Com elas

Há um ano, por estes dias de setembro, escrevi com elas nos olhos (https://cartografiapessoal.wordpress.com/2012/09/13/com-olhos-pequeninos/ ). Muito pequeninas ainda. A Sofia, a mais nova, tinha dias. Hoje já ambas têm um ano de vida. Duas vidas muito esperadas por todos e celebradas no primeiro aniversário de cada uma. Em festas de meninas pequeninas que começam já a andar pelo chão fora, a querer muito falar e a descobrir todos os dias, com os olhos, as mãos, todos os sentidos ao mesmo tempo, o mundo. O mundo e o que ele lhes traz. Pais, irmã, avós e tios esforçam-se para que haja instantes de experiências muito boas. Porque fica sempre em nós qualquer coisa que depois nos faz.

Com elas - F1_Com_elas id1As primas

Desde que nasceram passei a enviar-lhes um postal de alguns lugares por onde vou passando. Com os nomes delas desenhados com as letras que ainda não leem, no espaço do destinatário. Durante as minhas viagens, reservo um tempo para escolher o postal, comprar os selos e escrever para elas. A contar o que estou a viver. No final, a procura de um marco ou de uma estação dos correios. Um postal então ganha asas e chega aos olhos delas.

Desde então, já receberam postais enviados de Paris, Fez, Sicília e Londres. O trajeto dos postais ajuda-me também a lembrar-me de como foi aquela viagem naqueles pontos do mapa.

Lembro-me que foi sentada numa pequena esplanada de um café em Fez, fora da medina, muito próxima da Porta Azul e a beber um chá com alguns companheiros de viagem, que escrevi as palavras para elas. Foi ao fim do dia, ainda com algum sol.

Com elas - F2_Com_elas id1A Porta Azul, Fez

Na Sicília comprei as imagens do vulcão Etna para lhes enviar. Foi numa lojinha de apoio aos aventureiros de passagem, que querem continuar caminho até aos pontos mais altos do vulcão que tem várias crateras. Eu fiquei-me por ali e sentei-me cá fora, num banquinho de madeira, com vista para a cratera mais próxima, sempre envolta em gazes que saem da terra.

Em Londres escolhi uma imagem de um lugar que ainda não conhecia nesta cidade. Da primeira vez que lá estive, há muitos anos, não aconteceu visitar a Abadia de Westminster e por isso nesta oportunidade não podia falhar. E não falhou. E fiquei encantada com aquele espaço, que é muito mais do que um templo religioso. Então havia que escrever sobre isso à Alice e à Sofia.

Com elas - F3_Com_elas id1O último postal enviado: este é o da Alice.

Quis também voltar a um dos meus museus favoritos – o de História Natural. Não tanto para ver as exposições permanentes, que já conheço, mas a de Sebastião Salgado – Genesis. Houve tempo também para revisitar outras salas do museu e de me cruzar com pessoas de todas as idades, origens e interesses. Muitas crianças percorriam os corredores, as galerias e as salas pelas mãos dos pais, outras nos carrinhos, todas encantadas e entusiasmadas. Imaginei-me ali um dia com as duas pela mão. A mostrar-lhes os caminhos para os segredos dos animais, das pedras, das árvores, das estrelas e dos planetas…

Com elas - F4_Com_elas id1Museu de História Natural, Londres.

Na Tate Britain, pude reencontra-me com quadros que há muito admiro e que nunca tinha olhado de frente. Este fez-me ter ainda mais saudades das duas.

Com elas - F5_Com_elas id1John Singer Sargent , “Carnation, Lily, Lily, Rose”

Não me vim embora de Londres sem antes percorrer algumas das ruas de Notting Hill. Em Portobello Road, queria muito entrar numa loja, a Alice’s, que a minha amiga B. tinha fotografado de propósito para mim, na sua última vez na cidade, porque sabia que aos meus olhos seria um nome com ressonâncias. Uma loja mágica, talvez por isso o nome. Com cantos e recantos repletos de objetos, desde brinquedos de outros tempos, louças com flores muito inglesas, chaves antigas de todos os formatos, pássaros de madeira colorida suspensos sobre as nossas cabeças, espelhos, acessórios para tratar de jardins e cadeiras para nos sentarmos à sombra das árvores, o planeta transformado em globos multicolores , mobília que mais parecia para uma casa de bonecas…

Com elas - F6_Com_elas id1

Gosto de pensar que daqui a muitos anos as minhas sobrinhas vão conseguir reconstruir os meus caminhos ao olharem para os postais voadores. E perceber que fui feliz nesses lugares. Muito por causa delas e depois de terem chegado aos meus dias.

ASM

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