História da capa (2)

Alto Adige | Südtirol, Itália

Tem sido muito assim, no regresso de férias – trago comigo experiências, pessoas, sabores, imagens, aromas e histórias que merecem estar aqui. Por isso o regresso coincide com uma vontade enorme de organizar toda esta bagagem imaterial, sem peso mensurável, mas a mais grata de todas…

É no verão que percorro mais quilómetros, que vou mais longe, que dilato a minha geografia inscrita também aqui no blogue. Assim aconteceu mais uma vez. E sei que tenho muita sorte de poder ser assim, de poder ir onde mais desejo para aqueles dias. De poder ficar em lugares que ainda não conheço ou de poder revisitar outros onde me sinto sempre bem.

Agosto foi sobretudo um mês de regressos a lugares que me são caros (Lisboa, Costa Vicentina, Milão e Turim) e de descoberta de uma região de fronteiras muito diluídas. Não as dos mapas, porque essas são bem visíveis. Há uma linha a separar de forma clara a Áustria e o Nordeste de Itália. No entanto, quando se pisa aquele chão de montanhas erguidas para o alto, com intervalos de vales, lagos, rios, as certezas dissipam-se ao ritmo das nuvens brancas de algodão que passam naqueles céus  sobre os picos. Estar na região do Alto Adige, em pleno Val di Pusteria, junto ao grupo setentrional das Dolomiti é imergir num território maioritariamente bilingue de tradições tirolesas e italianas. Com resquícios ainda da cultura ladina, que em algumas zonas se reflete também na terceira língua que se ouve e se lê . A lembrar muito a parte austríaca do Tirol, que conheci em 2011, quando visitei Innsbruck e as montanhas alpinas em redor.

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[Ao fundo as Dolomiti, pontiagudas. Em Monguelfo|Welsberg.]

As Dolomites (estas montanhas são femininas em italiano) são elevações de rocha com picos pontiagudos. O magnésio marca presença forte na sua constituição. As suas encostas de um cinza prateado brilhante competem em beleza com os alpes de um verde raro de tão resplandecente que é. Ao pôr do sol, a cor da prata mistura-se com o cor de rosa desta rocha que tem o nome do seu descobridor: Déodat G. de Dolomieu, um geólogo francês (1750-1801). Há ainda outro pormenor que torna as Dolomiti um fenómeno único na natureza – a sua história remonta à era glaciar e já foram cadeias de corais imersas nas águas. Daí terem sido encontrados fósseis de seres marinhos nestas montanhas. Toda esta cadeia montanhosa é património protegido da UNESCO.

O Alto Adige é um paraíso para alpinistas, esquiadores, ciclistas, admiradores da natureza que aqui parece estar no seu estado mais puro e intocado. É uma região muito bem organizada para quem gosta de caminhar pelos bosques, com “sentieri” que nos levam ao coração das manchas verdes das encostas, com uma rede de transportes (comboio e autocarro) que proporcionam roteiros inesquecíveis a atravessar vales, com rios e lagos e as omnipresentes montanhas como paisagem. Eu caminhei quilómetros e recorri sobretudo ao comboio que avança lentamente sobre o verde.

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[O comboio que liga as várias vilas e cidades do Val di Pusteria e que percorre as linhas do Südtirol. Com janelas grandes e largas de onde podemos observar a paisagem. As cores das carruagens misturam-se com as cores da natureza.]

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O meu ponto de partida era Monguelfo (também Welsberg), uma pequena vila de montanha no Vale de Pusteria. Muito próxima da fronteira com a Áustria. Dali diariamente partia à descoberta. Uma das mais surpreendentes foi o lago di Misurina, na província de Belluno. Situado a 1754m de altitude, lá no topo encontrei uma paleta de cores ainda mais vivas. Como se fosse possível a aguarela que eu conhecia de Monguelfo tornar-se ainda mais brilhante. Tive muita sorte com o tempo: segundo as pessoas com quem fui falando naquela semana em que lá permaneci, estava a ser a melhor de todo o ano, de um sol e calor raros naquelas paragens. O lago tem 2,6 km de perímetro e pode-se caminhar em todo o seu redor. Foi o que fiz. Sem ponta de cansaço. Encantada com toda aquela beleza. Que se refletia na água. Em que o azul do céu combinava com o cinza e o verde das montanhas.

