Memórias olfativas

O livro que estou a ler é um delicioso convite e ao mesmo tempo um estímulo para a memória de quem percorre os olhos pelas suas palavras repletas de cheiros. A memória olfativa do autor é a fonte de onde brotam os aromas que preencheram episódios da infância, adolescência, idade adulta. Vividos em família, no seio do grupo de amigos e cúmplices de brincadeiras e aventuras ou sozinho. Em espaços abertos e então as palavras soltam aromas de flores, árvores. Em espaços fechados onde decorrem episódios domésticos, marcados por rituais odoríferos: refeições, confeção de bolos, gestos meticulosos de higiene, peças de roupas que se vestem, despem e cheiram, por exemplo. A sequência de capítulos leva o leitor a recordar-se ele próprio dos seus aromas e a associá-los a pessoas, espaços, episódios que contam a sua biografia.

Philippe Claudel, em Perfumes, reconstrói episódios da sua vida ancorando a memória nos aromas que o marcaram indelevelmente. O roteiro da viagem pelos perfumes do itinerário pessoal assenta no alfabeto. Um critério para uma organização de uma experiência sensorial por natureza desordenada e aleatória. A associação a factos, pessoas, outras sensações, como as visuais e auditivas, ajuda a encontrar um fio condutor e a marcar fronteiras entre as diversas sensações. Vividas em simultâneo, misturadas e difíceis de definir. Cada capítulo centra-se num odor, nos “cheiros de uma vida” que constituem este “inventário sentimental”.

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    Peguei neste livro pela primeira vez e segui um hábito muito enraizado em mim: começo a folhear pelo fim e muitas vezes leio as linhas finais. Nos romances luto contra a tentação de conhecer logo o desfecho, as últimas páginas. Mas tratando-se de uma antologia de textos curtos (contos, crónicas, por exemplo), a leitura é ao contrário. Foi o que aconteceu. Por isso, iniciei esta viagem pela letra V. Mas neste livro virado ao contrário pelos meus olhos, deparamo-nos primeiro com uma citação de Giacomo Casanova a fechar a sequência do catálogo de cheiros:

«Eu sei que existi, e estando seguro disso porque senti o cheiro, sei também que não existirei mais quando tiver deixado de cheirar.
Giacomo Casanova, História da minha vida»

    Com a letra V surgem dois capítulos: “velhice” e “viagem”. Foi este último que serviu de mote ao meu texto.

«(…)Viagem
Baudelaire, ainda ele, bem sabia que os mundos podem caber nos frascos, ou nos caracóis pesados de uma cabeleira adormecida. E eu levo sempre comigo os seus versos, como um vade-mécum melhor do que um guia de viagem, de todas as viagens, porque viajar é principalmente perder-se, desfazer-se do conhecido para renascer sem marcas e deixar os sentidos familiarizarem-se com a terra. Cheirar então, como nunca, a respiração dos países novos. Assim durante anos perco-me muitas vezes, feliz, nos mercados de Istambul, de Marraquexe, do Cairo, de Assuão, de Taipé, de Huaraz, de Xangai, de Denpasar, de Bandung, de Lima, de Saigão, de Cholon, de Hué ou de Hanói, de Malateia, de Helsínquia, de Mérida, de uma quantidade de cidades grandes ou pequenas, ardentes à maneira de Diyarbakir que esconde o seu mercado de tabacos, louros montões capitosos, à sombra de um velho caravançarai, glaciais como essa Cracóvia de janeiro onde procuro, nos mercados atulhados de peles, de presépios em papel de prata e de almíscar, com que fazer morrer a dor causada pelo frio nos meus dedos enregelados. Os nomes são poemas. Os perfumes batéis, que nos levam numa doce deriva. Dois lugares atraem-me quando estou em viagem e é a eles, onde quer que chegue, que faço as minhas primeiras visitas. A igreja, se estou em país cristão, e o mercado. A igreja, porque sei encontrar aí, em todo o lado, o mesmo odor de pedra fria, de cera, de mirra e de incenso. Ela é de algum modo a minha casa portátil, o meu lar permanente com as suas imagens conhecidas, a sua calma e a sua reserva. O mercado, porque eu aí cheiro a alma de uma terra e a pele dos homens, o fruto do seu trabalho numa estonteante mistura de odores horríveis e deliciosos, de gordura crua ou grelhada, de erva-cidreira, de coentro cortado grosseiramente à tesourada, de fezes moles de aves cativas, de carnes insípidas mortas de fresco, de jasmim, de peles curtidas, de enxofre, de canela, de pétalas de rosas e de tripas, de amêndoas frescas ou torradas, de cânfora, de éter e de mel, de salsichas e de menta, de lilás, de óleo, de sopas, de coscorões, de bacalhau e de polvo, de algas secas e de cereais. Alinhar nomes, repirar as suas sílabas, é escrever o grande poema do mundo e o dos seus desejos profundos. Cendrars, esfomeado, bem o compreendeu nas suas listas de Menus sonhados, escritos a tremer de frio no coração de uma Nova Iorque que não queria saber dele. Cada letra tem um odor, cada verbo, um perfume. Cada palavra difunde na memória um lugar e os seus eflúvios. E o texto que a pouco e pouco se tece, nos acasos conjugados do alfabeto e das reminiscências, torna-se então o rio maravilhoso, mil vezes ramificado e odorífero, da nossa vida sonhada, da nossa vida vivida, da nossa vida futura, que ora nos arrebata ora nos desvenda.» (pp. 155-156)

