Once in my lifetime – parte 2

ou o elogio do imponderável ( fim)
Marrocos

Saímos do hotel a meio da tarde, para uma experiência desejada ardentemente por todos: percorrer as dunas numa caravana de camelos, a um ritmo silencioso e preenchido com as imagens da beleza do deserto. Fomos guiados pelos nómadas que conhecem aquelas areias como ninguém e que nos levaram por caminhos sobre as ondas daquele mar de areias. Duas horas de viagem. O tempo para chegarmos ao acampamento antes do pôr do sol. Que queríamos muito presenciar, no topo da duna mais alta. Assim foi. O grupo todo, maravilhado, encantado. Um momento único, inesquecível. Ver o sol a desaparecer por trás da duna que se tornava ainda mais dourada e ondulante. Brindámos ali, àquele momento.

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Celebrámos pela noite dentro, com um jantar de ementa berbere, na companhia de músicos e do sempre presente chá de menta. Havia tendas onde podíamos pernoitar, mas escolhemos as dunas para cama e as estrelas para teto. Deitámo-nos em redor da fogueira que aqueceu e iluminou a celebração e adormecemos dentro de um silêncio que só ali pude sentir.

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Pôr do sol no deserto.

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As tendas: o cenário do jantar.

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Nascer do sol em pleno Saara. A mancha negra é a minha mochila.

Os primeiros raios de sol encheram os meus olhos de luz e deixei-me estar deitada. Vi o nascer do sol em pleno deserto do Saara… Eram as mesmas dunas, mas agora com a luz da manhã. Fizemos o mesmo caminho de volta, os camelos também ali tinham dormido. Os mesmos guias nos levaram até ao hotel. Mas eu já não era a mesma. Tinha em mim esta experiência. Depois dela, pude entender melhor estas palavras de Paul Bowles, sobre o “Batismo de Solidão”:

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«Assim que se chega ao Saara, seja pela primeira ou pela décima vez, atenta-se na imobilidade. Um silêncio incrível, absoluto, prevalece fora das povoações; e dentro destas, mesmo em locais de azáfama, como os mercados, há nos ares uma qualidade de silencioso recato, como se a pacatez fosse uma força consciente que, ressentindo-se da intrusão do som, minimizasse e dispersasse o som de imediato. Seguidamente há o céu, comparado com o qual todos os outros céus parecem esforços de corações débeis. Sólido e luminoso, ele é sempre o ponto focal da paisagem. Ao crepúsculo, a sombra precisa, encurvada, da Terra ergue-se para ele rapidamente no horizonte, dividindo-o em secção luminosa e secção escura. Quando toda a luz do dia já desapareceu e o espaço está pejado de estrelas, ele continua a ser de um azul intenso e ardoroso, mais escuro diretamente por cima e empalidecendo em direção à Terra, pelo que a noite realmente nunca se torna escura.

Deixa-se o portão do forte ou da povoação para trás, passa-se pelos camelos deitados cá fora, sobe-se ao alto das dunas, ou sai-se para a planície dura e pedregosa e fica-se algum tempo em pé, a sós. Daí a pouco, ou se estremece e se regressa a correr para dentro das muralhas, ou se continua ali em pé e se permite que nos aconteça algo de muito peculiar, algo que toda a gente que aqui vive já sofreu, e ao qual os franceses chamam “le baptême de la solitude”. É uma sensação única, e nada tem a ver com a solidão, pois a solidão pressupõe memória. Aqui, nesta paisagem inteiramente mineral iluminada por estrelas que parecem clarões, até a memória desaparece; nada resta a não ser a nossa própria respiração e o som do bater do nosso coração. Um estranho, e indubitavelmente agradável, processo de reintegração começa dentro de nós, e temos a opção de lutar contra ele, e de insistir em permanecer a pessoa que sempre fomos, ou de o deixar seguir o seu curso. Pois ninguém que haja ficado no Saara durante algum tempo é exatamente o mesmo que quando ali chegou.(…)»

Paul Bowles, Viagens, Quetzal

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Já no hotel, retomámos a conversa do dia anterior com os nossos anfitriões. Antes do deserto passámos horas a falar sobre o que era a vida ali, naquele ponto do mapa, sobre como se colocava à volta da cabeça aqueles lenços de cores maravilhosamente fortes (azuis, laranjas, castanhos, amarelos) e que eles próprios usavam, e houve tempo para uma breve lição de árabe; agora seria o momento de darmos conta de como tinha sido a nossa aventura nas dunas. Se tínhamos gostado, o que tínhamos sentido…

Finalmente a despedida. Voltar a colocar meticulosamente tudo no jipe. Arrancar rumo ao sul. Tamegroute seria a próxima etapa. A meio do dia, uma paragem para almoço sob a forma de um piquenique. Teríamos de ir às compras, num mercado, numa aldeia perdida no caminho (já não me recordo do seu nome). O grupo dividiu-se em pares, cada um deles responsável pela aquisição do que seria o nosso almoço: pão, água, fruta, legumes passíveis de serem parte das sandes que levariam também atum. Ainda os acessórios indispensáveis: facas, alguidar para lavar fruta e legumes. Percorremos o mercado, negociámos preços, integrámo-nos nas rotinas dos locais.

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Once_in_my2_F9 id1Entrei nesta loja para comprar garrafões de água.

Prosseguimos viagem procurando, ao mesmo tempo, um local para o piquenique. O nosso guia lembrava-se de ter visto, na última vez que tinha estado em Marrocos com outro grupo, casas de famílias nómadas. A ideia do Carlos era almoçarmos com eles. Facilmente nos convenceu e rapidamente encontrámos uma família que nos acolheu. Os nossos motoristas, falantes de Berbere e Árabe foram as pontes necessárias para dizermos ao que vínhamos e como queríamos tanto partilhar o nosso almoço.

