Razões para uma ilha

Veneza, Itália

A casa que escolhi para mim em Veneza foi a mesma que me acolheu no ano passado. E sobre essa experiência já aqui escrevi . Não tive dúvidas na escolha reincidente, assente na vontade de regresso a um espaço que já me é muito familiar.

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-O Canal da Giudecca e o Convento do Redentor: a minha casa.

Este ano o convento franciscano foi a minha casa durante duas semanas. Já escrevi sobre a sua história, o seu interior, o ambiente que ali se vive, ao qual não é estranha a matriz franciscana dos seus fundadores e agora guardiões. Este também é para mim um motivo forte para o regresso: se há ordem religiosa que admiro é a dos Franciscanos. E há muito que assim é. Pelos seus valores, pela sua filosofia de vida, pelo seu recentrar da existência no que é essencial e pouco mais do que isso. Ainda pela sua alegria e discrição. Acompanhei o dia a dia dos frades franciscanos durante a minha estadia e por vezes cruzava-me com eles, apesar de as suas celas ficarem noutra ala do mosteiro. A sua presença fazia-se notar, sobretudo no pátio interior, pelo cuidado que punham ao tratar das oliveiras, animais e flores.

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Esta minha admiração pela ordem de São Francisco já é antiga na minha memória. Lembro-me de em  pequena ter ido ao cinema com o meu pai e um dos meus irmãos ver o filme “Fratello sole, sorella luna”(1972), de Franco Zeffirelli. Ainda mal sabia ler, a projeção (nem de propósito) teve lugar no seminário da minha cidade e impressionaram-me muito as imagens daquele jovem que abandonou, feliz, a família, a casa onde nasceu, Assis. E partiu.

A cena da renúncia:

Já adulta, visitei Assis e a igreja  dedicada a Francisco. Assis é linda, no topo de colinas da região da Umbria, e a visão que se tem de cima para a planície é de recordar para sempre. Emocionei-me quando entrei na basílica e no espaço reservado ao túmulo de S.Francisco. Ainda com os frescos de Giotto di Bondone, que contam a história da vida do Santo.

Francisco passou por Veneza, regressando de uma viagem ao Oriente. Aqui parou, aqui rezou na companhia de pássaros negros. Em conjunto louvaram o Criador. Nos paludes venezianos, a lembrar que a cidade é uma cidade anfíbia. Assim diz a música de Angelo Branduardi que se inspirou nesta passagem por Veneza. A segunda voz que se ouve é de Teresa Salgueiro e não podia combinar melhor com a do cantor italiano, com a paisagem veneziana e com o brilho das águas da cidade.

As razões do meu regresso à ilha da Giudecca não se ficam por aqui. Vou enumerá-las, com ajuda de fotografias, pois só assim conseguirei fazer jus ao que a Giudecca já (muito) significa para mim.

  1. Atmosfera de bairro

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Nesta ilha há uma outra Veneza, aquela que foge à agitação barulhenta e anónima dos pontos mais centrais da cidade. Aqui caminha-se com calma e com espaço. Estamos longe da presença constante de lojas de souvenirs, de ruas estreitas e ruidosas. Aqui há padarias, salumerie, pequenas frutarias, pizzerie, talhos. Algumas oficinas de artesãos e associações culturais.

Podemos ter por companhia os gatos e as gaivotas. Há um espírito de bairro, onde toda a gente se conhece e se cumprimenta de manhã nas ruinhas estreitas e no supermercado. Nas paragens do vaporetto ouvem-se histórias do dia a dia.

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Também na pizzeria onde se pode encomendar uma pizza que é feita ali à nossa frente, por umas mãos enfarinhadas e frenéticas a moldar a massa e a selecionar os ingredientes que vão ser colocados sobre. Uma vez, enquanto esperava pelo jantar, que levaria depois até casa, ouvi entrar o filho pré-adolescente da proprietária que vem pedir à mãe para estar mais tempo na rua com os amigos. Foi fácil convencê-la, mas terá de regressar ali às 22:30, diz ela. Enquanto isso, espera-se pela pizza olhando as águas do canal que tem o nome da ilha e Veneza do outro lado, iluminada pelos candeeiros raros.

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2.Vê-se Veneza

Uma outra boa razão é esta e é irresistível: da Giudecca vê-se Veneza. É isso – do outro lado, enquanto esperava pelo vaporetto, via San Marco, a piazetta, a fachada do Palazzo Ducale, a igreja da Salute, a torre de San Giorgio Maggiore… Do lado esquerdo, Zattere e a sua bela igreja.

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-Ao fundo, a cúpula da Igreja della Salute e o Campanário de San Marco.

Dediquei uma manhã a percorrer o fondamenta Zattere até à ponta da Dogana. E a dar a volta, até chegar à igreja della Salute.

Dali, ao longo daquela outra margem do canal da Giudecca, vi a ilha alongada, com as suas igrejas, casas, estabelecimentos virados para a água: pequenos restaurantes, farmácias, supermercados e as pontes que ligam as suas direrentes partes. Na verdade a Giudecca é constituída por oito ilhotas, ligadas por pontes. A ilha tem a forma de uma longa espinha de peixe… Que já lhe deu o nome de Spinalonga em tempos. Quem vem da estação de comboios, como eu fiz, em direção ao convento, segue no vaporetto a linha da costa da ilha, apreendendo toda a sua extensão. Fixei rapidamente o nome das estações:  Sacca fisola- Palanca – Redentore – Zitelle.

