Por outras palavras

Urbano Tavares Rodrigues

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         A notícia do seu desaparecimento apanhou-me em viagem, a caminho de uma ilha. Entre voos, li as palavras do seu desaparecimento, as opiniões, os testemunhos. Sobre o homem, a vida e a obra. Ainda sobre a carta que deixou ao filho pequeno, muito pequeno, para que saiba quem foi o pai. E ainda a certeza de um novo livro, com um prefácio de despedida do mundo, das pessoas e dos seus leitores. Muito contido nas palavras certas e comoventes. E de uma elegância e discrição notáveis. De aparência algo frágil, a sua força interior notava-se nos textos, nas palavras de maravilhamento perante o mundo, mas com uma lucidez que via o lado mais negro das coisas, das pessoas, das relações, do amor. Não conseguia esquecer este lado mais sombrio. Também por isso tinha esperança num mundo bem melhor.

        Eu gosto sobretudo da forma como escrevia o amor. Da elegância e delicadeza que se notavam nas descrições e relatos de encontros amorosos. Do modo como analisava o estado de encantamento da paixão e das palavras certas que encontrava para assim fugir ao vulgar, ao lugar-comum.

        Um dos meus preferidos. Por isso aqui deixo algumas palavras dele, de que me lembrei a meio do caminho para um sítio. Este poema vai na bagagem da minha memória, para não me esquecer do outro lado, o menos luminoso, o mais áspero e desfocado de cada lugar. Que nem sempre fica na fotografia. Para me lembrar que o sol do deslumbramento não pode tornar os olhos esquecidos do que não está, do que não se vê… Para que os olhos de quem viaja tenham memória e lucidez:

.

Viagem

Viajar, diz-se,

é perder países

ou fotografar o evidente.

O mundo fica mais pequeno

e arquivamos

bilhetes postais, memórias

coloridas que depressa

se esvanecem dentro de nós

ou às vezes se magnificam

Mostram-nos de longe

quando muito

a raiva de certas criaturas

dos bairros mais escuros.

Gentes sem pão nem trabalho

ou com horas de sofrimento em excesso

sabemos que há e são muitas,

mas pouco as vemos ao viajar.

Os senhores do mundo

com inegável elegância

deixam cair

algumas consolações caridosas

de vez em quando

sobre essa humanidade deprimida.

Há-de haver porém – ou rasgamo-la nós –

Uma janela qualquer,

Toda branca ou de fogo,

Que se abra inesperadamente

Para outro futuro.

———————————————-

Urbano Tavares Rodrigues, “Horas de vidro”

Textos que li entre dois voos:

http://www.publico.pt/cultura/noticia/memoria-de-urbano-1602727

http://www.publico.pt/cultura/noticia/morreu-o-escritor-urbano-tavares-rodrigues-1602646

.

.

ASM

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