Balanço com livros

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Livraria Acqua Alta, Veneza.
Livraria Acqua Alta, Veneza.

Ao rever as fotografias da minha viagem a Itália (agosto), demorei-me nas imagens daquele dia em que visitei um dos sítios que mais desejava conhecer na cidade: a livraria Acqua Alta. O proprietário tem lá dentro livros e gatos. Vi um bem grande, cinzento escuro, que não o largava. Tem também uma gôndola, em tamanho real, que serve de expositor para os livros, mapas, postais, marcadores de livros, gravuras de Veneza e dois manequins mascarados, como se o baile de Carnaval fosse mesmo ali ao lado. É uma livraria extraordinária, cheia de recantos, curiosidades e preciosidades bibliográficas e cartográficas.

Estive por lá algum tempo e não me vim embora sem aceitar um convite: segundo o dono, deveria ir até ao fundo da livraria e subir as “escadas”. O que se vê na fotografia. Escadas com degraus de livros que levam a um balcão sobre um canal. “Follow the books” é o que está escrito no muro. Foi o que fiz.

É também o que vou fazer, para recordar um ano andarilho que está quase a ir embora. Se seguir os livros que comprei nas minhas viagens, consigo reconstituir os passos, os desejos, os encontros felizes e os entusiasmos que depois cada página me proporciona. É raro não trazer um livro do lugar que visito. Às vezes uma revista, um jornal. Sei que preciso de palavras para incorporar e prolongar a viagem. Melhor ainda se for uma obra de um autor local, ou sobre a cidade visitada ou uma personalidade marcante na história e no espírito do lugar.

Em minha casa os livros ocupam depois o seu lugar físico e ao mesmo tempo afetivo. Neles escrevo a data e o lugar da aquisição. Por vezes observações relacionadas com esse momento.
Também por isso é muito fácil reconstituir um itinerário a partir dos livros. Estes vão dizer o meu mapa de 2014.

Andaluzia

Há muito que queria conhecer o triângulo Sevilha - Granada - Córdova ( a minha ordem foi mesmo esta). Foi neste ano que se tornou possível.

 

Há muito que queria conhecer o triângulo Sevilha – Granada – Córdova ( a minha ordem foi mesmo esta). Foi neste ano que se tornou possível.Das três, Granada foi a que mais me impressionou com a sua História, as suas histórias, a arquitetura mágica, os jardins irreais do Alhambra, o mercado da Alcaiceria que me levou até Marrocos, os salões de chá (teterias), o artesanato e a carrera del Darro (uma calle que acompanha o rio Darro e o Alhambra).

Foi nesta cidade que comprei estes dois livros:

. Cristina Viñes, Granada en los libros de viaje, Biblioteca de escritores y temas granadinos.

Um livro que mostra como Granada foi vista, vivida e sentida ao longo dos tempos por quem a visitava. Em alguns relatos de viagem mencionados, apresenta-se uma Granada que já não existe.

Apetece-me transcrever algumas linhas do prólogo. Aquelas que me convenceram a comprar o livro.

« (…)Granada es conocida universalmente desde hace muchos siglos. Es, en efecto, una ciudad con suerte, con mucha fama detrás. Suena armoniosamente a todos los oídos. Es una palabra eufónica que al pronunciarse engarzada en cualquier idioma evoca inmediatamente una serie de sensaciones, mezcla de realidad y ensueño, más de este que de aquélla, tanto en los que ya la conocieron como en los que anhelan visitarla.

Porque Granada, en efecto, ha sido recreada siempre partiendo de muy pocos elementos auténticos – la sierra, la vega, los jardines, la Alhambra – para reconstruirla en el recuerdo cubierta con una pátina de cuadro antiguo.(…)

El paisaje forma un armónico cuadro de contrastes donde se funden cielo y montañas con el apretado conjunto urbano, moteado aquí y allá por los verdes oasis de los cármenes y trepando suavemente hacia el Albaicín. Es este paisaje lo primero que recuerdan los viajeros de todos los tiempos que lo contemplaron asombrados. Y no digamos nada si se mira desde una de las ventanas de la Sala de Comares de la Alhambra cuando se convierte em un paisaje sonoro, animado por los miles de sonidos que suben de la ciudad formando una sinfonía permanente que cambia de ritmo según las horas del día. Luego el atardecer, bañando los colores el horizonte de Sierra Nevada, de tan increíbles tonos que enzarzaba en interminables discusiones a Falla y a Federico sobre si era morado o naranja el último suspiro del día. (…)» (pp. 7-9)

Granada desde La Alhambra.
Granada desde La Alhambra.

