À mesa com saladas e livros

+ do que 1

Posso começar exatamente pelo que o título antecipa – uma mesa. Em Lisboa, na Rua de São Bento. No verão passado.

mesas_f1

Na rua de São Bento, a caminho…

A rua eu conheço bem. Percorro-a sempre que quero ir a uma das minhas livrarias preferidas, a “Palavra de Viajante”. Como o nome tão bem sugere, trata-se de uma livraria dedicada às viagens escritas. Quando lá entramos, iniciamos uma viagem pelas palavras de outros. E que bem que sabe passar os olhos pelas estantes, passar os dedos pelas lombadas que anunciam destinos – continentes, países, cidades, lugares ainda mais pequenos. Ou então fixarmos a atenção em nomes de viajantes que prometem momentos de leitura que mais parecem um verdadeiro sentir, viver, vibrar com tudo o que se lê nas páginas com a sua assinatura.

mesas_f2

A entrada da livraria.

Lembro-me que a minha primeira vez na livraria coincidiu com o dia do primeiro aniversário deste blogue. Foi um feliz acaso estar em Lisboa nesse dia de abril e por isso decidi, em jeito de celebração, conhecer esta livraria em Lisboa, a primeira do género em Portugal, tanto quanto sei. Na “Palavra de Viajante” a viagem é o mote. E as viagens escrevem-se em diversas línguas, não há fronteiras linguísticas para as dizer.

Depois desta primeira visita, voltei lá várias vezes e nunca venho de mãos vazias. É uma tentação difícil de controlar. Melhor, que não quero controlar. Entretanto a livraria sofreu uma remodelação: está maior, mais bonita. É também um espaço para eventos como exposições de fotografias de viagens, encontro de autores e de viajantes que partilham o que viveram em lugares distantes dali.

Já era altura de escrever sobre este lugar que me é tão caro. De voltar a ele com palavras e fotos. Desta vez cruzei-me com dois viajantes inesquecíveis – Phileas Fogg e Passepartout.

Aqui vão eles…

mesas_f3

…na sua volta ao mundo…

mesas_f5

…repleta de peripécias.

mesas_f4

Merece um olhar demorado o espaço dedicado à literatura de viagens para crianças. Uma seleção cuidada, de autores portugueses e estrangeiros. Livros ilustrados, mapas à escala de olhos infantis, alguns brinquedos a estimular a vontade de ir, de conhecer, de ser noutros lugares. Desta vez não trouxe nenhuma fotografia deste espaço da livraria, tão entusiasmada estava a percorrer as altas e recheadas estantes. Mas trouxe este recanto assim:

mesas_f6

Voltando à mesa do almoço desse dia. Foi num restaurante bem perto da livraria, a Mercearia Saloia. Um espaço que é também uma mercearia. Como aquelas antigas. Com quase tudo em madeira – balcão, mesas, cadeiras, expositores. Com o lastro do tempo bem preservado. Nas pequenas e grandes coisas.

Com um chão lindo…

mesas_f7

mesas_f8

Com comida simples, leve como eu gosto, feita na hora e à nossa frente. Para esse almoço escolhi duas saladas. Esta foi a primeira – de requeijão, rúcula, tomate, amêndoas, nozes… a acompanhar, o sumo do dia – de maçã e meloa.

mesas_f9

Para sobremesa, outra:

mesas_f10

Sabia que queria uma salada de fruta e escolhi eu própria a fruta – dirigi-me aos expositores da fruta e legumes da mercearia e selecionei os ingredientes que depois me prepararam para este prato.

mesas_f11

A mercearia.

mesas_f12

Com guloseimas da minha infância doce…

Na mesa estavam também os livros que tinha trazido da “Palavra de Viajante”. Que eu percorri com olhos desejosos de neles me perder.

mesas_f13

  1. The Great Cities in History, Edited by John Julius Norwich, Thames & Hudson.
  2. Cartas de Italia, Josep Pla, Austral.
  3. Le Goût de Venise, Textes réunis et présentés par Jean-Noël Mouret, Mercure de France.

Três livros muito diferentes. O livro 3 pertence a uma coleção da qual tenho alguns livros. Cada volume é uma antologia de textos literários sobre uma cidade, um país (na série sobre lugares) e o objetivo comum a todos eles é reunir excertos que deem conta das sensações, impressões que os lugares proporcionaram aos escritores. Neste livro dedicado a Veneza há textos de Hemingway, Goldoni, Thomas Mann, Lord Byron, Hugo Pratt, entre outros. Eis o texto da contracapa:

« Venise, ville de tous les rêves et de tous les fantasmes, est aussi la ville de tous les clichés. Pourtant, derriére le décor se dissimule une autre Venise, secrète et inattendue, parce que souvent drôle et chalereuse. C`est à partager cette joie de vivre à Venise que vous convient ici des auteurs d`origines et d`epoques fort diverses, mais tous Vénitiens de coeur. Sur les pas de Paul Morand, d`Ernest Hemingway, de Philippe Sollers, de Hugo Pratt, de Patricia Highsmith, de James Hadley Chase, de Gabrielle Wittkop, de Marcel Proust, de Carlo Goldoni et de bien d`autres, le lecteur-voyageur découvrira ici quelques-unes des faces les plus cachées, et les plus séduisantes, de la Sérénissime. Pour ceux qui souhaitent déguster sur place le goût de Venise, un petit guide pratique en fin de volume renferme les principales informations utiles à la réussite de leur voyage. »

A obra de Josep Pla (2) fez-me companhia na viagem que dali a poucos dias eu iria fazer pelo norte de Itália. No avião, no comboio, no autocarro. Mas ali, na “Palavra de Viajante”, o livro “agarrou-me” logo pelo texto da contracapa, sobretudo por este excerto ali reproduzido, com o qual concordo em absoluto.

