Ausência escreve-se com “I”

Israel e Itália

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Aeroporto de Telavive.

Há dois meses e alguns dias a separar estas palavras das últimas que aqui deixei. Há uma explicação e essa explicação começa a escrever-se com “i”, porque estive longe, em viagem, em dois países que começam por esta letra – Israel e Itália. Por esta mesma ordem, fui percorrendo os caminhos e conhecendo pessoas que me mostraram itinerários e partilharam biografias que jamais esquecerei.

Já aqui dei conta da minha incapacidade de viajar e de escrever demoradamente sobre os caminhos que vou percorrendo. O máximo que consigo fazer é registar através de imagens e algumas notas breves as experiências que vou integrando na minha biografia. Para isso e para estar em contacto com os que me leem e seguem assídua e atentamente, criei esta página Cartografia Pessoal no FB . Aqui fui deixando apontamentos escritos à flor da emoção, da comoção, das alegrias vividas e dos desejos.

No entanto esta ausência, mais longa do que o habitual, tem ainda outra razão de ser – depois do regresso, precisei de tempo para integrar em mim tudo o que tive oportunidade de viver. Foi quase um mês inteiro em viagem e as experiências enquadradas em circunstâncias muito particulares. Precisei de tempo para pensar na forma como vou escrever o que tive o privilégio de testemunhar. Surpreendentemente, sem planeamento prévio, encontrei pontos de contacto entre os dois destinos e uma rota coerente e colada a alguns temas que me interessam e preocupam há bastante tempo. Por outro lado, pude redesenhar o meu mapa, lembrando um percurso norteado por motivações que me levam a viajar e a fazer escolhas – aprender mais, conhecer a partir de dentro os lugares e cruzar a minha biografia com pessoas que vivem nos locais visitados. Nestes dois países foi assim.

Israel

Jerusalém desde o Monte das Oliveiras.
Jerusalém desde o Monte das Oliveiras.

Confesso que Israel não era um destino que fizesse parte da lista dos mais urgentes na minha vontade. Outros ocupam esses lugares. Mas a oportunidade surgiu e muito se deveu ao meu já antigo interesse por um assunto sobre o qual até já aqui escrevi ( “Como uma carta”). Alguns dos meus trajetos já me tinham levado também a Praga, onde visitei o bairro judeu, a Budapeste, com tantos verstígios da devastação da segunda guerra, a Belmonte, onde visitei o Museu Judaico, a Sevilha, que também tem um Museu Judaico e um Centro Interpretativo. Havia depois um caminho feito através dos livros sobre o mesmo assunto. O primeiro foi mesmo o Diário de Anne Frank, lido na minha adolescência feliz. Outras palavras chegaram a mim: de Primo Levi, de Elie Wiesel e de Richard Zimler. Os filmes trouxeram-me as imagens. Perante todos a mesma estupefação, o mesmo espanto sem respostas, mas com muitas perguntas. Como foi possível tudo o que lia e via? – a mais frequente.

Descobri então uma associação, a Memoshoá (Associação Memória e Ensino do Holocausto), e os seminários de formação que organiza, promove e patrocina. Têm lugar em Jerusalém, no Yad Vashem, a Escola Internacional para o Estudo do Holocausto. Esses seminários destinam-se a docentes. Candidatei-me e fiquei muito feliz quando soube que tinha sido selecionada (motivada já eu estava). Intuí que seria uma oportunidade para dar a forma e o enquadramento mais adequados a algo que eu pretendia continuar fazer todos os dias – a preservar a memória, a dar voz a quem a perdeu e aos que ainda testemunham o inenarrável. Para que não se repita, para que não seja fonte de inspiração para outras formas de crueldade. Este desígnio deveria ser de todos em todas as geografias. A atualidade exige-o, reclama-o, para que não se caminhe para algo que lembre qualquer coisa já vista.

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Museu da História do Holocausto do Yad Vashem. Um lugar de visita obrigatória sobre o qual hei de escrever.

Vou ter de escrever sobre o antes e o durante desta viagem. E ainda sobre o depois, que está a ser e vai continuar. Depois da formação, sinto-me munida de muitas “ferramentas” úteis e adequadas para passar a(s) mensagem(ns). Para tratar de um tema tão difícil e tão desafiante, se pensar na faixa etária dos meus alunos. Disto também vou dar conta em próximos textos. Mas sobretudo de como regressei outra de Israel. Como cidadã de um mundo que escreve diariamente uma história por vezes tão incompreensível, desumana e ilógica, julgo que esta viagem e o curso me ajudarão a compreendê-lo um pouco melhor.

A minha mesa de trabalho no Yad Vashem, sala do grupo de professores portugueses. Arrumadinha, porque era hora de almoço.
A minha mesa de trabalho no Yad Vashem, na sala do grupo de professores portugueses. Arrumadinha, porque era hora de almoço.
Uma das imagens que integrava uma exposição de cartazes expostos no corredor da secção europeia da Escola.
Uma das imagens que integrava uma exposição de cartazes expostos no corredor da secção europeia da Escola.

Itália
O segundo período de ausência escreve-se sempre com palavras de felicidade. Voltei a Itália. Percebi, desde a minha viagem a Bolonha e Florença em 2012, que me é essencial visitar este país todos os anos. Fiz essa promessa a mim mesma e desde então tenho cumprido: Sicília em 2013; Milão, Trieste e Veneza em 2014. Este ano: Milão, Turim e Veneza.

