vez descobri uma outra Grécia, a de Lawrence Durrel. Está à minha espera, na estante dos livros que são mais que isso: são tapetes voadores, naves supersónicas, cápsulas que atravessam os tempos, comboios lentos que atravessam montanhas, submarinos transparentes que deixam ver as águas e tudo o que nelas mora, mapas muito pessoais desenhados com palavras, arcas fundas com camadas sobrepostas de tempo sobre as cidades… Possibilidades imensas de conjugar o verbo “viajar”.

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 Este roteiro grego  começa em Corfu, com estas palavras que são como uma porta de entrada na ilha:

« O viajante que desça para sul pelo calcanhar da Itália como se escorregasse por uma meia de Natal cheia de prendas – cidadezinhas e monumentos inesperados – sente os primeiros sinais de que se aproxima de uma fronteira ainda muito antes de chegar a Brindisi.

Os aspetos mais selvagens do Mezzogiorno deram já lugar a uma série de cantões verdes e encantadores, a essa terra estranha e pitoresca de trulli, como chamam a essas engraçadas mas muito elaboradas aglomerações de potes de barro colados uns aos outros de qualquer maneira que são os pombais nativos do Sul italiano. Manfredonia e o seu grupo de promontórios de aparência sinistra desaparecem à esquerda. E a esta hora a tarde cai, com as luzes esverdeadas e gastas de um crepúsculo primaveril. O nosso viajante será prudente se escolher a primavera para a jornada que tem em vista, mas o descalçar da meia italiana é demorado e a noite começa a levar a melhor. De comboio ou de carro, tanto faz. Acaba a garrafa de vinho, come a última sanduíche. Em Brindisi poderá reabastecer-se e, se estiver a conduzir, a cidade oferecer-lhe-á também, nos dias de hoje, um confortável ferry para a viagem noturna. Brindisi marca a fronteira, que não é terrestre, mas marítima. Do outro lado, haverá simplesmente uma mudança de elemento?  Ainda não tem uma premonição muito clara das ilhas gregas que o esperam, deitadas na escuridão como cães adormecidos. Como serão?

O que confere magia a uma fronteira? Não é o facto de ser uma delimitação territorial ou política, pois essas são artificiais, ditadas pela história. A mudança súbita de cenário, às vezes e em parte, pode ser responsável, mas muitas mais a passagem de um país para outro não é acompanhada de qualquer alteração da flora e da fauna (da Itália para a Grécia, por exemplo, da França para a Espanha). Talvez seja a linguagem que dá à passagem de uma fronteira o seu sabor característico de viagem. Seja qual for a resposta, é aí que está a magia. O coração do viajante baterá com um novo ritmo, o seu ouvido recolherá as tonalidades de uma nova língua; examinará a nova e estranha moeda com curiosidade. Tudo parecerá diferente, incluindo o ar que respira. Na Grécia é…Mas não nos adiantemos. (…)»

In As Ilhas gregas, Lawrence Durrell, Relógio d`Água, p.18

Deixo aqui este início de viagem, que é mais uma etapa na Grécia que eu vou construindo em mim. O chão, as oliveiras, os templos, as ilhas, os azuis, as palavras de sabor antigo deste país vão um dia coincidir com as minhas coordenadas.

 

ASM

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4 thoughts on “Quando (não) estou em viagem

  1. Sofia, como sempre maravilhei-me com as tuas palavras! E identifico-me completamente com esta frase: “Se não estou em viagem, estou para estar.”
    Beijinhos e, já sabes, fico à espera de mais “viagens”

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