Philippe Claudel, Perfumes, Sextante Editora.

    Estes excertos e ainda outras passagens que tenho vindo a ler estimularam a minha memória sensorial. Quando estou em viagem, revela-se num grau muito elevado a minha condição de “esponja”: os meus cinco sentidos apuram-se, tornam-se recetáculos sedentos de tudo quanto o exterior me oferece. Tornam-se ávidos do novo e fiéis, muito atentos, a cores, linhas, brilhos, sons, sabores, texturas, aromas… Algumas sensações são tão envolventes e duradouras que perduram depois da viagem. Ficam registadas na memória, transformam-se em palavras nos apontamentos e em imagens nas fotografias que tentam ilustrá-las.

    Lembrei-me de alguns momentos marcados por um aroma, muitas vezes associado a outras sensações. Selecionei as imagens para um eventual “Álbum olfativo”.

Sumo de ananás em Camden (Londres, Reino Unido)

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Uma incursão matutina em Camden Town marcou um dos últimos dias em Londres, no verão passado. Em Camden Lock, é fácil perdermo-nos nas inúmeras lojas de artesãos, nos ateliers de artistas, nos antiquários ou sermos surpreendidos por artistas de rua com talentos jamais vistos.
Gostei sobretudo de apreciar aquele espaço, outrora um complexo de estábulos e armazéns junto ao Regent`s canal, e o modo como se transformou. O toque irresistível do multiculturalismo está presente no que se vende, no que se compra, no que se ouve falar e se veste, no que se procura e se encontra. Também no que se come e bebe. No coração do Camden Lock, o Camden Market oferece sabores do mundo.

Estava um dia quente, de um calor que surpreendeu os locais e que por isso chamou muita gente para as ruas. Para o almoço escolhi uma paella vegetariana e um sumo de ananás do México, cuja preparação acompanhei em todos os seus passos. Vi retirarem as fatias e a deixarem na casca a forma ideal para voltar a colocar o ananás em forma de polpa. Tudo isto ao som de música sul-americana. Por isso comecei a beber o ananás pelo seu aroma. Era doce, fresco, o que mais apeteceu naquela manhã.

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Loja de Jamie Oliver em Notting Hill (Londres, Reino Unido)

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A caminho de Notting Hill, aconteceu entrar nesta loja-atelier de Jamie Oliver. Aqui vendem-se livros, acessórios de cozinha sugeridos e usados pelo destacado chef, ingredientes que ele tão bem combina. Realizam-se workshops e demonstrações para quem quiser aprender e provar as delícias culinárias.

Naquela manhã as focaccie tinham acabado de sair do forno e a fragrância do pão fresco acolhia de imediato quem ali entrava, o bolo era recente e ainda se viam vestígios dos ingredientes e das misturas, na grande bancada que ocupa o espaço central da loja. O cheiro a manteiga quente dominava, assim como, numa outra ponta, o da rúcula. Gosto bastante desta verdura e do seu aroma intenso.