Turim, desde o Monte dei Cappuccini.
Turim vista do Monte dei Cappuccini.

A capital da Lombardia foi apenas a porta de entrada, dali segui de comboio para uma cidade que me surpreendeu pela sua beleza majestosa e elegante, pela sua história e dinâmica cultural: Turim. A cidade que viu nascer e morrer Primo Levi. Onde encontrei uma grande sinagoga e as memórias de uma das mais relevantes comunidades judaicas em Itália.

 Turim, Piazza Vittorio Veneto.
Turim, Piazza Vittorio Veneto.

Segui depois para a “Serenissima”, onde me esperavam duas semanas intensas de emoção e alegria. Regressei também à aulas de Italiano. Gosto muito de conjugar a aprendizagem informal que qualquer viagem constitui com a aquela mais formal, sistemática, com tarefas diárias de procura e de busca de mais. E este ano foi ainda mais especial, porque o formal e o informal se envolveram de uma forma tão natural, que foi difícil perceber as fronteiras entre um e outro. Estava nas aulas com vontade de sair para a rua para pôr em prática o que aprendia e caminhava por Veneza com a memória repleta do que assimilava na sala de aula. Uma mistura feliz e harmoniosa. Os sintomas venezianos repetiram-se, por mais dias desta vez (“Sintomas venezianos”).

Reflexos de mim (muito feliz) nos espelhos que via sempre que ia para as aulas. Ainda o reflexo de uma livraria, “La Toletta”, onde entrei muitas vezes e de onde trouxe muitos livros...
Reflexos de mim (muito feliz) nos espelhos que via sempre que ia para as aulas. Ainda o reflexo de uma livraria, “La Toletta”, onde entrei muitas vezes e de onde trouxe muitos livros…

Trouxe nos pés quilómetros de Veneza e imagens de casas, de palácios e canais fixas na retina. Ainda de ilhas que não conhecia (San Giorgio Maggiore, San Lazzaro degli Armeni, Torcello e Burano), recantos que fui descobrindo ao ritmo do acaso (encantaram-me os que encontrei em Cannaregio), detalhes de uma cidade infinita de possibilidades, movente como as águas que a atravessam, rodeiam e sustentam. Conheci o gueto judaico de Veneza e foi a altura certa para o conhecer. Tudo fez mais sentido depois de Israel.

Burano.
Burano.
Ilha e basílica de San Giorgio Maggiore. A moldura é do balcão do Palazzo Ducale.
Ilha e basílica de San Giorgio Maggiore. A moldura é do balcão do Palazzo Ducale.

Tudo isto junto constitui um repositório de imagens de felicidade, onde posso ir buscar memórias todos os dias em que não estou lá. Esta cidade, depois do curso de formação sobre o Holocausto, trouxe-me uma certa paz que acalmou a raiva interior que senti em Israel. Neste país, todos os dias eram dias de raiva contida face ao que a humanidade foi capaz de conceber e executar. Emocionei-me até às lágrimas inúmeras vezes. Em Veneza também aconteceu, mas com o oposto: emoção perante a beleza extrema, com o que de melhor e mais espantoso a humanidade é capaz de conceber.

Caminhar na ilha da Giudecca oferece-nos esta perspetiva.
Caminhar na ilha da Giudecca oferece-nos esta perspetiva.

Todas as manhãs na cidade anfíbia marcavam um início de dia repleto de experiências sentidas por mim como únicas e com a plena consciência disso, o que me levava a viver cada momento como exclusivo e irrepetível. Durmo pouco quando estou em viagem, mas nesta cidade ainda menos, tal era a contrariedade sentida sempre que tinha de fechar os olhos. Veneza parece que se pode desfazer quando menos esperamos, desaparecer dada a sua consistência frágil e quase irreal. A cidade que se admira a si própria nas águas parece que exige que seja admirada por nós constantemente, parece alimentar-se do nosso olhar para sobreviver ao tempo e resistir aos perigos que a ameaçam.

Olhares pousados nas águas e nas fachadas venezianas. Na escadaria da Basílica de Santa Maria della Salute.
Olhares pousados nas águas e nas fachadas venezianas. Na escadaria da Basílica de Santa Maria della Salute.

Veneza é também uma cidade que já foi cenário de muitos filmes e é o palco do mais antigo festival de cinema. No ano passado tive oportunidade de visitar o Lido (onde tem lugar o festival), de viver um pouco aquele ambiente de celebração da sétima arte e de assistir à estreia de um filme italiano. O calendário deste ano marcava o dia 2 de setembro (data posterior ao meu regresso) para o início da festa e por isso apenas vi os preparativos.

Mais uma vez a cidade acolheu artistas de todo o mundo na Biennale, que se concentrava sobretudo nos Jardins e no Arsenale. Por toda a cidade, porém, ocorreram o que chamam de eventos colaterais. Preenchi os meus dias também com visitas a estes espaços.

Veneza – cidade de filme...
Veneza – cidade de filmes…

Vou então procurar a melhor forma de relatar esta ausência em “i”. Encontrar as palavras que façam jus ao tanto que vivi, às pessoas que conheci, a tudo quanto aprendi. As fotografias (tantas…) vão também ajudar-me.

Memoshoá : http://w3.memoshoa.pt/index.php/quem-somos/historia

ASM

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