Um livro e dois poemas. Uma praça e uma ilha.

Por outras palavras

Marrocos e Itália

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. Praça Jemaa El-Fna, Marraquexe

As razões para este texto são duas e bem simples: a compra de um livro de poemas de um autor que, com o tempo, tenho vindo a descobrir e a leitura de dois textos que me transportaram para cenários mediterrânicos. O poeta é João Luís Barreto Guimarães e o livro tem o nome de um mar, Mediterrâneo, editado pela Quetzal.

Percorrer as suas páginas é revisitar alguns pontos da minha geografia. Mas antes disso, perceber o olhar do poeta, atento, curioso e transbordante de tudo o que o Mediterrâneo deu aos povos ao longo dos tempos. Há poemas que são uma celebração do espírito do sul, em que o passado se mistura com o presente e então cada palavra contribui para o brinde que o momento merece. Momento que passou e que se recorda muitas vezes com um humor surpreendente, que irrompe no verso seguinte.

Conhecer este Mediterrâneo é lembrar a luz do sul, os aromas das flores dos campos da Provença, os sons em inúmeras línguas da praça Jemaa El-Fna em Marraquexe, a história inscrita nas igrejas europeias que o tempo levou a que  fosse reescrita vezes sem conta, numa sucessão de estilos arquitetónicos em nome de uma religião erguida sobre pedras agnósticas. É também recordar o passado mais escuro de uma Europa horrorizada com o horror no grau máximo a que deu origem – o Holocausto. Nos seus caminhos, presentes nestes versos, lembram-se os judeus em fuga e cuja biografia foi interrompida ou amputada.

Outra coisa ainda que este Mediterrâneo traz consigo: as palavras antigas, enunciadas pelos povos que habitaram os países que já não existem com a fronteiras desse tempo. Nomes de deuses e de heróis de uma Antiguidade tão presente nos nossos dias. Nilo, sarcófago, Hipátia, Posídon, Ítaca, argonautas, César Augusto, Hispânia, Febo, denário, só para dar alguns exemplos.

De todos os poemas, escolhi dois para aqui deixar. Antes dos poemas para ler, pode-se ouvir aqui um outro, na rubrica “O livro do dia” da TSF.

A minha escolha não foi fácil. Gostei de muitos, que me lembram muitas geografias. Para estes dois encontrei algumas fotos nos meus arquivos. De dois lugares que muito me marcaram. Como estes textos.

Proponho então um breve álbum fotográfico com palavras de um poeta.

– Do arquivo marroquino, as imagens para o poema sobre a Praça Jemaa El-Fna, em Marraquexe

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. A meio da manhã a praça começa a agitar-se…

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. O aguadeiro de que fala o poema: vende água que distribui em canecas.

 

A lenta canção de Alá

 

Terias de ter o dom de línguas para não te

perderes nos sons da Praça Jemaa El-Fna. Um

alquimista da Síria um curandeiro argelino

um almocreve de Tunes o

aguadeiro marroquino –

todos

te pedem a alma todos te

querem com a mão numa imensa glossolalia

que o siroco

caldeou. Ainda não viste nada querida

se ainda não viste isto: do

alto do minarete no souk de Marraquexe

o chamar do muezim faz questão de relembrar

que Maomé é o profeta (o

Deus único é Alá)

nessa canção que o estrangeiro não resiste

a imitar

(ignorante e feliz) num tom

«mais ou menos»

árabe.

 

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. Não cheguei a perceber o que vendia…Mas impressionou-me a paz de espírito com que lia no meio da agitação. Há também na praça contadores de histórias…Se calhar era um deles.

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. O vendedor de…pronto a usar. Promessas de tratamento mesmo ali 🙂

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. E os restaurantes, muitos, ali na praça, bem no seu centro e para todos os gostos.

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. As bancas aromáticas de frutos secos.

– Imagens do arquivo siciliano para o poema “Sicília”.

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. Uma oliveira centenária (esta com 500 anos inscritos no tronco) junto ao Templo de Juno, em Agrigento (Akragas para os gregos, Agrigentum para os romanos).

Sicília

 

Havia oliveiras

e figos. Messina fora tomada por

barcos cartagineses

como o café da manhã toma o

espaço do ar.

Havia damascos e amêndoas. Perto

em Siracusa

(usando o próprio corpo)

Arquimedes demonstrara como a água

é incompressível.

Dávamos as mãos e os pés.

Havia limões e ciprestes.

Não sei se vinhas.

 

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. Ruínas e ciprestes em Siracusa.

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. A baía de Taormina desde o Teatro Grego. E os omnipresentes ciprestes.

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. Taormina.

ASM

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