Poesia com árvores e cores

+ do que 1

Desde que este blogue se tornou o que é, que o dia mundial da poesia é de alguma forma assinalado. Com textos, imagens e cores de sítios, que lembram poetas, poemas, outros lugares (aquiaqui e ainda aqui).

Este ano não vai ser exceção – o dia da poesia também passa por esta cartografia. E fui buscar aos meus arquivos fotográficos imagens para poemas e palavras de poetas. A poesia está muito presente nos meus dias – os errantes e aqueles que não o são tanto.

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Uma “calle” em Veneza com um nome muito inspirador…

Em Nice, pensei em David Mourão-Ferreira, como já aqui dei conta. E em Veneza e noutras cidades de Itália que ele tanto amava( a propósito de Veneza…). Muitas vezes parto em busca dos lugares dos poetas porque os li nas suas palavras, como foi o caso de Umberto Saba. Os seus textos ajudaram-me muito a ler a cidade de Trieste.

Vi escrito algures que hoje também é dia internacional da cor. Daí as fotos bem coloridas. E também para lembrar que este ano a chegada da primavera se antecipou, dado que fevereiro teve mais uma data – 29. A estação das cores, dos brilhos e dos aromas; dos frutos, das árvores floridas, do sol franco, dos dias prolongados e crescentemente quentes já chegou.

Aqui deixo então poesia e cores que fui encontrando pelos caminhos. No meio, uma árvore em forma de poema e outras com cores de realidade.

Começo com um clássico: Luís de Camões. Este soneto reencontrei-o nuns degraus em Constância, no regresso de uma viagem ao sul de Espanha (Páscoa|2015). Por esta vila terá passado o poeta, na sua errática existência. A população lembra-o nas ruas, num jardim-horto onde estão plantadas as 52 espécies a que faz referência na sua obra. Uma memória que se quer viva, florida e colorida…

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Percorrendo as estreitas ruas de Constância, reli também outros versos, de um poeta contemporâneo – Mário Cesariny e o amor urgente numa das paredes brancas. Como se tivesse acabado de escrever o poema à mão, com urgência de o acabar para partir em busca.

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Agora as cores que me ficaram da memória de Constância, sobre o rio Zêzere.

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Em Trieste (verão|2014) tive oportunidade de conhecer dois lugares muito ligados a poetas: a livraria e antiquário de Umberto Saba, que, aliás, faz parte de um roteiro literário pela cidade, e o Antico Caffè San Marco.

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Dois itinerários, duas vidas que se cruzam nas ruas de Trieste:

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O Caffè San Marco é um ícone da cultura triestina, pela história, pelo tanto que deu e dá à cidade e aos seus habitantes, pela atmosfera cosmopolita e intelectual e artisticamente efervescente que lá se vive diariamente. E sente-se de uma forma muito intensa. Um café que é um espaço cultural – uma livraria, uma galeria de exposições, um restaurante, uma sala para pequenos concertos, um museu. Existe desde 1914.

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Resistance is…

To smuggle a loaf of bread – was to resist.
To teach in secret – was to resist.
To gather information and distribute an underground newsletter – was to resist.
To cry out warning and shatter illusions – was to resist.
To rescue a Torah scroll – was to resist.
To forge documents – was to resist.
To smuggle people across borders – was to resist.
To chronicle events and conceal the records – was to resist.
To extend a helping hand to those in need – was to resist.
To dare to speak out, at the risk of one’s life  – was to resist.
To stand empty-handed against the killers – was to resist.
To reach the besieged, smuggling weapons and commands – was to resist.
To take up arms in streets, mountains and forests – was to resist.
To rebel in the death camps – was to resist.
To rise up in the ghettos, amid tumbling walls,
in the most desperate revolt humanity has ever known …

