Once in my lifetime

ou o elogio do imponderável (parte 1)

Marrocos

Sei que a expressão não é bem esta, “once in my lifetime”, a original é mais universal. Reformulei-a ao pensar no meu caso, no meu mapa pessoal.

Na verdade já vivi experiências, conheci lugares e pessoas que me levaram a acreditar que seria “once in my lifetime”. Situações, espaços, pessoas que convergiram num ponto na linha do meu tempo. Em mim, o espanto, o reconhecimento da felicidade de estar a viver e a partilhar esses momentos com outros. Com a lucidez de pensar que foi sempre um privilégio, um acaso feliz que recordo sempre com assombro. Dei conta, nesta recapitulação, que as muitas experiências desta lista tiveram um único país como cenário – Marrocos.

De outras já aqui falei, como, por exemplo, a rara oportunidade que tive de acordar num quarto com vista para um fiorde norueguês – em Ulvik, Geiranger ou Hardangerfiord. Ou, ainda na Noruega, não esqueço a cor azul da língua de glaciar que vi. Também vou ter de escrever sobre a subida a uma cratera do Etna, na Sicília. O mais recente grande espanto.

Agora a sequência marroquina, de tão “extra-ordinária” que foi, por ter fugido muitas vezes ao que estava programado e alinhado previamente. Dar espaço e tempo ao imponderável pode transformar uma viagem em algo ainda mais especial e único. Os episódios desta sequência podiam ser formas de um mesmo elogio ao imponderável.

A viagem que fiz a Marrocos com a Nomad (http://www.nomad.pt/) começou pela cidade de Fez. Um voo cancelado de Casablanca para Fez e a alternativa de ter de fazer este caminho por terra, de autocarro, possibilitou a entrada nesta cidade a horas muito adiantadas na noite. Pelo meio, um autocarro repleto de italianos furiosos com o imprevisto. Também queriam chegar a algum lado, mas o cancelamento pô-los num estado muito próximo do motim, perante um motorista impotente e bastante calmo, ao ponto de antes de pôr o autocarro em marcha ainda ter tempo para uma oração.

Este contratempo permitiu que um grupo de desconhecidos (os viajantes da Nomad, eu incluída) se tornassem protagonistas e testemunhas de um mesmo episódio que serviu, sem dúvida, para o nascer de uma cumplicidade que não mais desapareceu. E esta cumplicidade baseada em afinidades que se adivinhavam revelou-se espontânea nestas primeiras horas vividas em conjunto.Na semana que se seguiu, tornou-se mais profunda e consolidada.

 

Once_in_my_F1 id1O grupo.

Após a odisseia noturna, sob uma chuva que não parava, por volta das 4 horas da manhã o grupo de viajantes entrou na cidade calcorreando as ruas da medina. Entrámos pela Porta Azul, que passaria a ser muito familiar, dado que o Riad onde ficámos alojados ficava próximo. O silêncio noturno foi interrompido pelos nossos passos ansiosos e expectantes. Despojos do dia enchiam as ruas, ruelas e becos. Gatos escuros cruzavam o nosso caminho.Tivesse o voo sido uma realidade e Fez na madrugada seria para mim uma desconhecida.

Once_in_my_F2 id1Interior do Riad onde ficámos alojados.

Once_in_myF3 id1Fez.

Nos dias seguintes, durante as nossas deambulações por Fez, houve episódios que transformaram um roteiro comum num outro, muito próprio e desenhado ao sabor do acaso e dos desejos de cada um dos participantes. Era essa, aliás, a proposta do nosso guia-companheiro de viagem (Carlos Carneiro, da Nomad): alguma disciplina e método, mas não em doses exageradas ou rígidas… A viagem de descoberta de Marrocos teria de ser única para cada um, apesar de pertencermos a um grupo.

Foi por isso que a certa altura, numa das caminhadas pela cidade, sentimos o cheiro a pão fresco e não descansámos enquanto não descobrimos de onde vinha. Estava muito perto, vinha daqui:

Once_in_myF4 id1

Ainda em Fez fomos ver os seus famosos curtumes, entrámos em madraças, atravessámos praças e mercados (de legumes e frutas, de peixe, de tudo um pouco…). Cruzámo-nos com gente que caminhava sempre para algum lugar ou que apenas estava e permanecia. Olhámos com atenção e espanto para as colunas, as fachadas, as janelas e as portas da maior medina sem carros.

