Antecedentes

+ do que 1

Até chegar a Jerusalém em fins de julho, disposta a frequentar um Seminário sobre o Holocausto (como já aqui referi), percorri caminhos que me levaram a querer. Alguns desses caminhos podem ser encontrados em mapas, de físicos que são, com coordenadas e latitudes variáveis. Há outros percursos também seguidos, mas estes são feitos de palavras.

É difícil para mim agora fixar todos os passos na linha do tempo, num ponto preciso; datar as etapas que me levaram a Jerusalém. Tenho algumas certezas, como a leitura do Diário de Anne Frank durante a minha adolescência e desse constituir um dos livros mais importantes da minha vida. Mais tarde li um outro relato, desta vez nas palavras de alguém que sobreviveu ao impensável: Primo Levi. E viveu a seguir para contar, para dizer o que muitos “subviveram” e o que muitos morreram. Porque não se pode recorrer ao verbo “viver” e nem o “sobreviver” diz muito sobre.

Antes F1 id1Primo Levi:
«(…) Quanto mais penso nisto, mais me convenço de que lavar a cara nas nossas condições é uma coisa inútil, fútil até: um hábito mecânico ou, pior ainda, uma lúgubre repetição de um ritmo extinto. Vamos morrer todos, estamos prestes a morrer: se me sobrarem dez minutos entre o acordar e o trabalho, quero dedicá-los a outras coisas, fechar-me em mim próprio, fazer o balanço, ou então olhar o céu e pensar que talvez esteja a vê-los pela última vez; ou mesmo só deixar-me viver, conceder-me o luxo de um breve ócio.

Mas Steinlauf interrompe-me. Acabou de se lavar, agora limpa-se com o casaco de tecido que antes mantinha embrulhado entre os joelhos e que a seguir vai vestir, e, sem interromper a operação, dá-me uma lição com todas as regras.

Já me esqueci, e lamento, as suas palavras certeiras e claras, as palavras do ex-sargento Steinlauf do exército austro-húngaro, condecorado com a Cruz de Ferro da Guerra 14-18. Lamento, porque terei de traduzir o seu italiano incerto e a sua conversa linear de bom soldado para a minha linguagem de homem céptico. Mas o sentido era este, que não esqueci, nem então nem depois: que exatamente porque o Lager é uma grande máquina para nos reduzir a animais, nós não devemos tornar-nos animais; que também neste lugar se pode sobreviver, e por isso é preciso querer sobreviver, para contar, para testemunhar; e que para viver é importante esforçarmo-nos para salvar pelo menos o esqueleto, os pilares, a forma da nossa civilização. Que somos escravos, privados de qualquer direito, expostos a qualquer injúria, condenados quase com certeza à morte, mas que uma faculdade nos restou, e temos de a defender com todo o vigor porque é a última: a faculdade de negar o nosso consentimento. Temos, portanto, sem dúvida, de lavar a cara sem sabão, na água suja, e limparmo-nos ao casaco. Temos de engraxar os sapatos, não porque a tal obriga o regulamento, mas por dignidade e por propriedade. Temos de caminhar direitos, sem arrastar as socas, certamente não em homenagem à disciplina prussiana, mas para nos mantermos vivos, para não começarmos a morrer.(…)» (p.40 da minha edição).

O poema que abre o livro convoca-nos, interpela-nos a não silenciar, a não esquecer.
«Se isto é um homem
Vós que viveis tranquilos
Nas vossas casas aquecidas,
Vós que encontrais regressando à noite
Comida quente e rostos amigos:
Considerai se isto é um homem
Quem trabalha na lama
Quem não conhece paz
Quem luta por meio pão
Quem morre por um sim ou por um não.
Considerai se isto é uma mulher,
Sem cabelos e sem nome
Sem mais força para recordar
Vazios os olhos e frio o regaço
Como uma rã no Inverno.
Meditai que isto aconteceu:
Recomendo-vos estas palavras.
Esculpi-as no vosso coração
Estando em casa, andando pela rua,
Ao deitar-vos e ao levantar-vos;
Repeti-as aos vossos filhos.
Ou que desmorone a vossa casa,
Que a doença vos entrave,
Que os vossos filhos vos virem a cara.»

Durante a minha viagem à República Checa há uns anos, visitei Praga e o seu bairro judeu. Aqui, impressionou-me muito o espaço exíguo do velho cemitério. As estelas de pedra cinzenta amontoavam-se de uma forma aparentemente desordenada, com inscrições em Hebraico e com símbolos evocativos de uma identidade perseguida, discriminada e encurralada naquela área delimitada e onde tudo se concentrava: sinagogas, casas, escolas… Com o tempo, o espaço foi sendo cada vez mais insuficiente e as sepulturas sobrepunham-se umas às outras. Muito próximo do cemitério, localiza-se a Sinagoga Pinkas (construída em 1535), a primeira sinagoga que visitei. Está transformada num comovente memorial aos judeus mortos nos campos nazis. As suas paredes estão revestidas com os seus nomes, data de nascimento e da morte (quando se sabe esta última). Muitos nomes, muitas datas, 80 mil no total. A preencherem as paredes. É também um museu, com objetos resgatados: sapatos, óculos, malas, roupas. Numa outra sala, veem-se desenhos das crianças que viveram no gueto de Terezín. Desenhos que nos calam numa vontade urgente de gritar.

