O Feiticeiro Oz (1.ª parte)

Israel

Por outras palavras

Este feiticeiro faz magia com as palavras, com as frases, página após página, capítulo a capítulo. Constrói personagens e conta histórias. Recria espaços familiares que parecem mágicos. Por isso eu, que estou a ler Uma História de Amor e de Trevas, de Amos Oz, deixo-me ir, envolvida, encantada, verdadeiramente enfeitiçada algumas vezes. Ainda bem que o livro se estende por 642 páginas. Tenho ainda muito que ler e deixar-me ir pelas mãos do feiticeiro é o que me apetece por estes dias.

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A minha leitura do momento não é um livro de viagens. E, no entanto, Amos Oz é isso que propõe: uma longa viagem pela sua vida e pela história do seu país – Israel.

Quero continuar a seguir a vida do autor, escrita a partir da sua memória e dos testemunhos dos familiares que recolheu ao longo dos anos. Quero muito percorrer as ruas , ruelas e recantos de Jerusalém guiada pela perspetiva da criança Amos (já li dois terços do livro e o protagonista ainda é uma criança). Tenho vontade de conhecer ainda melhor as biografias dos seus familiares, desde os tempos vividos ainda na Europa, mais precisamente na Ucrânia, até aos tempos vividos em Jerusalém, para onde as vicissitudes os levaram. Chegaram à terra da paz prometida, em fuga de uma Europa em convulsão e hostil à sua condição de judeus.

Ler este livro é sinónimo de não resistir aos sortilégios deste feiticeiro e é também mergulhar bem fundo na história de uma cidade, de um país e de um povo. Através da história da sua família, o autor consegue, de uma forma admirável e cativante, relatar a história de Israel – origens, etapas de formação identitária. As múltiplas culturas ali presentes, tradições, religiões, línguas… A sua própria história pessoal é um pouco assim: múltipla, diversa, apaixonante e envolvente. A parte da luz que surge no título. Há depois as trevas, o lado negro de tudo isto, os silêncios, os medos, as incompreensões, o terror, a miséria, a profunda infelicidade.

Este livro encantou Natalie Portman , também ela nascida em Jerusalém.  Adaptou-o ao cinema e estreou-se assim como realizadora. A atriz interpreta o papel de Fania Mussman, mãe de Amos. Os diálogos do filme são em hebraico. Entendeu a realizadora que assim deveria ser. A história desta língua e a sua importância na identidade judaica e israelita é um dos temas do livro. Ainda não tive oportunidade de ver o filme, mas não quero deixar de o fazer.

 

Enquanto isso não acontece, percorro as páginas magnificamente escritas e relembro os meus dias em Jerusalém há precisamente um ano. Recupero, com os rostos da família Klausner (ramo paterno do autor) e  da família Mussman (ramo materno) e com as suas histórias de grande magia e encantamento para o pequeno Amos e para quem lê, o que aprendi no curso que frequentei (já relatei aqui e  também aqui parte dessa experiência). É, por isso, uma leitura ainda mais entusiasmante. E muitas vezes revejo o meu arquivo de fotos, pois parece-me quase possível ter-me cruzado com alguma personagem do livro nas ruas de Jerusalém. Sei que não, mas não importa, porque cada pessoa que percorre as ruas da cidade leva consigo memórias, histórias familiares em muitos pontos semelhantes à do pequeno Amos. Noutros não. Trata-se, sem dúvida, de uma biografia singular e extraordinária, que se apresenta como uma densa galeria de fotografias feitas com palavras mágicas.

Por isso não resisti e selecionei alguns excertos do livro. Até porque dizem muito melhor do que eu a cidade de Jerusalém, o país Israel e as histórias das vidas dentro da história da cidade. As fotos que aqui deixo são aquelas que me vieram à mente à medida que fui lendo estas passagens.

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[Jerusalém.]

A escolha não foi nada fácil, com tantos sublinhados no livro (tenho esse hábito durante a leitura…) e destaques com uma sinalética muito pessoal. E como são bastantes e longos os excertos, dividi-os em duas partes/dois posts. A ordem pela qual surgem é a do livro, pareceu-me mais lógica.