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    Percorri a loja como quem visita um museu guardador de tesouros. As prateleiras onde se arrumam os utensílios de cozinha, as estantes com os livros. Os armários e as bancadas transportam-nos para uma cozinha funcional e cosy, que convida ao “fazer”.

Lush – uma galeria de fragrâncias em Covent Garden (Londres, Reino Unido)

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Gostei muito do conceito em que se fundamenta o fabrico destes artigos de cosmética e higiene pessoal. Da procura dos ingredientes frescos e naturais depois transformados em barras de sabonete e boiões de cremes, máscaras e champôs artesanais. Sem testes em animais. Do cuidado posto na seleção dos componentes e na apresentação de cada produto, com detalhes da história da produção a acompanhar cada artigo. Dos projetos associados à produção e comercialização. Da funcionalidade das embalagens e da atmosfera fresca da loja. Podia continuar a listar os aspetos que me atraíram. Quero, no entanto, centrar-me no impacto olfativo que foi entrar na loja da Lush no Covent Garden (há mais em Londres e por todo o Reino Unido).

As imagens que aqui deixo foram captadas no andar inferior da loja, que alberga uma autêntica galeria de odores. Dos quais desfrutei, percorrendo os vários corredores, com bancas laterais onde estavam dispostos os vários produtos. Desta forma sugestiva, como se vê. A lembrarem coisas de comer: chocolate, iogurtes, macarons, molhos, mousses, gelados…

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Figo da Índia (Sicília, Itália)

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Este fruto que nasce na chamada figueira da Índia era para mim desconhecido até chegar a Agrigento e Selinunte, na Sicília. Nos terrenos algo arenosos e secos cresce esta árvore que mais parece um cato. Fui vendo o fruto, ora com casca, ora descascado em cesto e travessas nas mesas dos cafés e restaurantes. Mas foi nas imediações destas duas cidades sicilianas que o vi na árvore. Soube depois que os terrenos próximos do vulcão Etna também oferecem um solo favorável ao seu cultivo.

Num almoço pedi para sobremesa. Já me tinham explicado que, apesar da forma exterior oval ser comum a todos os figos, o seu interior podia abrir-se em várias cores: amarelo, branco ou rosa forte. O que provei tinha esta última cor. Comê-lo é uma autêntica sinestesia: é fresco, polposo e sabe ao aroma de flores misturadas. Um sabor florido.

Nas ruas de Marraquexe (Marrocos)

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Estas fotos fixam as origens do aroma das ruas de Marraquexe. Ao percorrê-las somos embalados pelos perfumes dos chás, das especiarias, dos frutos secos, da hortelã, dos tecidos artesanalmente tingidos, dos artigos em pele, dos cereais, do sabão e da hena com aromas exóticos e intensos. O bom destas ruas é deixarmo-nos ir e o olhar é comandado pelo olfato.

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Doces da Bretanha com manteiga (St.Malo, Bretanha, França)

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Esta imagem é do interior de uma loja de doces na cidade de St.Malo. O kouign amann (“bolo de manteiga” em bretão) é uma especialidade bretã: um bolinho de massa folhada enroladinha como um caracol, com um toque muito amanteigado (com a famosa e deliciosa manteiga da Bretanha) e ligeiramente caramelizado. Pode ser simples ou com chocolate, maçã, caramelo, amêndoa, frutos silvestres ou passas. Entrei nesta Patisserie e foi o aroma da manteiga que mais se destacou. Fui-me aproximando e comecei a distinguir as frutas.

Trouxe comigo um kouign amann com caramelo e outro com maçã.

Crepe de canela e maçã em St. Malo (Bretanha, França).

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O melhor crepe da minha vida. Absolutamente delicioso. Com uma massa leve, ainda quente quando veio para a mesa, salpicado de açúcar e com recheio de maçãs e canela a completar o conjunto. Delicado e doce. Enquanto arrefecia, o aroma das maçãs e da canela prenunciava uma pausa de puro deleite. Foi o que se seguiu. Numa crêperie com vista para uma praça com árvores floridas, bancos e pessoas.

