Por outras palavras

Fernando Pessoa

Lisboa, Portugal

Foi com este poeta que iniciei uma nova forma de aqui estar. Convocando outras palavras para dizer sítios e o espírito dos lugares https://cartografiapessoal.wordpress.com/2013/03/17/por-outras-palavras/.

DSC foto5 id1E porque Fernando Pessoa nasceu num dia como este em que escrevo (13 de junho de 1888), lembrei-me de revisitar Lisboa através das suas sugestões, no livro Lisboa: o que o turista deve ver (Livros Horizonte, 2007). Comprei-o há uns anos, em Sintra. Nele o poeta múltiplo traça um roteiro pela cidade banhada pelo Tejo, como se nos levasse pela mão. E parece que nos fala baixo, ao ouvido. Como eu sempre imaginei que este poeta falasse: num tom de voz baixo, muitas vezes sussurrado…

DSC foto 6 IMG_5163 id1O livro convida-nos a uma viagem de carro por Lisboa durante um dia e tem no seu interior um mapa, com pontos de interesse assinalados: monumentos, jardins, igrejas, miradouros… Termina com um capítulo todo ele dedicado a Sintra. Foi escrito originalmente em inglês (título original: Lisbon: what the tourist should see, datado provavelmente de 1925) e a edição que tenho é bilingue – inglesa nas páginas pares, portuguesa nas ímpares.

DSC foto 7 IMG_5165 id1Deixo aqui passagens das primeiras páginas do olhar de Fernando Pessoa sobre Lisboa. Começa a olhá-la desde o rio.

«Sobre sete colinas, que são outros tantos pontos de observação de onde se podem desfrutar magníficos panoramas, espalha-se a vasta, irregular e multicolorida massa de casas que constitui Lisboa.

Para o viajante que chega por mar, Lisboa, vista assim de longe, ergue-se como uma bela visão de sonho, sobressaindo contra o azul vivo do céu, que o sol anima. E as cúpulas, os monumentos, o velho castelo elevam-se acima da massa das casas, como arautos distantes deste delicioso lugar, desta abençoada região.

O espanto do turista começa quando o barco se aproxima da barra e, depois de passar o farol do Bugio – a pequena torre-guardiã na embocadura do rio, construída há três séculos sobre planta de Frei João Turriano – lhe aparece o baluarte que é a Torre de Belém, como um exemplar magnífico da arquitectura militar do século XVI, em estilo romano-gótico-mourisco (…). À medida que o barco avança, o rio torna-se mais estreito, para logo alargar de novo, formando um dos mais largos portos naturais do mundo, podendo nele ancorar as maiores frotas. Então, à esquerda, as massas de casas agrupam-se vivamente como cachos sobre as colinas. E aí temos Lisboa.(…)

DSC foto3_0579 id1Convidaremos agora o turista a vir connosco. Servir-lhe-emos de cicerone e percorreremos com ele a capital, mostrando-lhe os monumentos, os jardins, os edifícios mais notáveis, os museus – tudo o que for de algum modo digno de ser visto nesta maravilhosa Lisboa. (…)

DSC foto2_0578 id1A Praça do Comércio.

Chegamos agora à maior das praças de Lisboa, a Praça do Comércio, outrora Terreiro do Paço, como ainda é geralmente conhecida; esta é a praça que os ingleses conhecem como Praça do Cavalo Negro e é uma das maiores do mundo. É um vasto espaço, perfeitamente quadrado, contornado, em três dos seus lados, por edifícios de tipo uniforme, com altas arcadas de pedra. Os principais serviços públicos estão todos aqui instalados – os Ministérios (excepto o dos Negócios Estrangeiros), os Serviços de Correios e Telégrafos, a Alfândega, a Procuradoria-Geral da República, o Serviço de Emigração, o Tribunal Administrativo, os serviços centrais da Cruz Vermelha, etc. O quarto lado, ou lado Sul, da praça é bordejado pelo Tejo, muito largo neste sítio e sempre cheio de embarcações. No centro da praça fica a estátua equestre de bronze do rei D.José I, uma esplêndida escultura de Joaquim Machado de Castro, fundida em Portugal, de uma só peça, em 1774. Tem 14 metros de altura. O pedestal é adornado com magníficas figuras representando a reconstrução de Lisboa depois do terramoto de 1755. Há uma figura segurando um cavalo que esmaga o inimigo sob as patas, outra com as insígnias da Vitória, a Fama num outro grupo; e o conjunto é verdadeiramente notável. Além disso, podemos aí ver as Armas Reais e o retrato do Marquês de Pombal, assim como uma alegoria que representa a Generosidade Real levantando Lisboa das ruínas. O monumento, acessível por degraus de mármore, é circundado por altas grades alternando com colunas.

DSC foto 8 IMG_5166 id1Do lado Norte da praça, perpendiculares ao rio, há três avenidas paralelas; a do meio parte de um magnífico arco triunfal de grandes dimensões, indubitavelmente um dos maiores da Europa. É datado de 1873 mas foi projectado por Veríssimo José da Costa e começado a construir em 1755. O grupo alegórico que coroa o arco, esculpido por Camels, personifica a Glória coroando o Génio e o Valor; as figuras reclinadas, que representam os rios Tejo e Douro, assim como as estátuas de Nuno Álvares, Viriato, Pombal e Vasco da Gama, são da autoria do escultor Vítor Bastos.

DSC foto4_0598 id1No topo do Arco da Rua Augusta.

O Terreiro do Paço é um dos sítios onde atracam barcos para cruzar o Tejo; à nossa direita, deitando para o rio, está a estação provisória da linha do Sul. Também frequentemente acontece os turistas desembarcarem aqui, como habitualmente fazem as tripulações de navios de guerra estrangeiros que visitam o porto. Há também aqui uma praça de trens e automóveis de aluguer.

O aspecto geral da praça é de molde a produzir uma agradabilísisima impressão aos mais exigentes turistas.

Da Praça do Comércio podemos avançar para o centro da cidade por qualquer das três ruas que dali seguem para Norte – Rua do Ouro à esquerda, Rua Augusta (a do arco) ao meio, e Rua da Prata à direita. Escolhamos a Rua do Ouro, que, devido à sua importância comercial , é a principal rua da cidade. Há nesta rua vários bancos, restaurantes, e lojas de todas as espécies; muitas das lojas, especialmente para o cimo da artéria, costumam ser consideradas tão luxuosas como as suas congéneres parisienses.(…)»

DSC foto1 id1O Tejo desde o cimo do Arco.

E a viagem continua. A um ritmo variável, mas atento aos detalhes, ao tecido histórico que as fachadas, os traçados e as ruas revelam. Seguem-se museus, mais praças, igrejas, miradouros, ruas e estátuas. O cicerone leva-nos pelas ruas, praças e recantos da cidade que serviu de berço ao nascimento das outras “pessoas” do poeta. Como Bernardo Soares, que escreveu:

«Viajar? Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as paisagens são.»
– Bernardo Soares, Livro do Desassossego

DSC IMG_1888 id1Uma das fontes na Praça do Rossio.

ASM

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s