. Rafael Guillen, El país de los sentidos. Prosas Marroquies., Biblioteca General del Sur.

Não consegui resistir a palavras que dizem um país que me é tanto. A somar a isto, a identificação imediata com a abordagem sugerida pelo título. Marrocos vivido com todos os sentidos e escrito com as sensações que o tornam sempre muito vívido na memória.

Fazia todo o sentido trazer esta obra de Granada, escrita por um autor granadino, num cenário que em muito lembrava Marrocos. O meu primeiro almoço em Granada foi num restaurante marroquino. O hotel onde fiquei alojada situava-se em frente ao Alhambra. Impossível fugir à matriz árabe e a estas primeiras palavras:

« Soy consciente de que en estas páginas estoy inventando un país; de que es possible que tome de Marruecos unos nombres, unos paisajes, una manera de ser o de vivir, aparencias al cabo, sólo para adaptarlas a ese otro país que, con el tiempo, creamos todos en el recuerdo con algunos momentos felices de nuestra vida, no importa dónde, y que acaba siendo más real que el material y geográficamente existe.

Algo parecido ocurre con la denominación de “el país de los sentidos”, país este, como el del recuerdo o de la infancia, que tampoco tiene unas fronteras ni una localización geográfica, sino que es ese radiante territorio interior que cada hombre lleva consigo, en el que habita a veces y del que, a veces también, se ve desterrado. A través de Marruecos, de sus cordilleras y sus llanuras, de sus mares y desiertos, de sus ciudades y sus gentes, he podido entrar en él, como penetrando por un espejo, quizás con más facilidad que a través de otras tierras y costumbres.(…)» (p.11)

Milão

Milão foi a primeira paragem da minha estadia em Itália. Lembrava-me bem de uma livraria nas Galerias Vittorio Emanuele, a livraria Rizzoli, que conheci quando estive na cidade de passagem para os lagos do norte de Itália, em 2011. Tirei um tempinho para lá ir. Encontrei-a fechada para obras. Não era só o espaço da livraria que estava a ser renovado, era também a galeria.

Galerias Vittorio Emanuele II.
Galeria Vittorio Emanuele II.

Como tinha reservado o dia para visitar a área da catedral e o Museo del Novecento, rapidamente encontrei a livraria Feltrinelli – três pisos de livros, com vista para o Duomo. Foi aqui que comprei um livro que li durante as duas semanas italianas e sobre o qual já escrevi: Maria Perosino, Io viaggio da sola, Einaudi (https://cartografiapessoal.wordpress.com/2014/09/09/texto-indice/).

Um outro trouxe comigo, sobre as pedras de Veneza (Ruskin, Le Pietre di Venezia, Oscar Mondadori). Ao folheá-lo, percebi rapidamente que o teria de trazer, pois o autor dá a conhecer a cidade através da leitura dos seus edifícios, colunas, torres, fachadas, capitéis, arcadas… O desenho da capa é do próprio autor e representa a Casa Contarini Fasan. No interior, podemos encontrar ainda desenhos e aguarelas de Ruskin (Londres, 1819-Coniston, 1900), que tornam este livro ainda mais precioso.

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Trieste

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. Veit Heinichen e Ami Scabar, Trieste. La città dei venti., Edizioni E/O.

Soube desta obra e do seu autor alemão, mas triestino por opção, pelos meus colegas alemães e austríacos que conheci em Trieste. É um reconhecido e muito lido escritor de romances policiais, cuja ação tem como cenário a cidade que o autor escolheu para viver. No entanto, em Trieste. La città dei venti, um livro escrito a duas mãos, Veit Heinichen propõe uma viagem pelas tradições culinárias da região como porta de entrada para a história, a cultura e a geografia da cidade. A segunda mão é de Ami Scabar, uma chef e dona de um restaurante em Trieste.

