“Macedonia” triestina (parte 1)

Trieste, Itália
Uma espécie de MOTE

Uma macedonia vai ajudar-me a falar de pessoas. Daquelas que conheci em Trieste: em casa, no curso de Italiano, nas ruas e cafés. Macedonia é a palavra italiana para salada de frutas. Lembrei-me do seu significado num dia em que regressava a casa, depois das aulas. Passei por esta loja e cá fora anunciava-se a sobremesa do dia: “Macedonia con yougurt”. A seguir há a indicação de “KmO”, que significa que os frutos que a compõem foram cultivados em localidades muito próximas do local de consumo. Uma tendência que encontrei espalhada por restaurantes, cafés, lojas alimentares, não só em Trieste, mas também em Veneza. Uma forma de desenvolver e de promover os produtos e produtores locais.

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A vontade de recordar estas pessoas leva-me a escrever este texto. Cada um com uma história única e com motivações muito diferentes para estarem onde eu também estava. Vivemos juntos momentos que não vou esquecer. Percorremos Trieste pelos olhos uns dos outros. Trouxe de cada um deles muito mais do que tudo o que possa escrever sobre. E cada um trouxe um pedaço do seu país e da sua cultura. Das suas línguas, também. Para além destas circunstâncias que os definem, há as suas histórias pessoais. Que eu fui conhecendo à medida dos dias e das conversas.

Para cada um, na tentativa de os dar a conhecer, um fruto. Cada fruto vale por si mesmo. Delicioso como cada um sabe ser. Gostei muito de os poder ter todos juntos a uma mesa, numa caminhada pela cidade, numa esplanada da Piazza dell`Unità d`Italia ao fim da tarde, como numa macedonia… Foi com eles e aqui que bebi pela primeira vez um Spritz, uma bebida aperitivo muito apreciada nesta zona de Itália. A sua origem remonta à época do império austro-húngaro e ao seu domíno nas regiões do Veneto e de Friuli-Venezia-Giulia , da qual faz parte Trieste.

F2_Macedonia id1O meu primeiro Spritz foi aqui, numa das esplanadas da Piazza dell’Unità d’Italia.

Está apresentado o mote. Agora, as glosas que são fruta.

GLOSAS em formas de frutos

Laranja – H., Alemanha

A H. só podia ser associada a um fruto fresco, doce e brilhante. A H. estava alojada na mesma casa que eu. Era uma professora de Alemão e Francês reformada. Escolheu duas semanas para aprender Italiano e tinha aulas de manhã e à tarde. Queria acelerar o processo de aprendizagem e esforçava-se muito por fugir ao Alemão ou ao Francês quando falava comigo. A aspereza da pronúncia alemã desaparecia quando as palavras da H. eram francesas ou italianas. Os seus olhos eram de um cinzento azulado brilhante e vivo.
Como ela tinha aulas de manhã e à tarde, víamo-nos pouco, mas falávamos muito sempre que almoçávamos em casa, à mesma mesa. Disse-me que de Trieste seguiria para a Ístria, para fazer praia e desfrutar do calor do sol daquelas paragens.

Uva – L., Áustria

Fácil escolher o fruto para o L., jovem austríaco, que vivia numa cidade muito próxima da fronteira italiana e, por isso, visitava Trieste regularmente durante o ano. Era um estudante pré-universitário, já com ideias muito claras sobre o seu futuro profissional : desejava seguir a área de Economia. Se possível, ligado a uma paixão – o vinho. O L. tinha sido distinguido como o melhor sommelier da sua geração do seu país e um dos mais promissores a nível europeu. Era a ele que pedíamos para escolher o vinho para o jantar. Era o L. que nos explicava o que tinha acontecido à uva que tinha dado origem ao que estavámos a beber: de onde vinha, quais os processos pelos quais tinha passado até chegar aos nossos copos. Sabia da qualidade dos vinhos portugueses, que elogiou. Disse-me que quer vir a Portugal conhecer a região do Douro, berço do vinho do Porto. Já sabia bastante sobre este vinho e sobre a sua história. Só faltava ver com os próprios olhos as encostas vinhateiras.

O L. queria muito aprofundar o seu Italiano. Estava convencido de que o seu futuro passaria por Itália, tão próxima de casa e de muita coisa de que gostava: as massas, a pizza, o Spritz, as praças das cidades que conhecia. Gostava ainda de visitar as Enotecas italianas, como quem vai a museus.

A L. devo também o prazer de ouvir falar Alemão (o meu Alemão está bastante esquecido e não me permite seguir uma conversa…). Quando jantava com os colegas austríacos e alemães, o Italiano e o Inglês eram as línguas que mais se ouviam. A simpatia de todos eles inibia-os de falarem a sua língua. Das raras vezes que o fizeram foi a meu pedido ou quando queriam encontrar a palavra certa para dizerem em Inglês ou Italiano e então procuravam todos na troca de réplicas rápidas na sua língua mãe.

