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Itália

Um mês sem escrever aqui. Um mês preenchido, em parte, com mais uma viagem e com tudo o que ela traz aos meus dias: planear, selecionar, reservar, pesquisar, ler, ler, ler sobre os pontos a visitar.

A isto juntam-se as razões das escolhas, os pressupostos e as motivações para mais uma geografia vivida. Foram duas semanas (dezassete dias, para ser mais precisa) intensas e repletas de lugares, pessoas, caminhos, experiências, livros e histórias. Ao mesmo tempo, fui (re)construindo e enriquecendo a minha “biogeografia” pessoal. O país escolhido é o mais desejado, sempre, sejam quais forem as circunstâncias – Itália. Duas cidades repetiram-se no meu mapa – Milão e Veneza -, com outra tive um primeiro belo encontro – Trieste.

As motivações entrelaçaram-se na perfeição com o plano que fiz para a viagem. Tudo, desde os aspetos mais práticos (transportes, ligações entre as cidades, gestão de horários e datas, alojamento) até aos desejos mais pessoais e que foram alimentando a viagem antes de o ser, foi planeado por mim. Levou tempo antes de ir. Continuou depois de estar. A felicidade de viajar começa por antecipação do que vai ser, do que vamos viver. Gosto muito de ser surpreendida, mas também adoro levar comigo, na mala dos desejos, alguns sonhos que depois se concretizam: ir a um museu, ver uma paisagem de um determinado ponto, conhecer uma praça que me escapou da primeira vez, comer ou beber algo de que já ouvi falar e que sei que vou apreciar, visitar livrarias. Estas últimas merecem uma pesquisa prévia demorada, sempre que estou de partida. Não foi exceção nesta viagem a Itália. Havia que recolher moradas de livrarias em Milão, Veneza e Trieste. “Fazer compras”, enquanto viajo, é o sinónimo exato de “comprar livros”. Por isso, tenho de reservar um espaço na bagagem para a certeza prévia de vir carregada de livros. Confirmou-se e esse périplo em busca de novas páginas merece um texto a ele dedicado…

Trieste. O fim do dia sobre o Adriático era sempre tão lindo que o registo fotográfico a esta hora teve uma cadência diária...
Trieste. O fim do dia sobre o Adriático era sempre tão lindo que o registo fotográfico a esta hora teve uma cadência diária…

Sobre o meu desejo de conhecer Trieste já escrevi aqui, a propósito de um poeta italiano natural desta cidade: https://cartografiapessoal.wordpress.com/2014/03/23/21-marco-dia-da-poesia/. Com o tempo, as razões para visitar esta cidade de fronteira foram aumentando. Muito graças a um outro autor, Claudio Magris, também nascido em Trieste. E ainda à memória antiga de ter lido nos tempos da faculdade Italo Svevo, também nascido ali. O leque das referências literárias foi o suficiente para a hipótese de Trieste se transformar num desejo inadiável.

O céu e a  Duomo de Milão refletidos no Museo del Novecento.
O céu e o Duomo de Milão refletidos no Museo del Novecento.

Milão incorporou o trajeto, já que o voo mais económico terminava aqui. Aproveitei então para permanecer dois dias na cidade, antes de rumar a Trieste. Depois da semana triestina, seguiu-se a veneziana. No final outra vez Milão, de passagem para o avião e fim do roteiro italiano. O comboio ligou as cidades. Os comboios italianos são rápidos, pontuais, eficazes, confortáveis por dentro e lindos por fora. Na minha viagem a Florença em 2012 fiquei rendida aos encantos e vantagens dos mais velozes, os “frecce” com nomes de cores – frecciarossa, frecciargento, frecciabianca (trenitalia: http://www.trenitalia.com/) . Gosto muito de viajar nos comboios. A linha Milão – Trieste, com paragem em Veneza Mestre, guardou-me algumas surpresas, uma delas a visão do lago de Garda, que visitei há alguns anos. Outra, uma conversa prolongada com um viajante sérvio, que ia para a Eslovénia, vindo de uma estadia em Milão. Um pouco intrigado com a minha escolha pouco óbvia de Trieste, quis saber as minhas razões. A resposta que lhe dei passou pelos motivos que aqui apresento…Como conhecia bem Trieste, deu-me logo uma série de sugestões imperdíveis. Algumas coincidiam com o meu plano, outras completaram-no.

