Gratulerer med dagen, Norge!

Noruega

Este texto há muito que estava na minha cabeça e foi o dia nacional da Noruega, comemorado no passado dia 17, que o transformou em palavras escritas. Para os noruegueses, esse é um dia de celebração do seu país e da respetiva Constituição. Para mim, um dia marcado pela nostalgia.

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Imagem de um fiorde às primeiras horas da manhã. A Noruega é o país do mundo onde há mais fiordes. Ulvik (refúgio do lobo) é o nome deste.

Fui à Noruega no verão de 2009 e, de todas as viagens que já fiz, esta foi uma das mais marcantes e surpreendentes. Sabia quase nada sobre este país imenso (área: 385,155 km2), com pouco mais de 5 milhões de habitantes. Tinha uma vaga ideia do que era um fiorde. Sabia que as horas de sol variavam a uma tal escala, que podiam chegar, no limite mínimo, a apenas duas horas num dia. Da história do país, quase nada, também. Talvez por isso a minha imensa curiosidade, a que se seguiu o deslumbramento.

F1_Noruega id1Durante uma viagem de ferry, ao longo do vários braços de Sognefjord.

As celebrações deste ano tiveram a particularidade de assinalar também os 200 anos da Constituição da Noruega e da sua soberania. Primeiro a independência em relação à Dinamarca (a cuja coroa se subordinou durante 400 anos). Em 1905 chegou a autonomia definitiva, desta vez em relação à Suécia. Em muitas cidades e vilas da Noruega este dia é assinalado com desfiles dos cidadãos de todas as idades em traje tradicional, empunhando a bandeira do país. Na capital, Oslo, a Karl Johans Gate (a principal avenida, que vai dar ao Palácio Real) é o palco privilegiado do desfile e as crianças têm o papel principal.

F2_Noruega id1Edifício da ópera em Oslo. Apesar da luz do dia, era tempo para a noite.

Os noruegueses com a sua forma de estar e de viver (tanto quanto me pude aperceber) fazem da Noruega um país discreto. Isto apesar da enorme riqueza que detém e que tão bem explora, aplica e distribui. Em 1968, a descoberta de petróleo no Mar do Norte permitiu a este país reconstruir-se, tornando-se um dos mais ricos do mundo.
Os noruegueses vivem discretamente nas suas casas, muitas de madeira, que se espalham pelos campos e montanhas, para além das cidades. Lembro-me bem dum passeio ao fim de tarde em Bergen, tendo como guia uma norueguesa que fez questão de me levar ao mais típico bairro residencial da cidade. Vi também abrigos e parques de campismo improvisados, que servem de casa por uns tempos a todos quantos querem desfrutar da natureza. E são muitos os que desejam isso mesmo. Saem das cidades e vivem uns dias em contacto próximo com o que a natureza generosamente lhes oferece: visões de sonho dos fiordes, das montanhas, de bosques densos e verdíssimos, de águas que se atiram do cume das escarpas até chegarem às outras, mais serenas e silenciosas, as dos fiordes ou dos lagos. Muitos desses amantes da natureza deslocam-se de bicicleta, por estradas estreitas e inverosímeis que acompanham bem de perto a linha de águas dos lagos e dos fiordes. Por vezes têm de as atravessar no ferry e então transportam-nas e às suas mochilas, que contêm o essencial para uma estadia curta. Adoram fazer caminhadas pelos trilhos das cabras das montanhas, peritas em galgar as encostas acidentadas. No inverno imagino a mesma paisagem com a neve mais abundante. Apesar de ter lá ido em agosto, pude ver alguns cumes nevados.

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F4_Noruega id1Uma casa em madeira num bairro em Bergen. Ao lado outras e outras. De cores várias.

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A cidade de Bergen e a sua parte antiga, onde são visíveis as casas cuja arquitetura data da época em que a cidade fazia parte da Liga Hanseática. Uma imagem que não escapa ao registo fotográfico. Chamava-se Bryggen na altura em que era um importante ponto de passagem das trocas comerciais.

Dificilmente esquecerei as viagens dentro da viagem. A de comboio pelo vale de Flåm foi como entrar numa natureza encantada. Trata-se de um comboio, o Flåmsbana, que percorre pouco mais de 20 quilómetros furando montanhas, por trilhos de carris que acompanham as encostas, os lagos e braços do fiorde. A linha ferroviária demorou 20 anos a construir e  possui 20 túneis. O comboio regista a velocidade máxima de 40km/h. Eu apanhei-o na estação de Flåm , junto a um braço do Sognefjord, o Aurlandsfjord, com um porto onde atracam cruzeiros de uma dimensão que se julga impossível para aquelas paragens. Mas não, eles vão e vêm. Fui até Myrdal (a 865m acima do nível do mar). Pelo caminho e pela janela da carruagem a lembrar um comboio doutros tempos, ia vendo cascatas, vales, ravinas, as águas do fiorde, casas em madeira, pontes…Numa sucessão que se repetia, mas que era sempre diferente: nas cores, na altura das montanhas, na extensão dos vales, nos caminhos da encosta que a água vertical sulcava. Uma viagem memorável, a uma velocidade que combinava na perfeição com o ritmo do olhar que se queria demorado em cada imagem.