“(…)No nosso bairro o mundo era geralmente chamado «o grande mundo», mas tinha também outros apelidos: esclarecido. Exterior. Livre. Hipócrita. Eu conhecia-o quase só da colecção de selos: Danzig. Boémia e Morávia. Bósnia e Herzegovina. Ubangui-Chari. Trindade e Tobago. Quénia-Uganda-Tanganika.(…)” (p.11)

“(…)Para lá dos montes escuros situava-se igualmente Telavive, a  cidade efervescente de onde nos chegavam os jornais, os ecos do teatro e da ópera, do ballet, dos cabarés, da nova arte, dos partidos políticos, os rumores das discussões apaixonadas e também de alguma maledicência. Havia grandes desportistas em Telavive. E o mar. E as praias de lá estavam cheias de judeus bronzeados que sabiam nadar. Quem sabia nadar em Jerusalém? Quem ouvira jamais falar de judeus que nadam? Eram genes completamente diferentes. Mutantes. «Como o milagre da transformação da lagarta em borboleta.»(…)

Telavive era tão longe! Durante toda a minha infância não fui a Telavive mais de cinco ou seis vezes: íamos passar os feriados com as tias, irmãs da minha mãe. Não era apenas a luz de Telavive que diferia da de Jerusalém mais do que hoje, mas as próprias leis da gravidade também não eram as mesmas. Em Telavive as pessoas andavam de maneira diferente: saltavam e planavam como Neil Armstrong na Lua.

Em Jerusalém andava-se como num funeral, ou como os espectadores atrasados num concerto: primeiro apalpava-se o terreno com a ponta do pé. Em seguida, depois de pousar o pé, não havia pressa em mexê-lo: se tínhamos levado dois mil anos a conseguir pôr o pé em Jerusalém, não íamos renunciar tão rapidamente. Porque se levantássemos o pé, podiam tirar-nos o pedaço de chão, «a ovelhinha do pobre». Por outro lado, se já estava no ar, também não havia pressa em pousá-lo: sabe-se lá que ninho de víboras lá podia estar, que intrigas e maquinações. Durante dois mil anos tínhamos pago com sangue a nossa imprudência, caindo constantemente nas mãos dos nossos inimigos porque pousávamos o pé sem medir bem as consequências. Era mais ou menos assim que se andava em Jerusalém. Mas em Telavive, qual quê! A cidade inteira parecia um gafanhoto. As pessoas, as casas, as ruas, as praças, o vento marítimo, as areias, as avenidas e até as nuvens corriam! (…)

Entre nós falava-se de Telavive com inveja, orgulho, veneração e uma pontinha de mistério: como se Telavive fosse um projecto secreto e vital do povo judeu, um projecto sobre o qual mais valia não falar demasiado, pois as paredes têm ouvidos e havia inimigos e agentes secretos em todo o lado.

Telavive: o mar. A luz. O azul do céu, as dunas, os andaimes, o teatro Ohel Shem, os quiosques nas alamedas, uma cidade hebraica branca, de linhas simples, erguendo-se entre os laranjais e as dunas. Não era apenas um sítio onde, para se ir, bastava comprar um bilhete de autocarro, não, era outro continente.” (p. 13-15)

[Entrei em Israel por Telavive e segui logo para Jerusalém. De Telavive apenas conheço o caminho que me levou do aeroporto para fora da cidade. ]

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Excerto de uma conversa ao telefone entre os tios de Amos, que viviam em Telavive, e os seus pais. Num telefone que ninguém tinha, era o da farmácia mais próxima de cada uma das casas. Estas conversas eram marcadas com muita antecedência e aguardadas com muita expectativa…

“(…)- Alô, Zvi?

– O próprio.

– É o Arié. De Jerusalém.

– Sim, Arié, boa tarde, daqui é o Zvi, como estão vocês?

– Tudo bem connosco. Estamos a falar da farmácia.

– Nós também. O que há de novo?

– Não há nada de novo. E convosco, Zvi? O que contas?

– Está tudo bem. Não há nada de especial. A vida.

– Se não há nada de novo é bom. Connosco também não há novidades. Estamos muito bem. E vocês?

– Também.

– Óptimo. Então passo-te a Fania.

E a cena repetia-se: Como estão? O que há de novo? E a seguir: «Agora é a vez do Amos dizer umas palavras.»

