Desejo de prolongar

«A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o visitante sentou na areia da praia e disse: “Não há mais o que ver” sabia que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.»

José Saramago, Viagem a Portugal

Nestas palavras de José Saramago encontrei a inspiração para um novo espaço nesta cartografia. Com o objetivo de dar conta dos meus prolongamentos. Sim, porque viajar não acaba e pode muito bem ser um estado de espírito. Por vezes tão entranhado, que qualquer coisa pode estimular e acentuar a memória dos caminhos já realizados: uma fotografia que se revisita, uma notícia sobre algo associado a um lugar onde se esteve, impressões de amigos ou familiares que, regressados fisicamente da viagem, continuam nos lugares onde estiveram em memórias e lembranças, um livro que se lê, uma música que se ouve e que parece a banda sonora perfeita para um momento vivido algures, imagens de filmes que se reveem porque se tem muita vontade de regressar ao cenário que parece ainda mais familiar … Há também a circunstância (já me aconteceu várias vezes) de amigos ou familiares me pedirem sugestões de itinerários, de lugares imperdíveis, de experiências a viver, porque estão de partida para um destino que sabem que eu conheço. Estes pedidos obrigam-me a regressar a apontamentos, mapas, fotografias e livros e levam-me a viajar novamente e a sentir outra espécie de felicidade que a viagem pode proporcionar. Até agora, o feedback tem sido positivo, parece que as dicas resultaram em boas experiências. Gosto sempre de ouvir os relatos resultantes doutro olhar sobre o mesmo sítio.

Este post (http://documentaromundo.com/2014/09/23/8-dicas-para-prolongar-o-sabor-a-frias/) num blogue que sigo e que me desperta tanta curiosidade pelo que conta, pelas fotos e sugestões fez com que me visse ao espelho em cada palavra, em cada experiência recomendada para que as memórias dos lugares permaneçam por mais tempo, se reinventem e se projetem em novas sensações e experiências. Mesmo quando estou quietinha. Confesso que pratico todas elas, só ainda não fui ao Festival de Músicas do Mundo de Sines. Quanto às restantes, pratico, abuso, reincido e recomendo vivamente.
Esta cartografia é mais uma forma de prolongar o que não se quer acabar. E como gosto de estar aqui e de saber que sou lida por uma geografia de leitores que cada vez se vai dilatando mais e mais! Obrigada também por isso! Decidi então arranjar maneira de vir e de estar aqui mais regularmente, publicando textos mais curtos, com imagens, sugestões, impressões e reflexos de regressos a lugares, sem mapas nas mãos e distâncias a percorrer. Espero que estes apontamentos de desejo(s) sejam do vosso agrado!

O primeiro acontece a propósito de uma regata já com 45 anos de vida e que se realiza anualmente no segundo fim de semana de outubro no Golfo de Trieste. As fotografias que vi em alguns jornais e revistas aguçaram as minhas saudades desta cidade encantadora que recentemente conheci. A pena que senti de não estar lá naquele fim de semana foi compensada pelas imagens que me trouxeram o mar e o golfo que eu vi diariamente enquanto lá estive.

F1_Trieste-2 id1

O Adriático

F2_Trieste-2 id1

Nunca assisti a uma regata e desconfio que, se o tivesse feito alguma vez, não perceberia por que razões uns velejadores sairiam vencedores e outros não, que dificilmente entenderia o percurso a realizar num elemento vasto e sem limites como a água, mas certamente acharia lindo o panorama. Em Trieste, teria adorado fotografar as embarcações, o farol da Vitória , o Castelo de Miramare e as pessoas que assistiam àqueles momentos de vento sobre o Adriático cortado pelas velas. Estes dias de Barcolana são vividos intensamente pelos triestinos, que saem à rua de dia e de noite para assistirem às provas, aos espetáculos musicais e de fogo de artifício. As pessoas distribuem-se pela costa, de Miramare até Muggia, e procuram com o olhar o velejador preferido entre os mais de mil, que fazem desta regata a mais importante de Itália. No golfo, com a Piazza Unità d`Italia como pano de fundo ou a linha de costa até ao castelo de Miramare, mandado construir pelo Arquiduque Fernando Maximiliano de Habsburgo, na segunda metade do século XVIII. Visitei este castelo virado para o Adriático, que se pode ver de quartos e salões cujas janelas e balcões se direcionam estrategicamente para o horizonte.

F3_Trieste-2 id1Castelo de Miramare

F4_Trieste-2 id1O Golfo de Trieste visto do Castelo de Miramare

Sobre a Barcolana e a sua história, aqui:
http://www.barcolana.it/

Imagens da regata, aqui:

http://ilpiccolo.gelocal.it/trieste/foto-e-video/2014/10/12/fotogalleria/una-domenica-di-vela-da-vivere-tra-carso-e-mare-1.10101424#2

http://ilpiccolo.gelocal.it/trieste/foto-e-video/2014/10/12/fotogalleria/lo-spettacolo-delle-1900-barche-alla-partenza-1.10100986#1
ASM

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