Rendida

+ do que 1

“Rendida” é a palavra certa. Rendida ao grafismo, ao formato (tão fácil de andar connosco e tão leve), ao conceito, à apresentação original do que já se conhece. Rendida às cidades. Mais uma vez rendida.

Uma série de seis guias de cidades europeias. Por esta ordem: Londres, Berlim, Madrid, Roma, Amesterdão e Paris. Até hoje, 10 de maio, foram publicadas os quatro primeiros. Vêm com a revista Sábado. Vieram juntar-se à minha coleção de mapas, guias, atlas, livros sobre os lugares por onde passo ou por onde quero passar.

F2_Guias

São guias que se parecem com tantos outros, mas conseguem fazer diferente. E isso é muito bom, não é mais do mesmo. O essencial está lá: coordenadas de sítios imperdíveis, informações básicas e úteis sobre as cidades. As dicas sobre onde dormir, onde comer, o que comprar e onde. Ainda assim as sugestões conseguem surpreender. Pela atualidade e pela sua transversalidade. Julgo que qualquer viajante encontrará nestes guias pontos de interesse superlativo para as suas deambulações. E estas podem apenas seguir os livros, os filmes ou as músicas que têm a cidade como pano de fundo. Porque essas sugestões também fazem parte do guia. Assim como uma breve história do lugar, em pinceladas rápidas e bem humoradas (A história de – nome da cidade – em 3 minutos, por Rogério Casanova).

A abrir o percurso citadino, uma breve apresentação dos bairros: o seu presente e o seu passado. Há espaço ainda para um registo gráfico de um recanto que merece ser fixado pelos traços e cores de Eduardo Salavisa, na secção denominada “urban sketcher”. Em Londres escolheu o Soho, em Berlim a Praça da Memória, em Madrid uma pensão, de nome Chelo. Para Roma escolheu o bairro de Trastevere, que qualifica de “aldeia” na cidade imensa e eterna que é a capital italiana. E esse pedaço de vida ininterrupta ficou registado numa imagem a aguarela e caneta.

Chegamos quase à última página dos guias e o que nos espera é um roteiro rápido de 24 horas. Bem programado, sugestivo, apetecível.

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Deixei para o fim deste post o que de melhor encontrei nestes guias. Visões muito pessoais das cidades. Através dos olhos e das palavras de escritores. E mais uma vez me rendi. E foi com o volume dedicado a Roma que senti urgência em escrever sobre esta coleção. De a partilhar. Então o índice destes textos de escritores é ( com a transcrição do primeiro parágrafo):

. Londres por Pedro Mexia

«Quem está cansado de Londres está cansado da vida, disse o Dr.Johnson. Percebi o significado exacto dessa frase quando fui a Londres pela primeira vez, há dez anos. Estava cansado da vida, a vida às vezes cansa, mas em Londres descobri uma vida nova, uma espécie de epifania sóbria, contida, à inglesa. Por isso digo que foi a minha primeira vez em Londres, embora já lá tivesse ido antes: foi quando Londres me reconciliava com o facto de estar vivo.(…)»

Pedro Mexia, “Londres chama” (Sábado n.º 624, 14 de abril de 2016)

. Berlim vista por Dulce Maria Cardoso

«Quando estou no estrangeiro, não consigo ficar em casa. Todos os dias saio e caminho muito. Um pé à frente do outro, não dou conta que nada conheço do que me rodeia, que não há quem me espere ali. Não sou uma viajante e faço do caminhar um destino, um pé à frente do outro, na esperança de que qualquer coisa familiar, uma música, um cheiro, a fachada de um prédio, me devolva ao que sou, um pé à frente do outro, lá longe, onde ninguém sabe de mim e eu confirmo que só vejo o que sei ver. (…)»

Dulce Maria Cardoso, “O futuro, essa extravagância” (Sábado n.º 625, 21 de abril de 2016)

. Madrid, cidade dita por Afonso Cruz

«No CentroCentro, plaza Cibeles, podemos ver espectáculos, projecções, exposições, dormir a sesta. Tem várias salas, vários ambientes, sofás, Wi-Fi. Algumas exposições têm um pendor efémero e ganham valor por isso, de raridade. Alfredo Marceneiro achava abominável gravar o fado porque isso fazia que cada actuação, cada interpretação, deixasse de ser única, para se poder reproduzir como um objecto industrial. Com a gravação perdia esse sentimento efémero, deixava de ser algo único e perecível (canto fado como se rezasse, disse ele). Assim, cada pessoa que visite Madrid encontrará inevitavelmente momentos únicos, orações. A última vez que visitei a cidade tive a sorte de me encontrar com uma exposição do Kandinsky.(…)»

Afonso Cruz, “Madrid também é uma Fiesta” (Sábado n.º 626, 28 de abril de 2016)

. e Roma, a eterna, por um poeta que adoro – José Tolentino Mendonça.