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-Um jardim na zona de Sacca Fisola.

Quando visitei o interior do Palazzo Ducale gostei de ver a ilha e de pensar que ao fim daquele dia, depois das filas e da multidão aglomerada nas ruas estreitas, iria regressar àquela casa serena.

 

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-A Giudecca vista do Palazzo Ducale.

3.A igreja do Redentore

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A igreja do Redentor foi projetada por Palladio. O convento com o mesmo nome fica por trás. Do meu quarto via-se bem a cúpula. O seu interior mereceu várias visitas, pois está repleto de obras de arte de pintores como Tintoretto e Veronese.

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-Igreja e Convento Franciscano do Redentor.

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-A igreja e o convento vistos de Zattere.

4.O lado sul

 Do lado sul da ilha, vê-se a laguna. É um outro ambiente aquele que se vive deste lado. Há hortas, jardins, cais de embarque de pequenas embarcações. Terraços de casas viradas para estas águas, mais silenciosas e calmas, raramente cruzadas por aquelas embarcações que não descansam durante o dia no outro lado.

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-Remadores da Giudecca a treinarem para a Grande Regata Histórica que ocorre todos os anos no início de setembro.

O jardim do Convento era virado para sul. O pôr do sol aqui é absolutamente imperdível. Assim como o amanhecer ao som dos campanários. Os ciprestes que via todas as manhãs ao abrir a janela do quarto estavam deste lado da ilha.

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-As minhas manhãs começavam invariavelmente assim.

5.Os fins de dia nas esplanadas

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Talvez o melhor momento do dia para muitos. É que as esplanadas dos cafés e restaurantes começam a ficar preenchidas a esta hora. Estendem-se pelo fondamenta, muito próximas da água. Porque é mesmo ali que se quer estar, a olhar para Veneza, do outro lado, e a acompanhar o crepúsculo.

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-A igreja de Zattere (Chiesa dei Gesuati), desde a Giudecca.

6.O vaporetto

Não me cansei de andar de vaporetto. Absolutamente necessário para ligar a Giudecca à outra Veneza. Um transporte rápido e eficaz, que percorre os principais canais da cidade e que permite ligar-nos a terra firme. Fosse a que horas fosse, como era bom percorrer as águas num transporte com vista contínua para as fachadas de palácios, de igrejas, para pequenas praças, para campanários…

Da estação do Redentore (o meu ponto do partida e de chegada diário) apercebi-me do quotidiano da ilha, das suas gentes e dos seus ritmos.  Cruzei-me com verdadeiros venezianos e raramente com turistas, o que muito me agradou.

Tive também tempo de admirar o trabalho incansável da equipa de transportes. O mais visível é o daquela pessoa que trata de lançar a corda, de entrelaçá-la com o pilar do pequeno cais do vaporetto e assim garantir a estabilidade da embarcação, para toda a gente poder sair em segurança. Só se sai quando há a indicação de que chegou o momento certo. Muitas vezes tem de ajudar os mais velhos, as crianças, todos  aqueles que chegam carregados com sacos de compras ou ainda com malas (como foi o meu caso).

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Ajudam a  subir ou a descer para o pequeno ancoradouro…Mais necessária a ajuda, quando as águas estão agitadas e então o vaporetto, apesar das cordas, apesar de toda aquela força de braços, continua a balançar; ou ainda quando as águas estão tão baixas, que a plataforma e o vaporetto se desencontram a ponto de desequilíbrios. São todos muito eficientes e os habitantes, de tão habituados que estão, percorrem as águas com um equilíbrio já interiorizado, como se o seu corpo naturalmente acompanhasse as oscilações sem o mínimo de ameaça de desequilíbrio.

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-A equipa do vaporetto.

7. Muito perto, outra ilha: San Giorgio Maggiore

A ilha de San Giorgio Maggiore fica quase colada à da Giudecca. A única maneira de lá chegar é de barco. Há uma paragem do vaporetto que nos deixa ali. A caminho da Piazza San Marco, é a última antes de pisarmos o centro nevrálgico de Veneza.

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Este ano, por causa da Biennale de Arte, a ilha de San Giorgio tinha um motivo acrescido de interesse : esculturas de Jaume Plensa. Um artista catalão do qual aprendi a gostar muito em Nice. A visita era obrigatória e não perdi tempo – parte do meu segundo dia foi lá passado.

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-Jaume Plensa no interior da Basílica de San Giorgio Maggiore.

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8.Panoramas únicos

Seja do lado norte, seja do lado sul, a Giudecca tem uns traços muito próprios, que a tornam apetecível para uma estadia serena, num enquadramento simultaneamente exclusivo e bucólico. Diz a história da ilha que durante muito tempo foi o espaço preferido de famílias nobres e burguesas, que aqui possuíam os seus palácios e casas, para períodos de descanso estival ou durante o inverno.

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Esta foi a primeira foto que tirei este ano, ao chegar à ilha. É por isso a última deste post.

ASM

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