Cantuccini e vin(o) santo em Santo Spirito (Florença, Itália)

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    Os cantuccini querem-se bem rijos e partidos em palitos, para assim se tornar mais apetecível mergulhá-los no vin ou vino santo. Esta combinação é uma sobremesa toscana que serve também para celebrar a amizade. Foi o que escolhi para o final de um almoço na praça Santo Spirito.

    O vino santo tem origem na Toscânia e provém das vinhas das colinas da região de Chianti. Tem uma cor ambarada, a lembrar um néctar precioso. Aproxima-se o copo do nariz e somos invadidos por aromas que lembram frutas e flores de perfumes fortes e densos. É uma bebida forte e saboreia-se melhor com os cantuccini demolhados e ligeiramente amolecidos por este vinho dourado como as colinas toscanas.

Aromas alentejanos (Costa vicentina, Portugal)

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    Da minha mais recente viagem, até à costa vicentina, guardo os aromas do campo e da praia, dos pequenos-almoços ao ar livre, com frutos vermelhos, requeijão e compotas caseiras. Sabores e cores de um verão que começou timidamente e que continua plácido.

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Ser um nez em Eze (Provence-Alpes-Côte d’Azur, França).

    Impossível, neste domínio dos odores, não me lembrar do que ouvi durante a visita à fábrica-laboratório da Fragonard em Eze, na Riviera francesa, sobre o quotidiano de um nez. Ser um nez é vestir a pele de um mago dos aromas, capaz de os reconhecer e distinguir na mais ínfima diferença e perceber os seus matizes. É ser o alquimista que prevê uma mistura que ainda não existe na natureza, mas já na sua sensibilidade e imaginação. Então escolher e isolar a essência de flores, madeiras, especiarias, plantas, frutos e transformá-la em perfumes impossíveis, cremes suaves e de propriedades medicinais, sabonetes e velas de odores que se prolongam no corpo ou nos espaços que habitamos.
Visitei a fábrica e vi os laboratórios onde a magia acontece. Os caminhos pela Provença e Côte d`Azur mostraram-me os campos da flores que dão corpo aos perfumes. Algumas madeiras, especiarias, flores exóticas e raras provêm de outros pontos do mundo. Ali vi onde e como trabalha um nez.

Fora dali, estes magos das fragrâncias têm de se preservar devidamente: o seu olfato deve ser o mais possível imaculado e puro, de modo a absorver os aromas fielmente. Afinal de contas, são eles o elo de ligação entre os aromas da natureza e o que deles resulta. O seu dia a dia é marcado por hábitos metódicos, muitos regrados e algo austeros: evitar tudo o que possa alterar a sensibilidade olfativa como o tabaco, as constipações, uma alimentação indisciplinada, poucas horas de sono ou de descanso do corpo.

Ainda não acabei a leitura do livro de Philippe Claudel. Não apetece acabar, porque o mergulho neste inventário de perfumes está a ser muito saboroso. Também não desejo terminar o meu álbum olfativo. Enquanto não deixo aqui mais imagens e palavras que dizem aromas, acabo com mais uma passagem de Perfumes. Um excerto do capítulo dedicado à canela.

«(…)A cozinha faz-nos mergulhar na Europa e no tempo, viajantes enfarinhados e gulosos. Eu quis durante anos estabelecer uma geografia do strudel, esse subtil doce enrolado numa massa fina, com maçãs e passas na sua versão mais autêntica, e que desenha, mais ou menos, as fronteiras do antigo Império austro-húngaro já que se pode degustá-lo tão bem em Viena como em Veneza, Trieste, Bucareste, Varsóvia, Praga, Budapeste ou Brno, mas igualmente em Nova Iorque onde tantos emigrados das ruínas e das cinzas vieram esperançar-se de novo na vida. A bem dizer, através deste doce, é a canela que me possui, a sua entontecedora música olfativa de inverno e de festa, estupefaciente lícito próprio para tornar elegante e fina a mais francesa das massas, para dar-lhe na verdade a beleza de um acento.(…)» (p.35)

Sobre:
“Recipease” de Jamie Oliver http://www.jamieoliver.com/recipease/
Lush https://www.lush.co.uk/
Fragonard http://www.fragonard.com/parfums_grasse/FR/fragonard/eze/

ASM

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