O Feiticeiro Oz (2.ª parte)

Israel

Por outras palavras

Recomeço exatemente no ponto em que fiquei na 1.ª parte deste texto – junto do Muro das Lamentações, um espaço de culto para os judeus de todo o mundo. E encontrei lá muitos, oriundos de muitos pontos do globo. Uma família tinha vindo dos Estados Unidos para a celebração do Bar Mitzvah de um dos seus elementos mais jovens. A família estava presente quase por completo nesta data tão especial para o menino – o dia em que é assinalada a sua maturidade e que justifica a sua integração e participação nas cerimónias na sinagoga, tendo já a responsabilidade de ler os textos sagrados. Toda a família estava em festa, ali, naquela manhã. A alegria do dia foi-me relatada pela mãe do jovem.

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Retomo as palavras de Amos Oz. Agora que já terminei a leitura do livro, lentamente me despeço das personagens, da família Klausner Mussman, da criança que foi crescendo ao longo das páginas e do escritor cuja formação nos vai sendo contada na primeira pessoa. Um relato apaixonante, doloroso em muitos momentos trágicos que marcam a vida da criança-adolescente-jovem.

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Igreja do Santo Sepulcro. Estes arcos sobrepostos e estas colunas de capitéis distintos contam a história da cidade, das suas sucessivas conquistas, domínios, derrotas, reconquistas. As marcas da cronologia inscrevem-se nas pedras dos templos, nas fachadas das casas, no chão que pisamos, nas muralhas e portas da cidade.

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Lembrei-me destas imagens a propósito desta passagem:

“(…) Passaram-se muitas coisas em Jerusalém. A cidade foi destruída, reconstruída, novamente destruída e mais uma vez reconstruída. Uns a seguir aos outros os conquistadores  apoderaram-se dela, governaram-na durante um certo tempo, deixaram atrás de si umas quantas muralhas e torres e algumas fendas com um punhado de cacos e documentos, e desapareceram. Evaporaram-se como as brumas matinais nas encostas das colinas à sua volta. Jerusalém é uma velha ninfomaníaca que espreme até ao máximo os seus amantes antes de os despachar com um enorme bocejo; uma viúva-negra que devora os seus parceiros em pleno acto. (…)” (p.38)

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[Vestígios romanos bem no centro do centro histórico.]

“(…)Os factos são, por vezes, os maiores inimigos da verdade. Escrevi em tempos sobre a verdadeira causa da morte da minha avó Schlomit: chegada a Jerusalém directamente de Vilna num dia quente de Verão de 1933, deitou um olhar apavorado aos mercados húmidos, às bancas coloridas, às ruelas animadas pelos pregões dos vendedores ambulantes, os zurros dos burros, os berros das cabras, o piar dos frangos pendurados pelas patas atadas, para já não falar dos pescoços sanguinolentos das galinhas acabadas de degolar, viu a largura de ombros e braços dos Orientais, as cores berrantes das hortaliças e das frutas, as colinas em volta e as encostas rochosas e decretou: «O Levante está cheio de micróbios.»

A minha avó viveu vinte e cinco anos em Jerusalém, viu dias maus e alguns poucos bons, mas até ao fim dos dias nunca mudou um milímetro sequer daquela opinião. (…)

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[Nas ruelas da malha urbana antiga da cidade vende-se de tudo. Aqui uma troca: dinheiro pelo pão do dia, acabadinho de sair do forno.]

Mas a verdade é que a minha avó morreu de excesso de limpeza e não de ataque cardíaco. Os factos escondem geralmente a verdade. Foi a limpeza que a matou. Embora o seu lema «O Levante está cheio de micróbios» revelasse uma verdade anterior, mais íntima do que a mania das limpezas, uma verdade reprimida e invisível: com efeito a minha avó vinha do nordeste da Europa, de lugares onde havia tantos micróbios como em Jerusalém, para além de muitas outras pragas.

Talvez seja essa a frincha através da qual se possa entrever e reconstituir um pouco o que as paisagens orientais, com as suas cores e odores, despertavam no coração da minha avó e dos outros imigrantes e refugiados, igualmente provenientes de aldeias dos confins cinzentos e outonais do leste da Europa e a quem a exuberante sensualidade do «Levante» assustava a tal ponto que eles construíram um gueto para se protegerem dos seus perigos.

