Postais de Natal

Jerusalém, Belém, Veneza | Israel, Palestina, Itália

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– Interior da igreja do Santo Sepulcro, Jerusalém.

Durante a minha estadia em Jerusalém, tive a oportunidade de visitar Belém, na Palestina, e descer à gruta onde nasceu Jesus. Num piso inferior da atual Igreja da Natividade, a cerca de oito quilómetros de Jerusalém, pode-se visitar a manjedoura que serviu de casa à família. Um lugar de culto, que já esteve muitas vezes em risco de ser destruído e que agora é protegido pela UNESCO. Para preservar o espaço onde veio ao mundo Jesus.

É um espaço exíguo, escondido, que se torna pequeno para a quantidade de pessoas que procuram tocar nas paredes, no chão onde está assinalado com uma estrela prateada o exato local onde Jesus nasceu. Está profusamente iluminado com velas que parece que nunca se apagam. Desce-se por umas escadas em pedra e imerge-se naquele lugar sagrado. Para além do espaço do nascimento, da antiga manjedoura, vê-se ainda um altar que homenageia os três reis do Oriente. Eu estava ali, na realidade que o presépio representa.

Visitei também outros lugares ligados à vida de Cristo: Jericó, o Monte dos Pastores, ainda na Palestina. Antes desta incursão fora do território israelita, estive na igreja do Santo Sepulcro e percorri os principais passos da Via Dolorosa. Um roteiro que é toda uma biografia.

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– Interior do Santo Sepulcro, a cúpula e o sepulcro de Cristo.

Para alguém como eu, cuja relação com a religião oscila muito entre o total ceticismo, agnosticismo e uma forte tendência para o ecletismo, confesso que aquele espaço provocou em mim sentimentos contraditórios. Encontro em muitas religiões pontos de contacto e valores e princípios que me agradam. Mas também reconheço em todas elas princípios, tradições e rituais que me causam perplexidade e com os quais não concordo em absoluto.

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– Igreja do Santo Sepulcro, a pedra onde o corpo de Jesus Cristo terá sido ungido por José de Arimateia. Fica logo à entrada da igreja e é um dos pontos de maior interesse para os visitantes.

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– Igreja do Santo Sepulcro.

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Apesar de as minhas circunstâncias biográficas me ligarem mais à matriz judaico-cristã, tive, felizmente, uma educação heterodoxa e eclética do ponto de vista religioso.  E também neste aspeto os meus pais tiveram um papel essencial, já que foi sempre estimulado o questionamento e o desejo de saber mais sobre outras religiões e tradições.

Os meus Natais foram sempre celebrados como a festa da família, recordando aquela outra que para sempre marcou a história da humanidade. E Jesus Cristo foi, sem dúvida, uma personalidade extraordinária, independentemente da ótica pela qual o perspetivamos.

Se eu pudesse medir com precisão a tendência que em mim predomina no dia a dia, julgo que o ceticismo ganharia às minhas aproximações à fé (seja ela qual for…). Daí a minha estranheza em Belém. Como noutros lugares religiosos onde já estive, eivados de uma sacralidade que me é distante. Julgo que a esta estranheza não foi alheio um certo desconforto sentido ao longo do caminho até lá. Isto porque, para irmos até Belém, na Palestina (o grupo decidiu e organizou a ida, recorrendo a uma agência de viagens, pois esta visita não estava planeada previamente), tivemos de passar por vários postos de controlo, conduzidos por um não judeu; vi vários muros erguidos a separar o território israelita (o meu ponto de partida) dos restantes, cujas fronteiras oscilantes desafiam a compreensão – Palestina, Cisjordânia, colonatos… Realidades que convocam um vocabulário e conceitos complexos, que a história, a política e as religiões explicam. Mas não é por isso que é fácil de compaginar a questão. Acresce a isto o facto de durante a minha estadia em Israel terem sido inúmeras as notícias relativas a confrontos religiosos – em Jerusalém, cidade santa para três religiões, os conflitos eram quase diários. Notícias da faixa de Gaza eram também frequentes.

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– Um dos muros a separar a Palestina de Israel.

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– Um graffiti numa parede em Belém…

No entanto, neste texto prefiro realçar a melhor parte da religião que justificou a construção de belas catedrais, inspirou belíssimas pinturas e esculturas, motivou a expressão de génios que tanto admiro na história da Arte. Sem esquecer, claro está, textos literários que bebem nesta matriz a expressão do sublime. E isso sempre me emocionou muito. Deixo assim de lado as minhas inquietações sobre o transcendente e a fé…

Deixo então algumas imagens que podem muito bem ser postais natalícios, com votos de um Natal feliz para os meus amigos,  leitores e seguidores aqui no blogue e aqui e ainda aqui.

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– Interior da Igreja da Natividade, Belém. Portas no chão abrem-se sobre camadas que contam a história da basílica. Aqui veem-se belos mosaicos. O Imperador romano Adriano ergueu sobre este espaço um templo pagão, dedicado a Adónis. Mais tarde, o imperador Constantino ordenou a construção da primeira  igreja.

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– As luzes da devoção, junto à entrada da gruta onde nasceu Jesus.

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– As escadas que nos encaminham para  local central do presépio…Não tirei fotos no interior, pois estava cheio de gente. Do outro lado há a porta de saída, que dá acesso à parte da igreja Arménia.A basílica divide-se em três partes, que correspondem a três formas de culto: o da igreja Católica, o da igreja Ortodoxa Grega e o da igreja Arménia.

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– Campo dos pastores, Palestina.

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– Santuário do campo dos pastores, próximo de Belém.

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– A cúpula do Santuário dos pastores.

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– A caminho de Jericó, atravessando o deserto da Judeia.

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– A entrada em Jericó e o Monte das Tentações.

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– Luzes na Igreja do Santo Sepulcro.

Depois de Israel, estive em Veneza, onde a arte foi celebrada na Biennale. Espalhadas por vários espaços da cidade (igrejas, jardins, cafés, livrarias, museus, mosteiros…) estavam as obras de artistas de todo o mundo. E nos seus mundos artísticos também podemos encontrar o elemento religioso. Lembrei-me deste artista turco que nas obras expostas na igreja de Santa Maria della Pietà questiona as religiões e a sua relação com a cidade e os poderes que nela convivem ao longo da sua história – Ahmet Günestekin. Lança um convite ao diálogo entre as religiões do mundo, com base no que de comum e melhor elas possuem.

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– Os símbolos das três grandes religiões em diálogo visual.

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– A explicação da obra/cidade Istambul|Constantinopla|Bizâncio|Nova Roma…

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Que estes dias sejam celebrados da maneira que se quiser, não esquecendo o que de melhor podemos ir buscar a esta data. Faço votos para que a natividade seja sinónimo de nascimento de uma época bem melhor que a anterior, que o espírito de Natal seja uma constante ao longo de todos os dias do ano e não uma celebração pontual, um sinal de “tarefa cumprida e terminada” no calendário individual. E o meu maior desejo: paz. Paz no mundo e em cada um de nós e em nós com os outros (se começarmos por aqui, a do mundo parece tangível). Que as diferenças religiosas sejam um acrescento à humanidade, sinal da sua diversidade e beleza e não um pretexto para a sua autodestruição.

E no fim, uma música de Natal, de que gosto tanto – “Adeste Fideles”. As imagens do vídeo percorrem os lugares do Natal de Jesus Cristo.

Feliz Natal!

ASM

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