Estação central de Milão.
Estação central de Milão.

Veneza ocupou, com as suas ilhas, palácios, canais, campi e calli a segunda semana e a ligá-la a Trieste havia um outro motivo que justificou a viagem: a possibilidade de frequentar aulas de língua e cultura italiana. Uma semana de aulas em cada cidade, no Istituto Venezia. A escola oferece ainda, para além da frequência de cursos diversificados, uma rede de contactos que facilita muito o alojamento em ambas as cidades. Foi através do instituto que escolhi as minhas “casas”.

San Marco desde a ilha da Giudecca, Veneza.
San Marco desde a ilha da Giudecca, Veneza.

Há muito tempo que desejava aprofundar o meu domínio e conhecimentos da língua italiana. Estudei Italiano dois anos na faculdade e desde aí não mais me desliguei da língua, do país das pessoas que a falam, da cultura com que se tece e dos autores que a escrevem. Estar em Itália é também para mim o mais desejado “mergulho” linguístico. Este ano decidi sentar-me na sala de aula e recordar estruturas, fazer exercícios, ler textos dos autores clássicos da língua que eu, fora das aulas, ouvia nas ruas, cafés, praças, supermercados, tabacarias e vaporetti. Um “mergulho pleno”, portanto, que me obrigou a falar, escrever e ler durante duas semanas uma língua que não é a minha primeira…
Na “bagagem” levava, para além destes objetivos, algumas palavras que me inspiraram. Tratou-se de uma experiência a sós, mas não solitária. Nunca se viaja sozinho. Muitos já escreveram acerca desta circunstância e das suas naturais consequências: a maior disponibilidade para os outros, uma liberdade ilimitada que permite gerir as horas e as rotas de acordo com as nossas vontades. Comer e dormir quando queremos. Ainda as hipóteses de não comer ou de não dormir. Andar com um mapa igual ao de toda a gente, mas reformulado constantemente pelo nosso desejo. Escolher viver momentos no meio de muita gente ou o seu contrário, porque sabemos que na nossa “casa” temporária só estamos nós. Sentir o tempo intimimamente de forma mais intensa e a vários ritmos. Poder escolher parar quando e onde se deseja. Encontrar outras pessoas que também escolheram viajar a sós e a quem nos podemos juntar para uma visita, um passeio, um jantar, um aperitivo, um café e depois separarmo-nos porque queremos regressar depressa ao nosso espaço e tempo. Há um conjunto alargado de vivências e de formas de ver os lugares que só se concretiza verdadeira e prolongadamente se for experimentado a sós. Agora sei, depois desta viagem. Confirmei na primeira pessoa algumas sensações, angústias, dúvidas, certezas e alegrias que tinha lido ou ouvido através de outras vozes.

Palavras inspiradoras (1).
Palavras inspiradoras (1).

Na “bagagem” trouxe muito e comigo “vieram” pessoas que ficarão na minha vida de diferentes modos. De tudo isto procurarei dar conta aqui no blogue. Este texto funcionará como um índice, de maneira a poder organizar o que foi vivido. Também será a minha memória mais imediata, pois contém ideias e palavras-chave, juntamente com as minhas inevitáveis notas, apontamentos e impressões que fui registando pelo caminho. Tenho ainda as fotografias. Não foi fácil escolher as fotos para este texto. Muitas mais virão. Para já, optei por imagens de cada uma das cidades visitadas e do que levei comigo.

A última é de um livro que comprei em Milão. Trata-se de um relato na primeira pessoa do singular de episódios vividos antes, durante e depois de viagens feitas no feminino. Num tom muito bem humorado, descontraído e ao mesmo tempo lúcido, a autora-viajante aborda também assuntos relacionados com o partir e o regressar, os transportes, a alimentação, as eventuais companhias (as efémeras e as mais duradouras), as vantagens e desvantagens de viaggiare da sola. Confesso que a leitura me arrancou sorrisos demorados e que me soube muito bem ter mais este livro por companhia.

Palavras inspiradoras (2).
Palavras inspiradoras (2).

Levei alguma música, a pensar como seria bom percorrer alguns caminhos ao som de melodias de alguma forma relacionadas com os lugares. Uma das escolhas foi este álbum.

ASM

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