«En Italia nada es insípido. No he visto a nadie caminar por la calle con cara de bobo. Noto que estoy en Italia cuando cada mañana, al levantarme y salir a la calle, me encuentro rodeado de personas con la mirada centelleante. En las ciudades italianas, las mañanas despuntan con una intensidad como no es possible contemplar en ningún otro lugar del mundo.»

E lembrei-me logo das maravilhosas manhãs em Veneza. Com estas cores.

dsc_01092

Veneza – ilha da Giudecca, 6h35m, 29.08.15.

Eu (ainda) não estive em todas as cidades italianas, mas já estive em algumas. Eu não conheço todas as cidades do mundo, mas, de todas as cidades do meu mundo, são as italianas aquelas que têm os olhos mais brilhantes…Das 28 sobre as quais escreve Josep Pla, conheço 15 e foi bom regressar a elas com a leitura deste livro. As cartas focam ainda a gastronomia e há uma que se debruça sobre a República de São Marino. O capítulo inicial, “Sensaciones de Italia”, é absolutamente imperdível. Nele o autor discorre com a mesma dose de  humor, fascínio e encantamento sobre o café italiano, a pasta, os queijos, o vinho e a pintura, literatura e música, política e património arquitetónico daquele país. Sensações e impressões muito pessoais. Que resultam de muitas viagens e estadias na península itálica, que pisou pela primeira vez em 1921.

Lê-se ainda na contracapa:

«Josep Pla recorrió durante cuatro años los caminos de Italia, desde los valles de los Alpes hasta las polvorientas tierras del sur. A lo largo de estas páginas podemos conocer y casi sentir el clima de determinada región, paladear su distintiva gastronomia, enterarnos de biografías ilustres, degustar un espresso raccomandato; podemos perdernos por las sensuales calles de Nápoles tras el guiño turbador de una muchacha de brillantes ojos negros, surcar en góndola recónditos canales bajo el incendio suave del crepúsculo, sobrecogidos por el hechizo de mil colores de las piedras de Venecia, recrear la vida apasionada y violenta del medievo entre las callejuelas estrechas de Siena e, incluso, intuir el rostro de Beatriz reflejado en las claras aguas del Arno.

Cartas de Italia es un apasionado homenaje a las deslumbrantes sensaciones de un país esencial, inmutable, un monumento levantado con los aromas, sabores, colores, texturas y sonidos de Italia.»

O livro 1 foi uma surpresa boa. Uma série de retratos de cidades de todo o mundo, numa obra dividida em cinco partes: cidades da Antiguidade, como Tebas, Babilónia, Atenas e Jerusalém; uma segunda secção dedicada a urbes do primeiro milénio – Constantinopla, Meca, Damasco, Córdova, por exemplo; a terceira parte debruça-se sobre as cidades no mundo medieval – Palermo, Cairo, Samarcanda, Paris, Cracóvia, Cusco, só para dar alguns exemplos. Cidades como Lisboa, Roma, Pequim, Estocolmo e São Petersburgo são retratadas na divisão denominada “The early modern world”. Para depois terminar na cidade dos tempos modernos. E aqui surgem Moscovo, Budapeste, Barcelona, Washington, Berlim, Singapura e Tóquio. Não referi todas as cidades, é preciso ler o livro para darmos essa volta ao mundo e volta aos tempos de cada uma delas.

O que se diz do livro na sua contracapa:

«From the origins of urbanization in Mesopotamia to the global metropolises of today, great cities have marked the development of human civilization. The Great Cities in History tells their stories, from Uruk and Memphis to Tokyo and São Paulo. A team of distinguished contributors evokes the character of each place – its people, its art and architecture, its government – and explains the reasons for its success. Richly illustrated with photographs, paintings, maps and plans, this book is nothing less that a portrait of world civilization.»

mesas_f14

A Mercearia Saloia por fora.

Este dia acabou da melhor maneira, com um passeio pela margem renovada do Tejo, pensada para as longas travessias à beira rio. E a convidar a estar. Com a certeza de que a nossa volta ao mundo pode ter início onde quisermos, com o livro que desejarmos…

mesas_f16

ASM

Follow my blog with Bloglovin

Anúncios

5 thoughts on “À mesa com saladas e livros

  1. Sofia, que texto tão inspirador! Que lugares tão inspiradores! Senti-me ao teu lado na livraria, na mercearia (que encanto de lugar) e no “recorrido” que fizeste por Lisboa e por todas as cidades mencionadas!
    O prazer que transparece nas tuas palavras é contagioso! ADOREI!
    Beijinhos e boas viagens!

    1. Muito obrigada, Ana! Lugares inspiradores, na verdade. Tens de dar um saltinho à livraria, vais adorar, estou certa! O restaurante foi uma surpresa que serviu na perfeição para que aquele dia fosse perfeito.
      Boas leituras e beijinhos!

    1. Depois de um dia de muito trabalho, que bom que é chegar aqui e ler este comentário 🙂 Muito grata…Com vontade de continuar com este fôlego 🙂 Até breve!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s