Haim Guri and Monia Avrahami

Este poema é de uma outra geografia. Daquela com mapas de linhas de sangue, de um sofrimento atroz, que desafia a compreensão. Foi escrito com palavras onde ecoam as inúmeras e heroicas formas de resistência dos judeus durante o Holocausto. Nos guetos, nos campos de concentração e de extermínio, nos bosques onde andavam fugidos do horror, nos esconderijos a que chamaram casa e onde muitos sobreviveram com a esperança a alimentar-lhes as horas infindáveis. Estava numa das paredes do museu Beit Lohamei Haghetaot, o primeiro museu sobre o Holocausto a surgir no mundo. Fundado por resistentes e sobreviventes do Gueto de Varsóvia, começou por ser um Kibutz, para depois se tornar um espaço de memória. Localiza-se no norte de Israel, bem perto da fronteira com o Líbano. Visitei-o no verão passado.

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Os livros, a música, a dança, a pintura, as artes possíveis eram uma forma de resistência.

O dia 21 de março é o escolhido para o mundo celebrar as árvores. Eu gosto muito de árvores e do poeta Nuno Júdice. Por isso escolhi este poema para o dia de hoje. Com muitas árvores.

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Jardim Botânico, Porto (julho|2015).

A Árvore sem nome

 

Havia uma árvore no caminho para a escola

de que nunca soube o nome. Era uma árvore

que ficava no caminho para a escola, e

o facto de não ter nome fazia-me parar,

quando ia para a escola, em frente da

árvore sem nome. Havia uma árvore

que tinha flores na primavera e perdia

as folhas no outono, e embora eu soubesse

que era primavera quando o perfume

das suas flores inundava o ar, e que

era outono quando pisava o chão cheio

das suas folhas, nunca soube que nome

tinha aquela árvore. No verão a sua sombra

refrescava-me, no inverno tinha de fugir

para não apanhar a chuva que escorria

dos seus ramos. Podia chamar-lhe a árvore

da primavera no outono, e a árvore

do inverno na primavera, e isso far-me-ia

lembrar, ao ir para a escola, que o tempo

passa como as flores e os anos caem como

as folhas. Não sei se a árvore sem nome

continua no caminho para a escola, que

nunca mais fiz desde que acabei a escola;

mas ainda sinto o seu perfume, no inverno,

e procuro o abrigo dos seus ramos secos,

na primavera, como se  o tempo andasse

ao contrário e a árvore sem nome ainda

estivesse de pé, à minha frente, para

que eu perguntasse que árvore é aquela,

e a passagem do tempo tivesse o seu nome.

 

Nuno Júdice, O fruto da gramática, D.Quixote

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O chão com as cores da árvore. Jardim Botânico, Porto (julho|2015).

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Em Guimarães, em frente ao Paço dos Duques (dezembro|2014).

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Árvores do Alentejo (Páscoa|2015).

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Como prometido, as cores. Faltam as cores a celebrar. E começo com uma inscrição que encontrei numa casa colorida de Burano (verão|2015). Era o atelier de uma artista plástica. À porta, esta mensagem, que me parece bem adequada para este dia. Se substituirmos “il colore”/“color” por “poesia” continua a fazer muito sentido…

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Mais instantes coloridos na ilha que é uma autêntica aguarela…

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Ilha de Burano, Veneza.

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Para terminar,  uma música que rima com primavera e que tem em mim o efeito da inscrição da artista de Burano: Virginia Astley, “From gardens where we feel secure”.

 

 

ASM

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4 thoughts on “Poesia com árvores e cores

  1. Aninha, adorei a tua celebração do multifacetado dia 21, sobretudo o poema de Nuno Júdice – delicioso!
    Já tinha saudades de “novidades cartográficas”!
    Beijinhos

    1. Olá! Obrigada pelo comentário 😉. Também eu adoro o poema de Nuno Júdice, lembrei-me dele para aqui. E também tinha tantas, mas tantas saudades de escrever aqui…Mas tenho tido uns dias de não poder respirar…Tinha de aqui regressar neste dia e como é bom respirar poesia!!!! Até ao próximo texto 😊 beijinhos

    1. Que surpresa boa! Uma visita do outro lado do oceano!Bem-vindo a esta cartografia!O contentamento também já está em mim, pelo que já li do seu blog 😉

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