Antes do Carnaval

Veneza, Itália

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Por estes dias, nos jornais, revistas e televisão, são frequentes as imagens do Carnaval veneziano. Assim como as notícias da neve e do frio na cidade dos canais, que não são suficientes para atenuar o desejo de celebrar a tradição das festas, bailes e desfiles. O Carnaval é o tempo em que é dada total liberdade para o disfarce, o fingimento – do nome, da idade, da profissão, do que se quiser. Atualmente e desde as origens desta festa. É também a época dos divertimentos nas praças, nos salões de baile, nos teatros e nas ruas. As imagens das máscaras e dos trajes requintados e luxuosos lembram outras épocas e transformam a cidade num enorme salão de festas. As ruas e os canais são, durante estes dias, corredores de acesso aos vários palcos de celebração. Os canais podem ser mesmo o centro, com desfiles de barcas vestidas de festa.

Nesta cidade italiana, o Carnaval começa a 31 de janeiro e prolonga-se até 17 de fevereiro. Promovem-se concursos de máscaras, desfiles de trajes pelos canais e um espantoso voo: o de um anjo humano que, suspenso por cabos, desliza no ar desde o topo da torre do Campanile até ao centro da praça de de São Marcos. Nos nossos dias é uma jovem veneziana com um longo vestido que vai descendo até ser recebida numa espécie de salão de festas– a praça metamorfoseada – em homenagem ao Doge, outrora a autoridade máxima da cidade. Há um Doge todos os anos, que solenemente recebe a jovem com flores. É uma tradição antiga e começou por ser protagonizada por acrobatas que envergavam asas. Já se chamou voo da Colombina, uma vez que em tempos, devido a incidentes trágicos, a figura humana foi substituída por uma pomba de madeira.

Estive em Veneza em pleno verão e por isso poderia pensar que o Carnaval estaria ainda longe, numa data marcada pelo frio, chuva e acqua alta. A verdade é que não. Percorre-se Veneza e a memória do Carnaval é avivada por imagens de máscaras, disfarces, trajes e afins. A máscara é um dos ícones venezianos. O Carnaval uma das mais importantes festividades assinaladas na cidade.

O Carnaval num livro da Anita italiana, a Martina.
O Carnaval num livro da Anita italiana, a Martina.

Durante as minhas deambulações, cruzei-me muitas vezes com o Carnaval: nas montras das lojas de “souvenirs”, nas lojas que eram também oficinas daqueles que criam as máscaras mais bonitas e misteriosas, nos expositores dos vendedores ambulantes.

Máscaras na Praça de S.Marcos.
Máscaras na Praça de S.Marcos.

Entrei em algumas dessas lojas oficina. Eram irresistíveis por fora e por dentro. As paredes eram máscaras. No seu interior, podemos demorar-nos a olhar a diversidade de rostos a fingir e assistir ao processo da sua criação. Desde a brancura inicial até ao colorido e dourado da fase final.

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Havia-as para todos os gostos. Neste expositor registei esta espécie de manual para identificação das máscaras.

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Algumas delas inscrevem-se na história da cidade. Começo por essas. A Bauta tem muitos anos de história (tornou-se muito comum a partir do século XVIII) e é usada por homens e mulheres. É constituída pela larva, a máscara branca que cobre quase todo o rosto, um tricórnio negro e um manto preto para cobrir o corpo (o tabarro), assegurando assim um total anonimato. Devido ao seu formato, não é preciso tirá-la do rosto para bebermos ou comermos. O anonimato está garantido, mesmo nessas ocasiões.

Neste quadro de Pietro Longhi, “O charlatão”, que eu vi no museu de Ca`Rezzonico vê-se muito bem a Bauta.
Neste quadro de Pietro Longhi, “O charlatão”, que eu vi no museu de Ca’ Rezzonico vê-se muito bem a Bauta.