Começa o livro por nos dizer que Trieste é um lugar atravessado desde sempre por ventos: o maestrale, o scirocco, o libeccio, o grecale e o bora, o mais dominante e marcante de todos eles. No pontão do Molo Audace, existe uma rosa dos ventos que indica precisamente a direção daqueles. Com os ventos, chegaram à cidade tradições do norte da Europa, do Mediterrâneo, do Adriático, do leste, do oeste e do sul. Tradições que se refletiram no que se come à mesa, no que se fala, no que se festeja nas casas e nas ruas.

Gosto muito deste livro. De o folhear e de me encontrar com receitas que explicam o modo de ser de Trieste. De perceber como esta cidade se relaciona tão intimamente com o mar, que lhe traz muito: alimentos, objetos, pessoas, ideias…Percebo melhor como é uma cidade de fronteira(s) e de influências diversas, que tão bem se combinam e se sentem à mesa.

. Fulvio Tomizza, Le mie estati letterarie, Marsilio Editori.

Tenho lido Le mie estati letterarie a um ritmo irregular. Presta-se a isso, já que reúne um conjunto de textos soltos do autor. Antes de falar de ambos (livro e autor) vou referir as circunstâncias que me fizeram coincidir com este volume: encontrei-o na loja-livraria do castelo de Miramare. Nada sabia de Fulvio Tomizza. Bastou-me folhear o livro para perceber que desejava saber, lendo-o.

Trata-se de uma antologia de textos autobiográficos. Naquele dia em que visitava o castelo foi o texto sobre Veneza (“Venezia con la neve”) que me fez decidir pela compra. Diz o autor que Veneza é a sua segunda cidade depois de Trieste, de tão familiar que se tornou por tantas vezes a visitar. Relata uma dessas visitas, numa manhã de inverno que trouxera neve a Veneza. Fala-nos do seu espanto infantil, do seu encantamento pela visão de algo que lhe parecia tão irreal. Sentiu que saía, naquela manhã, de um quadro de Guardi ou de Canaletto para entrar num de Brueghel. E comoveu-se com essa visão.

Fulvio Tomizza nasceu em Materada, Umago, na atual Croácia, em 1935 e faleceu em Trieste em 1999. Antes de se fixar em Itália viveu em Belgrado e Ljubljana. Continuo com muita vontade de o conhecer melhor através das suas palavras.

Veneza

Li as primeiras páginas deste livro aqui – sentada no banco de pedra que dá para o Canal Grande, no Palácio Museu de Peggy Guggenheim.
Li as primeiras páginas deste livro aqui – sentada no banco de pedra que dá para o Canal Grande, no Palácio Museu de Peggy Guggenheim.

. Peggy Guggenheim, Una Vita per l’arte, Rizzoli.

Este livro é uma mulher: Peggy Guggenheim, nascida em Nova Iorque em 1898. Viveu também em Londres, Paris, sul de França e Veneza. Morreu em 1979, próximo de Pádua.

É o que estou a ler. Comprei-o na última casa desta mulher. Um espaço que é um palácio, que foi a sua casa durante os seus anos em Veneza e que agora é um Museu e uma Fundação. É lá que se encontram as suas cinzas. E a sua impressionante coleção de obras de arte: pinturas, esculturas, desenhos, instalações, mobiliário, bijuteria…Objetos que nos lembram a sua importância para podermos ter acesso a eles, para os podermos admirar. A sua ação como mecenas de artistas emergentes e geniais no início do século XX foi de enorme relevância para a sua visibilidade e seu reconhecimento internacionais. Muitos deles presentes na coleção Peggy Guggenheim: Picasso, Mondrian, Kandinsky, Magritte, Paul Klee, Max Ernst, entre muitos outros. Paralelamente, fica-se a conhecer uma vida pessoal recheada de episódios extraordinários, de encontros e desencontros raros. É sobre tudo isto que estou a ler. Num texto escrito na primeira pessoa.

Peggy Guggenheim, Una Vita per l'arte, Rizzoli.
Fundação Peggy Guggenheim, Palazzo Venier dei Leoni, à esquerda. Ao fundo, a ponte da Academia.

 

Goldoni, I Capolavori, Grande Tascabili Economici Newton.
Goldoni, I Capolavori, Grande Tascabili Economici Newton.