Once_in_myF5 id1

Once_in_myF6 id1

Once_in_myF7 id1Um dos souks na medina de Fez.

Estes pontos alternaram com chá marroquino, com tajines e laranjas muito doces e sumarentas. E com os aromas todos que se misturavam.

Despedimo-nos desta cidade de manhã cedo, a caminho do sul. Teríamos de atravessar o Médio e o Alto Atlas por isso, nada melhor do que fazê-lo num jipe. Dois, para ser mais precisa.

Once_in_myF8 id1

Da janela, Marrocos ia-se revelando aos meus olhos. A sua diversidade imensa ia ficando registada nas fotografias e na memória: montanhas com neve, florestas de cedros, deserto árido, oásis verdejantes, cursos de água, povoações empoleiradas em encostas íngremes. Pessoas, animais, palmeirais sem fim no horizonte. Tudo isto eu via da janela do meu olhar.

Once_in_myF9 id1

Um dia inteiro a viajar de jipe foi uma novidade para mim. À noite, sob o céu estrelado, alguns quilómetros foram percorridos em pistas no deserto. A experiência dos motoristas era a bússola. O nosso hotel esperava-nos, na orla das dunas do deserto do Sara (www.aubergesahara.com). Fomos recebidos calorosamente pela equipa do hotel, constituída por berberes (descendentes de um dos mais antigos povos a habitar o norte de África, originalmente designado de Imazighen, plural de Amazigh que significa “homem livre” numa das línguas berberes) que durante o nosso jantar nos tocaram algumas músicas tradicionais do seu povo. Sentimo-nos logo acolhidos como em casa.

O hotel ficava em Hassilabied, Merzouga. Acordámos com uma vista sobre as dunas de Erg Chebbi. Eram exatamente como aparecem em sonhos: douradas, de perfil delicado e de uma suavidade espantosa. São casa para os berberes nómadas e foram a minha cama na noite passada no deserto.

Antes dessa noite, aconteceu uma manhã passada na aldeia. O guia local levou-nos a conhecer o oásis cujos recursos naturais mantêm as famílias que ali vivem. Explicou-nos de que maneira a água que corre por baixo das dunas dá vida às plantas, árvores de fruto e vegetais. Mostrou-nos a forma equilibrada e organizada como cada família retira do solo o que põe na mesa – a organização contempla a dosagem da água de irrigação, a distribuição dos retângulos das terras cultivadas e a manutenção dos recursos. Este oásis ficava mesmo ao lado do nosso hotel e a caminhada começou aí. Cruzámo-nos com mulheres que estavam perto de um espécie de cisterna e que recolhiam água para suas casas. Estavam cobertas com túnicas de um tecido típico berbere.

Once_in_myF10 id1Plano aproximado de uma mulher berbere.

A seguir a esta visita prosseguimos rumo ao coração da aldeia.

Once_in_myF11 id1Hassilabied.

À medida que nos aproximávamos do centro da vida de Hassilabied, ansiando por um café, fui ouvindo com intensidade crescente risos e palavras soltas. Vozes infantis,  misturadas com cantigas. Não demorei a perguntar ao nosso guia de onde viriam e de que se tratava. Já estávamos todos no café e as vozes continuavam. Disse-me que deveriam vir de uma escola que estava ali muito perto e levou-me lá. Era a hora do recreio e as crianças brincavam. Lado a lado com as dunas.

Once_in_myF12 id1Crianças no recreio da escola.

Entrei numa das salas de aula, onde estavam dois meninos. Perguntei pelo professor, que entretanto apareceu sorridente. Trocámos breves palavras simpáticas.

Once_in_myF13 id1

Voltámos ao café onde estava o resto do grupo e percorremos as ruas da aldeia. Tivemos a oportunidade de surpreender estas mulheres no forno comunitário e mais crianças, desta vez num centro de aprendizagem da aldeia.

Once_in_myF14 id1

Once_in-my_F15 id1

Once_in_myF16 id1As crianças e os guias berberes que nos abriram as portas para o dia a dia no deserto.

A caminhada pela aldeia terminou com uma ida a um minimercado para comprarmos alguns alimentos e bebidas para o fim de tarde e noite que iríamos passar no deserto.

[Continua…]

 

ASM

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s