Once_in_my2_F10 id1As crianças anunciaram, no caminho, a presença da família.

Naquela casa em forma de várias tendas, só estavam as mulheres e as crianças, os homens estariam mais distantes dali, no mercado ou a guardar animais.

Once_in_my2_F11 id1Parte da casa.

Fomos recebidos com o chá que abre portas e anula barreiras, sejam elas quais forem. Percebemos pela movimentação, gestos e atitudes quem era quem naquela família e que laços uniam as mulheres e as crianças. Palavras foram poucas, não eram absolutamente necessárias, a bem da verdade. Os olhares curiosos e acolhedores, de parte a parte, foram construindo em cada um as narrativas do encontro e da partilha. Estas palavras são parte da minha…

Once_in_my2_F12 id1A matriarca, a filha e um dos netos. O chá a ser preparado.

Once_in_my2_F13 id1O interior da casa, onde depois nos sentámos a degustar o nosso almoço.

Once_in_my2_F14 id1O nosso almoço a ser preparado.

Once_in_my2_F15 id1Uma das muitas partilhas. Esta foi a do chá de menta.

Demorámo-nos ali, até porque o calor que se fazia sentir convidava ao estar, simplesmente. No entanto, sabíamos que tínhamos de continuar até Tamegroute, uma aldeia em pleno Vale do Draa. Tamegroute guarda um segredo: uma Biblioteca Corânica, com valiosíssimos manuscritos sagrados. Visitámos a Zaouia (centro religioso com biblioteca, escola religiosa e santuário) e essa biblioteca. Os meus olhos demoraram nos manuscritos, suspensos pela beleza da caligrafia, das iluminuras, nas linhas dos textos sagrados, mas também perdidos nos versos dos volumes de poemas noutros alfabetos, ou ainda dos tratados de astronomia e álgebra. As obras mais antigas chegaram do século XI e as cores das páginas de pergaminho são do açafrão, hena ou pó de ouro, usados para o registo.

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Outro momento inesquecível foi aquele que nos levou a conhecer um conjunto de ruas quase subterrâneas, devido à cobertura que protege os habitantes do calor intenso e torna frescos aquela espécie de corredores entre as várias casas. Surpreendemos alguns dos seus habitantes, crianças que brincavam, espreitámos para o interior de oficinas ou de lojinhas da cerâmica típica desta aldeia.

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Once_in_my2_F18 id1Uma das ruas deste bairro singular.

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Para ser fiel à cronologia, tenho de recuar umas horas, até ao fim de tarde em que entrámos em Tamegroute, porque a visita à Biblioteca e o passeio que demos pela aldeia foi no dia a seguir a uma noite memorável de tão imprevisível.

Depois de nos alojarmos no hotel, propriedade de uma alemã que se apaixonou por aquela aldeia em pleno oásis e por isso ficou, e de um jantar à luz de velas marroquinas, saímos para um passeio noturno pelas imediações. Estava uma noite serena e não se via ninguém nas ruas. Não foi preciso distanciarmo-nos muito do hotel para ouvirmos música, risos e uma animação que não parava. Mais uma vez o Carlos (o nosso líder Nomad) supeitou que deveríamos seguir aquela melodia, porque certamente nos levaria a uma experiência a viver. Foi o que aconteceu e se confirmou – era uma festa de casamento berbere, que já durava há uns dias e que chamava àquele espaço, uma espécie de terraço entre casas, os habitantes dali. Homens, mulheres, crianças e jovens de todas as idades ali estavam, a celebrar a união dos noivos. Com música, dança e cantares. E muitas palmas que assinalavam a alegria dos que ouviam (as mulheres e as crianças) os que tocavam e cantavam (os homens e rapazes). Vestidos com cores claras, a tirarem de instrumentos de cordas e percussão sons que eu nunca tinha ouvido assim combinados. Vozes que se lançavam em harmonia para o espaço, espalhando-se fora de portas. Estava ali a fonte da alegria que tínhamos pressentido momentos antes na rua.

Fomos recebidos calorosamente e com curiosidade por parte dos participantes na festa. Risos e olhares trocados entre eles denunciavam a sua surpresa. Fomos convidados a sentar no meio deles. A música e a dança continuaram e a Maria José não resistiu a, mais uma vez, retratar com um traço muito dela aquela cena, onde éramos testemunhas maravilhadas e conscientes da felicidade daquele acaso e, ao mesmo tempo, personagens de histórias pessoais: nossas e dos que nos olhavam com olhos de acolher.

Aqui está o olhar da Maria José, que encantou os presentes:

Once_in_my2_F20Tamegroute, 27 de março de 2013.

Quiseram acompanhar o processo do registo e ficaram muito agradados com o resultado.

O chá foi também, e novamente, a ponte. Acompanhado de biscoitos, claro. O irmão do noivo fez as honras da casa.

Não demos conta do tempo passar, entre conversas, palmas, dança, chá e biscoitos. A festa para nós acabou quando o nosso guia local nos veio chamar, por estranhar a nossa demora tão prolongada pela noite…

Regressámos então ao hotel. O dia seguinte e Tamegroute esperavam-nos.

Once_in_my2_F21 id1Vista do meu quarto do hotel. Todos os quartos tinham nomes de mulheres. O meu era o “Mounia”.

Nota: Um agradecimento especial à Maria José, uma das participantes nesta aventura, pela ilustração que aqui incluí.

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ASM

 

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