Casa da memória (parte 1)

Jerusalém, Israel

Esperei pelo fim de janeiro, pela proximidade do dia 27, para escrever este texto sobre uma casa em Jerusalém. Isto porque neste dia se assinala a memória das vítimas do Holocausto, relembrando também que foi nesta data que o campo de extermínio de Auschwitz foi libertado, marcando assim o princípio do fim da Shoá.

Esta casa tem um nome – Yad Vashem (em hebraico  יד ושם) – e foi fundada em 1953 por decisão do Parlamento Israelita (o Knesset). A sua missão: homenagear os seis milhões de judeus que pereceram nas mãos dos nazis e dos seus colaboradores durante o Holocausto. Contribuir para que não se esqueça esse período negro da história universal. É também um espaço museológico, um centro de investigação, uma escola, um memorial. Uma casa instituída como Autoridade para a Memória dos Mártires e dos Heróis do Holocausto.

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      – Chegava sempre de autocarro ao Yad Vashem. Era isto que via, à medida que me aproximava da entrada do complexo.

Um dos seus princípios fundadores está numa passagem bíblica, visível e eternizada em muitos espaços do Yad Vashem – “E lhes darei em minha casa e nos meus muros um lugar de honra e renome (Yad Vashem)…que nunca será apagado.” (Isaías, 56:5).

Nesta casa há ainda lugar para a homenagem a todos os não judeus que tiveram a coragem de não colaborar, de ajudarem quem estava a ser perseguido, muitas vezes arriscando a sua própria perseguição e até a morte.

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-Estas colunas marcam a entrada para o Campus.

Este texto é uma espécie de visita guiada a este espaço que foi a minha casa durante a minha estadia em Jerusalém (julho/agosto|2015). Foi aqui que passei a maior parte do meu tempo entre aulas, visitas aos museus, a espaços de memória, à sinagoga, a exposições temporárias e aos jardins. A visita em forma de texto segue a minha própria cronologia no Campus do Yad Vashem.O exterior só por si é também merecedor de uma visita atenta, dado o interesse arquitetónico do complexo museológico e a sua localização na cidade – fica numa das muitas colinas que constituem Jerusalém, com vista para tantas outras. Espalha-se por quase 100 hectares no sopé do Monte Herzl.

– Vale das Comunidades

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– A visão de cima do vale das Comunidades. O Memorial foi escavado neste solo rochoso.

Começo pelo início do meu próprio roteiro no Yad Vashem. Logo no primeiro dia de formação, o grupo foi convidado a ter uma visão global do espaço. A primeira etapa teve como destino o Vale das Comunidades. Localiza-se na zona ocidental, particularmente rochosa. A pedra foi a matéria prima inspiradora da dupla de  arquitetos (Dan Zur e Lipa Yahalom) que pensou na forma de homenagear as cinco mil comunidades judaicas destruídas ou gravemente afetadas durante o Holocausto.

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– Um dos caminhos do Vale.

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-Inscrição que explica o Vale.

Os nomes dessas comunidades estão gravados nas pedras e representam as vidas eliminadas, muitas sem deixarem rasto. Por isso muitos familiares visitam este espaço para prestarem homenagem à memória de ente querido, cujo corpo nunca foi encontrado. Foi impressionante testemunhar, durante a minha visita, a presença silenciosa de pessoas que junto das enormes pedras oravam pelos seus mortos.

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-Para recordar as comunidades judaicas de Varsóvia. Um dos 107 muros com inscrições.

O espaço é quase labiríntico, de tão homogéneo e simples que é. Percorrem-se os caminhos abertos nas pedras que guardam, em nichos, os nomes das comunidades. Olhando para cima, à medida que caminhamos, deparamos com o verde das árvores, da vegetação plantada ao nível do chão. Um verde que nos diz que, para lá da aridez simbólica das pedras, há sempre esperança de vida.

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– Casa escola

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Fazem parte dos propósitos do Yad Vashem as dimensões da investigação e da educação.  É uma referência mundial nos estudos sobre a Shoá e nos projetos educativos que desenvolve, divulga e promove.

Possui um centro de documentação riquíssimo que está em constante ampliação e aprofundamento (há ainda muito por recolher, investigar, ligar e narrar…). Existe um serviço editorial que publica textos, documentos, memórias, catálogos, vídeos,etc.. Tudo em nome da memória, que urge preservar. Cada vez há menos vozes que na primeira pessoa relatam  o inenarrável.

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-Vista diária sobre os montes de Jerusalém, a caminho do pólo educativo onde tinha aulas.

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-A entrada para o espaço das aulas. Também um centro de documentação e biblioteca.

A formação de educadores em geral, professores em particular, é também uma aposta. É neste contexto que surge o curso de formação que frequentei. Nos moldes em que o conheci, tem como público-alvo professores não israelitas, oriundos de todo o mundo. A sala de trabalho ficava na secção europeia do Centro Educativo e em simultâneo decorriam cursos para docentes de vários países da Europa.

