Aprender

Aveiro, Portugal

Aprender_F1 id1     Era uma coisa que desejava há algum tempo. Procurei possibilidades de o fazer. Queria saber mais e saber por outros como fazer melhor. Isto mesmo. O que faço agora – escrever (este texto). Gostava de conhecer os bastidores dos textos dos outros, que eu leio com prazer e que me levam longe no espaço ou no tempo. Perceber os alicerces onde se sustentam as palavras que são um olhar sobre um lugar, para poder ver as minhas com outros olhos.

     A oportunidade surgiu no início do verão passado. Foi na altura certa, numa modalidade de curso mais indicada, dadas as minhas circunstâncias (online) e neste ponto a tecnologia ajuda muito a tornar possível. Tive o privilégio de frequentar o Curso de Escrita de Viagens com Tiago Salazar ( http://tiagosalazar.com/ ) promovido pela Th2 ( http://www.th2.com.pt/ ). Um autor, viajante, jornalista, cronista, guionista e mais, que sigo há algum tempo, cujas palavras me levam a muitos sítios e a muitas pessoas, a bordo de textos, livros, artigos em inúmeras revistas, programas de televisão com a sua assinatura única. Foram quatro sessões, ao fim do dia, com um grupo de pessoas com paixões comuns: viagens, escrita e fotografia. Tudo isto foi abordado nas aulas. Aulas de verdade, com exercícios, desafios, trabalhos de casa, reflexões sobre o viajar e o escrever sobre, questões difíceis e um trabalho final, de maior fôlego… Acima de tudo e para todos em doses iguais a partilha e a vontade de o fazer, ainda que à distância, no meu caso.

     Foi também uma oportunidade para revisitar as palavras de alguns autores que marcam a literatura portuguesa de viagens. E como soube bem! O Tiago levou-nos até ao espanto escrito de Pêro Vaz de Caminha, Luís de Camões, Fernão Mendes Pinto, Raúl Brandão, José Saramago… Não esqueceu quem escreveu ou escreve noutras línguas: Bruce Chatwin, Paul Theroux, Jan Morris, Henry Miller, por exemplo. Fez-nos mergulhar e demorar no olhar demorado destes viajantes. Não esqueceu as imagens que podem acompanhar o texto e por isso propôs-nos exercícios de reflexão sobre o que víamos e de escrita sobre o que sentíamos quando olhávamos para as fotografias. Imagens que contam sempre uma história, com personagens, tempo, espaço. Uma história suspensa, à espera de um narrador que pode estar por trás do olhar de quem vê. Eu escrevi sobre uma família que estava sentada à porta de uma casa que era mais do que isso, de acordo com a narrativa que construí.

     O último exercício foi para mim um verdadeiro desafio. Havia que aplicar o espanto primeiro a algo sobejamente conhecido. Procurar no familiar o novo, o inusitado, o que ainda não se sabe. Tema: o (meu) bairro onde estávamos. Havia que sair para a rua, com um olhar ingénuo, como se fosse uma viagem inaugural pelo bairro (no meu caso a zona onde moro) que julgamos conhecer. Teríamos de procurar uma personagem, alguém que tivesse uma história. Nós seríamos o narrador. Dei-me conta de que eu, inevitavelmente, para além do papel de narrador, iria ser personagem, iria entrar na história por contar, já que viajamos sempre com uma bagagem que não se mede, não se pesa, mas que se viveu e se recorda. Depois, teríamos de selecionar – talvez o exercício mais penoso, esse de ter de peneirar emoções, factos. A par disto, disciplinar as sensações quando se trata de as passar para as palavras escritas… Enquanto isso não acontecia, as saídas pelas ruas próximas dos dias eram pontuadas pela indisciplina do que se apreende, do que se recolhe, do que se vê como se fosse a vez primeira. A oscilação entre os vários ângulos possíveis, a antecipar o definitivo. Porque todos são autênticos, verdadeiros, quando genuinamente sentidos e vividos. Mas a escolha do foco é fundamental. Assim como a atenção às pessoas, às suas histórias, que se cruzam com a minha errância. Redescobri um bairro, aprendi a viver melhor nele. Naqueles dias e nos que se seguiram. Também por isto foi muito bom o curso.

