Confirmação dupla (2)

Alentejo, Portugal

O dia do quarto aniversário (3 de abril) deste blogue foi vivido em viagem. Uma das melhores maneiras de o viver, sem dúvida! E em plena geografia alentejana, que tanto me agrada.

F1_4anos id1Depois de dois dias em Évora, a viagem continuou até Estremoz. Fiquei a conhecer melhor esta cidade e a partir dela outros recantos à distância de poucos quilómetros. Um deles foi Vila Fernando, uma freguesia do concelho de Elvas. Fui lá almoçar. Podia demorar-me a escrever sobre os aromas e sabores daquela mesa branca, aquecida pelo sol do início de tarde e rodeada de um silêncio que só existe no Alentejo. Prefiro mostrar alguns recortes desses sabores aromáticos e meridionais, que revelam influências de cozinhas diversas.

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As entradas. As maravilhosas azeitonas dos campos do Alentejo.
 As migas. Gostei muito das suas cores, que anteciparam os paladares únicos.
As migas. Gostei muito das suas cores, que anteciparam os paladares únicos.
Esta foi a sobremesa que escolhi: encharcada.
Esta foi a sobremesa que escolhi: encharcada.

Reencontrei em Vila Fernando os elementos que fazem parte do meu imaginário ligado ao Alentejo: casas baixas, brancas com azuis e amarelos, céu de um azul nítido, ruas estreitas, calor intenso. Cheiro a laranjas pelas ruas.

F5_4anos id1F6_4anos id1F7_4anos id1Depois da Vila Fernando, havia que regressar a Estremoz e o caminho foi mais uma confirmação, revivi os horizontes serenos das searas e dos campos que parece que não acabam. As árvores solitárias. Os animais silenciosos desejosos de sombra fresca das copas dos sobreiros, oliveiras e azinheiras.
Tive de parar muitas vezes no caminho, para fotografar as memórias.

F8_4anos id1F9_4anos id1F10_4anos id1F11_4anos id1F12_4anos id1Já em Estremoz, esperava-me um jantar num sítio muito especial: uma antiga cadeia transformada num restaurante que faz questão de preservar a tradição gastronómica alentejana. Quando não é hora de almoçar ou de jantar, podemos tomar um café, subir até ao último andar do edifício para nos reencontrarmos com a cidade, pois do terraço tem-se uma vista belíssima de Estremoz. Naquele dia de manhã tinha lá tomado um café e ficara com vontade de lá jantar.

F17_4anos id1Eis a história e descrição do espaço…

Breve história de um edifício histórico
«A antiga cadeia Comarcã de Estremoz, um monumento do século XVI, após obras profundas, foi transformada num restaurante, bar, esplanada e sala de eventos, devolvendo à cidade um dos seus mais emblemáticos edifícios.

Num ambiente acolhedor, com a história bem vincada na sua traça, “A Cadeia Quinhentista” é mais do que um restaurante, é um local onde a gastronomia casa na perfeição com a história, com a arquitetura e com o design. Mais do que um restaurante, esplanada e bar no r/c e um bar e espaço de eventos no 1.º piso, a Cadeia Quinhentista é um passaporte para uma época medieval no coração da Real Cidadela e uma experiência sensorial…

O edifício da Cadeia Comarcã foi levantado no centro cívico de Estremoz quinhentista (ao lado dos Paços do Concelho medievais, da Igreja Matriz, dos Paços Reais e da casa do Alcaide), numa das zonas de implantação do cemitério medieval de Santa Maria. Cabeceiras de Sepultura (Estelas) medievais, que estavam a servir de material de enchimento das paredes de alvenaria, foram mesmo encontradas no decurso das obras de adaptação da cadeia a Restaurante.

Hoje levanta-se a hipótese de este edifício ter sido erguido para servir também de Paços do Concelho, os quais, como sabemos, tinham quase sempre uma Cadeia no piso térreo. As casas ocupadas pela Câmara ficariam sempre no piso superior. Reforçando talvez esta hipótese, nas já referidas obras de adaptação foram encontrados vestígios de frescos no piso suerior e até numa entrada que dá acesso ao piso baixo.

O imóvel é de planta quadrada, com dois pisos (piso térreo para presos homens e piso superior para habitação do carcereiro e para mulheres que estivessem presas) e cunhais marmóreos que lhe dão uma robustez própria de espaço destinado a prisão. De destacar a escadaria quinhentista em mármore, bem como as janelas do mesmo século. As janelas do segundo piso possuem uma decoração no lintel claramente da época de D.Manuel I ou D.João III. Têm também fortes grades, especialmente as mais vulneráveis, ou seja, as do piso térreo… no interior, é de referir ainda a existência de algumas mísulas quinhentistas que suportavam abóbadas de tijoleira e alvenaria.