Eis a conversa. Como estão? Bem, então voltaremos a falar em breve. Foi bom ouvir-vos. Nós também gostámos de vos ouvir. Depois enviamos uma carta a marcar a próxima vez. Voltaremos a falar. Sim. Com certeza. Brevemente. Até breve. E tenham cuidado convosco. Felicidades. Igualmente para vocês.

Mas não era cómico: a vida estava presa por um fio. Agora sei que eles não estavam tão certos de voltar a falar, talvez aquela fosse a última vez, sabe-se lá o que poderia acontecer, revoltas, um pogrome, um massacre, os árabes revoltarem-se e matarem-nos a todos, rebentar uma guerra, acontecer uma grande catástrofe, os tanques de Hitler estavam quase às nossas portas, de dois lados, pelo Norte de África e pelo Cáucaso, sabe-se lá o que ainda nos esperava. Aquela conversa vazia não era de todo vazia – era apenas monótona.

Aquelas conversas telefónicas mostram a dificuldade que todos  – e não apenas os meus pais – tinham em exteriorizar os seus sentimentos. (…)

Para além disso, faltavam-lhes as palavras: o hebraico ainda não era para eles uma língua espontânea, e muito menos íntima, e não sabiam bem o que saía quando falavam hebraico. (…)” (p.18,19)

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Durante os dias em Jerusalém e depois de um dia inteiro de trabalho, eu gostava muito de sair para as ruas e de observar as pessoas. O hotel onde o grupo ficou alojado ficava um pouco distante do centro histórico da cidade, por isso apanhávamos o metro (que é de superfície)e rapidamente alcançávamos o tão apetecido centro. Ao longo do trajeto a cidade revelava os seus múltiplos rostos.

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[Aqui está o metro. Confortável, rápido, pontual. Por uma vez não foi tanto, apesar dos avisos ao ritmo dos minutos da previsão da sua chegada. Isto porque naquela noite fora encontrado um objeto estranho no seu interior e, por razões de segurança,  houve a necessidade de um controlo ainda mais apertado. Nada a que os habitantes não estejam habituados. Aliás, dentro do metro, observando os rostos dos passageiros, nada dava a entender que mais uma operação de segurança teria acontecido na paragem anterior. Faz parte da rotina.]

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[Indicações para o centro: em hebraico, árabe e inglês.]

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[Um casal a passear no centro antigo da cidade. Pelas luzes da noite dentro.]

Sobre a importância e valor dos livros e da leitura, pelas palavras do pequeno feiticeiro:

“(…) Comecei a ler quase sozinho quando ainda era muito pequeno. Não havia mais nada para fazer. As noites eram então muito mais compridas, porque o globo terrestre rodava muito mais devagar, pois a força da gravidade em Jerusalém era muito mais forte do que nos dias de hoje. A luz das lâmpadas era amarelo pálido e havia muitos cortes de electricidade. Ainda agora, o cheiro das velas fumegantes e o dos candeeiros a petróleo me dão vontade de ler. A partir das sete da tarde já estávamos fechados em casa devido ao recolher obrigatório imposto pelos Ingleses, em Jerusalém.(…)” (p.31)

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[Uma descoberta num dos passeios noturnos: uma livraria aberta. Com paredes de livros.]

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“Não éramos muito pobres: o pai era bibliotecário na Biblioteca Nacional e ganhava um salário modesto mas regular. A mãe dava lições particulares.(…)

Apesar disso, estávamos sempre a economizar. (…)

Em contrapartida, livros era coisa que não nos faltava, ocupavam as paredes todas, no corredor, na cozinha, na entrada, e até nos vãos das janelas e sei lá onde. Milhares de livros em todos os cantos da casa. Dir-se-ia que os homens iam e vinham, nasciam e morriam, mas que os livros eram eternos. Quando era criança, queria crescer e ser um livro: podiam-se matar pessoas como formigas. Escritores também. Mas os livros, mesmo que os destruíssem sistematicamente, restaria sempre algum exemplar perdido nalguma prateleira, no fundo de alguma estante esquecida de uma biblioteca longínqua, em Reiquejavique, Valladolid ou Vancouver. (…)

