Por outras palavras

Itália

Este texto é sobre um reencontro que aconteceu por estes dias. Com as palavras de José Saramago, versão cronista.

Há muito tempo li as crónicas de José Saramago reunidas no volume A bagagem do viajante. Ao regressar a elas, a minha memória recuou a 2012 e a Siena. Foi quando reli o texto sobre a incursão do viajante nesta cidade da Toscânia: “Terra de Siena molhada”.

Na minha semana florentina do verão de 2012 Siena fazia parte dos meus planos. Tinha de lá ir. Não poderia adiar mais a visita a esta cidade que morava no meu imaginário e cujas imagens eu recolhera de relatos de outras pessoas que ma descreviam com espanto e admiração. Diziam também que eu tinha absolutamente de lá ir. E fui.

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Não fui a Perúgia, como Saramago, mas passei por San Gimignano e percorri as estradas que cortam os campos do Chianti toscano. Era verão, fazia calor e lembro-me dos girassóis muito amarelos nos campos e da imponência dos ciprestes verdes espalhados no amarelo à procura do azul do céu.

E em Siena, dominaram-me o espanto e a reverência perante a beleza do lugar. Sente-se uma  presença muito viva do passado que parece intocado e imune à passagem do tempo. E as cores. Sim, as cores e a cor que toma o nome da cidade.

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Uma das minhas primeiras imagens do Campo que se abre em concha. A Torre del Mangia não cabe no ângulo de visão, com os seus 102 metros. Ao seu lado, o Palazzo Pubblico.

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O Campo.

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E agora as palavras de Saramago. Sem interrupção. A seguir, as minhas imagens de Siena e das suas cores.

TERRA DE SIENA MOLHADA  

           (E há também aquelas palavras que ouvimos na infância, já de si misteriosas, mas que os adultos pouco letrados tornavam ainda mais secretas, porque as pronunciavam mal, com o ar contrafeito de quem veste um fato que não foi cortado ao corpo. Assim era, por exemplo, aquela tinta escura, para os móveis, a que se dava o nome de vioxene ou bioxene, e que só muito mais tarde percebi ser vieux chêne, velho carvalho, antigo, tisnado pelo tempo. Era o caso, também, daquela outra cor, terra sena, terra sena queimada, que eu via comprar, em pó, de um amarelo sombrio e ardente, como se fosse poeira do sol. Magníficas palavras da infância, que precisam de esperar longos anos até deixarem de ser um cego cantar de sons e encontrarem a imagem real que lhes corresponde.)

Durante todo o caminho, depois de termos saído de Perúgia, o céu foi-se aos poucos cobrindo. O dia escureceu ainda nós estávamos longe de Siena, e a chuva começou a cair com força. Fechou-se a noite em água e foi debaixo de uma trovoada furiosa que entrámos na cidade, entre relâmpagos alucinantes que deitavam fogo às casas. O automóvel atravessava uma cidade deserta. Pelas ruas estreitas, de lajedo, a água corria em cascatas. E no breve silêncio entre dois trovões, a chuva ressoava sobre o tejadilho como baquetas na pele de um tambor.

Depois de inúmeras voltas, o carro parou num espaço desafogado, junto de uns degraus. Estávamos na Praça do Duomo. Através dos vidros embaciados, víamos vagas luzes, gente abrigada nos portais, e, para a direita, um vulto enorme, todo em faixas negras e brancas, que se perdia na noite e na altura: era a catedral. A violência dos trovões sacudia o carro, e a chuva acabou por isolar-nos do mundo. Siena recebia-nos mal. Pusemos o carro em movimento e tornámos ao labirinto das ruelas, até que desembocámos no que me pareceu uma larga cratera. “É o Campo”, disse um de nós. E eu, neófito, muito compenetrado como quem põe pela primeira vez gravata, repeti, respeitosamente: “O Campo.” E a chuva sempre a cair.

Molhados, fatigados, descobrimos um lugar para passar aquela noite. Não um hotel (todos estavam cheios), mas um verídico palácio do século XIII, cujas pedras gemiam água e história. No interior, porém, era simultaneamente primitivo e confortável. Havia quartos alugados a estudantes, e que era eu em Siena, senão um estudante? Abri a janela pesada e olhei para fora. A trovoada afastara-se ou viera morrer ali, e a chuva passou a cair devagar, mansa, sem o chicote das descargas.

Na manhã seguinte, depois de uma noite atormentada pela inquietação de novo dia de temporal, abri outra vez os batentes medievais: o céu estava liso e limpo, e  a luz do sol, ainda rasa, mostrava-me enfim os telhados de Siena. Foi como se das antigas terras da memória uma criança viesse colocar-se ali a meu lado, um rapazinho magro e tímido, de calção e blusa. Éramos dois: eu, calado e grave, já sabedor de que em tais circunstâncias só o silêncio é sincero; ele, gajeiro que no tope do mastro grande descobre pela primeira vez a terra que buscava, murmurando a medo: “Terra sena, terra sena queimada”, e desapareceu, voltou ao passado, feliz por ter visto, por ter sabido finalmente o que significavam as misteriosas palavras que ouvira dizer aos adultos, mortos na ignorância do que haviam dito.

Alguém se aproximou de mim. E eu disse, sem olhar, com uma voz brincada que se dominava: “Terra de Siena, terra de Siena molhada.”

José Saramago, A bagagem do viajante, Caminho.

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Vista lateral do Duomo.

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A entrada do Duomo.

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No pavimento do Duomo, em mármore, um detalhe da representação do “Massacre dos inocentes”.

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No cimo do Duomo.

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Na catedral, há que visitar a Biblioteca Piccolomini, repleta de frescos da autoria de Pinturicchio e que representam a vida do Papa Pio II.

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E todos os caminhos em Siena vão dar ao Campo, famoso pelo seu Palio. Antigo, muito antigo, mas que renasce todos os anos, nos dias 2 de julho e 16 de agosto.

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ASM

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