Sob o sol da S.

Sicília, Itália

Têm estado dias quentes, de muito calor. Gosto do tempo quente, mas não daquele quente sufocante, pesado e seco. Nem mesmo quando estou na praia.

Por causa destas temperaturas, tenho-me lembrado muito do calor da Sicília. Ainda mais quente que aquele que tenho vindo a sentir. Visitei a ilha no verão de 2013 e foi ali que durante mais tempo experimentei um calor sufocante. Mas ali fazia sentido, naquela ilha tão a sul. Talvez por isso foi menos difícil de suportar. E também porque estava em viagem e quando é assim tudo se torna mais fácil. Houve ainda momentos que constituíram um verdadeiro bálsamo, que serviram de sombra.

Este é um texto de verão quente. Com palavras carregadas do calor siciliano, a procurarem algumas sombras refrescantes. Como eu fiz durante aqueles dias. As fotos devem ser olhadas imaginando as temperaturas altas sentidas nos vários lugares que conheci. Marcados por um calor inclemente.

F1_Sol(6) id1O sol siciliano é o mote destas minhas recordações de uma viagem surpreendente. Sabia muito pouco antes de chegar à ilha, tenho vindo a querer saber mais desde que de lá regressei. Muitos são os motivos que justificam esta minha ânsia. A sua história tão antiga, a arquitetura testemunha de tantos povos e culturas (vi pela primeira vez uma catedral normanda), a sua literatura (de autores como Luigi Pirandello, Andrea Camilleri, Leonardo Sciascia, Giuseppe Tomasi di Lampedusa e Giovanni Verga ali nascidos), a gastronomia (com influências árabes e africanas), as paisagens naturais, as praias e a herança helénica estimularam ainda mais a minha curiosidade.

Logo no areoporto de Palermo li as palavras de Giovanni Verga (escritor nascido na ilha, em Catânia, onde também faleceu, 1840-1922) sobre a paisagem siciliana e as noites de verão. Deixaram adivinhar as altas temperaturas que depois senti.

F2_Sol(1).JPGQuando as temperaturas são muito altas, gosto de sumos cítricos. Foi também no aeroporto que fiquei a saber que em certos dialetos sicilianos as laranjas são nomeadas como “as portuguesas”, lembrando que foram os portugueses a trazer este fruto da China e a disseminá-lo pelo mundo ocidental. Agradou-me perceber que teria sempre laranjas para matar a sede: em sumos ou em bolachinhas como estas que me deram no avião. Iria com toda a certeza encontrá-las nos gelados…

F3_Sol(1) id1Uma das primeiras paragens depois de chegar a Palermo foi em Cefalù, cujo nome derivará da palavra grega para “cabeça”, já que o rochedo que a forma lembrará isso mesmo.

A caminho de Cefalù.
A caminho de Cefalù.

F5_Sol(1) id1Aconselharam-me a entrar na Catedral de traça árabo-normanda (1131, mandada erguer por Rogério II) e também a experimentar o gelado servido num brioche, uma especialidade. A primeira sugestão proporcionou-me momentos de frescura no interior da igreja austera por fora e por dentro. De destacar os belíssimos mosaicos que existem no seu interior.

A catedral e o enorme rochedo do lado direito, parte da “cabeça”.
A catedral e o enorme rochedo do lado direito, parte da “cabeça”.

E é este o famoso gelado que é servido não num cone, ou copo, ou taça, mas num brioche.

F7_Sol(1) id1Reza a história que os árabes terão inventado o sorvete, resultado da mistura da água com fruta, mel, açúcar e especiarias. Era depois conservado no gelo e no sal que os árabes encontravam nesta ilha. Assim como o açúcar, aqui abundante. Isto no século IX. Com o tempo, surgiram os gelados, de múltiplos sabores, formas e combinações. Na Sicília, não faltam lugares onde se podem provar saborosíssimos gelados artesanais. A escolha é difícil…

O azul verde do Mar Tirreno.
O azul verde do Mar Tirreno.

Cefalù é uma povoação de praia. Muitos sicilianos escolhem as suas areias para sentirem o sol que se eleva acima do lindo mar Tirreno. Para chegar à praia passa-se por ruas estreitas, cruzamo-nos com pessoas em trânsito para “o” ou “do” mar. O ar quente traz de vez em quando o aroma de peixe grelhado servido nas esplanadas dos pequenos restaurantes.

Apesar das nuvens, o calor era intenso.
Apesar das nuvens, o calor era intenso.
Esta foto parece-me retirada de um filme... Gosto particularmente do branco total da figura em primeiro plano. Do fresco que sugere.
Esta foto parece-me retirada de um filme… Gosto particularmente do branco total da figura em primeiro plano. Do fresco que sugere.
Um sinal de que estamos, muito provavelmente, na Sicília: as varandas cobertas com cortinas de riscas, a chamar a sombra fresca.
Um sinal de que estamos, muito provavelmente, na Sicília: as varandas cobertas com cortinas de riscas, a chamar a sombra fresca.

