Sintomas venezianos

Veneza, Itália

Já escrevi sobre Veneza várias vezes. Já visitei a cidade várias vezes, em diferentes fases da minha vida. Em todas elas acompanhada, exceto nesta última visita em agosto passado. Se calhar por causa desta circunstância, que me levava a estar mais tempo sozinha, pude aperceber-me de certos sinais que tornam esta cidade verdadeiramente singular. Assim como singulares são os efeitos que pode provocar em quem lá está. Já estive em mais cidades atravessadas por canais: Amesterdão, Estocolmo, Bruges, São Petersburgo. Eu vivo numa cidade com canais : Aveiro. No entanto, foi em Veneza que eu senti de forma mais intensa e íntima o que é uma cidade construída sobre as águas, atravessada por elas e que se estrutura e ergue sobre a laguna.

Vou descrevê-la a partir dos sintomas detetados em mim enquanto lá estive. Alterações de perspetiva, atenção a detalhes que marcam a diferença nesta cidade, sensações novas ou não tão novas, mas estímulos diferentes para sensações já conhecidas. É um conjunto de sinais, não de uma doença, não de algo negativo, mas de um fascínio maior do que eu poderia esperar. Marcas de uma beleza que só se encontra nesta cidade, nos pequenos detalhes, em sensações que se misturam e que deixam um lastro duradouro na memória afetiva e visual.

As imagens vão ajudar-me na descrição da cidade sentida por dentro…

F0_Sintomas id1Talvez seja esta a primeira perceção de Veneza – de que estamos num espaço quase sagrado, digno de veneração de tão belo que se mostra. Como se fosse visto sempre como uma primeira vez. Daí a urgência da sua preservação perante os perigos quotidianos: por exemplo, o dos cruzeiros desmesurados que agitam as águas e que largam milhares de pessoas que se acotovelam nos frágeis espaços da cidade, nem sempre respeitando o seu ritmo e as suas particularidades.

O estranhamento ao ver estes gigantes das águas é partilhado...
O estranhamento ao ver estes gigantes das águas é partilhado…

F2_Sintomas id1Outro: enquanto lá estive, as pontes estavam a ser invadidas pela moda dos cadeados, metáfora de amores que se querem eternos. Então há que prendê-los às pontes, algumas de madeira, leves a quererem continuar leves, mas com o peso daquele amor correm sérios riscos. Vi brigadas de remoção dos ditos em ação pela manhã bem cedo. Um gesto que se repetia no dia seguinte, dada a insistência dos amores urgentes de afirmação.

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A campanha de prevenção...em nome de Veneza.
A campanha de prevenção…em nome de Veneza.

O ruído das pessoas pode ser muito acentuado em determinadas zonas da cidade, sobretudo em agosto, por motivos óbvios. Mas, como já aqui escrevi, não o senti muitas vezes, dado que os meus caminhos não coincidiram com estes sons de risos e conversas em várias línguas misturadas. O que mais senti foi o silêncio da ausência de carros, autocarros e outros veículos motorizados. Uma paz silenciosa que só desapareceu quando cheguei ao Lido, a única zona onde nos reencontramos com este traço sonoro tão presente nos centros urbanos. Quando lá estive (aconteceu por duas vezes) tive quase de reaprender a estar atenta à circulação automóvel, de desabituada que estava. Em Veneza caminhamos sem preocupação alguma de olhar para os lados, de procurar uma passadeira, um passeio, uma via pedonal. Esquecemos o significado de muitos dos sinais de trânsito e do código das cores dos semáforos. Todo o chão é para peões. Sempre.

E o chão de Veneza é muito particular. Grande parte dele sustenta a sua firmeza nas estacas centenárias, na argila para isolamento da humidade, na pedra de Istria que depois se colocava numa camada superior da estrutura. Sobre isto ergueram-se as habitações. Ao longo do tempo. Há também o chão suspenso – as pontes elevam-no sobre as águas. Há 438 pontes na cidade. Dessas, 90 são privadas e se acrescentarmos as das ilhas de Murano e Burano temos um total de 455.

F5_Sintomas id1Conhecer as pontes , perceber que são fundamentais para caminhar na cidade, desejá-las para poder ir mais além no trajeto são sinais de que estamos em Veneza. Há ainda o desejo de fondamente (plural de fondamenta), que são os caminhos que ficam entre as casas e os canais. O que se aproxima mais da ideia de estrada, de rua. Há também fachadas e portas de casas que dão para os canais, para pontes, sem caminhos a intermediar. Nessas casas o acesso é feito por barco. Ou então temos pontes em que um dos extremos é uma porta de entrada. Uma espécie de ponte exclusiva.