Eu imaginava a sua dor: o meu pai tinha uma relação física com os livros. Gostava de lhes tocar, de os apalpar, acariciar, cheirar. Era louco por livros, incapaz de se conter, de não lhes tocar, mesmo que não lhe pertencessem. E a verdade é que os livros de então eram muito mais sensuais que os de hoje: tinham muito para cheirar, acariciar e apalpar. Alguns tinham encadernações em pele, aromáticas, ligeiramente rugosas, gravadas com letras douradas, que nos causavam arrepios, como se aflorássemos alguma coisa escondida e desconhecida que se eriçava  e estremecia a ao toque dos nossos dedos. Havia também livros com uma encadernação em cartolina coberta por tecido colado com uma cola com um cheiro enjoativo. Todos os livros tinham o seu cheiro próprio misterioso e excitante. E quando a encadernação de tecido se descolava um pouco, como uma saia atrevida, eu não conseguia impedir-me de espreitar para o interstício entre o corpo e o pano e aspirar os eflúvios estonteantes. (…)

O melhor dia da minha vida – devia eu ter seis anos – foi aquele em que o pai libertou um pouco de espaço numa das suas estantes para eu lá pôr os meus livros. Para ser mais exacto, cedeu-me trinta centímetros, ou seja um quarto da prateleira mais baixa de todas. Eu peguei em todos os meus livros, que até então estavam em cima de um banquinho ao lado da cama, levei-os para a biblioteca do pai, e arrumei-os de pé, como deve ser, com a lombada para fora e a frente para a parede.

Foi um rito de passagem, uma cerimónia iniciática: uma pessoa cujos livros ficam de pé já não é uma criança, é um homem. Eu já era como o pai. Os meus livros aguentavam-se de pé.(…)” (p.32-35)

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[Um expositor numa livraria no centro comercial bem perto do hotel e da estação de comboios. Aqui não resisti a folhear vários livros e a deliciar-me com o desenho do alfabeto hebraico. Da esquerda para a direita. E depois reposicionar o olhar, da direita para a esquerda, página a página. Como o centro comercial dava acesso direto à estação, havia sempre muita gente aqui, era um espaço bem animado, bem vivido.]

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[Às vezes apetecia andar a pé. E então a passagem por esta ponte ou sobre ela era obrigatória. Ficava próxima do hotel. Tem a assinatura de Santiago Calatrava. É uma ponte para peões, apenas o metro lá passa para além das pessoas.]

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[A ponte de dia, vista do meu quarto.]

“Eu era um miúdo obcecado pela história. Metera-se-me na cabeça corrigir os erros dos generais do passado: assim, por exemplo, reconstituí em imaginação a grande revolta dos Judeus contra os Romanos, impedi a destruição de Jerusalém pelos exércitos de Tito, transferi os exércitos para o terreno do inimigo, conduzi as tropas de Bar Kochba até às muralhas de Roma, tomei de assalto o Coliseu e coloquei a bandeira hebraica na colina do Capitólio. Para isso, transplantei a brigada judaica do exército britânico para a época do segundo Templo e deliciei-me com a devastação que duas metralhadoras podiam fazer nas magníficas legiões de Adriano e Tito, de maldita memória. Com um simples avião, um único Piper, o orgulhoso império romano ficava de rastos. Transformei o combate desesperado dos defensores de Massada numa esmagadora vitória judaica graças a um morteiro e umas quantas granadas de mão.

Com efeito, aquele curioso impulso da minha infância – o desejo de dar uma segunda oportunidade àquilo que não tem nem voltará a ter outra hipótese – é ainda hoje o impulso que me move sempre que começo a escrever uma história. “ (p.37)

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[Públio Élio Trajano Adriano, no Museu de Israel. Neste museu é possível seguir, na linha do tempo, os principais factos que marcaram a história deste território e dos seus habitantes. Compreender as migrações, imigrações e diásporas forçadas.]

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[Vestígios do Arco Triunfal , 136 d.C., construído em honra do imperador Adriano, como forma, pensa-se, de comemorar a derrota da revolta dos judeus comandada por Bar Kochba contra os romanos, em 132 d.C..]

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[O Muro das Lamentações, um dos lugares mais importantes e emotivos para os judeus. ]

Continua…

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4 thoughts on “O Feiticeiro Oz (1.ª parte)

  1. Sofia, também eu estou desejosa, ou melhor, desejosíssima de deixar-me encantar por este feiticeiro…
    Devorei os excertos e por isso as expectativas estão ainda mais altas!
    Adorei este teu post e fico à espera do próximo, embora não queira levantar muito o véu…

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