Duas breves notas antes de me demorar nesta última cidade: das seis, só ainda não fui a Berlim. Sei que está para breve esta viagem há muito adiada. O texto de Dulce Maria Cardoso confirmou e aguçou este meu desejo.

Não gosto particularmente de Madrid, tem sido para mim uma cidade difícil de entender e avessa às minhas idiossincrasias. Mas tenho-me esforçado por gostar. De cada vez que lá vou faço por que aconteça. Gosto de sítios nesta cidade: dos seus museus, sobretudo. O texto de Afonso Cruz ajudou-me a acreditar que vai ser possível conciliar-me com os espírito madrileño

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[Gosto muito de abrir assim os guias, com a capa e contracapa a formarem uma cidade que se ergue, e de associar às imagens um nome, uma memória.]

E agora vou demorar-me em Roma. Muito por causa destas palavras:

«O viajante deve saber que a verdadeira visita a Roma começa pela manhã. Ao despertar, poderá ver a luz como em lugar algum do mundo encontrou. Mesmo que já as tenha vislumbrado na noite de véspera, é uma experiência extraordinária percorrer as praças pela manhã, com aquela luz incrivelmente oblíqua, dourada, confidente, reflexiva e ligeira ao mesmo tempo. Corot foi o pintor (e, às vezes, julgo que também o inventor) desta luz, à qual é impossível permanecer indiferente. A Praça Navona, a Praça do Panteão, a Praça do Popolo, a Praça de Espanha, a Praça de São Pedro, desenhada por Bernini, a do Capitólio, esboçada por Miguel Ângelo, a Praça do Quirinale, que poderia pertencer a um dos sonhos metafísicos de De Chirico: é, no fundo, à luz e só à luz que cada uma se deve. Por isso, deambular por elas assemelha-se tanto a uma imersão. É importante dar tempo a cada uma, esquecer o mapa e o relógio, permitir-se perder-se, deixar que seja a cidade a guiar-nos.(…)»

(Sábado n.º 627, 5  de maio de 2016)

Assim começa “Em Roma, salvos pela pela beleza”, de José Tolentino Mendonça. E continua este hino à beleza tão romana, onde não faltam a nuvem de estorninhos, a mancha felina dos gatos que percorrem as ruas de Roma, o verde dos parques e das praças. A água: do rio e das fontes ( e são tantas e tão lindas…). O texto é ainda pontuado por sabores, aromas e perspetivas inauditas da cidade. Da minha próxima vez em Roma, vou subir ao monte Aventino e espreitar pela fechadura do portão do Convento dos Cavaleiros da  Ordem de Malta. Do outro lado, a Basílica de S.Pedro num enquadramento único. E vou ainda seguir a sugestão de livrarias incontornáveis. E deixar-me perder na luz da cidade.

Este texto trouxe-me à memória muitas cenas de um filme. O filme é  “La Grande Bellezza”, de Paolo Sorrentino (2013). As imagens são muitas, acompanhadas pelos sons de Roma: os estorninhos, as cigarras, a água a brotar das fontes. Também isto está no filme. E ainda o silêncio e o equilíbrio, que contrastam com o ruído ensurdecedor do caos iminente e interior vivido pelas personagens. Apesar de Roma e da sua beleza.

Escolhi dois excertos desse filme. A banda sonora é prodigiosa.

No primeiro, o protagonista (Jep Gambardella) caminha pela cidade bem cedo pela manhã. Os matizes da luz romana são bem visíveis. Fazem-se sentir também os sinos, as cigarras, os estorninhos e as fontes. E o silêncio. Segundo o guia, na secção “Dicas para não parecer um turista totó”, “Há cerca de 2500 fontes de água potável em Roma, conhecidas por nasoni. Trata-se de uma tradição local que recua à Roma antiga dos grandes aquedutos – algumas têm sistemas milenares. Por mais quente que esteja o dia, a água corre sempre limpa e fresca. Para saber onde fica a mais próxima há até uma app chamada I Nasoni di Roma.”.

 

Este segundo momento é mais extenso. São as imagens finais do filme, com os créditos. Um final belíssimo, pela música, pela sequência sobre o Tibre que se percorre com o olhar e pelo acordar lento da cidade.

O próximo guia é de Amesterdão. A não perder…

ASM

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