“Macedonia” triestina (parte 2)

Trieste, Itália

Ainda as GLOSAS da Macedónia, com os últimos frutos(primeira parte aqui: (https://cartografiapessoal.wordpress.com/2014/12/14/macedonia-triestina-parte-1/) . Em todas as macedonias, é o conjunto dos frutos que a constituem que vale, é a mistura da suas polpas, aromas e cores que fazem de uma salada de frutas uma sobremesa tão apetecível. Por vezes é mesmo difícil distinguir e individualizar os sabores que a compõem. Até porque o contacto de um fruto com outro enriquece o seu sabor e dessa química única temos um outro que só existe porque coincidiram.

Deixei para o fim as pessoas cujas vidas mais ecos deixaram em mim. Os momentos vividos com elas são na minha memória como o lastro que o sabor do nosso fruto preferido deixa para não mais o esquecermos.

Piazza dell`Unità d`Italia, onde diariamente nos encontrávamos.
Piazza dell`Unità d`Italia, onde diariamente nos encontrávamos.

Cereja – S. e V., Irão

Conheci a S. através da J., estavam juntas na mesma turma de Italiano. Conheci o V. através da S., estavam juntos na e para a vida. A S. e o V. são iranianos, naturais de Teerão. Conheceram-se em Veneza para não mais se largarem. Fixaram-se em Trieste, depois de a S. ter vivido em Londres. Ele é investigador na Universidade, ela dá aulas de Inglês e vivem em Trieste com saudades do Irão.

As cerejas são um fruto gregário na natureza. O V. acompanhou-nos em algumas saídas, porque ele a S. eram inseparáveis. A sua cumplicidade era muito visível e parecia natural e antiga, como se tivessem sido sempre próximos. No último jantar do grupo, fiquei sentada ao pé deles e da J.. Ficámos ambas a conhecer melhor o Irão através das histórias de vida destes dois iranianos. O V. estava há mais tempo em Itália e por isso saltava do Inglês para o Italiano com uma musicalidade natural. Ainda ouvimos algumas frases em Persa (Farsi), quando a certa altura falaram entre ambos, para esclarecerem mais rapidamente uma dúvida.

Quando os conheci, a sua vida era em Trieste, mas o seu futuro passará pelo mundo. Têm família espalhada por quase todos os continentes e os seus planos a médio prazo têm uma geografia alargada.

As cerejas são bonitas e vermelhas. Como a minha amiga iraniana, de uma beleza natural e espontânea, com uns lábios de um vermelho brilhante.

Canal Grande, durante o tempo de um “Spritz”.
Canal Grande, durante o tempo de um “Spritz”.

Maçã – R., Alemanha

O R. é alemão. Professor de Alemão e de Inglês, decidira aprender Italiano há três anos, em Trieste. Regressou à cidade e às aulas no passado verão. Na sua primeira vez ali, tinha gostado muito do ambiente da cidade, da sua história e das histórias dos que por ali passaram, como Rainer Maria Rilke e James Joyce.
Eu e o R. conversávamos muito. Sobre livros, escritores, filmes e cidades.    Falou-me muitas vezes de Rilke e Joyce e das suas ligações a Trieste. A seu pedido, falei-lhe de dois dos meus autores preferidos: Fernando Pessoa e José Saramago. Queria saber mais sobre as suas obras e sobre os homens, dos quais já tinha ouvido falar e sobre os quais já tinha lido. Desejava lê-los.

James Joyce, que viveu em Trieste 16 anos da sua vida (1904-1920), na ponte sobre o Canal Grande.
James Joyce, que viveu em Trieste 16 anos da sua vida (1904-1920), na ponte sobre o Canal Grande.

Foi R. que me deu a conhecer Veit Heinichen, o escritor alemão de romances policiais que escolheu Trieste para viver. Recomendou-me o livro “Trieste. La città dei venti.”, que eu comprei antes de me vir embora, numa livraria perto de casa ( e sobre o qual escrevi na primeira parte desta Macedonia). As palavras de R. entusiasmaram-me: era um guia da cidade diferente dos outros, onde as receitas e as histórias dos seus ingredientes abriam janelas para vermos Trieste ao longo do tempos. Não foi preciso dizer mais nada, eu não podia vir embora sem trazer o livro comigo. Ei-lo:

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Umberto Saba.
Umberto Saba.

Durante os nossos passeios pela cidade, cruzámo-nos com as estátuas dos escritores Italo Svevo e Umberto Saba. Falei-lhe bastante dos dois e de como as suas obras me tinham levado a querer conhecer a cidade onde ambos nasceram e viveram. Entrámos na livraria e também antiquária que outrora fora de Umberto Saba(de 1919 a 1957) e encantámo-nos com o ranger do chão de madeira, com as estantes até ao teto repletas de livros de lombadas antigas, com o cheiro do pó de livros.

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O R. foi o meu guia dos cafés históricos de Trieste. Antes de me levar a cada um deles, falava-me de um detalhe do espaço ou da sua história, merecedores da minha posterior atenção. O último café a ser visitado foi o “Urbanis”, na praça da Bolsa, bem no centro da vida triestina, na tarde anterior à minha partida. Uma vez ali, olhei para os mosaicos no chão, que desenhavam imagens de barcos,ventos e ondas.

À mesa do Caffè Urbanis.
À mesa do Caffè Urbanis.

Sei que o R. continua a estudar Italiano na sua cidade alemã. Quer prolongar as duas semanas que passou em Trieste, apesar do regresso à sua casa, família e rotinas. Compreendo-o muito bem, pois faço o mesmo. Foi ele que verbalizou da melhor maneira o que nos leva a  querer  saber  mais sobre  este idioma,  ao dizer-me que estudar Italiano o faz feliz. É isso e é simples. Estava a falar dele sem saber que também o dizia por mim.

