Memórias do Lido

Veneza, Itália

Lido ou praia. Lido ou ilha estreita e longa de areia fina, banhada pelo Adriático. Lido ou cinema, muito cinema e cenário da festa que celebra a 7.ª arte desde 1932.

 

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Lido é Veneza. É uma ilha que separa as águas da laguna das águas salgadas e tépidas do Adriático. Convergem na ilha os que no verão procuram o sol estendido na areia clara e fina, os que se deslocam em táxis (que aqui têm a forma de barcos) , vaporetto, barco particular até chegarem ao Palácio do Cinema, onde tem lugar o Festival Internacional de Cinema de Veneza (Mostra Internazionale d`Arte Cinematografica) .

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Em 2015, a 72.ª edição do festival. E o omnipresente leão veneziano, símbolo da cidade.

Eu fui ao Lido várias vezes durante a minha última estadia em Veneza. E da Giudecca, onde estava alojada, era bem fácil e rápido lá chegar. A bordo do vaporetto (nos dias em que dura o festival há barcos exclusivos para o Lido e horários alargados e mais frequentes de circulação). Lá chegada, percorri grande parte da ilha a pé e recorri também ao autocarro. Depois de uma semana inteira sem ouvir o ruído de motas, carros e autocarros, estranhei sentir estes sons pelas ruas desta ilha. É que aqui já há ruas que correspondem à ideia de rua, passeios que servem para peões, passadeiras a exigirem uma pausa e um tempo de espera a ver se sim, se podemos avançar, paragens de autocarro, parques de estacionamento…

Nesta língua estreita de terra que dá para o Adriático, há praias para todos os gostos e bolsas. Há aquelas mais resguardadas de olhares curiosos e invasivos e que se revestem de casinhas em madeira, bem alinhadas. Há também as mais descontraídas e abertas a todos quantos desejam espraiar-se na areia fina e desfrutar do sol.

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Há as mais exclusivas, aquelas que fazem parte da área dos hotéis, também eles exclusivíssimos, frequentados por quem chega de Veneza em transporte próprio ou alugado somente para o efeito. No leque restrito destas praias, está sem dúvida aquela que é frequentada pelos clientes do Excelsior, o histórico hotel do Lido, a escolha de muitas estrelas da 7.ª arte.

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A praia do Hotel Excelsior.

Foi precisamente no terraço deste hotel que aconteceu a edição embrionária do que veio a tornar-se o festival de cinema. Nesta primeira edição pisaram o Lido Greta Garbo, Clark Gable, Joan Crawford e o realizador italiano Vittorio De Sicca, entre outros. O primeiro filme projetado foi “Dr. Jeckyll and Mr. Hyde”, de Rouben Mamoulian. Desde então, este espaço atrai os amantes desta arte e acolhe muitos dos seus protagonistas, aqueles que aparecem na grande tela, mas também os outros, os artistas da invisibilidade de que o cinema também é feito: realizadores, técnicos de várias áreas, argumentistas, produtores… Por isso é fácil cruzarmo-nos com alguns deles se coincidirmos no Lido com o festival. Desta última vez não me aconteceu, apenas testemunhei os preparativos junto do Palazzo del Cinema, já que em 2015 o Festival começou no início de setembro, altura em que já lá não estava.

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Festival 2014.

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O cartaz de 2015.

No entanto, em 2014, tive a sorte de poder não só assistir a alguns filmes a concurso, mas também de percorrer a marginal ( Lungomare Marconi) que abarca o Palácio do Cinema e o Hotel Excelsior e apreciar a atmosfera cinéfila e mediática que ali se instala durante a competição. Este festival integra a  Biennale de Veneza e realiza-se anualmente. As datas deste ano são: de 31 de agosto a 10 de setembro.

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O Palazzo del Cinema a ser preparado para a edição de 2015.

Lido é também o Grand Hotel des Bains cuja história remonta a 1900.

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Grand Hotel des Bains.

Aqui também ficaram hospedados grandes nomes que alimentaram o imaginário dos amantes de cinema. Nomes da literatura fazem também parte da biografia deste hotel, como Thomas Mann, que aqui dormiu em 1912 e neste ambiente encontrou inspiração para “Morte em Veneza”, mais tarde adaptado ao cinema por Luchino Visconti (em 1971). É um dos “meus” livros, um dos “meus” filmes. Foi por isso com grande emoção que passei pelo Hotel des Bains e espreitei lá para dentro, pelo gradeamento. O complexo do hotel está encerrado desde 2010, para obras de remodelação. Ainda não terminadas…Mas não foi difícil imaginar o ambiente exclusivíssimo do espaço, outrora frequentado pela aristocracia europeia e por escritores e artistas de todo o mundo que deixaram marca ou que encontraram no Lido elementos que depois integraram nas suas obras.

Foi no Hotel des Bains que Aschenbach viu Tadzio pela primeira vez. No meio das vozes e de rostos que lembravam muitas geografias, o de Tadzio destaca-se pelos seus traços de perfeição grega, de eterna beleza, intocável e frágil. E no interior do hotel ou na areia da praia, os ecos da sua beleza vão ser uma constante, uma presença avassaladora. Imagens da beleza que se passeia ali mesmo, à sua frente, ou se projetam no horizonte. Enredando-o para não mais o largarem. Até ao seu fim.

Lido é, sem dúvida, sinónimo de muito cinema, de sol e do azul do Adriático. Foram estes dois últimos que eu mais procurei desta última vez. Queria uma praia bem calma, onde pudesse desfrutar ao máximo da areia, do mar, do sol.  O nome dela é Pachuka e fica numa das pontas da língua de terra, muito próxima do aeroporto do Lido.

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Pachuka.

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Pachuka.

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Das suas areias recolhi memórias em forma de conchas e búzios durante as minhas caminhadas pelo areal (hábito antigo em mim, este…tenho-o desde que me conheço). De cores variadas e formas diversas, estas memórias estão agora bem perto de mim, em minha casa. Tenho memórias assim doutras praias por onde passei. Uma espécie de mapa onde reencontro momentos, pessoas, conversas, calor e luzes que me transportam para longe.

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Na praia…

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Em casa…

Alguns filmes que têm o Lido como cenário:

. “La Signora senza Camelie” ( “A Dama sem Camélias”), Michelangelo Antonioni (1953);

. “Telefoni Bianchi” (“Telefone Branco”),  Dino Risi (1976);

.  “C`era una volta in America” (“Era uma vez na América”), Sergio Leone (1984);

. “The Comfort of Strangers” (“Uma estranha passagem em Veneza”), Paul Schrader (1990).

E “Morte em Veneza” (1971) de Luchino Visconti:

 

 

ASM

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2 thoughts on “Memórias do Lido

  1. Texto fantástico, Sofia! Ao ler a última parte, abriu-se-me um sorriso com hábitos que nos acompanham desde sempre, que nos fazem recuar no tempo e que tanto dizem de nós 🙂 Viagens proporcionadas por umas simples conchinhas!…

    1. Muito obrigada, Ana, pelas tuas palavras 🙂 Gosto de ter bem perto de mim estas pequenas coisas que lembram sempre grandes experiências…

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