Dos seus perigos? E se não fosse por causa dos perigos do Levante que a minha avó se mortificava e purificava com imersões de água a ferver, de manhã, à tarde e à noite, todos os dias da sua vida em Jerusalém, mas sim por causa do seu fascínio sensual e sedutor, por causa do seu corpo, da forte atracção que os seus mercados a transbordar exerciam sobre ela, cortando-lhe a respiração até ao fundo das entranhas, esvaziando-a e dissolvendo-a, de joelhos a tremer, pela abundância das hortaliças, frutas, queijos com especiarias, cheiros picantes e todas aquelas extraordinárias comidas guturais, tão curiosas, estranhas, excitantes, e as mãos ávidas que remexiam as pilhas de fruta e de hortaliça, os pimentos vermelhos, as azeitonas com especiarias, as carnes gordas e sangrentas que exibiam a sua nudez avermelhada, sem pele nem vergonhas, oscilando na ponta de ganchos, e a profusão de especiarias, condimentos e pós, até à liquefacção e quase até ao esvaimento, toda a gama dos sortilégios ardentes do mundo amargo, picante e salgado, onde sobressaía o cheiro do café verde, que penetravam nas entranhas, e os frascos de vidro cheios de bebidas coloridas com pedaços de gelo e limão, e os carregadores da praça, robustos, bronzeados e peludos, nus até à cintura, com músculos do dorso salientes do esforço sob a pele quente e luzidia a escorrer suor? E se os rituais de limpeza da minha avó não passassem de um fato espacial e hermético e estéril? Um cinto de castidade anti-séptico que ela fabricara para se rodear e proteger voluntariamente, desde o dia da sua chegada a Israel, e que fechara a sete chaves destruindo as chaves todas?

Acabou por morrer de ataque de coração: o facto é esse. Embora não tenha sido o ataque, mas o excesso de limpeza que deu cabo dela. (…) “ (p. 45-47)

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[As ruas de Jerusalém têm os mais variados aromas: dos chás, das especiarias, do pão, da fruta, dos frutos secos,  das bolachinhas e biscoitos feitos com ingredientes aos meus olhos inusitados, mas que deixavam antecipar sabores deliciosos, quentes e doces. Cheira ainda às pedras milenares.]

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[Esta foi a minha primeira refeição: falafel, húmus e vegetais com pão pita. Num restaurante virado para uma encruzilhada de ruas. Só tínhamos que pegar nos tabuleiros, sentarmo-nos nas mesas cá fora e ver as vidas a acontecer.Que bem que me soube…]

“(…)O avô Alexandre, a avó Schlomit e os dois filhos não foram para a terra de Israel – apesar da chama sionista que animava as poesias russas do avô, o país ainda lhes parecia demasiado asiático, selvagem, atrasado, sem as condições de higiene e de cultura mínimas. Dirigiram-se, portanto, para a Lituânia, de onde os Klausner, pais do avô e dos tios Yosef e Bezalel, tinham partido há mais de vinte e cinco anos. Naquela época Vilna estava nas mãos da Polónia, onde o anti-semitismo virulento e sádico se tornava de dia para dia mais forte: o nacionalismo e o racismo aumentavam na Polónia e na Lituânia. Os lituanos conquistados e oprimidos consideravam a importante minoria judaica como agentes a soldo das forças opressoras estrangeiras. Do outro lado da fronteira, na Alemanha, começava a surgir uma nova espécie de anti-semitismo, o ódio nazi, assassino e sem piedade, pelos judeus.

Em Vilna, o avô retomou a actividade comercial. Não se pode dizer que esta andasse de vento em popa; comprava aqui e vendia ali e, às vezes, entre uma coisa e outra, ganhava algum. Ao princípio mandou os dois filhos para a escola hebraica e depois para o liceu público «clássico» (ou seja, humanístico). Os irmãos David e Arié, ou Ziuzja e Lunia, traziam com eles de Odessa três línguas: em casa falavam russo e iídiche, na rua exprimiam-se em russo e no jardim infantil sionista de Odessa tinham aprendido hebraico. No liceu clássico de Vilna, acrescentaram o grego, o latim, o polaco, o alemão e o francês. Mais tarde, no Departamento de Literaturas Europeias da universidade, aprenderam ainda inglês e italiano, e no Departamento de Filologia Semita, o meu pai inciou-se no árabe, no aramaico e na escrita cuneiforme. O tio David tornou-se rapidamente assistente de Literatura, e o meu pai, Yehuda Arié – que terminou a sua licenciatura na Universidade de Vilna, em 1932 -, ia seguir nas suas pegadas, mas o anti-semitismo começara a tornar-se insuportável. Os estudantes judeus estavam sujeitos a serem humilhados, batidos, maltratados.

«Mas o que é que eles vos faziam exactamente?», perguntava eu ao pai, « que tipo de maus-tratos? Batiam-vos? Rasgavam-vos os cadernos? E porque é que vocês não se queixavam?»

«Tu nunca poderás compreender», dizia o pai. «E ainda bem que assim é. Fico satisfeito por isso, embora também não possa compreender porquê, quero dizer, porque é que fico contente que não possas compreender o que lá se passava. Mas, de facto, não quero que compreendas. Não precisas. Já não é preciso. Porque já acabou. De uma vez por todas. Ou seja, aqui já não se passará. Anda, falemos de outra coisa. Do teu álbum de planetas, por exemplo. Ainda temos inimigos, é certo. E há guerra e miséria e bastante opressão. É verdade. Não se pode negar. Mas perseguição já não há. Isso, não. Não há perseguição, nem humilhação, nem pogromes. O sadismo que sofremos lá já não existe. Isso obviamente não voltará. Aqui não. Se nos atacarem, nós responderemos a dobrar. Acho que colaste Saturno entre Marte e Júpiter. Enganaste-te. Não, não te digo nada. Tu é que tens de descobrir o teu erro e corrigi-lo.»” (p.129,130)

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[Reprodução de palavras de um habitante de um dos muitos guetos na Europa. No Museu Yad LaYeled (museu memorial das crianças) , inserido no antigo Kibutz Beit Lohamei Haghetaot, hoje um complexo museológico.