Diz-se que uma maçã por dia faz bem. Era o que as conversas diárias com o R. me faziam: um bem enorme.

Pêssego – J., Áustria

O pêssego é um dos meus frutos preferidos. Gosto dele de muitas maneiras: ao natural, com iogurte, em batidos, em gelados, transformado em compota ou tarte. É um fruto muito doce, com uma casca suave, aveludada. Também gosto da cor do pêssego e do seu aroma.

Para falar sobre a J., só poderia escolher um fruto como este. A J. é austríaca e vive em Viena. Conheci-a durante a visita organizada pelo Instituto ao Castelo de Miramare (construído entre 1856 e 1860). Éramos um grupo grande, que reunia alunos das diferentes turmas. A J. não era da minha turma, apenas a tinha visto nos corredores do Instituto durante os intervalos das aulas. Mas ali, no castelo, aconteceu-nos algo que nos aproximou – distraídas a tirar fotografias e a olhar demoradamente para os vários recantos do jardim do palácio, perdemo-nos do resto do grupo. Ainda não tínhamos entrado no castelo… O certo é que ficámos entregues a nós próprias até ao fim da visita. O mais importante nós já sabíamos : onde deveríamos apanhar o autocarro para regressarmos a Trieste (o castelo fica a alguns quilómetros de distância da cidade). Era o suficiente.

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A nossa visita foi inteiramente ao nosso ritmo – lento e atento. Eu não podia ter encontrado melhor guia. Sendo a J. austríaca, tudo no interior do castelo lhe pareceu muito familiar – a decoração típica do gosto do império dos Habsburgos, os rostos nos vários retratos espalhados pelas salas a seguir a salas, que mostravam uma linhagem que dizia muito do passado da Áustria. Para a J. foi um itinerário de reconhecimento da história dos seu próprio país, mas partilhámos a novidade que foi a beleza do palácio de pedra branca, virado para o Adriático e para o Golfo de Trieste. Mandado construir por Maximiliano de Habsburgo, irmão do Imperador Francisco José de Áustria, foi a sua residência e da sua mulher, Carlota da Bélgica, durante o período em que desempenhou o cargo de Governador da região Lombardo-Veneziana.

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Depois desta tarde em Miramare, a J. foi a minha companheira de deambulações pela cidade. Ela, como eu, adorava passar pela Piazza Unità a diferentes horas do dia. Fizémo-lo juntas várias vezes. Estas fotos da praça foram tiradas numa noite em que choveu e trovejou violentamente em Trieste. Começámos a sentir as primeiras pingas de chuva e a vê-las cair brilhantes no chão da praça. Adivinhámos o temporal que se seguiu e tivémos de nos despedir mais cedo.

 Piazza dell' Unità d'Italia
Piazza dell’ Unità d’Italia

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A J. também gostava muito de um “Spritz” ao entardecer. Às vezes alternava esta bebida com outra, o “Hugo” – um cocktail que leva também prosecco como o “Spritz”, mas a mistura contém ainda hortelã e xarope de eldelflower. Um aperitivo cuja geografia que o viu nascer passa pelo sul do Tirol e pela região italiana do Trentino Alto Adige. Em algumas variações o limão também é usado.

O “Hugo” e o “Spritz”.
O “Hugo” e o “Spritz”.

A J. decidiu aprender Italiano “for fun”, como me explicou em Inglês (a língua em que falávamos) e porque Itália era um destino muito próximo de casa (tinha feito a viagem até Trieste no seu próprio carro). Desta vez escolheu uma semana de curso. No fim, ficou com vontade de mais.

Antes de nos despedirmos, deu-me algumas sugestões para a minha semana em Veneza. Conhecia bem a cidade e gostava dela no outono e no inverno. Nunca lá tido ido noutra altura do ano e também não o desejava fazer. Queria fugir às multidões do verão e não lhe apetecia ter memórias da cidade que manchassem as belas recordações que tinha dela.

Outro ponto em que coincidimos foi a nossa curiosidade em conhecer os cafés históricos de Trieste. Neste périplo quase diário, juntou-se a nós o R., até porque muitas vezes as nossas conversas eram sobre escritores e viagens, paixões comuns aos três.

Na última noite dos três em Trieste, decidimos ir ao Caffè Tommaseo. O mais antigo dos antigos na cidade (numa praça com o mesmo nome, desde 1830). Frequentado desde sempre por escritores e artistas. Era tarde e quando lá chegámos encontrámos o dono à porta, a fechar o estabelecimento. Perante a nossa curiosidade e entusiasmo, abriu-nos a porta e o café foi todo só para nós, à mesa com um vinho e uma boa conversa.

O R. uma vez disse-me para estar atenta ao alemão da J., porque, segundo ele, os austríacos fazem esta língua parecer menos dura e azeda. Mais doce, muito mais, pela boca da J.. Os meus amigos alemães e austríacos raramente falavam alemão entre si quando eu estava presente. Não pude, por isso, apurar o meu ouvido em busca da doçura da J., mas apercebi-me muito bem dela sempre que falava italiano ou inglês. Ainda no seu riso e no seu olhar atento quando se falava para ela.

A nossa mesa no Caffè Tommaseo.
A nossa mesa no Caffè Tommaseo.
O interior do Caffé Tommaseo.
O interior do Caffé Tommaseo.

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Sobre o Castelo de Miramare: http://www.castello-miramare.it/

ASM

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