F12_Sol(2) id1Foi em Cefalù que vi pela primeira vez a Trinacria, símbolo da Sicília. Era o nome que os romanos davam à ilha (Trinacrium), dada a sua forma triangular, com as suas três pernas (três pontas do território) que rodeiam a cabeça de medusa.No artesanato local, a Trinacria é um motivo para trabalhos em inúmeros materiais.

F13_Sol

Em Castelbuono, encontrei na praça principal algumas sombras.

F14_Sol(1) id1Na zona antiga do castelo medieval, uma parede trouxe-me as ondas de um mar moldado pela imaginação.

F15_Sol(1) id1Talvez tenha sido durante o meu périplo pelos templos e teatros antigos que mais senti o calor. Na sua maioria construídos em elevações, rodeados de vegetação típica de terras quentes, o calor parecia ali mais intenso.

Lembro-me bem de ter ouvido as cigarras junto do templo de Segesta, após uma caminhada até ao topo da colina. Valeu sempre a pena a caminhada a cruzar caminhos de terra seca. O que me esperava era de uma beleza de emocionar. De um tempo que já não existe, com ecos de histórias, heróis, palavras que já lera.

O teatro romano em Siracusa.
O teatro grego em Siracusa.
O templo da Concórdia no Vale dos templos, em Agrigento.
O templo da Concórdia no Vale dos templos, em Agrigento.
O teatro grego em Taormina.
O teatro grego em Taormina.
Um lugar de sombra em Taormina.
Um lugar de sombra em Taormina.

Este terraço pertence ao Hotel Timeo, em Taormina. Tinha lido algures (já não me lembro se num livro ou numa revista de viagens) que a vista deste hotel é imperdível. O Timeo fica mesmo ao lado do teatro grego. As expectativas foram largamente superadas. A vista é belíssima.

Uma outra forma de mitigar o calor foi a urgência de bebidas frias. As limonadas, os chás gelados e o que existe entre o gelado e a água: a granita. De água e frutas. É gelo na boca, com o sabor que se quiser.

Em Selinunte, entre templos gregos, um vendedor ambulante promete frescura aos visitantes. Os limões sicilianos dão corpo a estas “granite”.
Em Selinunte, entre templos gregos, um vendedor ambulante promete frescura aos visitantes. Os limões sicilianos dão corpo a estas “granite”.
O menu de combate ao calor. Em Taormina.
O menu de combate ao calor. Em Taormina.

Confesso que não sou grande adepta de chapéus. Dificilmente aguento muito tempo alguma coisa na cabeça. Suporto um pouco melhor os lenços…Ainda assim, tive de me render à absoluta necessidade deste adereço. Há até um muito típico da Sicília – a “coppola”. Descobri algumas numa rua de Noto.

A coppola e a omnipresente trinacria.
A coppola e a omnipresente trinacria.
Uma fileira de sombra, também em Noto.
Uma fileira de sombra, também em Noto.

Uma fileira de sombra, também em Noto.

Não me lembro onde foi tirada esta foto. Mas pode ser em qualquer lugar, já que o chapéu foi comprado em Cefalù, uma das primeiras paragens, e não o larguei mais…

Em Piazza Armerina encontrei umas meninas verdadeiramente preparadas para o calor e para dele desfrutarem da melhor maneira…Na Villa Romana del Casale divertem-se em biquíni, praticando ginástica e outros desportos. Começaram por ser dez, mas uma perdeu-se no caminho do tempo. Vivem num mosaico da “villa” romana, construída entre os séculos II e IV d.C..

F25_Sol(1) id1Eu adoro mosaicos. Impressiona-me a perfeição dos desenhos em pedrinhas e a luz que deles emana. Os primeiros que vi foi em Itália, mais precisamente em Ravenna. Na minha primeira viagem a este país, de que falei aqui – https://cartografiapessoal.wordpress.com/2011/08/17/ravioli-alla-nonna-2/

Lembro-me bem do quanto me impressionaram. Sobretudo os do mausoléu de Gala Placidia.

F26_Sol(1) id1Estas duas imagens são de dois postais que trouxe de Ravenna e que guardo até hoje, para não me esquecer desta luz e da beleza dos pássaros e flores para Gala Placidia.

F27_Sol(1) id1Não podia terminar este texto sem uma música que associo ao tempo de calor. Também porque era a que ouvia no carro com uma amiga enquanto percorríamos as estradas do litoral alentejano durante dias felizes de verão. É a que mais me apetece ouvir por estes dias…Faz parte da banda sonora de um filme de 2010, “Baciami ancora”, e é cantada por um italiano da Toscânia que gosta muito da Sicília, Lorenzo Jovanotti.

ASM

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