Há ainda cursos de formação dirigidos a estudantes de todas as idades e militares em formação (cruzei-me diariamente com muitos nos corredores do centro).

– Casa museu(s)

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-O que se vê através dos vidros da entrada para o Museu da História do Holocausto.

No Yad Vashem o visitante pode conhecer a biografia e os rostos que dão nomes à história do Holocausto, percorrendo os diferentes museus que alberga.

Neste vídeo, a reportagem é sobre o Museu da História do Holocausto, Yad Vashem.

Lembro-me bem de me cruzar com sobreviventes que visitam ou trabalham no Museu. Ainda com descendentes de vítimas dos campos, que vão em busca da compreensão do que não se compreende. O Museu é muito completo e a narrativa que propõe da Shoá baseia-se em cada um dos  judeus dos seis milhões que foram vítimas do nazismo: há nomes, retratos, objetos pessoais, cadernos com registos escritos, com desenhos de crianças, livros das escolas dos guetos…Ali encontramos histórias de pessoas que renascem aos nossos olhos para contar.

Dos espaços mais impressionantes do museu destaco a recriação dos guetos de Varsóvia e de Theresienstadt. Vi candeeiros de rua, pedaços do chão desses guetos, carris por onde passavam vagões. Testemunhei sinais da resistência, com a reconstituição dos teatros e dos cinemas do gueto, muito frequentados e dinamizados.

O  gueto de Terezín tinha características muito específicas (ver aqui) e  lembrei-me de Alice Herz-Sommer, sobrevivente falecida em 2014. Já conhecia a sua história de sobrevivência e o quanto esta se deve à música possível naquele espaço. Anne Sofie von Hotter celebrou as histórias de sobrevivência num CD que reúne as composições que nasceram no gueto.

Percorri aqueles espaços com um profundo nó na garganta e com a incredulidade em crescendo. Achava eu que não era possível aumentar esse grau de incredulidade, mas foi. Tive a oportunidade de o visitar várias vezes, podendo assim dosear o impacto em mim…

O museu é muito rico em testemunhos silenciosos do horror que se apresentam de forma faseada, de acordo com a cronologia dos acontecimentos. Essa linha do tempo é também reforçada pelo próprio edifício do museu – um longo prisma triangular, que tem a particularidade de se ir estreitando, fazendo coincidir essa sua largura reduzida com o apogeu das medidas nazis destruidoras. Alarga-se, assim que os sinais da queda do regime começam a fazer-se sentir e o próprio visitante como que recria essa  esperança dentro de si.

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Há um lugar especial para Aristides de Sousa Mendes, um não judeu que mereceu o título de Justo entre as nações (em 1966), bem antes de ter qualquer reconhecimento em Portugal. No exterior, há uma árvore com o seu nome.

A última sala do Museu é a chamada “Sala dos Nomes”, a mais silenciosa de todas, apesar de ser de passagem obrigatória para os visitantes. Um silêncio fundo e reverente, perante as fotografias dos rostos de vítimas. Daqueles de que é possível ver os traços. Uma foto e um nome, em redor de uma espécie de abóboda por cima dos nossos olhos. No fundo da abertura circular do chão desta sala, a abrir para baixo, nota-se a presença da água, que no Judaísmo é sinal de vida. Há sempre água sob os rostos.

Saímos desta última sala e chegamos ao fim da visita. Moshe Safdie, o arquiteto do edifício, garantiu, com o seu projeto, que a esperança se sobrepunha ao horror – muito graças à presença da luz natural ao longo da visita, em graus de intensidade variáveis, que chega até ao corredor central atravessando uma cobertura em vidro. Mas no fim do périplo, a luminosidade é acentuada e a saída do museu abre-se para uma luz plena, a do dia. Antes de abandonar o edifício, surge a vontade de parar na grande varanda suspensa aberta para o sol,  para Jerusalém.

 

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-O Museu, inaugurado em 2005,  tem 108m de comprimento e um dos seus extremos fica suspenso, virado para os montes que rodeiam o Monte Herzl.F14_Yad_Vashem

Continua…

ASM

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2 thoughts on “Casa da memória (parte 1)

  1. Arrepiante, Ana Sofia, e ao mesmo tempo uma homenagem belíssima… Infelizmente conheço a sensação do nó da garganta e da incredulidade, porque já visitei um campo de concentração e até hoje não me esqueço. Não quero esquecer, porque não o devemos fazer.
    Beijinhos

    1. Olá, Ana! Obrigada pela visita e pelo comentário.A este texto que quer ser uma homenagem falta uma segunda parte. O Yad Vashem é um espaço extraordinário que eu tive o privilégio de conhecer. Foram muito emotivos os dias que lá passei, pelas experiências únicas e inesquecíveis que me proporcionou.Ainda bem que decidi ir. Já a um campo de concentração não estou segura de que algum dia vá, ainda não me sinto preparada…Claro que não podemos esquecer, nem deixar que seja esquecido. Cada um de nós pode fazer muito todos os dias para lembrar. Hoje é mais um dia pela preservação da memória, para “Nunca mais!”.beijinhos

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