Morfologia de uma foto

Paris, França

    Este é um texto que gostava de ser uma espécie de bilhete de identidade e uma descrição morfológica de uma fotografia tirada em Paris, no dia 15 de agosto de 2012. Uma entre muitas. Tema central: pontes. Agradam-me tanto (já aqui escrevi sobre elas), que não me cansei de atravessar algumas que transpõem o Sena, no fim da tarde desse dia. Chegara à cidade vinda do norte do país, depois de uma rota pela Bretanha e Normandia. Aqueles três últimos dias seriam dedicados a Paris.

    Foi um regresso a uma cidade que repito vezes sem conta. Muito por causa disso quase que tenho o mapa das suas ruas na minha cabeça, já raramente nas mãos quando vou de um ponto a outro. Não é uma cidade difícil – basta ter algumas referências, como museus, igrejas, praças, nomes de alguns bairros e pontes e a imensidão que a caracteriza cabe na retina, a ponto de ser fácil seguir as suas linhas.

foto - PontArts 1 id1A imagem primeira

    O que mais atraiu o meu olhar naquele fim de tarde na cidade: a luz do sol em fogo, prestes a desaparecer daquele cenário onde se moviam, aos meus olhos em câmara lenta, como que a desejar ardentemente prolongar aquele momento de chamas no céu, pessoas, autênticos desconhecidos, dos quais apenas vislumbrava uma silhueta quase de sombra chinesa. Havia que parar sobre a minha ponte e captar a outra que se espraiava no horizonte. Eu estava na Pont Neuf, em plena Île de Paris. Tinha chegado nesse dia, a tempo do almoço e já trazia planos para caminhadas pela cidade, com alguns destinos muito desejados (entre eles o Museu de L’Orangerie e a livraria “Ulysse” ). O tempo que restasse seria vivido ao sabor do acaso. Esta foto é muito o resultado disso.

    Apeteceu-me voltar à fotografia desta ponte e àquele momento em que a captei. Com a luz daquela hora, com a máquina (Nikon D3000) em modo automático. Objetiva: 18-55mm. Distância focal:95.0mm. ISO:200.

    A razão deste regresso foi a surpresa de uma distinção num fim de um dia longo de trabalho num concurso de fotografia, cujo tema era precisamente “Pontes de Paris”, promovido pelo site “Conexão Paris”. A “minha” Pont des Arts tinha sido selecionada entre tantas outras.

    A foto de base é maior, mas constrangimentos do formato instagram, por exigências do concurso, obrigaram-me a cortá-la. Corte difícil. No entanto, o resultado final não me desgostou. Sabia que teria de manter os lindos candeeiros que fazem parte da ponte e uma das pessoas que por ali caminham – na versão definitiva da foto, a segunda a contar da esquerda). Não sei explicar bem porquê, sei que essa teria de ficar. Acho que é a forma elegante como caminha sobre as águas. Queria ainda dar todo o espaço da imagem ao céu, que tanto me impressionara. Alguma indisciplina no enquadramento (agora sei …), mas era o céu que eu queria e na base da imagem a vida que as pessoas oferecem à ponte.

    Durante a edição da foto, flexionei-a em “Valencia” e “Inkwell”.

foto - PontArts 2 id1Flexão em modo “Valencia”

foto - PontArts 3Flexão em modo “Inkwell” (c.ASM)

    Esta versão a preto e branco esteve quase a convencer-me para a escolha definitiva. As silhuetas elegantes dos que passam parecem ainda mais misteriosas. Acabei por preferir a variação em “Lo-Fi” que acaba por traduzir melhor, como um reflexo tardio, num espelho que trago comigo, o que vi.

foto - PontArts 4 id1Flexão em modo “Lo-Fi”

    No dia seguinte voltei à ponte. Queria vê-la mais uma vez, sob o sol do fim da manhã (poucos minutos passavam das 12 horas), desta vez com o olhar a derivar da raiz, pés assentes na madeira da sua plataforma. E da base, resultaram estas variações.

foto - PontArts 5 id1

foto - PontArts 6 id1

    A distinção no concurso transformou um dia que poderia ser igual a tantos outros num dia especial. Aprendi mais sobre a ponte que fotografei. Percebi o que outros olhos podem ver nela. Fiquei muito feliz por ver a minha Pont des Arts ao lado de mais duas – a Pont Alexandre III e a Bir Hakeim.

    Para escrever este texto, regressei ao arquivo fotográfico daquela viagem e registei os dados biográficos das fotos – dia, hora, local de nascimento. Recordei o que parecia esquecido. É sempre bom voltar a Paris!

ASM

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