Dia 1

Desejo de prolongar
Milão, Itália

1Maio_F1 id1Lembrei-me desta imagem a propósito do dia de hoje e do que ele significa. A fotografia não faz jus à sua verdade artística, nem ao efeito que o quadro teve em mim, quando o vi no Museo del Novecento, em Milão, no verão passado. Está num espaço só para ele, por onde temos de passar para aceder às outras salas. Destaca-se sobre o fundo escuro e pelas suas dimensões (293x545cm). A luz daquele momento sobre o quadro era difícil de iludir e como está muito exposto à claridade que chega do exterior os reflexos da Piazza del Duomo também aqui estão. Ainda assim gosto da fotografia.

Foi em Milão que esta viagem (https://cartografiapessoal.wordpress.com /2014/09/09/texto-indice/)  começou e uma visita a este museu levou-me a conhecer de perto a arte italiana do século XX e obras de artistas de vanguardas de outras geografias. Palavras de Marinetti espalham-se pelas paredes, para nos lembrarmos dos fundamentos que deram corpo às sensibilidades emergentes no início de século.

 Excerto do Manifesto Futurista de Marinetti, 1909.
Excerto do Manifesto Futurista de Marinetti, 1909.
Fachada lateral da catedral de Milão.
Fachada lateral da catedral de Milão.
O Museu à esquerda, a catedral à direita, no centro a praça e as arcadas da Galleria Vittorio Emanuele.
O Museu à esquerda, a catedral à direita, no centro a praça e as arcadas da Galleria Vittorio Emanuele.

O museu inaugurou em dezembro de 2010 e é lindo por fora e por dentro. Muito próximo da catedral da cidade, situa-se na praça incontornável do Duomo, com as galeria Vittorio Emanuele em frente. Um retângulo de Milão imperdível, portanto. O próprio edifício do museu é um espaço interessante e desafiante, dadas as suas linhas modernas e sóbrias. Percorrê-lo, em busca das obras de pintura e escultura, é um verdadeiro deleite para os olhos. E sempre com o olhar a alternar entre o que está no interior e o que se situa no exterior, pois a sua estrutura transparente deixa ver a praça, com a catedral e as arcadas da Galeria. Que se refletem na sua fachada brilhante. A luz entra sem obstáculos e as paredes brancas dos corredores de acesso às salas proporcionam um constante jogo de luzes e sombras.

A catedral refletida no museu.
A catedral refletida no museu.

O quadro de que me lembrei tem o nome de “O quarto estado” (a primeira designação foi “Il cammino dei lavoratori”) e é de Giuseppe Pelliza da Volpedo (Volpedo,1868-1907) . Uma obra de 1901 que retrata a força do trabalho e dos seus protagonistas. Muitos, em movimento. Em direção a quem os está a ver. Como se nos convocassem para a caminhada. Em nome de direitos e de pressupostos defensores de um trabalho digno e dignificante para todos. Homens, mulheres e algumas crianças em marcha. Por dias melhores. Uma afirmação. Por um espaço de intervenção social que se procura conquistar em nome do futuro.

O que podemos ver ali naquela sala do museu é o resultado de um trabalho em várias fases. Esta imagem tem atrás de si outras duas: “Ambasciatori della fame” (1892) o primeiro, “Fiumana” (1895-96) o segundo.

A história do quadro não foi muito feliz até à sua aquisição, por parte da Comune de Milão, em 1920. Esteve, em 1902, exposto em Turim, mas não foi devidamente valorizado. Com o advento do regime fascista, o quadro foi como que proscrito, dada a sua evidente inscrição nas lutas socialistas e proletárias. Só nos anos 80 do século passado, após um restauro que lhe devolveu as cores originais, é que foi colocado em lugar de destaque. Não apenas num espaço museológico – primeiro na galeria de Arte Moderna, agora no Museu de 900 – mas também na história da pintura italiana.

Os outros motivos que justificaram a minha incursão neste museu têm os nomes de Picasso, Braque, Kandinsky, Giorgio de Chirico, Modigliani. Tive ainda a sorte de coincidir com esta exposição de Bruno Munari, que mereceu grande parte do meu tempo ali.

1Maio_F7 id1Novas sensiblidades artísticas fazem-se anunciar nas salas do Museu...

Novas sensibilidades artísticas fazem-se anunciar nas salas do Museu…

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Nos reflexos da sala no topo do Museu.
Nos reflexos da sala no topo do Museu também há palavras de mudança.
O 900 visto do exterior. O que se vê no lado de dentro é o caminho ascendente em espiral de acesso às salas. Lindo de subir...Nos vidros, a galeria do lado de fora.
O 900 visto do exterior. O que se vê no lado de dentro é o caminho ascendente em espiral de acesso às salas. Lindo de subir…Nos vidros, a galeria do lado de fora.

1.º de maio:http://pt.euronews.com/2015/04/30/significado-e-historia-do-1-de-maio-dia-do-trabalhador/

O Museu: http://museodelnovecento.org/?mobile=0

Já escrevi sobre Bruno Munari aqui: https://cartografiapessoal.wordpress.com/2011/06/05/2-de-abril-de-2007-%E2%80%93-um-feliz-reencontro-com-dois-italianos/
ASM

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