Aprender_F2 id1     Ainda melhor porque aconteceu antes de viver mais viagens. Ajudou-me a encontrar o equilíbrio entre o vivido e o escrito. Uma espécie de disciplina, que nunca é bem isso quando o espanto nos domina e a ânsia pelo novo está distante de regras, que se aprendem e reformulam ao ritmo de cada texto, de cada viagem.

     O meu último trabalho foi este e tem a memória de muitos natais por dentro.

     Muito obrigada, Tiago, por aqueles fins de dia e pelo que depois ficou!

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Da (in)constância e das memórias

Aprender_F3 id1A loja “A Competidora de Aveiro” é o ponto n.º 206.

     Nos mapas todas as ruas e praças têm nomes. E estão sempre no mesmo sítio, umas e outras, mesmo que viremos o mapa ao contrário. Quando temos de indicar a direção a quem não conhece a cidade por dentro, olhamos para o mapa para saber o nome da rua que é pedida. Quem vive na cidade não precisa assim tanto de nomes, antes de referências: lojas, correios, farmácias, se está próximo do mercado, por trás ou à frente da igreja, longe ou perto de casas de pessoas conhecidas. Por isso, foi tão difícil encontrar a loja do Sr.A. no mapa. Muito mais fácil encontrá-la na memória, pelas mãos da minha mãe, com quem lá ia, porque aí havia as nozes, as avelãs e as ameixas secas mais saborosas da cidade. E lembro-me da loja cheia de gente naquelas épocas: a da minha infância e a do Natal.

     O Natal de todos os anos, nos dias fixados no calendário religioso, uma espécie de mapa, afinal. Ia-se pelo caminho onde antes havia as casinhas dos engraxadores, por baixo das arcadas. Antes disso, descer em direção ao ponto nevrálgico de Aveiro, a “ponte praça”, porque na verdade está sobre as águas, esta praça de carros e pessoas. Depois é só seguir pelas arcadas que davam nome ao hotel que nos tempos de hoje é “Palace”. Sob os nossos pés, a calçada portuguesa de duas cores, com linhas de pedras a formarem âncoras, cordas, peixes, conchas e algas. Nos passeios que ladeiam a água da ria é muito assim o que os olhos veem e os pés calcorreiam. Para que ninguém esqueça que as pessoas deste bairro estão ligadas às águas da ria e do mar desde sempre: fazem parte dele casas de pescadores, de marnotos, armazéns de sal. É um bairro de casas baixas, muitas de um piso apenas, de porta e uma janela à frente, com fachadas brancas da cal ou cheias das cores dos azulejos, distribuídas por ruas estreitas, pensadas mais à medida das pessoas e menos dos carros. Casas iguais ao passado por fora, mas modernas por dentro. Algumas metamorfosearam-se em restaurantes, bares ou discotecas.

Aprender_F4 id1     A loja do Sr.A. é igual há mais de quarenta anos. Por dentro e por fora. Fica na Rua dos Sombreireiros, antigamente Rua dos Mercadores. O Sr.A. , ao balcão da “Competidora de Aveiro”, segundo ele, “talvez a loja mais antiga da cidade”, já viu muita coisa. Ali, naquela rua, encaixado entre uma loja de revistas e jornais e um outro espaço ocupado por variadíssimos negócios que desfilam ao ritmo dos tempos mais ou menos difíceis, foi testemunha de histórias de famílias, mas também da cidade e do país. Vê todos os dias a crise nos bolsos cada vez mais pequenos, dos seus clientes de há anos e, claro, dos portugueses em geral. Os turistas, contudo, continuam a aparecer, curiosos, atrás do sol das praias que ficam perto e dos canais que percorrem nos coloridos moliceiros ficando a conhecer a cidade pela água.