F6_Sintomas id1Lembro-me bem de ter chegado ao Convento do Redentore e de me mostrarem no mapa o caminho a tomar para vários pontos de interesse a partir da Giudecca. A palavra fondamenta foi sublinhada por uma pausa explicativa que realçava a sua importância para nos podermos movimentar na cidade. Por isso, ao consultar o mapa que tinha à frente dos olhos deveria estar atenta ao azul das águas dos canais e ver se, paralelamente, de um ou dos dois lados da água, encontrava a cor branca, sinal de que havia um caminho de chão para prosseguir no meu itinerário. Perceber então que o desenho da cidade entrelaça linhas de água, de fondamenta e de pontes, tentando uma aproximação à realidade. Fácil, embora possa não parecer numa primeira abordagem.

Fondamenta.
Fondamenta.

F8_Sintomas id1Outra das estruturas fundamentais da cidade são as cisternas, os antigos poços de onde os venezianos tiravam a água potável. E que lindas que são algumas, no meio das pracinhas. Reparava sempre nelas e na sua base esculpida. Atualmente existem 2000 espalhadas por Veneza.

Campo San Vio.
Campo San Vio.

Em Veneza há ainda a beleza das imagens que a cidade reflete de si própria. Estando virada para a laguna que se desdobra em canais, as combinações da conjugação da luz ou sombra naturais com as fachadas com linhas e cores variáveis são infinitas. Há que estar atento aos reflexos, à luz movente que surpreende o nosso olhar, refletida nas águas, nas fachadas ou nas pontes…Dei por mim a procurar essa luz e os reflexos.

F10_Sintomas id1F11_Sintomas id1F12_Sintomas id1Ainda sinal das águas é o seu efeito no que não é líquido. A humidade inscreve-se e deixa uma marca nas coisas : nos postes, nas traves das pontes, nos pilares, nas fachadas das casas, dando a estas um falso ar de abandono. Também na pele. Recordo o fresco que sentia sempre que regressava ao jardim do Redentore ao fim da tarde ou quando saía bem cedo pela manhã. E havia a neblina, apesar de ser verão. Nunca senti muito calor em Veneza.

F13_Sintomas id1Por vezes é a maré que sobe demasiado e então invade os caminhos, deixando um tapete de água banhado pelo sol.

Fondamenta Zattere.
Fondamenta Zattere.
Ca' d'Oro.
Ca` d’Oro.

Nesta foto, tirada no Museu Ca` d`Oro, vê-se Flora, numa representação em mármore de Carrara, do século XV, mas também se percebe que o chão está molhado, como muitas vezes fica por ação das marés que invadem o palácio que agora é museu.

Uma imagem também muito viva na minha memória é a da presença das gaivotas. Percorrem os ares da cidade, às vezes pousam. É um habitante de Veneza com os seus hábitos bem arreigados e entranhados na rotina urbana. Não se estranha a sua presença, a sua busca de alimento nas praças, coabitando com os tão numerosos pombos, ou nos barcos que regressam do mar. Ou simplesmente como que param para admirar a cidade que conhecem bem.

Campo Santa Margherita, Dorsoduro.
Campo Santa Margherita, Dorsoduro.

F17_Sintomas id1Das outras vezes em Veneza, o tempo foi curto e não permitiu, por exemplo, testemunhar os fins do dia. De umas cores intensas: laranja, amarelo fogo e um azul de várias tonalidades. Tive a felicidade de o fixar em algumas fotografias. E todos os dias desejei observar esse momento. Como se fosse um fenómeno raro, irrepetível. Cada final de dia da semana que lá passei prometeu-me outro pôr do sol inesquecível.

Desta vez, pelo facto de estar alojada na ilha da Giudecca, tive de andar de vaporetto inúmeras vezes. São rápidos, pontuais e eficazes estes barcos. E no ancoradouro da Giudecca cruzava-me sobretudo com os venezianos, aqueles que recorriam ao vaporetto para se deslocarem para o trabalho, para irem ao centro. Quando não me movimentava nestas embarcações, andava a pé. No fim de cada dia, eu tinha aulas. E nesse tempo, o meu corpo parava. Era também uma pausa física da cidade, da agitação e do balançar das águas quando ia a bordo do vaporetto. Sentada na sala de aula, nos bancos das praças ou deitada ao fim do dia, era frequente sentir ainda uma espécie de balanço interior, como um prolongamento do que sentia no vaporetto, nos cais de embarque e desembarque ou sempre que olhava para a agitação constante das águas da laguna.

F18_Sintomas id1Termino com algo que percebi logo nos primeiros dias: de que há todo um vocabulário que só se usa e só ganha sentido(s) em Veneza. Um Italiano que se adaptou à realidade única de Veneza. Fui tomando notas desde o primeiro dia. Para não me esquecer e para compreender esta cidade. Também para poder escrever sobre ela, escolhendo as palavras certas. Registava-as de manhã, enquanto tomava o primeiro café do dia, no jardim das traseiras do Convento, observando as águas calmas da laguna.

Hei de voltar a esta lista para continuar a escrever sobre Veneza.
Hei de voltar a esta lista para continuar a escrever sobre Veneza.

Algumas informações mais detalhadas sobre a cidade foram recolhidas em Come nasce Venezia?, de Giovanni Distefano, Supernova.

ASM

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