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Nesta foto vê-se, à direita, o restaurante “Siora Rosa”, onde jantámos num dos dias triestinos. Tinha sido recomendado à J. (falarei dela na 2.ª parte da macedonia). O L. escolheu o vinho. Para sobremesa, escolhemos Tiramisù e Strudel de maçã. Antes deste final doce, descobrimos que um dos empregados era um português de Lisboa. Já tinha sido inglês durante oito anos vividos em Londres e agora era um feliz triestino. Falámos em Português. E o nosso breve diálogo foi ouvido atentamente por toda a mesa, movida pela curiosidade. Gostaram de me ouvir na minha língua.

Fisalis – R., Japão

A R. é delicada na voz, no seu perfil oriental e na forma como gosta de Itália. A R., farmacêutica de formação e profissão, decidiu deixar o seu país de origem, o Japão, e a sua cidade, Tóquio, em nome do seu amor por Itália. Decidiu ainda aprender Italiano até que não se note o seu sotaque de língua do Oriente.
Escolhi esta fotografia para associar à R., porque aparece o elétrico que nos levou (a mim, a ela e ao R.) até Opicina, de onde se pode ter uma vista panorâmica deslumbrante da cidade de Trieste e do seu golfo. Na verdade era um elétrico e funicular ao mesmo tempo, de tanto que se sobe até à região do Carso (o ponto máximo do percurso está a 329 metros acima do nível do mar). Era a primeira vez que R. andava de elétrico. E a viagem durou quase trinta minutos de felicidade e emoção, que se podiam ver no seu rosto.

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F5_Macedonia id1O farol da Vitória e o Castelo de Miramare desde Opicina.

Quando cheguei a Trieste ela já lá estava a viver há um mês. Depois fui para Veneza e foi a R. que me explicou como era bom viver no Redentore, porque já lá tinha estado, também. Voltou a Veneza. Eu deixei esta cidade e R. ainda lá ficou. Escrevo estas linhas e continua lá, a fazer o que planeou: estudar Italiano e conhecer Itália. Temos estado em contacto e já a vi a percorrer as ruas e praças de Milão, Vicenza, Verona e Pádua.

Na minha última noite em Veneza, jantámos juntas. Eu deixei-lhe alguns alimentos, como fruta, cereais, iogurtes e chá, que não fazia sentido trazer comigo. A R. ofereceu-me três gravuras japonesas, delicadas e frágeis como ela sempre me pareceu.

A fisalis quase parece uma flor, de pétalas delicadas e muito frágeis, fechadas sobre o fruto. A R. falava muito pouco. Comunicava mais com o olhar e os gestos de uma suavidade muito oriental. Como suave é a casca da fisalis.

F6_Macedonia id1À mesa com as pessoas que recordo neste texto. Um aperitivo em frente ao Canal Grande. Spritz com pêssego (a minha escolha) à direita, Spritz com morango (a escolha de R.) no meio e, por fim, o Hugo da J..

Ananás – A., E.U.A.

Para o A., americano do estado do Arizona, só podia escolher um fruto como o ananás: com uma casca bem enrugada e um interior fresco, sumarento e doce. É que o A. é um septuagenário por fora e um jovem muito jovem por dentro. Ele próprio se definiu como um americano atípico, já que, para além do Inglês, falava fluentemente Francês, Espanhol e desejava aprender Italiano. Dizia ele que não era vulgar, entre os seus amigos e familiares, encontrar um interesse por línguas estrangeiras como ele e a sua mulher tinham. Aliás esta última, enquanto o A. estava em Trieste a aprender Italiano, estava no Sul de França, mais precisamente em Nice, a melhorar o seu Francês. O Espanhol tinha sido aprendido pelo casal para poderem comunicar com a família do marido da filha, a viver no México. Também para assim perceberem melhor as brincadeiras dos netos pequenos.

Era um prazer conversar com o A.. Sempre em Italiano, ele fazia questão, e não vacilava nem se acomodava no Inglês, a língua que todos nós conhecíamos e a mais utilizada, quando estávamos juntos, já que nem todos nos encontrávamos no mesmo nível de aprendizagem do Italiano. Menos o A., porque ainda que nos ouvisse em Inglês, comunicava em Italiano. Na última noite juntos, combinámos um jantar com todo o grupo. Foi numa pizzeria, com vista para o Canal Grande. Falaram-se muitas línguas, até porque o grupo era mais alargado. A conversa e as palavras de despedida alternavam em várias línguas. O A. sempre em Italiano.

F7_Macedonia id1Canal Grande.

Depois de me ter despedido do A., nesse jantar, reencontrei-o no caminho até à estação de comboios, quando deixava Trieste rumo a Veneza. Uma coincidência feliz, já que me acompanhou em parte da viagem , porque ia para a cidade romana de Aquileia, que dista cerca de 50 km de Trieste. Este centro romano da Antiguidade encontra-se muito bem preservado. Eu (ainda) não tive oportunidade de o visitar. No comboio fiquei a conhecer um pouco melhor o A.. Falou-me do que tencionava fazer na última semana em Itália. Continuar a estudar e a praticar Italiano, claro. Estava também a preparar e a ansiar o reencontro com a sua mulher, depois de algumas semanas separados. Ía ser em Lugano, bem perto do lago. Só depois seguiriam rumo a casa.

F8_Macedonia id1Estação de comboios de Trieste.

Próximos frutos: cereja, maçã e pêssego.

[Continua…]

ASM

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