21 março – Dia da Poesia

+ do que 1

Nesta data, mais uma vez, celebrou-se o Dia Mundial da Poesia. Uma série de iniciativas convocou os mais esquecidos, os mais indiferentes a sentir as palavras dos poetas. Este dia foi sempre assinalado aqui neste espaço desde que esta cartografia existe, até porque o nome que lhe dei é inspirado num título de uma antologia de um dos meus poetas eleitos para todos os dias, Nuno Júdice (ver “Sobre o blogue”).

Fui dando conta, ao longo dos registos e das viagens que lhes deram origem, que parte das minhas memórias se constrói também sobre poemas, versos, palavras lidas e relidas. Antes ou depois das viagens. Durante, lembro-me delas através de associações do momento, que emergem nos instantes em que sou noutro lugar. Caminhar pelos sítios é para mim também uma releitura de poemas ou doutros textos que recordo, que seguem comigo numa bagagem sem peso real, mas que ocupa muito espaço afetivo.

Dia de poesia 2014 F1(1) id1Numa rua em Noto, Sicília, Itália (agosto 2013)

Há mais ou menos um ano, mais precisamente a 17 de março, a muito poucos dias do Dia a celebrar, resolvi criar um espaço neste meu mapa pessoal para as palavras dos outros e para as ressonâncias que elas têm em mim (https://cartografiapessoal.wordpress.com/2013/03/17/por-outras-palavras/). Aconteceu um leitor muito atento e assíduo, que não conheço pessoalmente, mas que sei que é espanhol e que vive na Catalunha, oferecer-me generosamente um poema de um poeta que eu não conhecia – Rubén Bonifaz Nuño (1923-2013). É mexicano e desde aquele dia senti pena de o não o conhecer há mais tempo. Que boa surpresa, naquele fim de um dia ocupadíssimo e cheio de inúmeras coisas… O poema está na caixa de comentários desse texto e ainda em todos os caderninhos que passaram a acompanhar-me nas viagens desde então, logo nas primeiras páginas. Uma espécie de amuleto que trago comigo.

É um poema sobre viagens e viajantes o que foi escolhido para mim (obrigada mais uma vez, Xavier!). Achei que devia ocupar outro lugar nesta cartografia, saltar da caixa dos comentários para ser partilhado neste texto que lembra o dia dos poetas.

Eis o poema:

Las gentes que viajan adquieren una

forma fragilísima de belleza.

Por algunas horas se transforman en algo

singular, y viven agudamente;

descubren extraños sentimientos

que no sospechaban que pudieran

tenerse, y caminan como dichosos.

.

En las estaciones de los trenes,

mientras esperaba, he vivido

horas melancólicamente ricas.

.

He visto partir a las gentes,

y no estaban solas: se sumergían

en su larga noche de viaje,

llevando en su sangre la pureza

que dan las distancias y los adioses;

pobladas de bocas y de miradas,

se purificaban como si fueran

a entrar en un templo o en combate.

.

Y he visto regresos y llegadas, abrazos

de amor entre gentes que no se amaban;

pero, sin embargo, el amor lucía

en ellos, brillaba evidente.

.

Y los que regresan sin que nadie

los espere viven también; trajeron

una soledad más limpia, un tesoro

de pueblos hallados, de noches descubiertas.

.

Y cargan sus viejas valijas,

y sus bolsas llenas de fruta

que es igual a la que comen a diario;

pero que ha de darles un sabor de cosas

buenas, de placer incomparable,

al llevarlos, plácidos, al recuerdo

de los vendedores en el camino,

de las casas lúcidas en la sombra lejana.

.

Y los que regresan y los que parten

se confunden: todos llevan con ellos

una sensación de heroísmo,

una lumbre tenue que se funda

en su corazón, y se derrama

y enciende sus rostros atónitos,

poblados de pérdidas y esperanzas.

.

Dia de poesia 2014 F2 id1Laranjas e tâmaras comidas em Marrocos. Uma memória com aromas e sabores únicos…

Dia da poesia F3 id1Eu aqui, na Piazza della Santissima Annunziata, em Florença (julho, 2012). Muito feliz.