Cemitério judeu em Praga.
Cemitério judeu em Praga.

Do cinema chegaram-me também imagens e histórias de heróis daqueles dias negros. Documentários que ajudam a perceber o antes, que mostram o depois e reconstituem o durante. A lista é longa e ainda há biografias por escrever e projetar na grande tela.
Antes de Israel aconteceu ver um filme muito curto, realizado por um húngaro e filmado e Budapeste. “Tell your children”(András Salamon,2007), baseado num episódio tristemente verídico. Há uma menina que escapa a um massacre numa das margens do rio Danúbio. As suas águas e a sua corrente acabam por ser a sua salvação. Judeus são mortos e ficam nas margens os sapatos, entre outros pertences. Também vi em Budapeste a escultura homenagem (Gyula Pauer, 2005) que recria os sapatos nas margens do rio, tão realistas que parece que foram lá deixados há pouco tempo. No breve filme, a menina sobrevive às balas e às memórias duras que não esquece. O fim remete para o presente e para o que ele pode guardar de perigoso e ameaçador. Um alerta.

Não posso falar dos antecedentes sem referir Belmonte e o seu Museu Judaico, inaugurado em 2005. Muito rico no acervo que guarda e tão bem divulga.

Dias antes de partir para Israel, li uma longa reportagem sobre este país na Revista P2 do jornal Público. Era sobre Israel na atualidade, que só pode ser compreendido conhecendo a sua história recente enquanto território e a sua origem e identidade(s) nos traços que caracterizam a diáspora judaica.

P2, Público, 15.07.2015, reportagem de Francisca Gorjão Henriques.
P2, Público, 15.07.2015, reportagem de Francisca Gorjão Henriques.

Esta entrevista a este escritor israelita, David Grossman, levou-me a comprar o seu livro Ver : amor e a desejar conhecer todos os outros que constituem a sua bibliografia. Guardei-o para o ler depois do meu regresso. É o que estou a fazer agora e não me enganei na minha intuição de adiar a leitura. Cada palavra faz mais sentido depois do Seminário.

P2, Público, 15.07.2015,entrevista de Isabel Lucas.
P2, Público, 15.07.2015,entrevista de Isabel Lucas.

Todas estas etapas me prepararam para os dias que estavam para vir. E pouco antes, em Lisboa, participei num encontro preparatório na sinagoga. O grupo de participantes foi recebido por membros da Memoshoá, que nos deram a conhecer aquele espaço, a sua história e as suas valências. A Vice-Presidente da Comunidade Israelita de Lisboa, Esther Mucznik, foi a anfitriã que nos abriu as portas para a história e a religião dos judeus em Portugal. Contou-nos as motivações e as origens da primeira pedra da sinagoga, mostrou-nos as valências daquele espaço.

A entrada da Sinagoga Shaaré Tikvá.
A entrada da Sinagoga Shaaré Tikvá.

Antes F6 id1Foi importante este encontro neste espaço, pelo que me deu a conhecer, pelo que revelou dos rituais e símbolos que mais tarde reencontraria em Israel. Forneceu-me âncoras para o meu olhar.

F7_Antes

Lá dentro, há esta obra de Daniel Blaufuks – “Esperança e vida” (2002).

 Memorial dedicado aos judeus vítimas do massacre de 1506, em pleno centro da cidade de Lisboa.
Memorial dedicado aos judeus vítimas do massacre de 1506, em pleno centro da cidade de Lisboa.

O final do livro de Primo Levi:
«(…) Os russos chegaram enquanto Charles e eu lavávamos Sómogyi para um lugar pouco afastado. Estava muito leve. Virámos a maca na neve cinzenta.

Charles tirou o boné. Tive pena de não ter boné.

Dos onze da Infektionsabteilung, apenas Sómegyi morreu durante os dez dias. Sertelet, Cagnolati, Towarowski, Lakmaker e Dorget (deste último não falei ainda:era um industrial francês que, depois de ter sido operado a uma peritonite, adoeceu de difteria nasal), morreram algumas semanas mais tarde na enfermaria russa provisória de Auschwitz. Encontrei em Katowice, em Abril, Schenk e Alcalai de boa saúde. Arthur regressou felizmente à sua família, e Charles retomou a sua profissão de professor primário; trocámos longas cartas e espero poder reencontrá-lo um dia.»

Avigliana – Turim, Dezembro de 1945 – Janeiro de 1947

Em dois anos este sobrevivente escreveu as memórias que trazia inscritas também na pele. Numa localidade muito próxima de Turim, a sua cidade natal. Depois de Israel estive em Turim, onde reconheci algumas marcas da presença deste sobrevivente e onde a memória da sua vida é preservada também em nome de outros nomes silenciados para sempre.

ASM

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