Foi desta caminhada que selecionei a nova foto da capa do blogue. Também porque ela resume bem muito do que vivi durante os 11 dias de viagem pelo norte de Itália.

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As Dolomites, os bosques que as rodeiam, o chão com caminhos para caminhar.

Agora a mesma imagem comigo. A que vai passar a ser a fotografia do rosto deste blogue, depois desta.

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Atrás de mim ficava um hotel com vista para o que se vê na fotografia e a sua outra fachada estava virada para o lago. Vi aqui nas imediações muitas crianças e jovens em grupos. Percebi que o ar que se respira neste ponto alto é benéfico para quem sofre de asma ou de outros problemas respiratórios.

Este lago é muito visitado e os visitantes encontram aqui espaço para piqueniques, campismo, caminhadas, passeios de barco e até subidas (via funicular) até ao cume das montanhas. Não muito longe de Misurina ficam as Tre Cime di Lavaredo, três dolomites: imponentes, altíssimas, prateadas.

Passear em redor do lago fez-me recordar os fiordes da Noruega e a relação que os noruegueses têm com a natureza que querem perto, impoluta, resplandecente e da qual desfrutam ao máximo. Esta paisagem inspirou muitos artistas. Como Gustav Mahler, que escolheu estes lugares para passar alguns verões e onde compôs as suas últimas obras: Sinfonias 9 e 10 e “O Canto da Terra”.

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Gosto particularmente desta imagem, muito por causa dos pinheiros. Como que trepam pela encosta acima.

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O meu almoço neste dia foi recheado com esta vista do lago…

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[Caminhos pelas margens com pinheiros a separar o chão do lago…]

Antes de viajar de comboio até ao Alto Adige, estive em Turim. Pela segunda vez nesta cidade, visitei lugares que me tinham escapado da primeira vez ( e foram tantos, já que tem tantos pontos de interesse…) e revisitei outros. Regressei a uma das minhas livrarias na cidade – La Feltrinelli. Que é, antes da livraria, o nome de uma editora e do seu fundador – Giangiacomo Feltrinelli (Milão, 1926 – 1972, Segrate). Conhecer a história da editora e a biografia do seu fundador é também perceber a história de Itália num período especialmente conturbado. Vem isto a propósito do saco vermelho que se vê na foto da capa – foi comprado numa das livrarias La Feltrinelli em Turim.

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[O fundador numa das suas casas de livros.]

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[Todo um mundo de livros lá dentro, que eu tanto gosto de explorar.]

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[Este expositor está repleto de autores da minha preferência…Há mais duas La feltrinelli em Turim e muitas mais por toda a Itália. A que existe na estação central de Milão é um ponto de visita obrigatório. Acho que esta foto com as edições de Saramago foi tirada lá no verão de 2015.]

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[Gosto muito desta frase de Mark Twain, sobre a desilusão pelo que não se fez, não se viveu. Um convite à viagem e ao riscos que se correm. Mas só passando por eles se vive plenamente, se explora, se sonha, se descobre… Uma metáfora da própria vida, portanto. Nestas livrarias, há transcrições de livros espalhadas pelas várias secções.]

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Esta já foi na estação Porta Nuova em Turim: nascido nesta cidade em 1919, onde também acabou por morrer em 1987, Primo Levi merece o destaque nesta vitrina da livraria da estação.

No saco vermelho que trouxe comigo e que me acompanhou nas caminhadas pelas montanhas, está estampada uma frase que também é um título assinado por Primo Levi – “Se non ora, quando?” (1982, “Se não agora, quando?”). Dentro deste saco, entre outras coisas, andava sempre comigo o meu bloco de notas, um mapa da região e uma garrafa de água.

O saco vermelho e as imagens da Feltrinelli levaram-me a ter vontade de criar uma nova rubrica aqui no blogue: o lugar das coisas… A propósito de um detalhe, de algum objeto que trago comigo depois de uma viagem, vou dar conta do lugar onde o encontrei.

Já estou a pensar no próximo objeto que servirá de mote a um post.

ASM
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