Este museu foi contruído no interior de uma antiga cisterna. A exposição dos objetos, fotografias e recriação do ambiente dos guetos segue a estrutura da cisterna, numa espiral de escuridão crescente, que vai descendo sempre. As imagens, os sons, as luzes e a falta delas provocam no visitante uma angústia crescente, um desespero intenso, uma revolta e perplexidades que acompanham intensamente a descida cada vez mais profunda no espaço.]

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[1.500.000 – este é o número de crianças que pereceram durante o Holocausto. Idades, nomes, terras de origem muitas vezes difíceis de determinar. Vidas breves. Outras conseguiram fugir e em fuga viveram uma infância e adolescência nos bosques, nos esconderijos, em famílias de acolhimento que as tomaram como suas de sangue. De tudo isto falam, gritam os memoriais que visitei. ]

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“(…) Nesse tempo, como já disse, eu queria ser um livro quando fosse grande.

Não um escritor, mas um livro. Por medo.

Porque aqueles cujos parentes não chegavam ao país começaram a compreender que eles tinham sido mortos pelos Alemães. Reinava em Jerusalém um pavor que as pessoas tentavam a todo o custo enterrar dentro do peito. Os tanques de Rommel chegaram quase ao limiar de Israel. Durante a guerra, os aviões italianos tinham bombardeado Telavive e Haifa. E não se sabia o que os britânicos ainda nos reservavam antes de se irem embora. E depois da saída dos britânicos, milhares de árabes sendentos de sangue, milhões de muçulmanos inflamados, levantar-se-iam e massacrar-nos-iam em dois dias. Nem um miúdo ficaria vivo.

É claro que os adultos faziam o possível por não falar destes horrores em frente das crianças. Pelo menos não em hebraico. Mas às vezes, escapava-lhes uma palavra. Ou gritavam durante o sono. Os apartamentos eram pequenos e estreitos como jaulas. À noite, depois de apagar a luz, ouvia os sussurros deles na cozinha, enquanto tomavam um copo de chá com biscoitos, e captava palavras com Chelmno, nazis, Vilna, partisans, Aktionen, campos de extermínio, comboios da morte, tio David e tia Malca, e o menino Daniel, filho deles, da minha idade.

O medo insinuava-se em mim: os meninos da nossa idade nem sempre cresciam. Às vezes matavam-nos ainda no berço. Ou no jardim-de-infância. Na rua Neemias, um encadernador teve uma crise de nervos e foi para a varanda gritar: «Socorro, judeus, depressa, vão queimar-nos a todos.» O ar estava carregado de pânico. E eu já devia ter compreendido quão fácil é matar pessoas.

É claro que também não era difícil queimar livros, mas se, ao crescer, eu me transformasse num livro, era muito provável que um exemplar pelo menos se salvasse, se não em Israel, pelo menos noutro país, numa cidade qualquer, num biblioteca longínqua, no canto de uma prateleira esquecida. Tinha visto com os próprios olhos que os livros conseguem permanecer escondidos e mergulhados numa escuridão poeirenta, no meio de uma fileira de volumes, debaixo de um monte de brochuras ou revistas, ou atrás de outros livros.” (p.367,368)

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[Escultura de Hubertus Von Pilgrim:  Memorial da marcha da morte de Dachau (1990). No recinto do Yad Vashem, Jerusalém.]

“(…) Depois contou-me, baixinho, sem me chamar Vossa Alteza ou Vossa Excelência, o que lhe tinham feito a ele e o irmão David, os miúdos da rua, em Odessa, e os rapazes góis no liceu polaco em Vilna – as raparigas também tinham participado – e quando o pai dele, o avô Alexandre, veio à escola no dia seguinte pedir contas, os patifes em vez de lhe devolverem as calças rasgadas, atacaram-no à sua frente – ao avô – atirando-o brutalmente ao chão, e tirando-lhe as calças no meio do pátio da escola, enquanto as raparigas riam e diziam obscenidades, e os professores, por seu lado, viam e calavam ou talvez também rissem.

Sempre com a voz de escuro e a mão perdida nos meus cabelos (porque não estava habituado a fazer festas), o pai disse-me ainda naquela madrugada do dia 30 de novembro de 1947: – É possível que possas vir a ser molestado na rua por malandros, ou na escola. E talvez isso te aconteça precisamente porque te pareces comigo. Mas, a partir de agora, a partir do momento em que tivermos um Estado, nunca mais te molestarão por seres judeu, ou porque os Judeus são assim ou assado. Isso, não. Jamais. Esta noite acabou. Para sempre. “ (p. 440)

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“A Árvore da Vida” – escultura que é uma homenagem aos combatentes, aos que resistiram à Shoá: judeus e partisans. De Zadok Ben-David.

Nota: todos os excertos foram retirados da obra Uma História de Amor e Trevas de Amos Oz, PublicaçõesD.Quixote, março de 2016.

 

ASM

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