Moretta é o nome de uma máscara de forma oval, de cor preta e sem abertura para a boca. Exclusivamente usada por mulheres, estas resguardavam-se no silêncio por trás da máscara, sempre que os jogos de sedução o exigiam ou provocavam. O anonimato também estava assegurado pela forma como complementavam a máscara com saias longas, mais ou menos elaboradas ou luxuosas.

O Medico della peste.
O Médico da peste.

A figura do médico da peste evoca os tempos das epidemias que chegavam à cidade e que levavam muitos dos seus habitantes. Nesses tempos conturbados, o médico ou doutor da peste circulava pelas calli, entrava nas casas dos doentes, mas não sem antes se proteger com uns óculos, uma túnica de linho ou de um tecido oleado, de modo a torná-lo impermeável ao contágio. A varinha na mão servia para tocar em objetos ou corpos contaminados sem riscos. Finalmente a máscara do médico: tapava a cara e o nariz longo, a lembrar um estranho pássaro, tinha no seu interior essências de perfumes e também desinfetantes e medicamentos para serem inalados, de modo a que o médico estivesse protegido das bactérias do exterior. O que começou por ser uma necessidade é hoje um disfarce.

Encontrei este medico della peste à porta de uma grande loja e oficina de máscaras. Lá dentro também se vendiam trajes, chapéus, adereços que complementavam qualquer disfarce. Passava pela Ca`Macana (o nome da loja) todos os dias a caminho das aulas.

Interior da Ca'Macana.
Interior da Ca’Macana.

Agora as outras: o Pantalone, o Arlecchino e a Pulcinella. As suas origens podem encontrar-se na Commedia dell’Arte. Destas peças teatrais faziam também parte outras figuras, como a Gnaga, a Gianduia, a Brighella, a Colombina, entre outras. Todas se podem rever nas ruas de Veneza durante o Carnaval. As suas raízes espalham-se por toda a Itália. No entanto, a história de Pantalone e da Columbina mistura-se com a de Veneza e da região do Veneto. Carlo Goldoni, dramaturgo veneziano do século XVIII, recupera e reinventa estas figuras da comédia e do imaginário coletivo.

Mais máscaras e paredes revestidas de rostos.
Mais máscaras e paredes revestidas de rostos.
Em algumas lojas somos convidados a criar um novo rosto. Ainda que efémero.
Em algumas lojas somos convidados a criar um novo rosto. Ainda que efémero.
Ver fazer.
Ver fazer.

Na livraria “Aqua alta”, a presença destes manequins preparados para um baile carnavalesco acentua o ambiente mágico e irreal que domina este espaço. Estavam numa gôndola rodeados de inúmeros livros, bem no centro da livraria.

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Esta fotografia foi tirada num museu, o Ca’ Rezzonico. Um lustre. Na altura gostei dos cristais e vidros brilhantes e coloridos. Lembraram-me ambientes festivos, bailes, com damas de vestidos longos e voluptuosos, a deslizarem por salões intermináveis, com varandas e balaustradas viradas para os canais. Achei que ficava bem aqui, num texto sobre Carnaval, mistérios e brilhos que escondem rostos e disfarçam desejos.

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Facilmente imagino os convidados a chegarem nesta gôndola oitocentista, exposta neste mesmo museu.

Gôndolo veneziana do século XIX.
Gôndola veneziana do século XIX.

E para terminar, um vídeo dos Divine Comedy,” Something for the weekend”, do álbum Casanova. Gosto muito dele porque é dos Divine Comedy e porque as filmagens são em Veneza. Ouço a música e vejo alguns dos mais célebres símbolos da cidade – o leão alado, os canais, as gôndolas e os gondoleiros, as pontes e a praça de São Marcos. Revejo aquilo que parece um labirinto de ruas e águas e imagino-as atravessadas por foliões furtivos, com máscaras e trajes de salões de festas palacianas.

A loja Ca’Macana:

ASM

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