Para serviço litúrgico da Cadeia havia uma capelinha defronte desta, que hoje está desativada, a qual era do orago de Nossa Senhora do Bom Sucesso. A Capela foi mantida pela Misericórdia de Estremoz durante vários séculos. Aqui chegou a residir um capelão até data incerta da segunda metade do século XIX. As alfaias religiosas estão hoje na Igreja de Santa Maria.

O restaurante, com uma cozinha predominantemente alentejana tradicional, mas também cozinha de autor, privilegia os produtos de qualidade da região, com as melhores carnes de porco preto, novilho e borrego, com notas de dezenas de ervas aromáticas da região, os vinhos nacionais, os produtos frescos, os queijos e enchidos, não esquecendo a doçaria conventual.
A hortelã-da-ribeira , os coentros, os poejos juntam-se ao borrego, ao porco preto, ao cação. Os sabores apuram-se, misturam-se para criar algo maior do que o conceito gastronómico.»

A Cadeia Quinhentista (http://www.cadeiaquinhentista.com/)

À mesa da cadeia foram os sabores da planície que me avivaram a memória olfativa, sobretudo dos incontornáveis azeite e pão alentejanos. Para sobremesa, um sabor novo – de um pudim de água…

F18_4anos id1Antes do jantar e porque ficava muito perto do restaurante, percorri uma rua que desde o primeiro dia me pareceu interessante, pela vida(s) latente(s) que deixava adivinhar e pelo seu traçado, em direção a um céu que à hora do poente me parecia ainda mais lindo…

F13_4nos id1Não me enganei quanto às vidas que ali se cruzavam e cheguei a visitar uma oficina de um artesão de Estremoz que cria figuras típicas em cerâmica. Ficava mesmo à direita, ao descer a rua…

A rua integra-se no Bairro de Sant’Iago.

F14_4anos id1Bairro de Sant’Iago

«O caráter ortogonal do plano, cujos eixos axiais são a Rua Direita e a Rua Gonçalo Velho, aproximam-no dos traçados característicos das urbanizações programadas do século XIII, que semearam povoações semelhantes no Sul de França e no País Basco, para nos cingirmos a paragens estudadas mais aprofundadamente. A primeira referência conhecida à igreja homónima, datada de 1279, a par da sua implantação topográfica, exterior à malha urbana, não exercendo função nuclear na sua expansão, são alguns dos indícios que remetem para D.Afonso III, aliás Conde de Bolonha, como o seu possível promotor. » (Informação numa placa à entrada desta rua. Região de Turismo de Évora.)

Passei por este bairro a várias horas do dia, pois ficava a caminho da Pousada onde fiquei alojada (que, só por si, merece todo um texto) – a Pousada Castelo de Estremoz. Entrava pela Porta de Santarém (porta oeste da primeira cerca medieval do século XIII) que dava acesso à vila amuralhada e dali, daquele ponto elevado na planura alentejana, deliciava-me com o panorama que me era oferecido…

F15_4anos id1F16_4anos id1Durante este meu périplo alentejano lembrei-me muitas vezes deste espaço aqui, onde vou deixando as minhas impressões e imagens do vivido. Sei que as minhas palavras são lidas em latitudes e longitudes muito diferentes das minhas. Bom saber que são. As visualizações já atingiram este número(à data em que escrevo este texto): 32350… Muito obrigada a todos por me lerem, por generosamente comentarem (são sempre bem vindos e muito apreciados os comentários!). Quero continuar neste espaço.

Lentamente, vou deixando aqui as palavras que tenho na cabeça e nos meus caderninhos e que surgem inesperadamente, por vezes. Algumas durante as viagens e então os registos são rápidos, pedaços de frases, palavras-chave, impressões telegráficas ainda à procura de consistência e coerência. Durante os dias alentejanos elas foram surgindo. Curiosamente, no dia de aniversário deste espaço, acordei a pensar na cidade de Trieste. E em mais uma forma de voltar a ela, dizendo-a. Hão de transformar-se num texto essas palavras avulsas. Enquanto não, outras irão aparecer por aqui, com outros lugares, caminhos, pessoas e livros associados…
Muito obrigada!

Sobre o restaurante e Vila Fernando: http://boacamaboamesa.expresso.sapo.pt/boa-mesa/guia-restaurantes/taberna-adro-112970

ASM

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