     Foi o que aconteceu naquela tarde em que visitei o Sr.A.. Eram turistas espanhóis, muito interessados no vinho do Porto, convertido em “recuerdo de Portugal” para os familiares e amigos. Um escolhe o “Porto Cruz”. O critério da seleção foi uma coincidência: o facto de ter um parente com o nome do vinho no apelido. O outro espanhol pergunta ao dono da loja qual o melhor. Confia na resposta e então leva um “Ramos Pinto” e ainda uma lata de enguias de escabeche, uma das especialidades da cidade dos canais.

     Depois de saírem, os meus olhos tiveram mais espaço na loja para rever imagens e cores da infância: nas embalagens que já são difíceis de encontrar que não aqui – a pasta dentífrica “Couto”, o desodorizante “Lander”,os sabonetes “Lavicura” e “Alcatrão”. Também há baralhos de cartas em caixinhas de cartão. Nos típicos frascos de vidro, os rebuçados do Dr.Bayard, para travar a tosse. Nas tulhas, já não vi o arroz, a farinha, o café avulso, mas pareceu-me que o cheiro permanecia, que não desapareceu, apesar das embalagens que dão nome aos produtos e que agora enchem as prateleiras de madeira. Em tempos idos, os clientes da “Competidora” também podiam encontrar tabaco e artigos de papelaria.

     Os preços estão marcados nas etiquetas retangulares, uma para cada artigo, pequeninas, mas que o Sr. A. ainda corta a meio com a tesoura. Enquanto falávamos, estava a cortá-las, para etiquetar o sabonete “Patti” (1,90€). No balcão, uma balança, uma caixa registadora e uma máquina de colar o celofane. Às vezes ele é necessário, quando os clientes compram alguns produtos a granel: alguns frutos secos, por exemplo. O Sr.A. trabalha aqui há muito tempo. Sempre marcou os preços da maneira que eu vi: à mão, pacientemente, sobre o balcão de mármore branco, de frente para a porta de entrada. Desde os seus doze anos que marca preços, atende clientes, preenche prateleiras com bens essenciais. Tem quase noventa anos e diz que nasceu “para viver até aos 100”. Enquanto esse dia não chega, vai também preenchendo tabelas à mão com a relação dos produtos. Durante a segunda guerra disputada muito longe, recebeu nas mãos as senhas de racionamento dos seus clientes. “Lembro-me muito bem desses tempos. As senhas pareciam selos e tinham de se colar na coluna respetiva”. Uma coluna para o açúcar, outra para o arroz, o bacalhau, o sabão, o toucinho…. Explicou-me a apontar para o caderninho que ainda usa, mas para outras anotações, menos racionadas. Depois era preciso apresentar esse controlo à entidade que regulava o abastecimento dos bens essenciais. Falou-me ainda um pouco da família, filhos, netos, de como os seus caminhos não se cruzaram com o comércio e muito menos com a “Competidora”. Não me disse muito acerca disso, o Sr.A. é muito reservado e de poucas falas. Restringe-se ao essencial. Como aquilo que vende na sua loja – o essencial. Afinal, o mais importante.

     A “Competidora” é muito fresca no verão. E cheira sempre a café, misturado com aromas suaves e adocicados. Na época natalícia, as nozes e as avelãs, assim como outros frutos secos (figos, ameixas, tâmaras) são um importante argumento para lá ir. Lembro-me de um grande cesto de nozes em lugar de destaque numa das duas montras. Talvez no Natal passado. E no anterior e no outro ainda antes…Há coisas que não mudam e ainda bem.

Aprender_F5 id1

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ASM

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2 thoughts on “Aprender

  1. Excelente quem gosta e quer escrever sobre turismo, lugares, experiências e poder transmitir a terceiros seus conhecimentos e aprendizados. Gosto disso tb, escrevo uma coluna de turismo, sou Guia de Turismo e, turista e tenho uma Agência de Viagens. Fico muito gratificada, quando consigo passar adiante algo de novo referente ao meu trabalho e a minha vivência.
    Parabéns
    Abrs
    Gladis Rohde

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