História da capa (1)

Palermo, Sicília, Itália

Um novo rosto para este sítio. Uma nova forma de começar aqui neste espaço renovado. Uma imagem de capa que vai mudar com alguma frequência e que vai ser como uma porta de entrada para o que vier ao ritmo das viagens. Que é sempre mais acelerado do que as palavras que as dizem. Por circunstâncias várias, a principal das quais tem a ver com a minha necessidade de viver interiormente tudo o que vi, vivi e testemunhei e tornar isso minimamente legível. O que pode ser dito dentro dos limites do verbo, porque nem tudo está aqui, ainda assim. Apesar do tempo de intervalo entre os textos.

A imagem de capa vai então abrir sempre qualquer coisa. Vai mudar ao ritmo que tiver de ser e dos desejos: de recordar, de reescrever, de olhar para um detalhe, uma paisagem, um sítio em particular. O que for. E a propósito desta mudança, um texto a justificá-la, a explicá-la ou simplesmente a contar a história da imagem. Uma espécie de bilhete de identidade de um instante fixado pelo meu olhar. Os bastidores revelados da relevância desse registo.

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    A primeira fotografia de rosto foi tirada em Palermo, na Sicília. Foi nesta cidade que começou e acabou a viagem pela ilha banhada por três mares: Tirreno, Mediterrâneo e Jónico. Em pleno verão, por isso os dias foram sempre muito quentes em todas as cidades pelas quais passei, algumas delas com nomes lindos, a lembrarem nomes de mulheres: Taormina, Catânia, Siracusa, Segesta, Ragusa…Nomes de mulheres antigas, de outros tempos, muito remotos, como remota é a origem da ilha. Ela mesma com um nome de sonoridades muito femininas. E se ela contasse a sua história, teria de recordar todos os povos que por ali passaram e ficaram: cartagineses, gregos, romanos, bárbaros, bizantinos, árabes, normandos. Nela estão as marcas que todos deixaram: na paisagem, com os seus extensos campos cultivados, na arquitetura, na gastronomia, na toponímia.

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    Estas figuras femininas, que lembram as quatro estações, fazem parte de um candeeiro de rua. Essa rua fica numa praça, a piazza Vigliena, mais conhecida por Quattro Canti (quatro cantos), que marca o ponto onde se intersetam duas grandes avenidas palermitanas: a Via Maqueda e a Corso Vittorio Emanuele. A cruz de ruas que daí resulta divide a parte mais antiga da cidade em quatro grandes zonas que cresceram com o tempo: Albergheria, Capo, Vucciria (cujo mercado convida a uma visita demorada, melhor ainda se for ao sabor do acaso) e La Kalsa.

    A Via Maqueda tem ainda a particularidade de ser extremamente longa. Tanto, que muda de nome ao ritmo das praças que a vão habitando e ora se vai estreitando, ora se vai alargando. Antes de a pisar com o nome Maqueda, vinda da parte sul da cidade, passei primeiro pela Via della Libertà, depois pela Via Ruggero Settimo e só depois a Maqueda. Entrei na Piazza Vigliena, aquela que os Quattro Canti (que datam do século XVII) como que abraçam e protegem com os seus perfis barrocos de inúmeras estátuas (de reis, santas e personificações das estações do ano). Carros, vespas, burros a puxarem carruagens e pessoas rápidas de passagem veem-se sempre por ali.

Foto_rosto1_3 id1Um dos quatro cantos/esquinas da Piazza Vigliena, mais conhecida como Quattro Canti.

    Cheguei a estas esquinas de ruas que se encontram e parei. Os candeeiros, a cúpula da igreja de San Giuseppe dei Teatini fizeram-me querer suspender a caminhada e fotografar. Foram as cores das pedras, dos mármores das estátuas e o escuros destas mulheres dos candeeiros que me fascinaram ali, naquele conjunto. E a água que corria nas fontes dos cantos. Estive ali por duas vezes, a diferentes horas do dia. Os cantos mudam aos nossos olhos sob o jogo de luz e sombra. A vida vai passando célere e ruidosa em seu redor.

Foto_rosto1_4 id1Um pedacinho da cúpula da igreja San Giuseppe dei Teatini.

Foto_rosto1_5(1) id1A parte superior do mesmo candeeiro.

Foto_rosto1_6 id1Um canto em perspetiva aproximada.

    Percorrer as ruas que fazem aquela longa avenida de múltiplos nomes é perceber toda uma geografia social: lojas de marcas de luxo numa ponta, edifícios abandonados e decadentes noutra parte, negócios transacionados em ruelas perpendiculares em casas escuras e esconsas, vendedores sem tetos, que transportam consigo as suas mercadorias, igrejas e fontes intercaladas com este bulício, edifícios de escritórios e residências particulares e ainda palácios e teatros monumentais. Tudo isto nesta artéria central da cidade de Palermo, como se por ela corresse o seu mais antigo sangue.

Foto_rosto1_7 id1Teatro Politeama Garibaldi, situado na Praça Ruggero Settimo.

Foto_rosto1_8 id1A minha primeira imagem da Via della Libertà.

    Há um filme de Wim Wenders rodado em Palermo, “Palermo shooting” (2008), que eu ainda não vi. Um dos que está na minha lista dos “a ver”. O que já li sobre o argumento e os cenários de filmagem levam-me a querer muito. Alguns breves vídeos transportaram-me até esta cidade da ilha antiga. O protagonista, um fotógrafo alemão de passagem por ali, à descoberta ansiosa de Palermo, mas também num processo de busca pessoal, deixa-se encantar também pelos Quattro Canti. Como se vê bem neste excerto.

 

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ASM

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