F6_Noruega id1Um quadro visto da janela do Flåmsbana.

Pela primeira vez na minha vida vi um glaciar. De cor azul…parte de um glaciar da remota idade do gelo.Em Briksdal, para ser mais precisa. Foi uma emoção indescritível e prolongada a que senti ao longo da subida até ao glaciar e enquanto lá estive, bem próxima daquele azul no gelo e da água de um verde leitoso. E em volta, ouve-se e sente-se na pele a água. Aqui, um vídeo que dá uma ideia do que pode ser esta experiência:  http://www.youtube.com/watch?v=WX5kmOaj8fY .

F7_Noruega id1Língua do galciar de Briksdal. Enquanto aqui estive um pedaço de gelo derreteu, desceu e juntou-se às águas verdes.

Recordo com saudade as manhãs naquele país. Para mim, a melhor parte do dia. Adoro acordar cedo e sair. A maior parte delas começava com uma vista de um fiorde. Por mais que sonhasse ou imaginasse antes, seria apenas uma aproximação do que é.

Conheci os grandes fiordes de Geiranger, Hardanger, Sognefjord (este é o mais profundo do país). Para além dos de Oslo e de Bergen. Os fiordes noruegueses integram a lista do património da Humanidade da Unesco. De uma beleza extraordinária, são o resultado impressionante da ação das correntes quentes do Golfo do México, que para aquele território caminham desde sempre, sobre o gelo no cume das montanhas. Essa ação levou a que se abrissem autênticas fendas que, com o passar do tempo (medida a considerar: milhares de anos), permitiram ao gelo derretido percorrer as ravinas que foram alargando em forma de U. A sua água é salgada e a profundidade é equivalente à altitude das encostas…São muito férteis, verdejantes e floridas. As águas a casa de muitas espécies de peixes.

F8_Noruega id1O fiorde de Geiranger, considerado um dos mais bonitos.

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F10_Noruega id1Entardecer com um café e um fiorde por companhia.

Esta viagem foi também importante porque me permitiu confirmar e aprofundar o meu gosto pela fotografia. Os meus dias na Noruega confrontaram-me com as minhas limitações e com a absoluta necessidade de me pôr à prova, perante uma natureza que não é propriamente exuberante, mas de uma grandeza e beleza esmagadoras e que eu queria muito registar e respeitar nesse registo. Fenómemos naturais que tinha estudado nos manuais da escola estavam agora ali acessíveis aos meus olhos e à minha lente. Lembro-me da ânsia que sentia em fotografar, em registar o que via e vivia, com receio de esquecer. A máquina que tinha na altura permitiu as imagens que aqui deixo. Foi depois da Noruega acontecer que percebi que precisava de uma outra, com mais potencialidades. É a que ainda tenho.

F11_Noruega id1Não sei precisar a localização desta imagem. Recordo mais claramente a subida até ao topo da montanha. Uma estrada a ziguezaguear. A sensação de estar num sítio e num tempo diferentes. Uma ideia aproximada de um começo, talvez. Difícil de descrever.

Esta nova viagem à Noruega, desta vez pelas memórias que ainda permanecem, não pode esquecer a referência à música que ouvi durante os dias que lá passei e sobre a qual já escrevi (https://cartografiapessoal.wordpress.com/2011/04/12/receita-para-uma-banda-sonora/).Deixo aqui a voz de uma intérprete que é o eco do povo a que pertence – Sami. Uma população indígena (também existe na Finlândia, Suécia e Rússia, mas em maior número na Noruega) que foi resistindo, lutando pela sobrevivência da sua cultura, da sua identidade e autonomia. Possui um parlamento, uma bandeira e a sua economia baseia-se sobretudo na criação de renas, na caça e no artesanato. Apenas me cruzei com elementos desta comunidade numa lojinha de artesanato, nas montanhas. Tinham a sua rena à porta… É milenar a sua ligação profunda à natureza. Continua a ser uma realidade, no norte do país. Mari Boine é norueguesa sami e canta na sua língua mãe.

 

Os primeiros textos deste blogue resultaram também da urgência do registo escrito do que vivi neste país (ver em “Destinos” – “Receita para uma banda sonora”, “Vigeland:toda a vida em formas de pedra” e “Na boca do tubarão”). Mais uma vez a Noruega a fazer-me feliz, ao escrever sobre este território.

Deixei aqui alguns momentos felizes, ditos com palavras e imagens.

F12_Noruega id1A bandeira, eu e o típico e simpático troll norueguês. É uma figura da mitologia escandinava que vive em cavernas e grutas escondidas nas florestas e que preenche o imaginário popular com as suas histórias e poderes.

E, mais uma vez: “Gratulerer med dagen, Norge!”

Site oficial de Mari Boine: http://www.mariboine.no/

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ASM

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4 thoughts on “Gratulerer med dagen, Norge!

    1. Muito obrigada, Eva 🙂 A Noruega foi uma agradável e marcante surpresa no meu itinerário pessoal.Espero um dia voltar, pois muito ficou ainda por conhecer…

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