Esta coletânea de textos de Goldoni não foi comprada. Foi oferecida. Depois de ter trabalhado nas aulas de Italiano excertos da obra «La locandiera», recebi das mãos de C., a minha professora, este volume que reúne seis comédias de Carlo Goldoni (Veneza, 1707 – Paris, 1793). A C. comprou-o quando ainda andava na faculdade e disse-me que lhe dava imenso prazer oferecê-lo a uma aluna que o tinha pedido emprestado para ler nos tempos livres durante a semana veneziana. Gosto muito da história agarrada a este livro e do facto de ter na capa o preço na antiga moeda italiana.

O mapa não ficaria completo se não mencionasse cidades como Lisboa, Porto e Alcobaça. Cidades que conheço bem, sobretudo as duas primeiras. Relações de amizade e familiares levam-me muitas vezes até elas durante o ano.

A costa vicentina também fez parte das minhas errâncias deste ano quase no fim. Por alturas do sol de verão gosto de lá passar uns dias de merecido descanso, em praias de perder a respiração, de tão lindas que se mostram, não importa a hora do dia.

Perto do final de 2014, tive oportunidade de conhecer uma cidade que já deveria estar no meu mapa, como está no de todas as pessoas que conheço. Inexplicavelmente, estava ausente do meu: Guimarães. Agora posso falar e escrever sobre esta cidade. Esta viagem foi um presente de aniversário, por isso conheci Guimarães muito perto da época natalícia, já com as decorações de luzes.

De lá, trouxe este guia:

Guimarães Pessoal e Transmissível, Fundação Cidade de Guimarães.
Guimarães Pessoal e Transmissível, Fundação Cidade de Guimarães.

Um guia onde se pode encontrar o que se procura em todos os outros guias de cidades: como chegar, o que visitar, onde comer, datas festivas que marcam a história do lugar, indicações de alojamento. No entanto, não é um guia como os outros. Para começar, destaco o magnífico grafismo: cuidado, funcional, atrativo. A capa dupla. A segunda capa é um mapa da cidade (como se pode ver na fotografia). O enquadramento histórico dos espaços, o relevo dado a personalidades que fizeram de Guimarães aquilo que é hoje, as fotografias que documentam o presente contribuem para a originalidade e profundidade na abordagem. É também dada a palavra aos habitantes da cidade. Há todo um capítulo preenchido com vozes locais, com as suas sugestões, com a sua maneira de viver e ver a cidade que é sua todos os dias.

Deixo aqui algumas fotos de Guimarães e excertos do guia como legenda. Sei que vou escrever sobre esta cidade com mais pormenor.

Centro Cultural Vila Flor.
Centro Cultural Vila Flor.

«Há uma regra nunca escrita sobre Guimarães, mas que é muito útil para quem deseja conhecer a cidade.É a regra dos 15 minutos: qualquer que seja o ponto da área urbana para que queira dirigir-se, nunca distará mais do que uma caminhada de um quarto de hora. A relativa proximidade dos vários pontos de interesse da cidade ajusta-se, por isso, a viajantes com vontade de dar bom uso aos sapatos.» (p.14)

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«Primeiro era o eixo entre o castelo e o Paço dos Duques. Depois o centro histórico. Agora é toda a cidade. Os anos mais recentes mudaram a forma como Guimarães é vista enquanto destino turístico. E ao património construído associa-se agora uma aposta na cultura contemporânea que lhe dá uma nova cara. » (p.38)

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«Guimarães cresceu em torno do largo da Oliveira e é à volta deste espaço que se estende o seu principal marco turístico, o centro histórico. Além deste ser um local central, não lhe faltam elementos que merecem um olhar mais demorado, passando pelas construções monumentais e pela traça tradicional das casas, com varandas ornamentadas de flores coloridas. É também um lugar de encontro de locais e visitantes, que acorrem às suas esplanadas durante o dia e aos bares à noite. » (p. 52)

Fecho o guia de Guimarães e acabo este texto. Com os meus sinceros votos de um bom ano e de muito boas viagens!

ASM

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2 thoughts on “Balanço com livros

  1. Ao ler este delicioso “Balanço com livros”, viajei até todos os locais que mencionaste e fiquei com aquele sabor na boca e na alma que só as viagens e as leituras nos proporcionam 🙂

    1. Muito obrigada pelo teu comentário também aqui 🙂 Fico feliz com as tuas palavras…Sei que conheces bem esse tipo de felicidade 😉 Que 2015 nos traga, também, viagens estimulantes (com livros, pessoas, lugares e experiências inesquecíveis) e livros cativantes.Bom ano!!!

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