Sinais de casa

Milão e Trieste, Itália

Pequenos pormenores podem fazer com que nos sintamos em casa sem estarmos na nossa. Isso acontece quando o espaço é exclusivamente nosso e nos apropriamos dele de acordo com as nossas necessidades e preferências, a partir do básico que nos é disponibilizado. A nossa privacidade é assegurada durante a estadia, temos as chaves dos armários, das portas das divisões, da porta de casa e da do prédio. São as nossas mãos que as abrem e somos nós que ditamos o ritmo das entradas e das saídas. Não existem intermediários entre nós e as coisas, entre nós e os espaços para onde queremos ir. Quando regressamos ao fim do dia, sabemos que vamos encontrar tudo como deixámos quando saímos.
Senti-me como se estivesse em casa em Trieste e em Veneza. Não tanto em Milão, porque estava só de passagem e por isso optei por me alojar num hotel. Alguns requisitos eram fundamentais para a escolha: para além do preço acessível, claro, teria que estar muito próximo da estação central, pois faria a ligação para Trieste de comboio e regressaria de Veneza também por este meio.      Organizei então dois dias em Milão (de 15.8.14 a 17.08.14). Optei por um hotel pequeno, com o fundamental para me sentir confortável (e neste aspeto sou muito frugal e descomplicada). Bem perto do hotel, assim que cheguei, conheci um lugar onde fui para um café, um pequeno-almoço e um jantar: a “Panzera”, gerida desde 1931 pela mesma família – um café, pastelaria e restaurante. A dois passos da estação, é um local que se destaca pela sua atmosfera a lembrar o início do século XX e pela oferta variada que combina tradição, história e modernidade.

À mesa da “Panzera” e no meu efémero quarto de hotel fui antecipando os dias que se iam seguir – uma semana em Trieste e outra em Veneza. Esse exercício de antecipação, com a ajuda de livros e referências que tinha levado comigo, fez com que me sentisse como em casa.

Estação central de Milão.
Estação central de Milão.

No domingo (17 de agosto) deixei Milão e na estação de comboios “mergulhei” num espaço imenso, atravessado por linhas ferroviárias que ligam esta cidade a todo o país e povoado por pessoas oriundas de um mapa ainda mais dilatado que o de Itália, com destinos já definidos nos bilhetes que levavam nas mãos e que as ajudavam a encontrar as plataformas certas. Trata-se da segunda maior estação de comboios de toda a Itália, considerando o fluxo de passageiros. A meu ver, é um espaço bem mais bonito e interessante por dentro do que por fora. A fachada principal dá para a praça Duca d`Aosta e é muito clara e austera. No interior, que não vi na totalidade, dadas as suas dimensões, olhei prolongadamente para as arcadas e os painéis de azulejos que representam algumas cidades italianas com elementos icónicos de cada uma delas. No painel dedicado a Florença foi o magnífico David que retive.

O meu comboio para Trieste foi o das 12:05.
O meu comboio para Trieste foi o das 12:05, com paragem e mudança em Veneza.
Alguns detalhes da estação mereceram um registo.
Alguns detalhes da estação mereceram um registo.

Em Trieste queria que fosse diferente, por isso escolhi ficar num apartamento. Partilhado, mas com tempo e espaço para a privacidade. O espaço que tive de dividir com mais dois inquilinos transitórios (dois estudantes da escola de italiano, como eu – um holandês e uma alemã) foi apenas a cozinha. E quase nunca coincidimos. Por termos ritmos muito próprios e interesses divergentes. Partilhámos mais fora da nossa casa (na escola, nas visitas em grupo, nos jantares pela cidade) do que dentro.

Uma das primeiras fotos que tirei em Trieste, vinda da estação de comboios, a caminho da que iria ser a minha casa aqui.
Uma das primeiras fotos que tirei em Trieste, vinda da estação de comboios, a caminho da que iria ser a minha casa aqui.

Para mim esta foi a opção perfeita. Queria mesmo viver na cidade e conhecê-la como um dos seus. E isso passa por idas ao supermercado, à padaria, ao café mais próximo antes de começar efetivamente o dia e por conhecer as rotinas dos que vivem perto. Conhecer a rua, primeiro, o bairro e as suas gentes a seguir e depois a cidade com as suas praças, ruas, cafés, molhes, teatros e cinemas, igrejas de diversos credos (católicas, grega-ortodoxa, sérvia-ortodoxa, anglicana, helvética, sinagoga).

O supermercado onde fui mais vezes ficava próximo da escola, que ficava muito perto de casa. Em tempo, cinco minutos desde casa até à sala de aula e dez minutos até ao supermercado. Descobri-o logo no primeiro dia de aulas, a caminho do instituto. Escolhi dar a volta ao Teatro Romano e subir as escadas até à rua que ia dar à igreja de Santa Maria Maggiore. O instituto era logo ao lado.

Teatro Romano, construído na época de Trajano, entre os séculos I e II d.C.. Só foi descoberto em 1938.
Teatro Romano, construído na época de Trajano, entre os séculos I e II d.C.. Só foi descoberto em 1938.

O caminho até às aulas começava logo pela manhã bem cedo. Passava sempre pelo café-bar da Signora B., a proprietária da casa onde estava e que também era dona do estabelecimento que ficava no rés do chão (no piano terra, em italiano). Eu não prescindia do prazer de tomar o pequeno-almoço em casa, nem do cappuccino ao balcão do café. Este era o momento privilegiado para eu conhecer a vizinhança e perceber que havia gente que regressava de férias e por isso entrava ainda meio ensonada e nostálgica da pausa que tinha acabado e já com saudades do sol. Também me cruzei com quem entrou para tomar o espresso habitual e ler as primeiras páginas do jornal da região, “Il Piccolo”, antes de ir trabalhar.

