Confirmação dupla (1)

Alentejo, Portugal

Não me lembro de não conhecer o Alentejo. A lembrança que tenho das suas paisagens, cores e cheiros é muito antiga, mora na minha infância, prolongou-se pela adolescência e mantém-se viva até hoje. Cada viagem até esta região é como um exercício de reconhecimento, mesmo quando descubro lugares novos, sabores desconhecidos e as cores das diferentes estações. Está lá sempre a matriz do meu primeiro Alentejo. Fácil identificar.

Em criança, em finais dos anos 70, as viagens em família para as praias do Algarve faziam-se pelo interior alentejano. Num tempo em que ainda não existiam autoestradas que apressam a viagem e escondem os mais bonitos caminhos desta região. Demorava-se muito tempo a chegar ao Algarve do sol e das praias. Lembro-me bem da imagem dos imensos campos de girassóis que se alongavam fora da janela do carro. Assim pareciam aos meus olhos de criança: altos e muito amarelos em direção ao céu. A minha escala era outra. Recordo estradas que se estendiam em linha reta até ao horizonte. Eu sabia que no fim iriam dar à praia. Hoje sei que não é bem assim. E que os girassóis já não são tão altos.

F1_Confirmação id1Gosto sempre de voltar ao Alentejo . De passagem ou para ficar durante uns dias. Já lá fui em todas as estações do ano. A mesma felicidade por lá estar. Regresso a cidades como Évora, Elvas, Montemor-o-Novo, Estremoz. A lugares mais pequenos em dimensão, como Monsaraz, Grândola, Vila Viçosa, Redondo, Alvito, mas igualmente grandes em beleza.

Estive no Alentejo uns dias antes do domingo de Páscoa. Andei por Évora, Estremoz e Redondo. Atravessei as estradas que fogem às outras, as mais rápidas, as mais formatadas, onde se veem também outros carros, mas muito pouco do primeiro Alentejo que conheci – o das planícies sem fim, onde aparece, de quando em quando, uma árvore. Quando aparecem muitas, vemos oliveiras (e como eu gosto delas!), azinheiras ou sobreiros. Tive a sorte de já ver algumas amendoeiras em flor.

F2_Confirmação id1Sabia que lá iria encontrar o que procurava para aqueles dias: sossego, silêncio e aromas intensos. Estes últimos encontrei-os nos campos, quando, ao passar de carro, parava para fotografar. Saía e eram as cores e os cheiros alentejanos que reconhecia. À mesa, durante as refeições, conciliei-me com os sabores dos coentros, da sopa de tomate muito forte e dos queijos de sabor mais intenso.

A sopa de tomate deliciosa que comi no Redondo.
A sopa de tomate deliciosa que comi no Redondo.

O silêncio estava por toda a parte, colado a um ritmo muito característico que encontro cada vez que percorro as ruas de Évora ou Estremoz.

Em Évora foram passados os primeiros dias desta viagem. Pontuados por um ritmo ao sabor das vontades: de passear pelas ruas da cidade a fotografar sem nenhuma pressa a catedral ou o templo romano. A imponência da catedral impressiona a qualquer hora do dia, independentemente do ângulo.

F4_Confirmação id1F5_Confirmação id1F6_Confirmação id1 O templo romano é capaz de ser o monumento mais fotografado na cidade. Assim pareceu, pelas muitas pessoas que circulavam em seu redor, tentando captá-lo da melhor maneira, fazendo jus à sua beleza antiga. Eu não fui exceção e demorei-me a fotografá-lo. Foi difícil escolher as imagens para aqui.

F7_Confirmação id1F8_Confirmação id1F9_Confirmação id1As horas também proporcionaram estar sentada num banco ou numa esplanada da Praça do Giraldo a saborear as palavras de Saramago sobre a atmosfera que me rodeava. Este livro foi o guia que escolhi para esta viagem.

Em plena praça página do Giraldo 552 de Saramago.
Em plena praça página do Giraldo 552 de Saramago.

F11_Confirmação id1Mas não foi o único que tive por companhia, na verdade. Comprei um outro, numa livraria a todos os títulos notável: pela decoração, tão acolhedora, pela ideia de livraria que transparecia pela variada oferta a quem lá entrava e pela persistência dos proprietários que, apesar de todas dificudades em manter um espaço como aquele, continuam a querer ter um lugar único onde se compram livros, se compra e ouve música, se ouve ler e se lê para os outros em tertúlias que podem acontecer a uma mesa de café. Que não é bem de café, porque está dentro desta livraria, “Fonte de Letras”. Lugar de debates, de partilhas e onde coisas acontecem em redor dos livros.

No interior da “Fonte de Letras”, com um Fernando Pessoa voador a espreitar para as pessoas que passam na rua.
No interior da “Fonte de Letras”, com um Fernando Pessoa voador a espreitar para as pessoas que passam na rua.
O convite irresistível  à porta da “Fonte de Letras”
O convite irresistível à porta da “Fonte de Letras”.

Foi então aqui que comprei um livro de uma autora recomendada por uma amiga. Elena Ferrante é o nome da escritora. Já tinha lido sobre a sua obra e o seu perfil misterioso. Nasceu e cresceu na cidade de Nápoles e pouco mais se sabe. Ela própria faz questão de que não se saiba. Também não é importante. Os livros, sim, importa que sejam lidos, divulgados, emprestados e recomendados. Neste, surpreende a sua força narrativa, a construção complexa e fascinante das personagens, ainda a forma como retrata tantas vidas que nos parecem próximas e ao mesmo tempo tocadas pelo extraordinário. O livro que comprei na “Fonte de Letras” foi “A amiga genial”.

Elena Ferrante, “A amiga Genial”, Relógio d`Água.
Elena Ferrante, “A amiga Genial”, Relógio d’Água.

Li muito nestes dias alentejanos e com Elena Ferrante viajei até Nápoles e à teia de muitas pontas que ela constrói à volta de duas amigas que se conhecem desde a infância. Através das suas vidas contadas lado a lado, o leitor fica a conhecer uma cidade e uma sociedade que se vão desvendando aos olhos das crianças que se tornam adolescentes, cuja formação e experiências de vida seguimos sofregamente. Aproveitava todos os bocadinhos e todos os recantos para pegar no livro. Continuo assim, quase a chegar à última página. Um livro invulgar. Faz parte de uma tetralogia que está a ser publicada em Portugal, da qual este é o primeiro volume. De um outro conjunto de livros já se adaptaram dois ao cinema: “Um estranho amor”, de Mario Martone, e “Os dias do abandono”, de Roberto Faenza. Estes dois livros que inspiram os filmes já estão à minha espera. Percebi que tenho de os ler e já os tenho na língua original.

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Depois de Évora, seguiu-se Estremoz. Pelo caminho, Redondo e um dia para assinalar. Mas ficará para o próximo texto, duplo, como a confirmação – a de o Alentejo ser a minha região do país preferida e a de querer continuar a escrever aqui, depois de quatro anos após o primeiro texto, a 3 de abril de 2011. Passei-o em viagem e parece-me a melhor maneira de o viver. Desse dia darei conta na segunda parte.

Site da livraria “Fonte de Letras”: http://fontedeletras.blogspot.pt/

Continua…

ASM

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