.

Descobri num artigo sobre este poeta que ele pedia aos seus amigos que viajavam que lhe trouxessem um objeto da sua predileção – um caleidoscópio. Diz ele : “Cuando un amigo o familiar se iba de viaje, siempre les pedía un caleidoscopio. Tengo centenas, son baratos y hay en todo el mundo. Uno de mis favoritos es de China. Colecciono caleidoscopios porque nunca la imagen es igual, siempre observo composiciones diferentes. Y eso enriquece un poco la vida, es semejante a ella; la vida puede mostrar fenómenos que son totalmente desconocidos e inesperados. La vida llega porque sí, un poco como las imágenes variantes de un caleidoscopio.” (retirado daqui: http://www.nexos.com.mx/?p=15214)

Eu também adoro caleidoscópios. Um dos mais extraordinários que possuo (porque tem na ponta uma lente côncava e não pedrinhas coloridas) oferece-me sempre imagens novas. Esteja onde estiver, o que vou ver através dele é o mesmo que vejo sem ele, mas com o efeito transformador que apenas com ele nos olhos acontece. Comprei-o em Barcelona há uns anos, numa loja maravilhosa, repleta, das paredes ao teto, de brinquedos e, sobretudo , de máscaras de todos os tempos e lugares. Uma lojinha (“Arlequi Màscares”) que ficava muito próxima da grande via Laietana, numa das ruas(C/Princesa, 7) que levam ao Born, e onde tudo era artesanal. Não hesitei e trouxe-o comigo.

Segui também neste dia um ritual muito meu: comprei um livro de poesia. Escolhi um poeta que nasceu numa cidade que desejo muito conhecer. O livro é uma antologia de poemas (Poesia, seleção, tradução, introdução e notas de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim) de Umberto Saba (1883-1957). Nasceu em Trieste, nesse ponto do mapa italiano em que se cruzaram muitos impérios e muitas fronteiras flutuantes ao longo da sua história. Escreveu sobre a sua cidade natal e foram esses os primeiros textos que conheci e que me fizeram querer muito lá ir. A acrescentar a este pretexto um motivo tão atraente como um forte culto do café, cujo consumo traz atrás de si uma longa história e tradição. E os cafés literários, também eles locais históricos e que valem bem um périplo com tempo para entrar e estar.

Sei que Trieste vai ser a minha próxima Itália a conhecer. Com o livro de poemas de Umberto Saba comigo. Enquanto não saboreio um dos muitos cafés (são inúmeras as suas variações que obedecem a uma arte de servir e de degustar muito triestina e que requer o domínio de um léxico que dá conta das suas matizes – nero, goccia, capo, deca – só para nomear alguns) deixo aqui um poema deste autor triestino.

.

ULISSES

Na minha juventude naveguei

ao longo das costas da Dalmácia. Ilhéus

à flor das ondas emergiam, onde raro

uma ave buscava a sua presa,

cobertos de algas, escorregadios, ao sol

belos como esmeraldas. Quando a noite

e a maré alta os ocultavam, as velas

sob o vento o largo demandavam,

para fugir da cilada. Hoje o meu reino

é essa terra de ninguém. No porto

acendem-se as luzes para outros; a mim para o alto mar

me leva ainda o não domado espírito,

e da vida o doloroso amor.

.

Umberto Saba, Poesia, seleção, tradução, introdução e notas de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim.

Dia da poesia F4 id1Uma loja de espelhos, num dos inúmeros e labirínticos caminhos de Fez, Marrocos. Escolhi esta foto para aqui porque estive lá há precisamente um ano. Eu não estou refletida nestes espelhos que fotografei. Se neles pudesse refletir o que estava a sentir, escolheria os versos do poema de Rúben Bonifaz Nuño: “ Por algunas horas se transforman en algo/singular, y viven agudamente;/ descubren extraños sentimentos/ que no sospechaban que pudieran/tenerse, y caminan como dichosos.”

.

ASM

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