Ao centro, a igreja de Santa Maria Maggiore. O edifício amarelo é um convento e também a sede do instituto. À direita, a igreja mais antiga da cidade: a basílica de São Silvestre.
Ao centro, a igreja de Santa Maria Maggiore. O edifício amarelo é um convento e também a sede do instituto. À direita, a igreja mais antiga da cidade: a basílica de São Silvestre.
O Arco de Ricardo, que data do século I a.C. e que ficava no meu caminho diário.]
O Arco de Ricardo, que data do século I a.C. e que ficava no meu caminho diário.

A Signora B. era a primeira pessoa a quem eu dizia diariamente “Buongiorno” e desejava-me sempre “Buona giornata” antes de me ver sair. Na segunda vez que lhe apareci ao balcão já sabia o que eu queria: o inevitável cappuccino e um cornetto (uma espécie de croissant, mas mais pequeno e sempre recheado com compota ou chocolate). Numa das manhãs pedi um cornetto para levar comigo. Seria, juntamente com uma maçã, o que comeria no intervalo entre aulas. A Signora B. embrulhou-o e pousou no balcão. Eu estava ocupada e abstraída com o meu delicioso cappuccino. Pagamento efetuado, saí em direção ao instituto. Só quando pousei as coisas na sala é que me apercebi de que não tinha o cornetto comigo. No entanto, ele chegou a mim, porque a Signora B. entregou-o à H., a minha companheira de casa, também a estudar italiano como eu. A H. Saiu depois de mim de casa, mas não escapou à atenção da Signora B., que lhe entregou a minha “merenda”. Quando regressei para almoçar, antes de meter a chave na porta pesada, antiga, de madeira, entrei no bar-café e agradeci-lhe e ainda nos rimos com a minha distração e a ela pareceu-lhe que uma estudante não podia aguentar uma manhã de 4 horas de aulas sem o seu lanche. Nesse dia o cornetto tinha recheio de alperce.

Na manhã que se seguiu a uma noite de temporal que conjugou chuva forte, trovoada e relâmpagos, toda a gente no café comentava a violência dos elementos, de tão estranha que era em pleno agosto. Eu tinha-a sentido como próxima no meu quarto e também me espantei com a violência ruidosa. No jornal, fotografias davam conta dos efeitos da noite agitada nas casas, árvores e veículos de toda a espécie. Os bombeiros não tinham dormido, os estragos tinham exigido a sua intervenção, sobretudo nas zonas mais altas da cidade. Vi no “Il Piccolo” as imagens da natureza revolta sobre as águas azuis do Adriático. Acabei por ficar com o jornal, porque, devido ao meu interesse, a Signora B. deu-mo no final do dia, já que os olhos dos clientes iriam procurar no dia a seguir outra edição, com notícias mais recentes, sobre as mesas do bar.

O bar por baixo de casa.
O bar por baixo de casa.

O trajeto para o instituto, para o centro da cidade ou ainda para a avenida junto ao Adriático era curto e repleto de pontos de interesse. Perto de casa comecei a conhecer os bares e os restaurantes pelo nome, com as suas esplanadas de fim de tarde e que, com a aproximação da hora de jantar, se tornavam ruidosos, a contrastar com as portas fechadas e as mesas e cadeiras recolhidas que eu via de manhã. Gostava de assistir à metamorfose noturna da praça junto do Arco de Ricardo: casais, grupos de amigos animados estavam ali a partilhar os aperitivos e os episódios dos dias.

A praça por onde passava sempre, quando regressava a casa para almoço.
A praça por onde passava sempre, quando regressava a casa para almoço.
A minha rua.
A minha rua.

Sinal inequívoco de que estamos em casa é experimentar antecipadamente o sentimento de conforto do regresso às nossas coisas depois de um dia repleto: de aulas, passeios em grupo pela cidade, caminhadas pelas ruas e pela grande praça Unitá d`Italia, sempre o ponto para onde convergem todos. Gostava de lá ir ao início e final de tarde e perceber as cambiantes da luz sobre o mar. A minha casa ficava mesmo no centro, numa rua estreita e íngreme, onde desembocava a Piazza Barbacan, mas que me levava comodamente até ao ponto nevrálgico da cidade. Até lá, percorria os olhos pelas montras dos muitos alfarrabistas que tinham morada ali ou por lojas e ateliers de artes diversas.

Entrei aqui num dia de chuva. Demorei-me e deleitei-me com as preciosidades que encontrei.
Entrei aqui num dia de chuva. Demorei-me e deleitei-me com as preciosidades que encontrei.
Ao ver a montra deste alfarrabista e antiquário, lembrei-me que na primeira vez que fui a Itália ainda se pagava tudo com  liras. As notas tinham muitos zeros, mas isso não significava que se pudesse comprar muita coisa...
Ao ver a montra deste alfarrabista e antiquário, lembrei-me que na primeira vez que fui a Itália ainda se pagava tudo com liras. As notas tinham muitos zeros, mas isso não significava que se pudesse comprar muita coisa…

Coisas simples e essenciais do quotidiano doméstico como cozinhar, lavar louça e roupa também podem confirmar que estamos em casa. Fiz tudo isso. Com as compras do supermercado que arrumava nas prateleiras dos armários ou no frigorífico confecionava os almoços. Este foi o primeiro que me apeteceu fazer – spaghetti ai funghi e pomodori:

F13_Casa1 id1

F14_casa1 id1

Esta fotografia foi tirada na última noite passada em Trieste. Passava por esta mensagem muitas vezes e era sinal de que estava quase a chegar a casa. Tinha de figurar na memória fotográfica. E pareceu-me bem acabar este texto com o quase fim do caminho até casa.

Nota: a próxima casa será a de Veneza.
ASM

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s